Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Olavo de Carvalho e Slavoj Zizek

Iniciado por lvaro_4 em 17/09/2006 · 26 mensagens

lvaro_4#1
Também gostaria de compartilhar do seguinte tópico:

"A crítica de Olavo de Carvalho à Zizek que se esforça em recriar o materialismo dialético como forma de instrumentalizar a ação política vendo nela uma amostra da paralaxe cognitiva de quem tenta criar um mundo no qual sabe perfeitamente que não conseguirá viver é correta.

Afinal, a explicação do processo histórico e da ação humana no mundo por uma dialética materialista é nada mais que uma estrada para um precipício em que, logo após perder o céu da infinitude metafísica, a humanidade cairá irremediavelmente.

Já que, o fechamento do horizonte metafísico - tendência humana que vem de alguns séculos - leva à perda do senso de universalidade (primeiro sintoma de decadência intelectual e fonte da maioria do erros filosóficos)e a dissolução da ontologia humana no fluxo histórico e na materialidade do real.

Não me admira que as sociedades em que mais se desenvolveram este tipo de fluxo histórico entraram em decadência e em bárbarie.

No Brasil, o processo está a caminho. Leiam um tópico meu em alguma comunidade intitulado: "Lula e a Metafísica da História".

Contudo, complementado a análise que o Olavo faz de Zizek, gostaria de tecer um pequeno comentário sobre o conceito de ideologia em Zizek para poder depois indicar algumas pílulas espirituais qe nos protejam da integração e consumação deste diabólico movimento dialético e histórico.

Obs: O orkut criou um problema e eu até agora não conseguir arrastar o link para cá.

Procurem no site de Olavo o texto: `"O futuro da pústula".
lvaro_4#2
Para Zizek uma ideologia não precisa ser necessariamente “falsa” nem mesmo “verdadeira”, o papel que uma ideologia exerceria numa Teoria Crítica do conhecimento seria a de relativização desse conceito subjetivo sob forma de discurso objetivo e/ou objetivado.

Assim, uma ideologia não é necessariamente "falsa": quanto a seu conteúdo positivo, ela pode ser "verdadeira", muito precisa, pois o que realmente importa não é o conteúdo afirmado como tal, mas o modo como esse conteúdo se relaciona com a postura subjetiva envolvida em seu próprio processo de enunciação., 1994, 13.

Desta forma, Zizek consegue estabelecer um diálogo critico tanto com a tradição liberal quanto com o pensamento filosófico marxista e situá-lo cada qual de acordo com os respectivos contextos em que estão inseridos. Assim, Zizek revaloriza o conceito de “ideologia” que andava desgastado e lhe confere novo significado ao construir para ele uma crítica que muito nos serviria a uma sociologia do conhecimento.

Mas, já pensaram que todas as condições objetivas para legitimar a incoerência e a falta de honestidade foram lançadas???
lvaro_4#3
Neste sentido proponho também que se investigue a ideologia, mas como um conceito histórico produzido por sínteses mais amplas e abrangentes. O que de certa forma entra um pouco em crise com a concepção marxista clássica de que a Ideologia não tem história. Mas, como crítica possível do conhecimento e mais do que isso: como complementação dialética à tese marxista, creio ser este um corte epistemológico necessário.

E para realizar esta complementação dialética e este corte epistemológico acredito que se deve partir para a formação direta do conceito de ideologia e das circunstâncias em que este é formado ou seja, partir para o modo como o conhecimento é construído, para isso um caminho natural a ser percorrido é a relativização do conceito e a ampliação de seu significado semântico e dialético. Tal relativização do conceito pode ocorrer, por exemplo, realizando grandes sínteses lógicas para que se possa pensar o devir histórico.

Slavoj Zizek parece concordar diretamente com esta síntese metodológica ao revalorizar o conceito de ideologia nos debates contemporâneos e ao localizar na formação do pensamento social moderno a matriz dialética entre o “velho” e o “novo” ao expô-lo sob forma de discurso.

Mas não percebe a diferença entre a dialética filosófica como método de apreensão da realidade e da unidade de opostos com a materialização final de toda a realidade que seu método termina por criar.
lvaro_4#4
Como forma de separar o joio do trigo, ou a dialética filosófica que abre o caminho para a possibilidade metafísica da dialética materialista que faz o abismo do inferno se abrir sob os nossos pés, eu proponho o seguinte:

1. O conceito de “ideologia” deve servir em seu sentido tradicional à crítica do conhecimento instituído de um universalismo abstrato dissociado dos antagonismos concretos do real. Desta forma, a teoria social deve parar de “lamentar” a existência da ideologia e incorporá-la à discussão epistemológica sobre objetividade e
formação de conceitos dando-lhe um tratamento bastante rigoroso.

