Jornal do Brasil - 21/Set/06
Mudando de bichos
Diante do fracasso total da espécie humana, ao menos tal como exemplificada pelos seus representantes no governo federal, dedicarei a crônica desta semana a bichos mais promissores.
Após o falecimento do meu querido cão Robin, atropelado por um trem em pleno ato de traçar uma Labrador pretinha no leito da via férrea, comprei um filhote da raça English Mastiff (mastim inglês), persuadido a isso por um dito popular do século XVIII: "Tal como o leão está para os gatos, assim está o Mastiff para os cães." Esse negócio de leão é puro eufemismo. O bicho é um tipo de elefante canino, sem limite previsível de crescimento ou consumo alimentício. Em vista deste último detalhe, denominei-o Big Mac, também de modo a que ele possa se apresentar como James Bond: "Meu nome é Mac. Big Mac."
O nome tem ainda a vantagem de poder ser pronunciado pelos americanos, livrando a criatura de humilhações como as que passo por aqui quando as pessoas, entre esgares de ginástica fonética, me chamam de Olêivo de Ca rvalo, Ólavo de Cárvalo e até Olâno de Varcálto. Durante algum tempo suportei tudo com resignação estóica. Quando ouvi meu filho, numa festa escolar, ser anunciado no alto-falante como Pedro de Varcáulou-Hôu, decidi que a coisa tinha de parar: o próximo membro da família teria nome gringo e passaria despercebido como qualquer cidadão normal.
O primeiro beneficiado por essa sábia decisão veio pela American Airlines, despachado por um canil do Missouri, que o oferecia a um terço do preço por ser o último da ninhada e estar grandinho demais para continuar sendo um cachorro sem dono. De dentro da gaiola, no aeroporto de Richmond, a encomenda, amarela com listras pretas como um tigre, já abanava a cauda e lambia as nossas mãos com aquela ternura histérica própria dos membros da sua espécie.
Mudando de bichos
Diante do fracasso total da espécie humana, ao menos tal como exemplificada pelos seus representantes no governo federal, dedicarei a crônica desta semana a bichos mais promissores.
Após o falecimento do meu querido cão Robin, atropelado por um trem em pleno ato de traçar uma Labrador pretinha no leito da via férrea, comprei um filhote da raça English Mastiff (mastim inglês), persuadido a isso por um dito popular do século XVIII: "Tal como o leão está para os gatos, assim está o Mastiff para os cães." Esse negócio de leão é puro eufemismo. O bicho é um tipo de elefante canino, sem limite previsível de crescimento ou consumo alimentício. Em vista deste último detalhe, denominei-o Big Mac, também de modo a que ele possa se apresentar como James Bond: "Meu nome é Mac. Big Mac."
O nome tem ainda a vantagem de poder ser pronunciado pelos americanos, livrando a criatura de humilhações como as que passo por aqui quando as pessoas, entre esgares de ginástica fonética, me chamam de Olêivo de Ca rvalo, Ólavo de Cárvalo e até Olâno de Varcálto. Durante algum tempo suportei tudo com resignação estóica. Quando ouvi meu filho, numa festa escolar, ser anunciado no alto-falante como Pedro de Varcáulou-Hôu, decidi que a coisa tinha de parar: o próximo membro da família teria nome gringo e passaria despercebido como qualquer cidadão normal.
O primeiro beneficiado por essa sábia decisão veio pela American Airlines, despachado por um canil do Missouri, que o oferecia a um terço do preço por ser o último da ninhada e estar grandinho demais para continuar sendo um cachorro sem dono. De dentro da gaiola, no aeroporto de Richmond, a encomenda, amarela com listras pretas como um tigre, já abanava a cauda e lambia as nossas mãos com aquela ternura histérica própria dos membros da sua espécie.