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Criacionismo no Mackenzie

Iniciado por olga em 30/11/2008 · 24 mensagens

olga#1
O Instituto Presbiteriano Mackenzie abrange uma universidade e uma escola das mais tradicionais de São Paulo. Só na unidade paulistana do colégio há mais de 1.800 alunos. Seu campus no quarteirão ladeado pela avenida da Consolação e pela rua Maria Antônia é um ponto de referência na cidade.

Talvez poucos se dêem conta de que se trata de um estabelecimento confessional de ensino. Isso está bem explícito no nome da instituição, porém. Agora o Colégio Mackenzie é também, oficialmente, criacionista. (...)

A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies. (...)

A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências. Em 2008 foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1, ainda em fase piloto, uma série de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI, na abreviação em inglês), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

A coleção utilizada com crianças de 6 a 9 anos se chama Crescer em Sabedoria. Na capa do volume do terceiro ano estava estampado "Ciências - Projeto Inteligente".

É uma alusão ao argumento do "design inteligente": a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. "Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente", afirma-se na pág. 10. O item 2.1 do volume se chama "O plano de Deus para os ambientes". (...)
olga#2
A direção do Mackenzie justifica a omissão da evolução por seleção natural, nessa apostila de ciências, dizendo que se trata de conteúdo previsto apenas para o ensino fundamental 2. Além disso, o material da fase piloto de 2008 foi revisto e a ênfase religiosa, atenuada, mas não excluída.
Darwin, todavia, continua de fora. Só uma dúzia de pais reclamou.
http://cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br/
olga#3
O que vocês acham do ensino do criacionismo nas aulas de ciências, não tendo ele nada de científico, mesmo a instituição de ensino sendo presbiteriana?

