Essa pergunta foi formulada a mais de 2000 anos por Pilatos a Cristo e sua resposta mais convincente foi dada por Aristoteles, desde que Pilatos oa formular a pergunta, ausentou-se, desinteressando-se, ao que parece da respostas, conforme o relato bíblico.
Fundamentos da perguta. Há dois pontos básicos que devemos levar em consideração.
1. Considerando a consciência que percebe, podemos subdividir, com respeito a ela, o conjunto do infinito de todas as coisas em três partes:
a. Nossa circunstância é o ambiente no qual a consciência está mergulhada: seu meio próximo e biológico. Ex.: familia, cidade, lugares que conhece, o meio em que vive enfim.
b. O Mundo é a parte do Todo universal que está próxima não só daquela consciência, mas da consciência humana em geral.
c. O Universo é o conjunto de tudo quanto existe no espaço infinito do Cosmos
2. Nossa consciência, com respeito às coisa, funcionam até certo ponto como um espelho: reflete coisas de fora para dentro de si. Seu funcionamento é mais como um espelho convexo ou côncavo, por causa de suas distorções, do que de um espelho plano.
Tomemos essa palavra para significar tudo o que existe.
Como sabemos, a realidade, tal qual existe fora de nós é diferente do nossa realidade que criamos apartir das nossas experiência e percepções. O homem não faz parte do meio assim como uma pedra ou inseto, isto é, como um elemnto a mais.
O homem não está apenas numa circunstância, mas interpreta-a e vive essa interpretação. O mundo , a realidade para o homem é esta interpretação. O nosso mundo está condensado em conceitos, juízos, valores, temores, crenças, opiniões, desejos, aspirações, etc.
Ora, deste fato surge o problema da verdade: temos uma realidade interpretada e uma realidade real. Um mundo interpretado e um mundo (Universo) real. Qual a relação ou corrrespondência entre os dois? A verdade vai depender dessa relação.
Tipos de verdade. Vamos considerar a verdade em lógica e a verdade em filosofia.
Em lógica a verdade é uma propriedade das nossas afirmações ou proposições. Toda a sentença ou proposição tem um valor lógico: Verdadeiro ou falso.
A verdade está em relação existente entre o que fizemos ou cremos e a coisa como ela é ou o fato se passou realmente. Dessa maneira Aristotales definiu a verdade como "uma adequação ou coerência entre o que se diz e o ocorrido"(adequatio intellectus et rei).
Se eu afirmo que em Marte há criaturas humanas, está verdade terá valor lógico verdade, se lá houver criaturas humanas. Se este planeta não for habitado, a afirmação será falsa, pois não houve devida adequação entre o meu enunciado e o fato existente. Ocorre assim uma inadequação ou falsidade entre o enunciado e a coisa. A falsidade épois, uma inadequação.
Quid est veritas te parece o quê? Literalmente foi exactamente o que ele disse ou questionou. Se Cristo entendia o latin ou havia um interpréte, isso está à conferir. A sentença também foi em latin, Nosso Senhor Jesus Cristo por certo tinha o direito de conhecer seu teor.
Em todas as coisas do universo em respeito a nós, podemos distinguir dois aspectos: o fenômeno, isto é, como as coisas se apresentam a nós e o númenon, isto é, como cada coisa é realmente. A verdade se identifica com o númenon, a essência última e íntima de cada coisa, de todas as coisas em conjunto, do Universo, enfim. É o que Kant chama de ding-an-sich, a coisa em si e os outros de absoluto porque tudo o mais fora disto é relativo, é aparente.
Como começamos com uma referência bíblica, vamos terminar com outra. Na travessia do deserto, depara-se Moisés com uma sarça ardente e no meio do fogo fala o Senhor. Moisés pergunta-lhe. "Quem és?" E houve a resposta "Sou aquele que é". Parece que lhe queria dizer: sou a verdade.
A sentença também foi em latin, Nosso Senhor Jesus Cristo por certo tinha o direito de conhecer seu teor.
Aqui estamos tratando de formalidade jurídica. Cristo para todos os efeitos legais (seculares) era um homem. Fazer Pilatos (e o Estado) entender o contrário estava fora de cogitação.
