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Sobre o uso da linguagem...

Iniciado por leandro_4 em 02/06/2009 · 5 mensagens

leandro_4#1
Abaixo vai um email que enviei para um grupo de discussões, gostaria de saber a opinião da galera sobre o exposto.
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Caro Pesky,

Confesso que ao ler sua breve passagem já identifiquei um embolotamento total da coisa.

Idéia é uma coisa.
Conceito é outra.
Sensações é ainda outra coisa.
e
Experiências uma outra.

Vou tentar esclarecer exemplificando.

Um sujeito, que é desenhista, anda pelo mundo olhando as coisas e reparando nelas.
Eis que o sujeito anda pela rua e vê uma bela mulher, da qual pensa em fazer um desenho.
Quando o sujeito chega em casa, ele não só não se lembra exatamente de como é a mulher, mas ele terá que se lembrar da memória que tem.
Ou seja, a experiência direta é infinitamente mais rica do que a memória do sujeito. Mas quando ele precisa relembrar aquilo, a perda é ainda maior.
Eis que o sujeito chega em casa e pega seu papel e seu lápis para desenhar.
Não só a imagem da mulher será afetada pela perda qualitativa da memória da memória, como também dos materiais que ele se utilizará.
Então a espessura do papel, a ponta do lápis, a pressão da sua mão etc, tudo isso vai influenciar na representação da imagem que ele possui na mente.

Fazendo o salto analogicamente:
leandro_4#2
Alguém possui uma experiência sensorial concreta (intuição sensível), ou seja, chegam-lhes através dos sentidos os dados exteriores. Ele capta isso, já tendo perda de qualidade, pela retenção na memória, a isso chamo de fantasma, que é a imagem da experiência que o sujeito teve. Quando ele precisa lembrar desse fantasma não é O fantasma que ele traz à frente, mas a memória dele. A esse conjunto de fantasma e memória eu chamo (intuição psicológica). Mas o sujeito sabe que a imagem que possui e a memória que retém não foi criada por ele do nada, ela corresponde efetivamente a alguma coisa do mundo exterior à sua mente. A essa intuição de que as coisas que ele se refere em pensamento se dão no mundo real, chamo de (intuição racional).

Vejamos que ainda nem sequer chegamos a dar um A em forma linguística. Um bebê desprovido de capacidade de falar é capaz de ter as três intuições e quando lhe tiram a chupeta, esticar o braço para pegá-la. E olha que o coitado do bebê ainda nem sabe o que é um A. Para um bebê o som da porta fechando é análogo ao som da mãe falando. Para ele a linguagem ainda não é um algo separado do restante da realidade.

Bom, quando crescemos e vamos aprendendo a linguagem temos duas formas de apreendê-la. Uma é quando somos estimulados a usar a linguagem para referir algo concreto exterior. Outro modo é ao nos referirmos às nossas memórias ou aos nossos fantasmas. Até pq a coisa fica óbvia nesse ponto. Se quando eu pronuncio a palavra "cadeira" eu me refiro ao objeto concreto, ao conjunto de tensões, ao círculo de latência do mundo real, é uma coisa. Se por um acaso eu uso a palavra "cadeira" para me referir à MINHA idéia do que seja uma cadeira é outra coisa.
leandro_4#3
Veja, o que chamo de idéias é a articulação mental do discurso que substitui a experiência, ou ao conjunto triplo de intuições referidos por alguma coisa. Ou seja, ao invés de dizer cadeira em referência ao mundo concreto, diz-se em referência à idéia que se possui. Então de repente todo mundo conversa sobre "cadeira" em referência não às cadeiras mesmo, mas as suas próprias idéias de cadeira. Óbvio que se tratando de uma cadeira a coisa não complica tanto, (mas digo, é complicada já) agora quando colocamos substâncias abstratas a coisa é pior ainda.

Afinal quase todo mundo já teve a experiência direta de uma cadeira. O problema aqui está na ponta do lápis, na espessura do papel e na pressão da mão do sujeito. Ou seja, na forma como ele vai expressar isso exteriormente. Quando temos uma linguagem porca, destruída e ideologicamente deturpada, qualquer forma de expressão linguística cai num furdunço que da dó. Não se pode mais ter uma conversa decente hoje em dia, pois os termos, as construções e as formas de expressão estão todas inveazadas pelo discurso ideológico.

Se a expressão de experiências concretas já é difícil, você pense no que é a expressão de substâncias abstratas como política, democracia, direita ou esquerda. Tenho plena convicção de que hoje 99% dos nossos cidadãos falam de política, democracia, esquerda e direita, sem terem um referencial concreto que seja daquilo, ou seja, eles falam de NADA, eles falam do discurso montado ideologicamente que possuem na mente. Ninguém TEM a experiência na qual se basear para proferir essas palavras. Se a linguagem é uma moeda de troca das experiências, a linguagem virou a moeda vazia, a qual cada um dá o seu valor próprio, um escambo imaginário. "Olha eu tenho aqui duas idéias que eu acho que são essas", "eu troco por três das minhas".
leandro_4#4
A isso dou o nome de idéia. A coisa vazia, sem substância, enviezada pelo discurso ideológico. Já um conceito é mais complicado. Um conceito é uma composição voluntária de uma articulação do real. Veja, uma idéia não precisa de lastro, um conceito já precisa. Um conceito se baseia nalgo como o real, uma idéia basta ser dita para "valer".

Ao conjunto de experiências primárias eu chamo símbolos. Os símbolos são as estruturas pelas quais captamos o mundo, pois o mundo só é enquanto símbolo. Uma cadeira não pode ser concebida somente pela forma física. Mas ela é primariamente concebida pelo conjunto de relações que possui com os outro objetos e conosco. Sabemos muito mais o que é uma cadeira porque sabemos que nela não podemos bater frutas e fazer uma vitamina. Nós podemos sentar numa cadeira, não fazer vitaminas.

Ao captar o real simbolicamente nós nos damos bem. Ao articulá-los mentalmente já se fodem um pouco, ao expressar isso verbalmente já não existe nada que sustente o discurso.

Terminando com Voegelin, ele diz que a função do filósofo, pelo menos em seu tempo, era resgatar o uso efetivo da linguagem ao nível da experiência concreta. Traçando os campos dos termos para que eles sejam efetivamente substanciados e não um mero flatus vocis.

Abraços

leandroDiniz
leandro_4#5
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