Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

A mão esquerda

Iniciado por antnioluiz em 05/03/2009 · 5 mensagens

antnioluiz#1
Trecho:

Quando o sr. Luís Inácio da Silva aceitou ser o chefe de um governo de transição para o socialismo, teria ele plena consciência do que isso significa? Governos de transição revolucionária são como preservativos: começam encobrindo a arma do crime e terminam jogados na privada. Lula representou a face sorridente e amável sob a qual a esquerda ocultava a pesada máquina de guerra das militâncias enfurecidas, das tropas de guerrilheiros, das quadrilhas de narcotraficantes e seqüestradores, dos bandos de delinqüentes comuns adestrados e equipados por técnicos em terrorismo para espalhar o caos nos momentos estrategicamente convenientes. Durante anos, ele administrou com habilidade e prudência uma complexa política de mão dupla, agradando aos capitalistas pelo gerenciamento “ortodoxo” da economia, aos comunistas pela subversão sistemática dos valores morais e educacionais, pela distribuição perdulária de verbas até mesmo a entidades criminosas, pela proteção dada a terroristas estrangeiros em atividade no território nacional e pelo apoio paternal concedido aos tiranetes de esquerda que, nas nações em torno, iam brotando como fungos, fortalecidos pela unidade da estratégia continental do Foro de São Paulo que ele próprio fundara e organizara. Que, jogando com dois grupos de aliados incompatíveis entre si, prometesse simultaneamente a vitória aos antigos e a prosperidade aos novos, logrando persuadir a ambos de sua integral sinceridade, é prova de uma duplicidade de caráter elevada ao estatuto de obra de arte, pela qual, abstraída a imoralidade intrínseca da coisa, ninguém deve lhe sonegar admiração. Ora acirrando as contradições, ora amortecendo-as com um senso agudíssimo do timing e das conveniências, sua destreza no manejo da ambigüidade chegou ao requinte quase inverossímil de atrair sobre sua pessoa galardões contraditórios, fazendo com que, na mesma semana, fosse homenageado no Fórum Econômico de Davos por sua conversão ao capitalismo e no Fórum Social Mundial por sua fidelidade ao comunismo.
antnioluiz#2
luizfernando#3
Compartilho das indagações do professor: se adiará a Revolução ad infinintum? Quais riscos isso pode trazer para a chegada do admirável mundo novo socialista no Brasil?

Perdi o costume de fazer futurologia, mas tem vezes que creio que o que mais o PT e a cambada quer de verdade é mamar eternamente em berço esplêndido até que o bucho exploda...

***
antnioluiz#4
cambada quer de verdade é mamar eternamente em berço esplêndido até que o bucho exploda... [3]
marcos_12#5
Esse texto está excelente, e digo porque: o Olavo coloca Lula numa encruzilhada em que a realidade e a utopia se tocam, e essa foi a tônica de seu governo desde o início. Ao adiar indefinidamente a conclusão da revolução, Lula está colocando o pé no freio do processo ao mesmo tempo em que um pé está no acelerador. Ele está trabalhando com uma máquina político-cultural autocontraditória: de um lado o ideal revolucionário, do outro o ajuste impossível da realidade a esse ideal revolucionário. O resultado é, inevitavelmente, uma frustração, o que dá margem para processos mais violentos.

Porém, esse trecho do texto é interessante:

"Os otimistas de sempre podem achar que é uma crise passageira, que o gênio da conciliação, tradição nacional da qual o presidente tem sabido se aproveitar tão bem, acabará por encontrar um subterfúgio inteligente e adiar, uma vez mais, o desenlace do insolúvel.

Talvez tenham razão. O tamanho do território, a consistência tênue e esparramada da sociedade civil, a incultura geral que predispõe à resignação apalermada foram até agora os fatores que permitiram ao sr Lula prolongar no tempo, sem crises nem danos notáveis, a sua querida engenharia da procrastinação."


Se, por alguma razão, o movimento revolucionário aceitar essa nova condição, favorecida por nosso contexto cultural, e ainda reformular-se ideologicamente, é possível que o maldito socialismo brasileiro acabe numa pétrea nomenklatura, numa espécie de URSS tupiniquim mal-feita e aos remendos composto por um capitalismo semi-estatista e super-burocratizado.

‹ Voltar para a lista de tópicos