Estive pensando hoje, todas ou quase todas as sociedades do mundo antigo tinham um conjunto de leis da qual era atribuída origem divina.
Não vejo no cristianismo qualquer conjunto de leis de origem de divina destinado a sociedade, me parece que o cristianismo tem uma ênfase muito grande no individuo, mas muito pouca sobre a sociedade de forma que isso me parece poder ser caracterizado como uma inferioridade.
Gostaria de saber se tal raciocínio procede e se existe no cristianismo alguns preceitos divinamente revelados para a formulação de leis.
Há a lei de Moisés, mas desde S. Paulo ela foi considerada mera aplicação circunstancial da Lei Divina (a circunstância era a separação entre o povo judeu e os outros povos), e só serviu como inspiração, para a organização das sociedades cristãs, não sendo normativa. Por isso os cristãos tiveram que utilizar a herança cultural e social greco-romana para criar suas sociedades (ou melhor, não houve "criação" de novas sociedades, mas simplesmente transformação das já existentes). Essa herança foi utilizada também na formulação dos dogmas cristológicos e trinitários (certos conceitos como "hipóstase", "ousia", "homoousios", "Trindade", foram essenciais e não foram dados pela revelação evangélica). Daí o Cristianismo como o conhecemos hoje ser marcado por essa herança greco-romana.
É diferente do Islã, onde os primeiros crentes tiveram que criar sua própria "pax islamica".
é o sermão da montanha ; ali esta toda a ética de Jesus Cristo.
Para um cristão ela (a Lei de Cristo) existe numa continuidade com a Lei Antiga (os dez mandamentos)mas que não significa uma pura repetição da mesma mas sua plenitude e aprofundamento pois a Lei de Cristo tem como especificidade a caridade.
De fato o Cristianismo não tem um programa de leis a serem aplicadas a formatação de um regime político , iso por que Cristo veio anunciar e realizar uma salvação espiritual , diferente do êxodo que foi uma libertação politica e que tinha por finalidade forjar uma civilização específica (a Hebraica) um povo de Deus.
O Cristianismo é universalista...sua mensagem se destina a todos os povos diferentemente do judaísmo que era uma religião nacional ;isso fica claro quando os Apostólos no Concílio de Jerusálem definiram que para se tornar cristão era necessário apenas o batismo não havendo a obrigação de se circuncidar pois a circunsição era sinal de pertença ao povo judeu.
Em termos politicos o Cristianismo ensina que qualquer regime politico (seja uma monarquia , uma república aristocrática ou mesmo uma democracia ) deve ser guiado pela Lei Natural que é o reflexo da lei de Deus em nossas consciências ; o cristianismo não teve uma história como a do Islã (que nasce como religião vinculada a política e a guerra pela unificação da Arábia)por isso não existe nele esta preocupação em delimitar quais as leis específicas de uma sociedade; isso não é inferioridade mas supoerioridade pois permitiu a difusão do cristiansimo em todas as culturas enquanto que religiões como o Islã , o Judaísmo e o Hinduísmo estão totalmente ligados a um tipo de experiência cultural.
como na Idade Média ele se viu na necessidade de apelar para a herança greco romana cristianizando-a; isso foi mais patente no século 13 quando São Tomás se põs a pensar sobre as condições de uma sociedade cristã ou cristandade usando a herança Aristotélica.
Assim também ocorreu no plano interno da Igreja pois quando ela se institucionalizou após a Pax de Constantino , tornando-se uma sociedade jurídica foi imprescindível a utilização do direito romano para estabelcer uma ordem interna - esse processo levou a cosntituição de um direito canônico progressivamente aumentado ao longo dos séculos e que viveu sempre sob o influxo do evangelho e da inspiração da filosofia jurídica latina.
Esse processo de absorção da herança greco-romana começa imediatamente que houve contato entre cristãos e a sociedade romana, e já estava em plena realização no séc. IV.