Puxando a sardinha pra minha lata, eu adoraria ter meus filhos estudando em uma escola com esses princípios, mas pensando no "resto", não seria melhor se o criacionismo fosse ensinado apenas nas aulas de religião?
ailton#4
Darwinismo também não é ciência.
marcos_14#5
Sim, é um falso debate. Mas um debate que os evolucionistas sempre querem debater.
hiranclair#6
Uma coisa necessária é que se acrescente uma perspectiva filosófica na Educação e que não se aceite a Ciência como absoluta, como a única explicação possível.
O filósofo Feyerabend disse uma coisa que achei muito interessante. É preciso separar não apenas o Estado da religião mas separar o Estado da Ciência também. Poque o Estado deve privilegiar a Ciência em detrimento da religião? Em outras palavras, o Estado e a educação deveriam adotar uma postura de distanciamento de ambos, a educação a meu ver deveria apresentar ambas as posturas, tanto a evolucionista como a criacionista, mostrando que ambas tem um certo tipo de fundamentação.
E acho que na aula de Biologia, um tópico como esse da origem da vida, sobre a qual existe a explicação criacionista que tem um fortíssimo embasamento na nossa cultura há milênios deve sim ter seu espaço. E que se explique aos adolescntes que a Ciência não é unânime sobre a questão da evolução, existe o darwinismo que predomina, mas existe também a postura do design inteligente que é defendida por uma minoria dissidente, e ainda outras versões menos conhecidas como a visão de evolução criativa de Sheldrake, que acredita num processo evolutivo associado a uma criatividade imanente na natureza, a qual provém de Deus (pelo menos foi isso que entendi, é uma visão de Deus mais próxima do Hinduísmo a meu ver). Acho que essa versão do Sheldrake, menos conhecida, muito interessante. Por enquanto ainda é difícil querer trabalhar com Sheldrake, ele é pouco estudado ainda, mas pelo menos o design inteligente merece ser trabalhado na escola sim.
Chega de opressão darwinista, chega de apresentar a teoria dominante da comunidade científica como dogma indiscutível. Os alunos têm o direito de saber que existe debate sobre esse assunto e que existe muita crítica filosófica sobre a Ciência, negando que ela seja um saber absoluto e inquestionável. E têm também o direito de sentir que as crenças religiosas na qual ela foram educados são respeitadas na escola.
hiranclair#7
Sobre o Sheldake que mencionei, se alguém não conhece trata-se do biólogo inglês Rupert Sheldrake, vide
http://www.sheldrake.org/
Ele é famoso pela teoria dos campos morfogenéticos, experiências de telepatia entre humanos e animais, no livro "Cães sabem que os donos estão chegando" e outras coisas mais.
hiranclair#8
E eu não aceito a idéia que a religião deve se retirar de qualquer pretensão de explicação sobre o mundo material(ciências naturais) e se contentar com o domínio moral, filosófico, etc. Porque aceitando esse pressuposto dá como resultado a religião aceitar o mecanicismo e esse mecanicismo solapar bases essenciais da religião como a de que Deus criou o homem, que existe uma interferência divina no mundo material através de milagres, etc. A religião aceitar essas limitações, se ajoelhar perante Darwin e o mecanicismo é uma autodestruição...
hiranclair#9
Gostei do seu comentário, apenas complementando e esclarecendo mais um pouco, não penso nem na religião nem na Ciência moderna predominando sobre a educação, penso na filosofia como uma mediadora entre a Ciência e a religião e que aos alunos sejam apresentadas várias possibilidades de compreensão do universo, entre essas possiblidades se incluem as explicações religiosas como o criacionismo e explicações científicas como o Darwinismo.
Chega de positivismo pedagógico. Por que a educação tem que ser toda "científica" no sentido da Ciência moderna?
Em outras palavras, nem educação religiosa como no passado, nem educação positivista moderna, mas sim uma educação calcada numa filosofia pluralista, que reconhece tanto a religião como a Ciência como patrimônios culturais e de explicação do mundo, além das várias perspectivas filosóficas. E além da Religião, Ciência e Filosofia, penso que a Arte também deveria ocupar um espaço maior na Educação. Aí sim seria uma educação de mais alto nível e completa. Esse positivismo pedagógico atual é uma educação tosca e muito limitada a meu ver, pois as dimensões de conhecimento e experiência humana além da Ciência ficam deixadas de lado...
hiranclair#10
A meu ver o positivismo sempre tentou absorver toda cultura humana e negar a transcendência. O darwinismo é tão defendido porque é uma das teorias científicas que toca num ponto básico do Cristianismo e serve como arma de ateus e materialistas para enfraquecer a religião e negar qualquer transcendência no universo.
O darwinismo não é apenas teoria científica, é uma ideologia e arma perigosa que os religiosos ou quem acredita em alguma realidade transcedental que pode interferir no mundo material não deve aceitar ingenuamente mas sim combater.
tiago_8#11
Se querem entender a posição do Mackenzie e ver o pensamento que está por trás dela, visitem o http://www.tempora-mores.blogspot.com/ É um blog de três calvinistas conservadores que tem muita coisa boa a dizer. Visito a vários anos, é um dos sítios mais lúcidos que encontrei na internet.
Agora, a despeito do mérito do debate, que eu não tenho o menor gabarito para discutir, convém notar que evolucionismo e criacionismo são teorias, e que como tais devem ser debatidas. Faz mal quem quer suprimir o debate como se ele não fosse possível ou desejável, conferindo a uma teoria científica o status de dogma.
Um grande abraço,
Tiago
thiago_7#12
o desenho inteligente não deixa de ser evolucionista!
thiago_7#13
nada contra, até acho uma explicação bastante interessante,mas não considero criacionista
uriel#14
É preciso ensinar a Teoria da Evolução sem doutrinação darwinista. Ela é ensinada como sendo dogma. Errada ou correcta, é uma teoria científica.
.
Quanto ao Criacionismo, é uma tentativa patética de ajustar a evidência arqueológica à narrativa bíblica (e esta interpretada literalmente). Não tem nada de científico.
A teoria do Design Inteligente é outra cousa, mas está no domínio da Filosofia e não da Biologia. Deveria ser ensinada/comentada nas aulas de Filosofia.
tiago_8#15
Assisti a uma palestra sobre criacionismo uns dois anos atrás que não colocava o criacionismo como uma teoria feita para se amoldar à narrativa bíblica, mas como algo que é promovido por alguns cristãos (pelos motivos óbvios) e também endossado por pessoas que nunca consideraram a Bíblia como um fator em seu pensamento ou na elaboração de suas idéias sobre o assunto. Alguém sabe se procede isso que ouvi?
albertoleopoldo#16
Debate sobre o tema:
[url]/Main#CommMsgs.aspx?cmm=42033749&tid=5256287415062086105&na=1&nst=1[/url]
albertoleopoldo#17
Em tempo:

Eu não creio que a Filosofia ("pluralista", "monista" ou o que for) possa substituir a Religião na orientação e ordenação total do esforço educativo.

Sem dúvida é preciso recorrer à Filosofia para bem entender a Ciência (e a Religião), e para poder proceder à articulação e ao diálogo entre as duas esferas.

