por David Gulbraa[Neste texto, o autor faz contrapontos em linguagem simples entre as premissas filosóficas de esquerdistas (”liberals” no original em inglês) e conservadores. Por Conservador, ele refere-se exclusivamente a conservador religioso, o que pode não ser muito preciso, caso se considere a possibilidade de conservadores sociais ou seculares. Também: ele se utiliza das posições mais extremas ao contrapor esquerdismo e conservadorismo. Normalmente, a maioria dos esquerdistas e conservadores se encontram em algum lugar entre os extremos, mas é verdade que a opção pelas visões extremadas ajuda no entendimento geral, e ajuda a identificar o que há de errado em cada uma delas. A tradução e os comentários em negrito e entre colchetes são meus.]
Alguns de vocês lendo este web site pensam em si mesmos como Esquerdistas ou Conservadores. [Devido à natureza desta comunidade, certamente haverá mais conservadores.] Vocês tem visões do mundo baseadas em crenças pessoais, e essas crenças lhes levam a certas posições políticas. [Toda posição política é baseada em um posicionamento ético/moral que, por sua vez, baseia-se em posições metafísicas e epistemológicas.]
Eu nem sou Esquerdista e nem Conservardor [nem eu] e eu tenho convicções políticas em desacordo com ambos. [Idem.] Então qual é a diferença entre nós?
Os Esquerdistas acreditam que o propósito do governo é “ajudar as pessoas”. Os Conservadores acreditam que o propósito do governo é impor a moralidade. Eu acredito que o propósito do governo é proteger os indivíduos de serem ajudados pelos Esquerdistas – ou forçados a rezar pelos Conservadores.
As pessoas chegam às suas crenças políticas por meio de certas pressuposições que elas fazem a respeito da natureza da realidade e da natureza do homem. [A natureza da realidade e do homem são grandemente questões metafísicas. Mas é bom ressaltar que questões epistemológicas não podem ser descartadas na fundamentação de uma moral, que, por sua vez, baseia uma posição política.] São essas idéias que criam nossas diferentes visões políticas.
Os Esquerdistas acreditam que a realidade é o que quer que eles queiram que ela seja, tudo o que eles têm de fazer é acreditar fortemente e unirem-se a pessoas de mentalidade parecida e a realidade será moldada de acordo com a sua vontade. [Isso nunca é afirmado explicitamente e com todas as letras pelos esquerdistas, e muitos deles discordariam da afirmação de forma veemente, mas ela é substancialmente verdadeira. Há pontos na filosofia de Kant, Hegel e Marx que defendem a percepção do real como puramente subjetiva. Além disso, para os esquerdistas, se os fatos colidem com as crenças, danem-se os fatos - e a teimosia permanece irredutível (salvo aqueles que caem na real e deixam de ser esquerdistas).] Isso leva à crença política de que qualquer coisa vale, contanto que as pessoas votem nela.
Os Conservadores acreditam que o mundo foi criado por um Deus todo-poderoso e a realidade é dividida entre o nosso reino mundano de sofrimento e imperfeição, e o reino divino da perfeição celestial. Isso leva à crença política de que qualquer coisa vale, contanto apenas que você aja em nome de Deus.
Eu acredito que a realidade é um absoluto objetivo que existe independentemente de qualquer consciência, e que nossa tarefa é percebê-la e entendê-la, não criá-la. [De pleníssimo acordo!] O universo que nós conhecemos é um fenômeno natural que funciona de acordo com leis naturais, ao invés do brinquedo de um ser sobrenatural. Isto leva à crença política de que o homem deve ser deixado livre para exercer a sua razão e agir de acordo com o seu próprio julgamento. [Respeitando o direito dos outros indivíduos de fazer o mesmo. Não era obrigatório complementar, mas o fiz para evitar discussões inúteis.]
Os esquerdistas são céticos que acreditam que a razão é, no máximo, duvidosa. Desde que os homens não podem provar a razão, a liberdade não funciona [a possibilidade de agir racionalmente é um pressuposto do direito à liberdade] e o governo tem de nos proteger de maus empresários.
Os Conservadores acreditam que a fé é superior à razão. Desde que a razão é limitada, nós temos que acreditar em Deus e seguir sua vontade. A tarefa do governo é impor uma moralidade religiosa e nos proteger de maus empresários. [Alguns podem duvidar da última frase, mas é inegável que a maioria dos religiosos (pelo menos os mais sérios) concordam em proibir/censurar por via legal tudo o que vá de encontro às suas posições morais. Isso evade o fato de que é possível apenas não consumir, ou boicotar, ou panfletar contra, ou se utilizar de quaisquer outros meios privados que existam para combater algum produto, hábito ou opinião.]
Eu acredito que a razão realmente funciona [eu também!] e os homens só conseguem utilizá-la e aplicá-la corretamente se eles forem deixados livres. [Tanto o pensamento humano não funciona à força, como a força inibe o pensamento. A força ou a ameaça dela servem exatamente para impedir o homem de agir de acordo com o seu próprio julgamento, ou para forçá-lo a agir contra o seu julgamento. Esse é mais um motivo para a liberdade ser um direito.] Desde que os homens são basicamente racionais e bons por natureza, a tarefa do governo é proteger nossas liberdades de forma que possamos viver adequadamente como homens de negócios produtivos e moralmente heróicos.
