Como eu não achei esta entrevista em nenhum lugar, nem no site oficial do Olavo - e tinha o jornal guardado - resolvi transcrever e postar aqui esta entrevista de página inteira que foi capa do "Caderno G" da Gazeta do Povo em Curitiba, publicada em 19 de julho de 2001.
"Fizemos as piores escolhas"
Filósofo paulista se diz um homem sem interlocutores na imprensa brasileira
QUEM COMPRA TODOS OS MESES A EDIÇÃO DA REVISTA BRAVO! tem motivos de sobra para começar a leitura pela sessão Ensaio, mais precisamente porque é ali que estão os textos
de um dos mais controvertidos autores brasileiros da atualidade - Olavo de Carvalho. Aos 54 anos, este campineiro radicado no Rio de Janeiro, professor da Faculdade da Cidade, autor de uma dezena de obras e uma infinidade de artigos - a maior parte sobre Filosofia - usa do bom português e da melhor tradição do pensamento universal para destruir mitos. Sim, trata-se de um iconoclasta.
Prova disso é o impacto causado por um de seus títulos - a coletânea O Imbecil Coletivo - Atualidades Inculturais Brasileiras, lançado em 1996, tendo alcançado cinco edições em dois anos. Ali, o estudioso que nos anos 60 "sumiu" sem dar explicações das fileiras do Partido Comunista, dá provas de sua maior habilidade: a destreza em radiografar sem muita piedade instituições como o estado, a universidade e o jornalismo. Não deu outra: ficou com a fama de mal, rótulo que, ao final, é palha diante da produção que faz de Olavo uma referência obrigatória na intelectualidade brasileira.
Ser bom de briga, aliás, transforma-se num mero acidente. Carvalho é acima de tudo o homem que assina uma obra das mais coerentes. Sua costura passa pela afirmação da tradição aristotélica, transita pelos estudos literários e pelas religiões históricas, flerta com o legado da Idade Média e desabrocha num ideário que rejeita, com todas as letras, o autoritarismo e a tirania das ideologias coletivas, estejam elas nas cadeiras de uma faculdade, de um sindicato, partido político ou em algum outdoor de uma grande cidade.
Em Curitiba, uma vez por mês, um grupo privilegiado de convidados do Instituto Paraná de Desenvolvimento está tendo a oportunidade de conhecer de perto as propostas de Carvalho. Em longas aulas de sextas e sábados, uma vez por mês, o filósofo - no melhor estilo da escola peripatética, aquela em que o conhecimento nascia da conversa entre os alunos e o mestre - debulha variações para um tema - a Filosofia e o aprimoramento individual. A entrevista dada à Gazeta do Povo, num intervalo destes encontros, ele gostaria que fosse feita com a participação de sua platéia. Não foi possível. Mesmo assim, a prosa afiada do entrevistado pôde ser registrada numa conversa informal que começou com água escaldada no jornalismo cultural, e culminou na afirmação da Filosofia como possibilidade de os homens tratarem de um mundo em comum. Confira.
Caderno G - Você já chegou a afirmar que um dos problemas do jornalismo cultural da atualidade é que ele passou a ser tratado como notícia. Por quê?Olavo de Carvalho - A classe que hoje domina a panorama cultural não tem mais a qualificação daquela que escrevia na imprensa dos anos 50-60. Qualquer suplemento contava com um Álvaro Lins ou um Otto Maria Carpeaux. Era gente de grosso calibre. Hoje estamos cercados por pessoas de uma mediocridade deplorável. Certas publicações beiram a calamidade.
- Por outro lado, ao ser tratada como informação, a cultura sai da marginalidade a que estava relegada dentro do jornalismo mais clássico, o dos cadernos de economia e política, por exemplo...
- Discordo. O jornalismo cultural tinha um status muito maior antes. Grandes suplementos, como o do Estado de São Paulo e o do Jornal do Brasil, eram frequentados por uma intelectualidade capaz de uma discussão significativa. Agora isso não acontece. O problema não está nas regras do jornalismo, mas em quem o está fazendo.
- Como ensaísta da revista Bravo! você participa do dito jornalismo cultural. Como transitar num espaço que você considera em declínio?
- Eu não tenho diálogo com ninguém no meio jornalístico. E nem quero que me respondam, porque geralmente o que recebo de volta é babaquice, uma argumentação infinitamente abaixo daquilo que está sendo discutido. Mantenho contatos com cinco-seis pessoas no exterior, somente. Aqui não tenho interlocutores. O que vejo à minha volta são pessoas de uma enorme pretensão, mas que têm uma cultura baseada em livros publicados nos últimos dez anos. E livros que daqui a dez anos ninguém vai lembrar quais são.
- Não lhe parece que a intelectualidade brasileira também virou as costas para o jornalismo, principalmente o diário, aquele que trata de problemas que tocam o cidadão comum...
- Acho que os acadêmicos perderam a prática de falar para o público em geral. Fecharam-se em um universo gremial e escrevem uns para os outros. O que é muito mais fácil. Os professores universitários têm uma platéia de alunos que se sentem obrigados a ouví-los falar. Num jornal ou numa revista a nossa palavra fica muito mais exposta, inclusive à
contribuição de gente que não sabe o que está dizendo. O próprio ensino universitário reforça esta atitude arrogante ao incentivar o achismo entre os alunos.
- Vivemos então uma crise de comunicação do conhecimento...