Mas somente a Religião pode orientar o empreendimento pedagógico, formando integralmente o indivíduo e conduzindo-o a seu fim último. A Filosofia pode até ajudar a apontá-lo, compreendê-lo, e até discuti-lo. Mas não o pode estabelecer.

O próprio valor objetivo da construção do conhecimento científico e filosófico não será devidamente apreciado senão à luz dos princípios religiosos.

Privilegiar alguma forma de conhecimento natural, seja científico ou filosófico, sobre o religioso, é uma clara subversão da hierarquia de valores que deve guiar uma sociedade sadia.

Isso não significa, evidentemente, que o discurso religioso ou teológico se imiscuirá nos campos próprios da Filosofia e da Ciência, interferindo em seus resultados.

A incapacidade de conceber claramente uma tal hierarquia de valores e preservar ao mesmo tempo a autonomia metodológica das diversas áreas do discurso é que acaba levando aos fanatismos fundamentalista e cientificista e a confusões como a proposta do "design inteligente" como teoria científica.
albertoleopoldo#18
"Quanto ao Criacionismo, é uma tentativa patética de ajustar a evidência arqueológica à narrativa bíblica (e esta interpretada literalmente). Não tem nada de científico." [2]
hiranclair#19
A meu ver eu acho que uma escola religiosa deve ter o direito de colocar a religião num patamar superior em relação à Ciência e Filosofia. Acho sim que a religião tem um valor hierarquicamente superior em relação à Ciência e a Filosofia.
Mas pensando na sociedade mais ampla, na educação pública, acho que se deveria adotar uma filosofia pluralista, que respeite o valor da religião na sociedade, mas sem que a religião predomine. O que é diferente no meu modo de pensar em relação à atualidade é que não concordo de o Estado defender e ficar sempre ao lado da Ciência, entendendo isso de modo positivista, sem se abrir pra visões filosóficas e religiosas que são importantes na sociedade.
E isso implica em respeitar concepções importantes da religião cristã como o criacionismo, teorias como o design inteligente, etc. E apesar do Estado ser laico, a cultura que predomina no país é o Cristianismo, por isso embora a educação pública não deva ser submetida a nenhuma Igreja Cristã, acredito que ela deva demonstrar grande respeito e consideração pelo Cristianismo que é a religião da maioria absoluta do povo...
albertoleopoldo#20
Eu entendi. Você é laicista.

Somente eu defendo que o Estado laico é um erro (funestíssimo, aliás).
albertoleopoldo#21
Concordo, Alysson.

Não é sinônimo mesmo. O Estado laico pode mesmo mostrar uma abertura formidável à religião, o que se torna evidente nos textos constitucionais (como o nosso, apesar de seus inúmeros pesares) que invocam eles mesmos a proteção de Deus. É perfeitamente possível haver uma laicidade que não é hostil à Religião, e mesmo lhe conceda considerável autonomia. Neste sentido, aliás, deve-se entender o esforço do Papa Bento XVI de dialogar com os Estados laicos para que estes reconheçam a autonomia da Religião, protejam os direitos das instituições religiosas e permitam-lhes participar do espaço público. Além do que, a fusão das esferas pública e religiosa (como no chamado "cesaropapismo") não é sequer desejável.

Ainda assim, o Estado laico está fundado sobre uma concepção equivocada e mesmo perniciosa (e anômala!) da vida social, da natureza e fonte do poder político, e tende a orientar a organização da sociedade num rumo que não corresponde ao fim último da pessoa humana, e tende a gerar graves distorções na apreciação do papel das instituições, dos valores que devem orientar a formação das consciências, do sentido dos deveres cívicos etc. A própria exclusão da religião como fonte e legitimadora do direito natural que inspira o direito positivo é uma violência à consciência de uma nação (posto que a identidade religiosa é o principal componente da própria identidade nacional), e supõe uma esfera moral "supra-religiosa" (baseada, por exemplo, em "valores democráticos") como fonte do direito e dos valores que se devem cumprir na vida em sociedade. A Religião deixa de ser a fonte de onde a sociedade haure os seus valores e torna-se mera questão de opção subjetiva. Se, portanto, os "valores civis" estiverem em confronto com a Religião, pior para esta.

Percebe a situação?

