À medida que se espalha a consciência da debacle total das nossas universidades públicas e privadas, cresce o número de brasileiros que, valentemente, buscam estudar em casa e adquirir por esforço próprio aquilo que já compraram de um governo ladrão – ou de ladrões empresários de ensino – e jamais receberam.
Quase dez anos atrás a Fundação Odebrecht – no mais, uma instituição admirável – me perguntou o que eu achava de uma campanha para cobrar do governo um ensino de melhor qualidade. Respondi que era inútil. De vigaristas nada se pede nem se exige. O melhor a fazer com o sistema de ensino era ignorá-lo. Se queriam prestar ao público um bom serviço, acrescentei, que tratassem de ajudar os autodidatas, aquela parcela heróica da nossa população que, de Machado de Assis a Mário Ferreira dos Santos, criou o melhor da nossa cultura superior. O meio de ajudá-los era colocar ao seu alcance os recursos essenciais para a auto-educação, que é, no fim das contas, a única educação que existe. Cheguei a conceber, para isso, uma coleção de livros e DVDs que davam, para cada domínio especializado do conhecimento, não só os elementos introdutórios indispensáveis, mas as fontes para o prosseguimento dos estudos até um nível que superava de muito o que qualquer universidade brasileira poderia não só oferecer, mas até mesmo imaginar.
Minha sugestão foi gentilmente engavetada, e, com ou sem campanha de cobrança, o ensino nacional continuou declinando até tornar-se aquilo que é hoje: abuso intelectual de menores, exploração da boa-fé popular, crime organizado ou desorganizado.
Tive a sorte de adquirir esse critério pelo exemplo vivo do meu professor, Pe. Stanislavs Ladusãns. Quando ele atacava um novo problema filosófico – novo para os alunos, não para ele –, a primeira coisa que fazia era analisá-lo segundo os métodos e pontos de vista dos filósofos que tinham tratado do assunto, em ordem cronológica, incorporando o espírito de cada um e falando como se fosse um discípulo fiel, sem contestar ou criticar nada. Feito isso com duas dúzias de filósofos, as contradições e dificuldades apareciam por si mesmas, sem a menor intenção polêmica. Em seguida ele colocava em ordem essas dificuldades, analisando cada uma e por fim articulando, com os elementos mais sólidos fornecidos pelos vários pensadores estudados, a solução que lhe parecia a melhor.
A coisa era uma delícia, para dizer o mínimo. Num relance, compreendíamos o sentido vivo daquilo que Aristóteles pretendera ao afirmar que o exame dialético tem de começar pelo recenseamento das “opiniões dos sábios” e tentar articular esse material como se fosse uma teoria única. Cada filósofo tem de pensar com as cabeças de seus antecessores, para poder compreender o status quaestionis – o estado em que a questão chegou a ele. Fora disso, toda discussão é puro abstratismo bocó, opinionismo gratuito, amadorismo presunçoso.
A conclusão imediata era a seguinte: a filosofia é uma tradição e a filosofia é uma técnica. Chega-se ao domíno da técnica pela absorção ativa da tradição e absorve-se a tradição praticando a técnica segundo as várias etapas do seu desenvolvimento histórico.
Note-se a imensa diferença que existe entre adquirir pura informação, por mais erudita que seja, sobre as idéias de um filósofo, e levá-las à prática fielmente, como se fossem nossas, no exame de problemas pelos quais sentimos um interesse genuíno e urgente. A primeira alternativa mata os filósofos e os enterra num sepulcro elegante. A segunda os revive e os incorpora à nossa consciência como se fossem papéis que representamos pessoalmente no grande teatro do conhecimento. É a diferença entre museologia e tradição. Num museu pode-se conservar muitas peças estranhas, relíquias de um passado incompreensível. Tradição vem do latim traditio, que significa “trazer”, “entregar”. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido. A tradição filosófica é a história das lutas pela claridade do conhecimento, mas como o conhecimento é intrinsecamente temporal e histórico, não se pode avançar nessa luta senão revivenciando as batalhas anteriores e trazendo-as para os conflitos da atualidade.
Muitas pessoas, levadas por um amor exagerado à sua independência de opiniões (como se qualquer porcaria saída das suas cabeças fosse um tesouro), têm medo de deixar-se influenciar pelos filósofos, e começam a discutir com eles desde a primeira linha, isto quando já não entram na leitura armadas de uma impenetrável carapaça de prevenções.