A verdade e a não-contradição de um sistema dejuízos
Tem em matemática e em Lógica formal moderna, sistemas fechados. Por exemplo o que é verdadeiro na Geometria do espaço curvo de Lobatschevski, não é na geometroa euclidiana. Então nas ciências exactas a verdade é assim contraditória? Uma proposição é verdadeira em uma parte e falsa em outra?
Nos sistemas formais, por serem desligados do mundo real não podemos comparar o afirmado com o real. Assim a verdade passa a ser definida como não-contradição de um sistema de juízos. Essa definição coném simultaneamente à verdade dita formal e a verdade experimental.
a. A verdade formal
Seja por exemplo, o seguinte silogismo
Maior: Todos os homens são honestos.
Menor: Guilherme é homem.
Conclusão: Logo Guilherme é honesto.
A conclusão "Guilherme é honesto", é logicamente correta. Ela é efetivamente não contraditória com relação às premissas. A conclusão se identifica com a maior, pois a menos nos dá o direito de substituir a expressão "todos os homens são honestos" pela "Guilherme é honesto" (visto que integra a classe dos homens).
A conclusão "Guilherme é homem" é formalmente verdadeira em relação às premissas, porque com elas se identifica. Aliás diz "a mesma coisa" por ser tautológica. Todavia a conclusão e as premissas podem ser materialmente falsas. É possível que Guilherme nãos eja honesto, pois sem dúvida é moralmente falso que todos os homens sejam honestos. A verdade formal portanto, ignora a realidade. É apenas a concordância do espirito com suas próprias convenções. A verdade formal triunfa em Matemática e Lógica. Afirmamos por exemplo: A soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois retos. Será verdadeiro ou falso? Será verdadeiro (não contraditório) se admitirmos os postulados de Euclides. Será falso (contraditório) se decidirmos adotar uma axiomática não-euclidiana.
Eu não sei em que língua falou Pôncio Pilatos e nem encontrei referências ainda, mas está anotado para pesquisa, mas pode que uma boa alma saiba a resposta e tenha a gentileza de compartilhar o conhecimento. Fica em suspenso minha afirmação sobre o uso do latim na pergunta do governador, não tenho fontes nem provas, logo posso ter falado bobagem.
Além de ser a língua "dazelite", como lembra a Priscila, o grego era a língua franca no Império do Oriente, nas áreas que antes estavam sob controle dos descendentes dos generais de Alexandre (como Israel, disputada pelos Ptolomeus do Egito e pelos Selêucidas da Pérsia), como bem apontou o Fabio. Vale notar que os Evangelhos foram escritos em grego.
Uma proposição como "chove nesse momento", pretende alcançar não só a verdade formal como também a verdade material, experimental. É uma afirmação concernente ao real. Mas é fácil mostrar que aqui o critério da verdade é não-contradição de nossos juízos, a concordância e identificação de nossos enunciados com um dado material. Dizemos "chove" porque inclinados sobre nosso trabalho ouvimos gotas baterem na vidraça. Esse juízo isolado só poderá ser considerado verdadeiro se for verificado, em outras palavras, se não se contradisser os diversos juízos que podemos exprimir em diferentes contradições experimentais sobre a realidade naquele momento. Por exemplo, vamos à janela, vemos a chuva cair e observamos que de um lado ao outro a rua está molhada. Todos esses juízos: ouvimos as gotas d'água, vemos a chuva cair, a rua está molhada são não-contraditórios, está portanto verficado que chove.
Mas será possível uma verificação completa, definitiva? Seremos capazes de descobrir a verdade certa? Não basta determinar critérios teóricos. Impõe-se ainda saber se eles se aplicam na prática. Existirá uma verdade única acessível? A essa pergunta o ceticismo responde negativamente.
Como vimos, toda proposição tem um valor lógico: verdade ou falsidade (falso). Qual o valor lógico da sentença proferida pelo estrangeiro diante dos gigantes maus abaixo:
Havia numa ilha, uma raça de gigantes créis e sutis. A todo estrangeiro que lá chegava estava destinada uma sorte trágica: sacrificá-lo ao ídolo da verdade ou ao da falsidade. Certo dia , chegando entre eles um lógico, fizeram a pergunta decisiva sobre para o seu destino.