2. A virada materialista da ontologia tradicional deve ser tomada apenas enquanto pressuposto de uma metodologia do conhecimento da ação humana e das relações fundamentais da sociedade. Mas uma ontologia que é pressuposto lógico da existência da metodologia e da dialética histórica e não como uma explicação geral do ser social. A teoria sociológica deve continuar a avançar no sentido de novas investigações ontológicas e consequentemente deve construir novas metodologias.

3. O fenômeno sociológico da ideologia deve ser tomado mais do que como uma estrutura ou “força” e pode ser tratado no âmbito do discurso, isto é: de como o conhecimento se processa.
priscila#5
O artigo é perfeitamente ótimo, uma de minhas expressões favoritas - mas raramente entregues a alguém ou a alguma coisa, infelizmente...

O Sr. Tchitchek é bem à cara do que vivem me ensinando - e que eu, graças ao bom Deus, me recuso a aprender, até por completa incapacidade pessoal: o mecanismo da aleatoriedade.
Me parece que tem a ver com a pressuposição de que, se você tiver um número suficientemente grande de macacos digitando em respectivamente numerosos teclados de computador (e se der ao trabalho de imprimir, é claro, tudinho que for digitado), eventualmente você terá em mãos a obra completa de Shakespeare.
priscila#6
...pelamordedeus, escreve mais simplesmente - eu não entendo metade da metade do que você diz, e nunca saberei o quanto perdi!!!!!
priscila#7
...e aproveitando pra mostrar a importância de ser claro:
não é que eu só não entenda a metade da metade - é que eu não entendo nem a metade da metade...
lvaro_4#8
Claro, Priscila...

E meu treinamento de escritor ainda precisa se aprimorar muito para que eu deixe minhas idéias as mais claras possivéis.

O raciocínio lógico e a definição de termos ajuda a tornar o pensamento claro.

Como já não tenho mais tempo hoje vou abrir amanhã nesta comunidade um tópico sobre exemplos da paralaxe cognitiva...

Vão está lá: Foucault, Popper, Nietzche, Sartre, Kant... e Zizek. Entre outros.

Vou começar uma listinha neste tópico.

Amanhã eu deixarei mais claro como a tão decantada morte do mundo verdade, do sujeito e do autor é simplesmente impossível de ser realizada na prática intelectual e filosófica.

E que tipo de comportamento esquizofrênico isso gera em nossos acadêmicos.

Beijos pra ti, estava com saudades...
lvaro_4#9
"Concordo com a Pricila, Álvaro. Seu etxto, em geral, é hermético. O que eu consigo captar, em geral, me gera identificação".

Rodrigo:Gerar identificação???

Seja você também mais claro.

Mas como sempre digo... certas questões são mesmo muito complexas para serem expressas com o linguajar dos bares e boutequins e que a leitura de textos filosóficos não está no mesmo patamar da leitura de gibis do Pato Donald e da Turma da Mônica.
priscila#10
Quer dizer que a gente concorda com o pouco que entende, Álvaro!
E queremos concordar com TUDO, se possível...
Beijocas, amigos!
priscila#11
Eu estava traduzindo o "gera identificação" do Rodrigo...
lvaro_4#12
Bem traduzido Priscila...

Agora você ainda precisa ver a minha letra... essa ninguém entende e fui reprovado na alfabetização por causa disso.

Pra completar sou meio gago e tenho a dicção torta.

Pra entender o que eu digo tem que "se ligar" mesmo...

Beijocas. Amo tu!!!
lvaro_4#13
Um dia eu ainda vou obter a clareza do Olavo tanto no falar quanto no escrever.

Mas vai levar alguns anos de exercícios estilísticos e lógicos para isso.
lvaro_4#14
Mário Ferreira dos Santos é uma das minhas principais influências filosóficas e sem ele não consigo pensar quase nada que é importante.

Mas Mário escrevia até um tanto claro diante dos altíssimos temas que sua inteligência percebia e trasmitia.
lvaro_4#15
E é proveitosa...

Mas o que eu disse é verdade...
priscila#16
É, bem, refletindo:

Se eu fosse antipática, poderia dizer que talvez a qualidade da clareza não seja pra quem quer - mas pra quem pode. Como não sou, vou admitir que com a "ligação" acontece a mesma coisa - e que talvez então a culpa do mau (ou do pouco) entendimento seja minha...
lvaro_4#17
Ok... vamos tentar de novo.

Digam quais são as passagens mais nebulosas do meu texto que terei o maior prazer em reescrevê-los aqui e torná-los mais claros.
lvaro_4#18
E aí??? Cadê???