Essa característica então é uma superioridade ou uma inferioridade? Implica ser uma revelação "incompleta", que teve que "romanizar-se", ou implica em universalidade?
Se todas as pessoas seguissem 100% uma vida virtuosa, por livre e espontanea vontade, um estado-nacional de leis burocráticas e rigorosas seria algo mininamente necessário.
Até no paraíso existiam regras pra regulamentar a relação entre Adão e Eva. Não estamos no paraíso, as pessoas não vão virar santas do dia pra noite, e as sociedades precisam de regras para se organizar. De onde tiramos esse tipo de orientação (para a organização da sociedade)? Por que esse tipo de orientação está ausente da revelação evangélica (enquanto era presente na revelação mosaica e é na revelação islâmica)? Essa é a pergunta do tópico.
Porque Cristo se proecupou em mostrar o caminho para o céu e não paraa boa convivencia ou virtude terrenas.
Perguntado sobre isso, disse 'a cesar, o que pe de cesar', ou seja, conviva, obedeca leis, etc... mas nunca macule a si mesmo naquilo que eu ensinei, pois 'dai a deus o que é de deus'
Jesus, S. Paulo, e seus discípulos, tinham diante de si uma herança greco-romana, e uma sociedade já organizada, que podiam ser "aproveitadas". Mas Moisés e Muhammad não tinham isso.
E olhando a questão pelos dois lados, essa característica do Cristianismo pode significar que ele é universal, servindo pra todas as épocas e lugares, como pode significar que ele é incompleto, estando em certa medida limitado ao mundo greco-romano onde se expandiu inicialmente.
"Não vejo no cristianismo qualquer conjunto de leis de origem de divina destinado a sociedade, me parece que o cristianismo tem uma ênfase muito grande no individuo, mas muito pouca sobre a sociedade de forma que isso me parece poder ser caracterizado como uma inferioridade".
O erro do raciocínio consiste em pensar o cristianismo como proposta social, o que jamais foi. O reino dele não é deste mundo, ao contrário de propostas sociais.
Bem, a minha resposta é próxima das já dadas aqui.
O Cristianismo não é uma proposta social, e sim uma religião em todo o seu significado. Quando uma religião se propõe a legislar sobre atitudes, digamos, terrenas, é porque as condições a obrigam, como aconteceu com o Judaísmo.
O Cristianismo foi desde o início uma religião que já contém em si todos os pressupostos necessários para ser o arcabouço da lei moral e da ética que se desenvolverão "sobre" ela. Esta é precisamente a religião mais completa, porque será o fundamento em TODAS as circunstâncias mundanas que advierem, independentemente de quais sejam. Ela não precisa nem "se adaptar" a essas circunstâncias, o que seria um absurdo completo, e nem impor outras, dissociadas da realidade, como acontece com o Islam - que se tornou uma tirania anacrônica.
O Cristianismo é tão elevado que simplesmente provê o arcabouço adequado, sem necessidade de interferir em qualquer circunstância terrena ou secular. Os cristãos foram cristãos em inúmeras diferentes circunstâncias, e a luminosa chama do Cristianismo iluminou a humanidade na Antiguidade, na Idade Média, e até nossos dias. Ninguém precisou se isolar para exercê-lo, a não ser quando e onde ele foi proibido: ou seja, por circunstâncias externas, não intrínsecas a ele. Este é o significado de "meu Reino não é deste mundo" - é um Reino Transcendente, que existe internamente em cada cristão unido ao Cristo.
O Cristianismo é de fato comparável à luz, que é capaz de se derramar sobre todas as coisas, e ao se derramar sobre elas possibilita a visão de todas, quaisquer que sejam, e cria uma específica interação com elas. NENHUMA OUTRA religião é capaz da mesma coisa: fornecem mapas específicos, reconheço - mas esses mapas como que mapeiam o escuro, de modo que se alguma coisa for "retirada" ou "colocada" no plano material ou terreno, o mapa se torna inadequado, difícil de seguir, porque ele não previu isto.
