O escritor comenta sua viagem a Petrópolis, no fim de ano, e aproveita para mostrar um dos efeitos culturais da democracia tupiniquim:
http://antoniofernandoborges.apostos.com/2009/01/o_u…perador.html
"Passagens de ano são ritos imprescindíveis.
Além da esperança renovada de que a felicidade amorosa é possível (e é real), os dias recentes na acolhedora Petrópolis reiteraram em mim uma suspeita incurável: a monarquia é uma forma de governo (mais até: de existência!) superior às repúblicas populares.
Dois fatos opostos e extremados se revelaram, para mim, sólidos argumentos: de um lado, a onipresença requintada de D. Pedro II e sua família na doce região serrana; no outro extremo, a malta reunida na Praça principal da cidade para assistir a um show de samba e pagode em homenagem à posse… do novo prefeito!
Em volta de um palco montado ao lado da estátua do ex-monarca, a multidão grosseira, embriagada e arrogante (como os novos tempos mandam…) berrava as palavras-de-ordem do samba e do funk. Numa espécie de "geografia enlouquecida", cacos e cascos de cerveja nevegavam por riachos de urina, entre montanhas de latas amassadas e atiradas por todos os lados.
(Tudo, enfim, muito democrático!)
O desrespeito com que dois brutamontes urinavam no pedestal do monumento fazia as vezes de síntese deste “outro mundo possível”. Era como ver a Revolução Francesa acontecendo de novo, em versão tupiniquim.
Sem muitos recursos para uma discussão política mais séria (que envolvesse a leitura e discussão de autores como Tocqueville e Burke, por exemplo), permito-me permanecer no território livre da imaginação e das metáforas.
Assim como me permito suspirar e ruminar a quase-certeza de que (ao menos no caso brasileiro), desde certo Quinze de Novembro há centro-e-tantos anos, estamos marchando para trás."
http://antoniofernandoborges.apostos.com/2009/01/o_u…perador.html
"Passagens de ano são ritos imprescindíveis.
Além da esperança renovada de que a felicidade amorosa é possível (e é real), os dias recentes na acolhedora Petrópolis reiteraram em mim uma suspeita incurável: a monarquia é uma forma de governo (mais até: de existência!) superior às repúblicas populares.
Dois fatos opostos e extremados se revelaram, para mim, sólidos argumentos: de um lado, a onipresença requintada de D. Pedro II e sua família na doce região serrana; no outro extremo, a malta reunida na Praça principal da cidade para assistir a um show de samba e pagode em homenagem à posse… do novo prefeito!
Em volta de um palco montado ao lado da estátua do ex-monarca, a multidão grosseira, embriagada e arrogante (como os novos tempos mandam…) berrava as palavras-de-ordem do samba e do funk. Numa espécie de "geografia enlouquecida", cacos e cascos de cerveja nevegavam por riachos de urina, entre montanhas de latas amassadas e atiradas por todos os lados.
(Tudo, enfim, muito democrático!)
O desrespeito com que dois brutamontes urinavam no pedestal do monumento fazia as vezes de síntese deste “outro mundo possível”. Era como ver a Revolução Francesa acontecendo de novo, em versão tupiniquim.
Sem muitos recursos para uma discussão política mais séria (que envolvesse a leitura e discussão de autores como Tocqueville e Burke, por exemplo), permito-me permanecer no território livre da imaginação e das metáforas.
Assim como me permito suspirar e ruminar a quase-certeza de que (ao menos no caso brasileiro), desde certo Quinze de Novembro há centro-e-tantos anos, estamos marchando para trás."