Nem a Filosofia, nem a Ciência, nem os "valores cívicos" devem ocupar o lugar da Religião como força dirigente e vivificadora dos povos.
hiranclair#22
Concordo plenamente com o que você escreveu:
"Estado Laico não é sinônimo de Estado Ateu. O estado laico deve evitar tomar partido de quaisquer religiões, e também não está sujeito ao poder eclesiástico. Contudo, nada impede que esse estado preverse os valores morais religiosos, necessários para a harmonia social, e também nada impede que o estado laico tenha boas relações com as instituições religiosas."
Acho que essa é uma reflexão importante que poucos fazem, pois para muitas pessoas na atualidade Estado laico é sinônimo de Estado ateu e anti-religioso. É sim um perigo constante esse laicismo do Estado ser usado contra os valores religiosos do povo, mas se houver uma vigilância isso não vai acontecer.
Simpatizei algum tempo com o perenialismo e pensava que seria bom voltarmos a ter sociedades tradicionais sob domínio da religião, mas agora acho melhor mesmo termos Estados laicos, mas dentro do conceito que você colocou, quer dizer, um Estado que, apesar de laico, preserva valores morais da sociedade e mantém boas relações com as religiões. Os Estados Unidos conseguiram isso por muito tempo, apesar de laicos preservaram valores cristãos. Agora estão numa época não tão boa, não preservam tanto como antes, mas não se perderam completamente e ainda podem se recuperar, vide plebiscitos que rejeitaram casamento gay nessas últimas eleiçõs.
hiranclair#23
O Estadão publicou um artigo falando sobre o ensino de Criacionismo nas escolas do Brasil. Não vou copiar tudo mas vou passar o link abaixo:
http://www.estadao.com.br/geral/not_ger290360,0.htm
Reinaldo Azevedo comentou essa reportagem em seu blog e o comentário dele vou copiar abaixo:
"Qual o problema? Segundo entendi, as escolas estão ensinando as duas coisas: afirmam a verdade científica e dizem qual é o entendimento que, como religiosos, têm da questão. Ou será que as escolas cristãs são obrigadas a negar a sua natureza? Estão querendo criar contradições inelutáveis onde elas não existem. Espero que as minhas filhas sejam informadas sobre essas duas verdades: a científica e a religiosa — sim, existe uma “verdade religiosa”, que está num domínio que não disputa espaço com a ciência. Como elas vão equacionar essas coisas, bem, aí é com elas, com a família, com as múltiplas influências a que estão expostas.
Resta evidente que as escolas não estão fazendo opções radicais, excludentes. Ademais, ainda que estivessem, as famílias têm o direito de escolher que educação querem dar a seus filhos, segundo sua história, sua religião, suas tradições. Ou, agora, vamos proibir as escolas judaicas, por exemplo, de expor a sua visão de mundo aos estudantes? É incrível como o preconceito anticristão vem sempre vazado numa perspectiva supostamente iluminista e de combate ao preconceito, quando, de fato, o que se tem é o contrário.
A teologia vigente nas escolas, religiosas ou não, que precisa ser combatida é outra: a vigarice esquerdopata, o marxismo de fancaria."
hiranclair#24
Concordo totalmente com o Reinaldo. As escolas privadas confessionais tem o direito de ensinar o que acham correto. Os pais que matriculam seus filhos nessas escolas o fazem porque estão de acordo com a linha pedagógica e os conteúdos ensinados.
E concordo sim que sejam ensinados junto com as aulas de Ciências, porque faz um contraponto ao darwinismo.
Não acho que o Criacionismo seja Ciência, mas não acho errado que se fale dele nas aulas de Biologia. É um positivismo rasteiro querer isolar a religião, separá-la de outros conteúdos. A meu ver aula de Biologia é quando se fala dos seres vivos e sobre eles é possível falar sob a ótica científica, sob a ótica religiosa e sob uma ótica filosófica, não acho mal que nas aulas de Biologia se fale também dessas outras visões.
O design inteligente pode talvez não ser Ciência, no sentido da Ciência positivista, porque lança como hipótese explicativa um princípio transcedental, mas também não é simplesmente religião, pode ser visto como uma teoria filosófica ou uma Ciência de outro tipo, não positivista. Mas de qualquer forma, uma escola confessional tem o direito de apoiar essa teoria e de falar sobre ela.
Os críticos do ensino do Criacionismo nas escolas são dogmáticos e autoritários, já está passando da hora de serem combatidos nesses termos, de que se mostre que não podem se arrogar donos de uma verdade científica absoluta e não podem querer silenciar quem tem outra visão da natureza vinculada a uma crença religiosa ou filosófica.

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