Por isto tantas regulamentações precisam ser "anexadas", tantos minuciosas regras precisam ser seguidas e reinterpretadas, para dar conta de cada circunstância nova.
Já o Cristianismo, a luz constante, mantém o cristão como que ENXERGANDO as coisas, capaz de se desviar daquelas das quais é preciso se desviar, sem dúvida e sem medo.
Por isto também Jesus disse - Eu sou o Caminho.
E o Caminho independe de qualquer outra coisa, simplesmente EXISTE além e acima delas.
Concordo que a proposta do Cristianismo não seja social, mas vale lembrar que a religião que conhecemos hoje que leva este nome de maneira nenhuma desde o início foi assim. A chamada igreja primitiva, a seita dos Nazarenos, tinha uma proposta estritamente social, nada mística, nada de reino do outro mundo, já que era uma das várias seitas judaicas do primeiro século que faziam resistência à opressão romana. Olhe para EUA e Iraque de hoje e você verá como era a Roma e Israel de ontem.
O Cristianismo mudou sua ênfase por causa de Paulo, que ao pregar na diáspora sincretizou à ideologia política original dos nazarenos elementos gnósticos e estranhos ao judaísmo de Jesus. Não estou dizendo que o Cristianismo seja uma má religião, de forma alguma, mas não faz sentido afirmar que o Cristianismo foi assim desde o início. Jesus era judeu, não europeu.
Podemos dizer que o Cristianismo tenha uma proposta diferente, mais mística, mas de forma alguma melhor que outras religiões que precisam anexar regras e regulamentações minuciosas que precisam ser seguidas e reinterpretadas, para com isso dar conta do recado, claramente se referindo ao judaísmo.
Se fôssemos analisar cuidadosamente e criteriosamente eu poderia dizer o contrário: é o judaísmo que é o arcabouço da lei moral e da ética, visto que, diferentemente do cristianismo onde a ênfase é em um reino de outro mundo, o judaísmo é mais focado no aqui e agora, possuindo, assim, um fundamento em TODAS as circunstâncias mundanas melhor e mais desenvolvido.
Se o cristianismo foca mais nesta morada celestial é óbvio supormos que o seu arcabouço de dispositivos para controlar e domar o ser humano aqui, dentro do planeta, seja, no mínimo, menos desenvolvido do que nas religiões legislativas, como o judaísmo e o islamismo.
Volto a dizer, o Cristianismo é apenas diferente, não melhor. Judeu enxerga tão bem quanto um cristão.
"O Cristianismo mudou sua ênfase por causa de Paulo, que ao pregar na diáspora sincretizou à ideologia política original dos nazarenos elementos gnósticos e estranhos ao judaísmo de Jesus. Não estou dizendo que o Cristianismo seja uma má religião, de forma alguma, mas não faz sentido afirmar que o Cristianismo foi assim desde o início. Jesus era judeu, não europeu".
Eu pensava que Paulo tb era judeu...
Curiosidade: qual era a "política original dos nazarenos"? Quem são os nazarenos? Os apóstolos e seus fiéis?
Restaurar o tabernáculo de Davi caído; isto é, fazer com que o messias governasse novamente sobre as 12 tribos unidas, como era no tempo deste rei (após Salomão a nação se dividiu e uma parte sumiu). Para isso, era preciso primeiro expulsar os romanos.
Tiago, mesmo sem aparecer nos evangelhos, torna-se líder da igreja primitiva após a morte de seu irmão, demonstrando que seus discípulos consideravam Jesus o rei messias de Israel (mesmo não sabendo se o próprio se considerava assim), e Tiago o sucessor da dinastia. Após a morte de Tiago no ano 62, outro irmão de Jesus e Tiago, Simeão, torna-se o novo líder.
Após a queda de Jerusalém no ano 70 a influência da igreja primitiva sobre as comunidades da diáspora perde força, eles empobrecem, e seu restante torna-se a seita dos Ebionitas. As comunidades da diáspora, livres agora, distanciam-se de vez da idéia original.