Não querem que eu clareie o discurso???
priscila#19
Eu não sei até que ponto você pretende ser compreendido aqui no orkut, que se propõe a ser um específico tipo de forum - com presenças variadas, desniveladas, díspares mesmo, as opposed to outros foruns de debate, onde existe maior identificação de interesses e de visão cultural entre os participantes.
Acho que escrevendo, por exemplo, que

"A virada materialista da ontologia tradicional deve ser tomada apenas enquanto pressuposto de uma metodologia do conhecimento da ação humana e das relações fundamentais da sociedade. Mas uma ontologia que é pressuposto lógico da existência da metodologia e da dialética histórica e não como uma explicação geral do ser social. A teoria sociológica deve continuar a avançar no sentido de novas investigações ontológicas e consequentemente deve construir novas metodologias. "

você está, francamente, complicando as coisas a ponto de torná-las incompreensíveis.
Você pediu um exemplo de passagem nebulosa; fez muito bem em pedir! Eu teria feito a mesma coisa.
Então, por favor, traduz pra mim esse aí que eu escolhi.
lvaro_4#20
"A virada materialista da ontologia tradicional deve ser tomada apenas enquanto pressuposto de uma metodologia do conhecimento da ação humana e das relações fundamentais da sociedade. Mas uma ontologia que é pressuposto lógico da existência da metodologia e da dialética histórica e não como uma explicação geral do ser social. A teoria sociológica deve continuar a avançar no sentido de novas investigações ontológicas e consequentemente deve construir novas metodologias. "

"A virada materialista da ontologia tradicional deve ser tomada apenas enquanto pressuposto de uma metodologia do conhecimento da ação humana e das relações fundamentais da sociedade.

Isso quer dizer o seguinte: A virada da ontologia tradicional começa especificamente neste caso com Marx em A Ideologia Alemã ao criticar a metafísica da história de Hegel e ao eleger a matéria como a base sobre a qual repousa a realidade, realidade social e histórica inclusa.

O termo “’virada ontológica” é utilizado, por exemplo, por Gyorgy Luckcás em HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA DE CLASSE para se dirigir ä filosofia de Marx.

Eu digo que a filosofia marxista pode ser tomada com método para apreender a realidade, o que não quer dizer que a realidade de fato se apresente ou seja como Marx descreve, no fim, eu reduzo a ontologia de Marx a mais um método.
lvaro_4#21
“Mas uma ontologia que é pressuposto lógico da existência da metodologia e da dialética histórica e não como uma explicação geral do ser social”.

Isso quer dizer que: Para mim a ontologia é o pressuposto de qualquer método possível, eu só posso conhecer metodologicamente aquilo que é previamente determinado pela ontologia, a célebre frase de Jânio Quadros: Eu bebo porque é líquido, se fosse sólido eu comêlo-ia”é isso mesmo, eu não posso estudar a história humana utilizando a odontologia nem as cenouras e beterrabas utilizando A Cabala Mística.

Eu digo que a metodologia marxista materialista pode ser o pressuposto de muita coisa, mas não dever ser entendida enquanto ontologia ou pressuposto geral que forma o ser social.

Isso tudo para distinguir a dialética filosófica da dialética materialista.

“A teoria sociológica deve continuar a avançar no sentido de novas investigações ontológicas e consequentemente deve construir novas metodologias. "

Isso quer dizer que: Eu proclamo a epistemologia e a teoria crítica do conhecimento a superar o materialismo dialético e histórico e a se empenhar em novas investigações ontológicas e consequentemente criar novos métodos.

É isso...

Poderei explicar novamente se ainda continuo sendo obscuro...

Mais algum parágrafo nebuloso???
priscila#22
Melhorou muitíssimo!
Agora deu para perceber seu preciso comentário sobre o velho Marx, aquele idiota, ter se aproveitado cínica e indevidamente do Guilherme Frederico (Hegel) e de sua dialética, que se referia à transcendência espiritual - pra criar o monstro torto, vesgo e retardado do materialismo dialético. E de como se afastar da idéia de transcendência foi funesto. Ou seja, when the chicken has been redefined, the egg will hatch a different beast - traduzindo (senão alguém pode legitimamente aplicar a mim a crítica que apliquei a você): se a galinha é redefinida, do ôvo vai sair um bicho diferente. No caso, saiu uma monstruosidade.
Concordo.
Tem razão.
Ditto.
lvaro_4#23
Melhorou? Sério? rsrs...

Eu tava com receio de não ter adiantado muito.

Seguinte: Depois eu abro um tópico sobre a dialética hegeliana... esta é também cheia de armadilhas e, ao meu ver, professa um sentido falsamente espiritual.
priscila#24
...tá com o amigo Conde a (correta e certeira) bola...
priscila#25
...aguardo ansiosamente a crítica à dialética de Hegel como falsamente espiritual!
lvaro_4#26
Conde...

Você está fazendo exatamente a mesma crítica que eu fiz a Zizek.

A mesmíssima crítica...

Eu já ria disso antes de você...

Se quiser podemos rir juntos sim...

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