-Qual vai ser sua sorte?
Ele respondeu:
Serei sacrificado ao deus da falsidade.
os gigantes ficaram perplexos ante o valor lógico desse enunciado. Seria verdadeiro? Seria falso?
Para descobrir a verdade ou falsidade de uma proposição, é necessário compará-la com o fato real que exprime. A sentença em debate é: "Serei sacrificado ao ídolo da falsidade"; se fosse verdadeira, deveria ser sacrificado ao ídolo da verdade, se falsa, ao da falsidade. Qual teria sido a sorte do lógico?
Sem querer interromper o Bender num tópico tão bom, mas vocês já leram o artigo do Olavo sobre o tema, intitulado "Inteligência e Verdade"?
É um dos meus favoritos, creio que já citei este trecho mais do que qualquer outro: "Mas, dirá o velho Pilatos em nós, quid est Veritas? Cada um de nós é um juiz romano, corrompido até a medula, a fazer de conta que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. A verdade da qual alegas nada saber, infausto Pôncio, a verdade é o quid — esse mesmo quid que, se desconhecesses, não poderias usar como medida de aferição para o termo "verdade". Se pergunto quê é alguma coisa, se ignoro mesmo o que é alguma coisa, é porque a coisa que se me oferece nesse instante não cumpre, não atende perfeitamente a condição exigida na palavra quê — aquela consistência, aquela coesão do estar, do agir e do padecer, aquela patência e sobretudo aquela fatalidade, aquele não-ser-de-outro-modo, aquela impositiva ausência de perguntas — e da capacidade de fazer perguntas — que me sobrevém quando sei o quê. Ecce veritas. É o que basta por enquanto, sem prejuízo de posteriores discussões e aprofundamentos."http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/intver.htm
A história do lógico e dos gigantes é uma versão do velho paradoxo do mentiroso... Se eu digo "eu minto", pode ser que a) esteja falando a verdade, logo, sou mesmo mentiroso ou b) esteja mentido, logo sou veraz (menos ao dizer "eu minto")... Isso é só um "tilt" que a linguagem dá porque, justamente, não foi feita para não dizer a verdade.
"Se pergunto quê é alguma coisa, se ignoro mesmo o que é alguma coisa, é porque a coisa que se me oferece nesse instante não cumpre, não atende perfeitamente a condição exigida na palavra quê — aquela consistência, aquela coesão do estar, do agir e do padecer, aquela patência e sobretudo aquela fatalidade, aquele não-ser-de-outro-modo, aquela impositiva ausência de perguntas — e da capacidade de fazer perguntas — que me sobrevém quando sei o quê. Ecce veritas."
Poderia dizer, então, que a Verdade é mais do que algo que é?
Afinal, se a coisa - o objeto, o fato, a pessoa - não comporta o "o que é", então subentendo que a Verdade transcende a própria objetividade da pergunta.
Só podemos fazer uma pergunta "o que é...?" porque sabemos identificar que algo NÃO é o que devia. E é a Verdade o "protocolo experimental" que permite esta identificação (na verdade, esta não idenficação).
Ou seja, a Verdade é aquilo que é. Se algo não é o que deveria ser, ele não traduz a verdade daquilo.
Aí você pergunta o que é aquilo, qual é a verdade do objeto que está na sua frente.
PS. Bender, parabéns. Melhor tópico em muito, muito tempo.
De acordo com Mário Ferreira dos Santos, a resposta de Jesus foi o silêncio.
E provavelmente foi pela ausência de resposta que Pilatos se dirigiu em seguida aos judeus.
E, de fato, esta reação diz tudo. Jesus, como sempre e como esperado, fez o mais certo. O silêncio de Jesus diante desta pergunta já é a resposta que ele dá a nós, já é a solução do problema.
Sem verdade, fica bloqueada a mera possibilidade de discussão. Não há o que discutir. Existe algum argumento que seja válido para aquele que nega a verdade? É possível convencê-lo de algo?
Enquanto não tomo tempo de me ocupar do tópico todo com a atenção merecida, ficam meus parabéns pelo "tour de force" para puxar a comu do lodo da mediocridade. Humildemente (porque também já discuti muita bobagem aqui) agradeço.