Com o Pe. Ladusãns aprendíamos que, no conjunto, as influências se melhoram umas às outras e até as más se tornam boas. Incorporadas à rede dialética, mesmo as cretinices filosóficas mais imperdoáveis em aparência acabam se revelando úteis, como erros naturais que a inteligência tem de percorrer se quer chegar a uma verdade densa, viva, e não apenas acertar a esmo generalidades vazias.
Algumas regras práticas decorrem dessas observações:
1. Quando você se defrontar com um filósofo, em pessoa ou por escrito, verifique se ele se sente à vontade para raciocinar junto com os filósofos do passado, mesmo aqueles dos quais “discorda”. A flexibilidade para incorporar mentalmente os capítulos anteriores da evolução filosófica é a marca do filósofo genuíno, herdeiro de Sócrates, Platão e Aristóteles. Quem não tem isso, mesmo que emita aqui e ali uma opinião valiosa, não é um membro do grêmio: é um amador, na melhor das hipóteses um palpiteiro de talento. Muitos se deixam aprisionar nesse estado atrofiado da inteligência por preguiça de estudar. Outros, porque na juventude aderiram a tal ou qual corrente de pensamento e se tornaram incapazes de absorver em profundidade todas as outras, até o ponto em que já nada podem compreender nem mesmo da sua própria. Uma dessas doenças, ou ambas, eis tudo o que você pode adquirir numa universidade brasileira.
2. Não estude filosofia por autores, mas por problemas. Escolha os problemas que verdadeiramente lhe interessam, que lhe parecem vitais para a sua orientação na vida, e vasculhe os dicionários e guias bibliográficos de filosofia em busca dos textos clássicos que trataram do assunto. A formulação do problema vai mudar muitas vezes no curso da pesquisa, mas isso é bom. Quando tiver selecionado uma quantidade razoável de textos pertinentes, leia-os em ordem cronológica, buscando reconstituir mentalmente a história das discussões a respeito. Se houver lacunas, volte à pesquisa e acrescente novos títulos à sua lista, até compor um desenvolvimento histórico suficientemente contínuo. Depois classifique as várias opiniões segundo seus pontos de concordância e discordância, procurando sempre averiguar onde uma discordância aparente esconde um acordo profundo quanto às categorias essenciais em discussão. Feito isso, monte tudo de novo, já não em ordem histórica, mas lógica, como se fosse uma hipótese filosófica única, ainda que insatisfatória e repleta de contradições internas. Então você estará equipado para examinar o problema tal como ele aparece na sua experiência pessoal e, confrontando-o com o legado da tradição, dar, se possível, sua própria contribuição original ao debate.
É assim que se faz, é assim que se estuda filosofia. O mais é amadorismo, beletrismo, propaganda política, vaidade organizada, exploração do consumidor ou gasto ilícito de verbas públicas.
Esse tópico é de interesse (quase) exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia On Line, outros alunos e ex-alunos do professor Olavo de Carvalho. Tenho visto pessoas "boiando" no assunto e dando palpites (críticas) sem ter noção do que se trata. Mãos à obra. Comentem.
O autodidatismo é muito mau visto nos meios acadêmicos, como não deve ter sido sempre assim, seria interessante tentar estabelecer quando e onde surgiu esse "preconceito" e qual a finalidade em enviar toda a população se possível para os bancos escolares e universitários, com autorização do Estado para ensinar e com currículos também estabelecidos ou aprovados pelo Estado. Alguns intelectuais da Revolução Francesa (se não me engando Saint Just entre eles, esse político) já cogitavam de separar os filhos dos pais quando esses completassem 5 anos para e enviá-los para instituições do Estado que iria criá-los e educá-los. Do ponto de vista estrutural, isso é complicado de fazer e a idéia foi abandonada, em todo caso quem controla a educação é o Estado, o que muda pouco do plano inicial.
Tentei discutir isso com um amigo meu (advogado) e ele disse que as pessoas têm que aprender (estudar em estabelecimentos de ensino) para não serem enganadas pelos políticos. Está aí a prova que as Universidades brasileira emburrece os alunos.
Pois é, financiar um autodidata não dá marcketing para a Odebrecht, já financiar uma Universidade como a USP, por exemplo, eles podem se gabar e sai no jornal. Existe também a pressão ideológica sobre o empresariado. A coisa tá fu...
Financiar a USP não, financiar um projeto da USP. Existe milhares de movimentos (ideológicos) e projetos sociais pelo Brasil funcionando em parte com a grana de grandes empresas. Relembrando Lênin: "A burguesia tece a corda com que será enforcada". A irmã de Airton Senna que não é boba, entrou na fila e anda a angariar dinheiro junto ao empresariado para sustentar o projeto dela para a melhoria do ensino básico.
