Professor Olavo,
bom dia. Em primeiro lugar, quero expressar meu apreço pelo seu modo claro, simples e preciso na abordagem de muitos e variados assuntos ligados à política, à cultura e à filosofia. Como é possível perceber mediante a leitura de seus muitos textos, o seu conhecimento filosófico é fator de destaque no cenário intelectual brasileiro e ainda o será por vários anos em minha opinião. Quero, no entanto, discordar do Sr. em alguns pontos referentes ao livro “A Reprodução”, de autoria de Pierre Bourdieu. Devido a isso, peço ao Sr. e aos demais leitores que se imbuam de paciência e benevolência caso eu me torne por demais extenso nas considerações a esse respeito. Vamos aos pontos no próximo post.
1) A obra de Pierre Bourdieu no Brasil não me parece ter sido compreendida em profundidade pelos nossos “intelequituais” (sobretudo entre os esquerdistas), de modo que, mesmo depois do próprio Bourdieu, alguns anos depois de haver escrito A Reprodução, haver alterado substancialmente aspectos referentes à teoria da volência simbólica, e ter abandonado, ainda mais adiante a noção de classe social (passando a se servir da noção de habitus), estes “intelequituais” continuam presos a este detalhe da teoria, que se refere ainda às classes sociais (no sentido marxista) e à questão do arbitrário cultural (que também foi modificada, especialmente depois que Bourdieu publica “La Distinction”). Com isso, devo concordar com o Sr. quando diz que o autor em questão é um guru de educadores no Brasil. Infelizmente os mesmos pararam em uma fase inicial do trabalho do guru, e que, nas palavras do Bourdieu, são resultados de um trabalho esboçado e muito esquemático, que durante os anos foi aperfeiçoado e em muitos pontos modificado. A questão da intencionalidade dos dominantes nos mecanismos geradores e mantenedores das estruturas sociais se apresenta diluído com a entrada de um fator heurístico (e, diria, em grande parte, herístico) nas obras seguintes, qual seja o emprego da noção de illusio, que vem então a mostrar que é o sentido do jogo, muito mais do que a intenção dos jogadores que motiva as lutas sociais, e que isto, muito mais do que a obra dos que detém posições de destaque nos variados campos. O problema é que, pensar desta forma, como o autor veio a fazer mais adiante, nega as facilidades e incorreções do pensamento estruturalista, e do esquematismo tão caros aos marxistas e neo marxistas, o que, por si só já seria motivo bastante para a esquerda brasileira não se aprofundar na leitura do período correspondente à maturidade da obra de Bourdieu.
2) Devo discordar do Sr. quando afirma que a violência simbólica é um tipo de constructo que leva a tolices. Em vários momentos o Sr. afirma e demonstra (de forma brilhante, em vários deles) a existência de grupos articulados com idéias como: Poder Global, Unidade Internacional Socialista, e outros, indicando que estes utilizam mecanismos sutis e muito eficientes de controle global dos comportamentos. Os exemplos que o Sr. trouxe a respeito do caso Obama, são em muitos casos indicativos de que um tipo de violência simbólica é exercida intencionalmente sobre o público americano, e em grande parte, sobre o público brasileiro. Além disso, em outros livros, como em Le Sens Pratique e em Meditações Pascalinas vemos o próprio Bourdieu refutar a idéia de que “a classe burguesa” é a responsável direta e intencional pelos mecanismos de violência simbólica, e assim acabando por resgatar as dimensões históricas e culturais que mostram como os habitus são contruídos, e como estes influenciam no formato do campo e nas maneiras como a illusio anima os sujeitos que se engajam nas lutas de poder dentro destes. Assim, mais uma vez, é necessário nos lembrarmos que a sociologia de Bourdieu foca um aspecto diferente do estruturalismo neo-marxista, e também das perspectivas que vão privilegiar o interacionismo individual, ou seja, para Bourdieu, sem levar em consideração simultâneamente a relação entre a illusio, o habitus e o campo, ou seja, sem considerar as relações historicamente construídas entre os indivíduos e a estrutura social, bem como entre as relações entre o modo como os indivíduos percebem a cultura e a incorporam a seus (diferentes) esquemas cognitivos, é impossível ser preciso em sociologia. Este preceito metodológico, um tanto complexo, certamente não pode ser colocado em prática pelos educadores e sociólogos brasileiros imbuídos (e entupidos) da vulgata marxista que lhes dirige as mentes. Por esta razão, vieram a adotar uma fase do pensamento do Bourdieu que refletia ainda as influências deste pensamento.
Neste sentido, penso que o Sr. poderia auxiliar-nos a todos divulgando o pensamento de Pierre Bourdieu presente em suas obras posteriores, sobretudo em alguns textos como: “Sistemas de Ensino e Sistemas de Pensamento (publicado na coletânea “A Economia das trocas simbólicas)”, “O Mistério do Ministério (especialmente a introdução deste livro)”, “Espaço Social e Gênese das Classes (parte da coletânea”O Poder Simbólico) e “Os modos de produção da opinião (parte do livro La Distinction). Em alguns momentos me parece até que a perspectiva de Bourdieu se aproxima em muito de sua intenção desmistificadora, e, de sua veia argumentativa.
No mais, desejo ao Sr. e à sua família as benção de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Misericórdia da Virgem Maria.