Tem razão!! Também entendi a mesma coisa, mas me expressei errado.
Aí está o meu erro.
"Afinal, se a coisa - o objeto, o fato, a pessoa - não comporta o 'o que é', então subentendo que a Verdade transcende a própria objetividade da pergunta."
A frase acima está contraditória. O certo seria "Afinal, se 'o que é' não comporta a coisa - o objeto, o fato, a pessoa -, então subendentdo que..."
Obrigado Marcos e Thiago. O fato é que li isso e pensei comigo: Que merda como vou responder isso e que talvez os amigos gostassem do "desafio" da pergunta. De minha parte estou tentando respondê-la ainda e sei que para fazer isso não depende exclusivamente de dar uma opinião e sim responder CONVENCIDO que entendi, de modo que vai levar algum tempo, provavelmente bastante tempo. Thales, que é um paradoxo eu já tinha percebido, estou tentando ir além disso para entender outros conceitos. Esse texto foi retirado de um livro de introdução ao estudo filosófico que encontrei por acaso procurando outra coisa.
Para encerrar, agora vi que não coloquei o resumo, que segue e o crédito ao autor:
Resumo
Em lógica a verdade é uma propriedade de proposições. Ao se comparar aquilo que que a proposição afirma com o fato que expressa, obtém-se a verdade ou falsidade da proposição. É uma adequação (igualdade) entre o que se diz e a coisa.
Em filosofia, é a essência última, íntima da coisa e de todas as coisas, do universo enfim. (Antonio Xavier Teles)
"[Lógica]Em filosofia, é a essência última, íntima da coisa e de todas as coisas, do universo enfim."
Não me parece tão simples assim, reduzir a [finalidade da] Filosofia em lógica "pura" (por extensão a verdade de todas as coisas, o "universo"). Mas vá lá, cabe a mim ou aos interessados refutar ou avançar esse enunciado.
Me desculpem, fiz uma confusão aqui por estar atendendo outros assuntos. O autor não afirma em momento algum que a Lógica é em Filosofia a essência da verdade. Ultimo post inválido.
Qualquer discurso pode ser lógico ou não-lógico, isso inclue qualquer nível (grau de credibilidade) de discurso, mesmo o mentiroso ou ficcional. Verdade em Filosofia é outra coisa, fica estabelecido que assim é.
E, de fato, esta reação diz tudo. Jesus, como sempre e como esperado, fez o mais certo. O silêncio de Jesus diante desta pergunta já é a resposta que ele dá a nós, já é a solução do problema.
Certo, certo. E, ainda, segundo o autor (palpite meu) se a resposta de uma verdade só se pode dar com o silêncio, alguns poderão se tornar cépticos de que valha a pena buscar a verdade. Tem Mário Ferrreira dos Santos aí (outro palpite meu). O Cepticismo é cíclico na História humana e me parece que vivemos uma era francamente céptica. Cristo pagou com a cruz por pregar a verdade e Sócrates teve que beber a cicuta por combater os sofistas de sua época.
De fato Renan, porém para perceber essas sutilezas assim nem tão sutis, requer algum preparo ou estudo. No momento que o (os) indivíduos (s) começaram e se preocupar com o "quadro geral do mundo", e de fato a situação é alarmante, terão que começar pelo básico dos básicos, se reclamamos que não existe uma elite cultural no Brasil, a culpa também é de quem já tomou consciência disso, aliás ele é mais culpado ainda apartir do momento que toma conhecimento do fato e se omite, vamos aos estudos portanto, não adianta só reclamar.
"Não me parece tão simples assim, reduzir a [finalidade da] Filosofia em lógica 'pura' (por extensão a verdade de todas as coisas, o 'universo'). Mas vá lá, cabe a mim ou aos interessados refutar ou avançar esse enunciado."
Pelo o que eu entendi nesse texto o fim último da Filosofia não seria uma lógica "pura", mas a adequação dessa lógica com a realidade. Ou seja: numa dialética que, finalmente, acabará em síntese.
Filosofia é a busca da verdade e a sua realização é o encontro com ela.