- Não vejo ninguém com capacidade de falar de modo que as pessoas entendam. Um exemplo. Trabalhei três anos nos ensaios reunidos sobre o Otto Maria Carpeaux. Me vi diante de questões das mais complexas sobre Filosofia Política e Teoria Literária. E tinha de apresentar aquilo tudo de maneira inteligível. Só dei conta do serviço porque dominava o assunto. Se alguém só consegue se expressar por meio de um vocabulário técnico é porque não entende do que está tratando. É preciso chegar às analogias, às maneiras indiretas de dizer.
- A universidade caminha fatalmente para a idéia de um pensamento único?
- Temos que levar em conta um fator político importante. Nos tempos da ditadura os milicos usaram a teoria da "panela de pressão". Eles estavam reprimindo a luta armada e compensavam esta prática facilitando para que os intelectuais ativistas e interessados em teoria política tomassem conta das universidades. Ao mesmo tempo o governo tinha planos de transformar as faculdades em centros preparadores de mão-de-obra. O resultado é que do meio acadêmico, hoje, não sai uma elite cultural de jeito nenhum. É impossível, por mais que se queira.
- Não lhe parece um tanto fatalista?
- O que se ensina na universidade hoje é parecido ao que se escrevia nos jornaizinhos sindicais, uma mera propaganda marxista. Muitos livros do terceiro grau repetem aquelas babaquices do Voz Operária. Dá vergonha de um treco desse. Não é possível que um estudante acredite seriamente que o Brasil tenha um regime neoliberal quando 60% da economia está nas mãos do estado. Isso não é neoliberalismo, é rótulo, sacanagem, e os caras acreditam! Um dia eu vi uma passeata de camelôs do Rio de Janeiro contra o neoliberalismo. Pera aí! Eles são a economia liberal e não sabem disso.
Alguém meteu isso na cabeça do sujeito. No índice do Wall Street Journal sobre as economias mais livres do planeta o Brasil ficou em 93º lugar. Estamos mais próximos dos chineses, que estão em 114ª posição, do que de qualquer país capitalista.
- Como você definiria a matriz filosófica que rege seu trabalho?
- A tradicional - Platão, Aristóteles, Leibniz, Schelling... Procuro o que sempre foi o núcleo e o objeto da Filosofia, no sentido mais permanente. É uma monstruosidade não conhecer isso. O estudante que entra numa faculdade e na primeira toma um banho de Nietzsche ou de Marx nunca mais vai entender a Filosofia. Porque ela existia dois mil anos antes destes caras. E tem uma coisa que se chama "o estado da questão". Não dá para reconstituir nada a partir de Nietzsche ou de Marx! Tudo o que se consegue ao não respeitar isso é mutilar a cabeça das pessoas. Se o indivíduo não tiver noção do temário filosófico nunca vai entender os contemporâneos. A recíproca é verdadeira: com boa formação anterior dá para se virar com estes pensadores. Eu particularmente acho que as teses de Marx não têm assunto para mais de um ano. É o tempo que basta para entender o limite daquilo tudo.
- Aonde este vazio filosófico pode levar?
- A não entender o que está na nossa fuça. Logo que li Marx aceitei que ele era materialista e tudo o que lhe importava era a ação humana na História. Mas e a natureza material, cadê? Ele coloca a ação humana no centro do cenário natural e o universo natural desaparece, como se fosse uma parte negligenciada, infinitesimal. Na verdade isso não é um materialismo, é um idealismo subjetivo histórico! A pergunta sobre a natureza é excluída da obra de Marx, mas parece que a gente nunca pode perguntar: "De onde ele tirou isso aí?" A filosofia marxista tem uma função hipnótica. E há mesmo uma tendência geral em ficar preso ao mundo de um determinado pensador e rejeitar uma tradição inteira. Um bom filósofo ajuda a entender todos os outros.
- Este enclausuramento roubou a aura da Filosofia?
- As pessoas hoje não estudam Filosofia, mas a filosofia de fulano e de beltrano. Em vez de um pensador ser projetado dentro da tradição prefere-se o universo privado do sr. Karl Marx, do sr. Freud, que são mentes poderosas e escravizadoras. Eu pergunto: como é que a partir de Marx podemos compreender Aristóteles? Impossível. Ele não dá brecha para isso. De Marx se pode levar em conta duas-três coisinhas sobre Aristóteles, mas ele não abre nenhuma porta. A Filosofia de verdade sempre cria um canal para outras matrizes. Agora mesmo eu estava lembrando de Hieráclito que dizia que quando os homens dormem vão cada um para o seu mundo. Quando acordam, vão todos para o mesmo mundo. A Filosofia é este mesmo lugar no qual todos devem estar.
- Até que ponto suas posições o indispõe com o mundo em que você transita?
- Minha única intenção é recuperar o sentido da tradição filosófica como um meio de libertar as pessoas dos casulos culturais em que elas se fecham. Existe um universo imenso a ser descoberto e a gente não pode ficar preso a questões provincianas. O que sobraria da USP, que só serve para fabricar presidentes, se Aristóteles ressucitasse e entrasse lá dentro?
- Você chegou a afirmar que os intelectuais brasileiros fizeram as piores escolhas...
- Putz... Elegemos o que havia de mais baixo, sórdido e fdp. Nem como personagens muitos dos filósofos cultuados no Brasil têm nada a oferecer. Basta pegar a existência de um Sartre, que foi de uma miséria desgraçada, um homem completamente em fuga, que trocava de máscara toda hora. Nietzsche idem. Trata-se de um fracote que não tem nada a oferecer, incapaz de falar com uma mulher na esquina, um maluquinho de talento. Um filósofo precisa ter grandeza humana.