Os Esquerdistas acreditam que o individualismo é ruim e que as pessoas devem se sacrificar ao coletivo, seja ele a comunidade, o estado, a nação, o mundo, ou a Mãe Terra.
Os Conservadores acreditam que o individualismo é ruim e que as pessoas devem se sacrificar a Deus, às instituições religiosas, e a qualquer governo que fala e age em nome de Deus. [Recentemente vi alguém em outra comunidade afirmar que preferia defender o islamismo a defender a nossa passageira civilização ocidental. Eu acredito que muitos cristãos discordariam prontamente disso. Mas através de quais princípios? Certamente o Ocidente não é mais fundamentalmente Cristão, e muitos religiosos admitem e condenam a perda da “espiritualidade” ocidental.]
Eu acredito que individualismo é algo bom e que cada homem é um fim em si mesmo, não um objeto de sacrifício. [E o capitalismo não tem qualquer chance enquanto se acreditar no contrário.] A tarefa do governo deve ser banir todo sacrifício e proteger as pessoas daqueles indivíduos e instituições que exigem sacrifício. [Ou seja: capitalismo laissez-faire. Mas esse só poderá ocorrer quando a moralidade altruísta for amplamente rejeitada, principalmente nas universidades. Será necessário comentar sobre a antipatia que a maioria dos religiosos sentem pelo laissez-faire? Pensem no Vaticano.]
Tanto os Esquerdistas quantos os Conservadores afirmam falar em nome e agir no interesse de certas minorias, e querem tomas as rédeas do governo para beneficiar essas minorias. Para os Esquerdistas, normalmente são minorias racias, étnicas e sexuais. Para os Conservadores, trata-se de minorias religiosas, normalmente alguma seita Cristã histérica que ainda pensa que ninguém no mundo ouviu falar em Jesus. [Aqui eu discordo do autor: além do termo “histérica“ ser desnecessariamente ofensivo, foge do meu conhecimento que o atual movimento conservador americano foque em defesas de minorias religiosas nos termos apresentados. Agora, é pura verdade que muitos desses conservadores defendem abertamente a utilização de dinheiro do governo, ou seja, dos contribuintes, no financiamento de organizações e instituições religiosas para a prestação de serviços comunitários. É assim que eles pretendem combater o welfare state da esquerda.]
Mas eu sou a menor minoria do mundo: um indivíduo. Quem fala por mim? Quem me defende? Quem protege meus direitos? Ninguém. Eu sou considerado um objeto de sacrifício, e eu serei sacrificado no momento e lugar que vocês escolherem. [Lembrando que o autor dirige o texto aos esquerdistas e conservadores.] Pode ser um Esquerdista que tome meu dinheiro, minha propriedade, minha vida; pode ser um Conservador. Mas ele será tomado. E quando o for, será considerado um ato moral devido às falsas crenças mencionadas acima. [Exagero no que diz respeito à vida? Talvez. Mas não para os soldados americanos. Durante o governo Bush, o presidente afirmava orgulhosamente que a guerra no Oriente Médio era para o bem dos invadidos, que era uma “libertação”, que a Democracia seria espalhada naqueles lugares, etc, etc. A maioria dos conservadores aplaudiu! Nesses confrontos, os soldados americanos têm de lutar de acordo com regras de combate (engaging rules) que os deixam muitíssimos mais vulneráveis, para não dizer que os impedem de vencer. Continua...]
[Continuando: Isso porque os soldados estão lá pelo bem das populações locais. Esse é um sinal claro de que para o governo americano a vida deles vale menos que a dos civis estrangeiros, e é o resultado da moral altruísta aplicada à política externa.]
E você, gentil leitor, que está lendo isso com seus olhos individuais e entendendo com sua mente individual: o que faz você pensar que será poupado? Vocês Esquerdistas e Conservadores estão tão ocupados tentando sacrificar uns aos outros que não se dão conta que ambos estão tropeçando para o precipício político do Estatismo generalizado e do sacrifício de todos para todos. [Muitos capitalistas religiosos podem afirmar: Eu não! Eu não defendo Estatismo generalizado! E eu acredito. Mas dentro do contexto americano, o Partido Republicano estava indo nessa direção, pelo menos até a repetida e merecida derrota das últimas eleições.]
Se vocês querem acabar com este infindável ciclo de sacrifício, vocês têm de começar pela rejeição da idéia de que o homem é irracional e mau por natureza; que sacrifícios são virtuosos e práticos; que o propósito do governo é arbitrar sacrifícios. Aceitem e mantenham a razão, o individualismo e o capitalismo como os seus mais altos ideais. Assim vocês serão capazes de viver uma vida livre, próspera e feliz fora do alcance tanto dos Esquerdistas quanto dos Conservadores.
David Gulbraa é um escritor em Orange County, Califórnia
(3) Para uma exposição completa da corrupção intelectual do atual movimento conservador americano e de suas ideologias de “Conservadorismo com Compaixão” e “Neoconservadorismo” [http://www.theobjectivestandard.com/issues/2006-fall…ervatism.asp]. A leitura desse texto é altamente recomendada!