Acho curioso o autodidatismo ser mau visto nos meios acadêmicos. Acho que isso é mais o discurso do que a prática. Sem auto didatismo não haveria o pouco que sai da academia brasileira. Minha experiência na USP foi de que o aluno precisava frequentemente fazer uma escolha entre estudar e assistir aula. Era difícil fazer os dois. A maioria preferia sair para beber ou estudar, raramente assistir aula. Não sei se a universidade pública brasileira é assim como um todo, mas nas que frequentei a ênfase era na sua capacidade de se virar. A gente aprendia a estudar na faculdade por abandono dos professores mesmo. Ninguém pegava na sua mão e te explicava como fazia. Minha sorte na universidade foi que encontrei muita gente arrogante o suficiente para desprezar o que os professores ensinavam e ir beber ao invés de ficar lá bebendo cada palavra. Estas más influências me ajudaram a colocar as coisas em perspectiva e procurar aprender de quem tinha algo a ensinar.
O discurso de que a universidade é necessária e importantíssima é meramente uma maneira de os professores se justificarem enquanto classe de funcionários do estado. Poucos fazem algo realmente interessante que você tem que assistir e aproveitar em aula.
O negócio é que a universidade em geral acabou por sair dos contornos que tinha no começo, quando só ia quem estava interessado em aprender alguma coisa, e virou uma necessidade quase burocrática para você ocupar uma certa vaga e alcançar uma certa posição social. Trocou-se o conteúdo pela forma, e é assim que se acaba com uma instituição.
[Acho que era o Brian Magee que comentava que os alunos mais brilhantes que ele teve eram frequentemente aqueles com menos interesses pelo que estava se passando nas próprias vidas acadêmicas].
Não é uma questão de impossibilidade e sim de improbabilidade. Talvez um gênio possa passar pelo "Lições de Cirurgia Sem Mestre" e se tornar um ás no bisturi, mas eu não apostaria minha vida na possibilidade de topar com tal prodígio: exigiria um cirurgião formado, e de preferência com mestrado, doutorado e ótimas referências no métier. Invejo sua temeridade, hhheehheh!
E talvez você tenha me entendido mal: não considero o autodidatismo necessariamente ruim, nem uma formação acadêmica tradicional uma garantia intelectual per se. E note que num sentido amplo, dentro ou fora da universidade, tudo é autodidatismo, hehehehhe...
"Saber epistemológico, ciência pura, em binômio com a prática, essa sim só com autodidatismo - o que nao reitra a figura do mestre."
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"Talvez um gênio possa passar pelo "Lições de Cirurgia Sem Mestre""
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Pela leitura desses dois trechos acho que está havendo uma confusão sobre o significado de autodidatismo. O Olavo, embora se defina como um autoditada sempre fala sobre os seus mestres, como falou nesse artigo sobre o Pe. Stanislavs.
A confusão não é exatamente sobre o significado da palavra, mas sobre a amplitude do significado. Em sentido estrito, o autodidata é aquele busca o conhecimento sem a intermediação de um mestre, tendo como orientador seu próprio discernimento. Num sentido mais amplo - uma vez que o aprendizado é, em última instância, uma busca pessoal, ou assim suponho - tudo é autodidatismo. Acho que o caso do Olavo se situa entre estes extremos.
Olavo já disse que depois de Sócrates, Platão e Aristóteles, pouca coisa surgiu que possa ombrear com os antigos. Mas como classificar Nietzsche, Kant etc?
Eles estariam abaixo dos 3 grandes da filosofia grega, mas, por falta de definição (já que "sub-filósofo", "semi-filósofo" são termos inexistentes) são também denominados filósofos.
Por outro, Olavo também disse que a filosofia de Nietzsche é formada de sentenças imperativas, as quais não permitindo a articulação dialética, inviabilizam, portanto, a prática filosófica.
É claro que também não faz sentido estudar Filosofia, ignorando a relevância de Nietzsche.
Generalização besta. Me responda sinceramente: você faria uma operação cardíaca com um médico autodidata?
Claro que não, pelo mesmo motivo de não levar um automovel para um chambão consertar. O problema é o seguinte, segundo Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, o chamado "Ensino Superior" no Brasil não passa de escolas para formação de profisionais para serem servidores do Estado, ou seja, técnicos. O Ensino Superior é algo que tem que ser resgatado, pois já não existe mais. As Universidades só estão aí para criar burocratas, as exceções são áreas altamente especializadas nas ciências exatas e olhe lá. Ainda assim essas áreas são para formar profissionais que querem fazer carreira (Médico do SUS talvez), nada à criticar eles, mas também não passam de técnicos, mesmo os neurocirurgiões. O brasileiro só pensa em titulação e bacharéis são chamados de doutores. É incrível o espanto que ainda causa um sujeito ser formado, mesmo por uma faculdade chinfrim.
Me parece que foi naquela entrevista "Sossegue, o mundo já acabou" que OdeC comenta que todas as especializações [acadêmicas] são dedobramentos de algum problema filosófico. Estamos, então, a nos preocupar com os galhos e ignorando solenemente a raiz dos problemas. Daí a importância da Filosofia e de um esnino realmente superior.
Como a Filosofia entrou para o currículo do ensino médio dei uma folheada em um deles e o que se ensina é um pouco da história da Filosofia e alguns conceitos. Até Marx está lá, o pior é o de sociologia, Marx na capa.
Pois é Marcionei, e indo mais longe, se o ensino não fosse obrigatório, sua qualidade subiria imediatamente, menos professores mais qualificados e mais alunos que realmente quisessem aprender. Os modelos modernos de ensino falharam, ainda assim quem o defende canta sucesso. Não é o que dizem os testes, mas e daí?
As violências praticadas contra os professores ultimamente em sala de aula mostra que as escolas são ambientes hostis, isso acontece por empilharem alunos. Quem está pagando o pato são os professores que chegam em casa psicologicamente esgotados (ou feridos). Interessante notar que a categoria não dá a mínima importância para isso. Seus protestos e projetos sempre estão voltados para mais verbas e aumento de salários. Se um governador é oposição do PT, daí a coisa engrossa mesmo. Não considero professor levar pancada na cabeça por aluno uma boa notícia, mas eles merecem por incentivarem indiretamente para essa situação.
Esse protesto não era para defender interesses dos alunos e sim para os interesses do Cpergs, basta olhar o projeto. Os alunos não foram lá por livre espontanea vontade.
Se você estudar a Teoria dos Quatro Discursos talvez pense o o contrário. Um economista nunca vai ter certeza de como o mercado vai reagir e as decisões econômicas são tomadas em cima de certezas bastante frágeis, temos que levar em conta também do aspecto psicológico que envolve o mercado. Os mais jovens não tomaram conhecimento, mas no Brasil até uns anos atrás, saia um pacote de medidas econômicas por semena, como se fossem uma solução mágica (o que de fato era), para as resolver as crises econômicas brasileiras. Em algum lugar no SF o professor aborda justamente essa questão que são as decisões que os indivíduos tem que tomar todos os dias, baseados apenas na solidez do discurso retórico, vindos de outras pessoas ou de nós mesmos e essas decisões podem causar um bom prejuízo. A última queda das bolsas é a prova disso, os gênios dos escritórios de corretagem não previram a bancarrota. Aristóteles, nesse caso, teorizou essas possibilidades de erros de decisão, incontornáveis é bem verdade devido a limitação do tempo, bem antes de existir a economia moderna.
É acreditar piamente na capacidade humana de compreender a realidade -- e apostar a vida nessa crença. A apoteose da razão começa com um ato de fé. Hegel já dizia isso: sem a fé no poder do espírito, nada de investigação filosófica. A filosofia, como o reino dos céus, não foi feita para os tímidos e recalcitrantes. Mas a essa primeira aposta segue-se um compromisso, que é o de nada ignorar da realidade propositadamente. O filósofo tem de abrir-se inteiramente à variedade dos fatos que se apresentam, sem se refugiar em explicações prematuras. Em vez de inventar explicações, tem de esperar que a realidade as sugira e as comprove, mesmo que, nessa espera, ele arrisque ficar quase louco na confusão dos dados. Por isso não gosto de chamar os filósofos de "pensadores". Pensar é fácil. O difícil é pensar as coisas como são – e para isto é preciso contrariar muitas vezes o nosso pensamento, obrigá-lo a ir para onde não quer. Por isso, também, não vejo diferença substancial entre filosofia e ciência. As ciências são apenas estabilizações provisórias de certas investigações filosóficas, para as quais se encontrou um método consensual que pode ser praticado uniformemente por toda uma comunidade, mas que, de tempos em tempos, são dissolvidas de novo no mar do questionamento filosófico profundo. (OdeC)
As descobertas científicas portanto, não nasceriam de um esforço imaginativo? Nesse caso, todas as ciências surgem de especulações filosóficas anteriores a elas.