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Coletivismo, uma aberração lógica:

Iniciado por marcel em 05/06/2009 · 14 mensagens

marcel#1
Na primeira metade do séc. XX, muitas revoluções estavam em curso. Nas ciências físicas, Einsten derrubava os conceitos de referencial absoluto e do espaço como mero pano de fundo onde se desenrolavam os fenômenos da natureza para transformá-lo num ente que interage com a matéria e a energia, enquando Heisemberg derrubava as últimas muralhas do determinismo laplaciano ao descobrir que podemos conhecer a posição de uma particula ou sua velocidade, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Na medicina, as descobertas de Pasteur eram largamente aplicadas, revolucionando o conceito do diagnóstico e do tratamento de doenças, antes pouco diferentes do puro curandeirismo. Na engenharia, Santos Dumont e outros pioneiros realizavam o antigo sonho de Da Vinci com suas máquinas capazes de voar, enquanto automóveis cada vez mais potentes e funcionais tornavam a tração animal um anacronismo. Nas artes, Schoemberg e Debussy levavam a harmonia dos sons a caminhos excitantes e inexplorados, enquanto Picasso revolucionava a estética do belo com suas formas unusuais e instigantes.

Era também uma era de turbulências políticas e todas as contradições e tensões resultantes da explosão de idéias no Iluminismo quase dois séculos antes caminhavam rapidamente para um clímax. Os antigos impérios coloniais estavam em seus últimos dias, e a autoridade e prestígio dos antigos aristocratas tinha sido eclipsada pelo poder dos grandes capitalistas. Socialismo e nacionalismo disputavam o imaginário popular como atores principais e antagônicos, em detrimento das antigas idéias. Ambos com forte apelo às massas. Ambos capazes de desencadear grandes paixões e grande morticínio. Ambos coletivistas.
marcel#2
Antes de tudo, precisamos primeiro definir o que seria o coletivismo: reconhecer a existência de uma interdependência entre os seres humanos é um de seus aspectos, mas não basta para definir uma ideologia como coletivista. A Wikipedia define o coletivismo como "O coletivismo é uma doutrina ou sistema social em que os bens de produção e consumo são igualmente distribuídos por cada membro da coletividade." e, ainda que a grande maioria dos coletivismos pregue a distribuição igualitária das riquezas produzidas pelos indivíduos, distribuição de renda por si só não define o coletivismo.

Para entender o coletivismo temos que focar no princípio que o define e não somente os efeitos das aplicações deste princípio. O sufixo -ismo é crucial para este entendimento: por ele podemos inferir que o coletivismo é o culto, a supervalorização do coletivo sobre tudo os entes individuais que formam este coletivo. No coletivismo, o todo é maior e mais importante que a soma das partes. A este coletivo são atribuidas necessidades concretas cuja satisfação é mais urgente que as necessidades individuais, e interesses concretos que se sobrepõem aos interesses dos indivíduos que compõem o grupo. Isso é nítido no Contrato Social de Rousseau, com seu conceito de "vontade geral" como determinante e legitimizador das regras de dada sociedade, às quais os indivíduos deveriam forçosamente se submeter.

Quando o "bem" de um dado grupo é tomado como um fim em si, e não pelas consequências que este "bem" traria a cada membro desde grupo; quando este grupo é considerado em si como a entidade a ser preservada, fortalecida, defendida mesmo em detrimento dos seres humanos que o compõem, está configurado o coletivismo.
marcel#3
O início do séc XX marcou a emergência de vários coletivismos, dentre os quais o socialismo, onde a bem da sociedade era colocado como o único fim legítimo; os fascismos, que defendiam a supremacia da nação; o nazismo, para a qual apenas as necessidades da raça deveriam ser levadas em consideração. Era natural que entrassem em conflito quando os imperativos de seus grupos fossem concorrentes, e disso resultaram os maiores conflitos da história humana, conflitos definitivos e de proporções gigantescas como os interesses dos entes em disputa e como eles próprios, afinal. Não obstante, esses coletivismos eram capazes de cooperar entre si, como demonstra a aliança entre a Alemanha Nazista e a Itália Fascista na II Grande Guerra, e o acordo entre os nazistas e a União Soviética comunista, antes disso.

Não devemos deixar de notar que as piores atrocidades cometidas pelos regimes de inspiração coletivista foram nos próprios países onde estes regimes vigoravam: na Alemanha nazista, cerca de seis milhões de judeus alemães foram assassinados, além de um número não calculado de alemães de origem cigana, eslava, religiosos ou comunistas. Tudo em nome da pureza e da identidade da "raça alemã". A China pode ter tido mais de setenta milhões de habitantes assassinados pela fome, pelas migrações forçadas, pela repressão cultural e religiosa cometida pelo regime comunista para "o bem da sociedade chinesa".
marcel#4
O grande número de vítimas dos regimes coletivistas pode parecer espantoso quando posto em perspectiva com o discurso bem intencionado e até utópico de seus ideólogos, mas não causaria espanto a alguém que vê o coletivismo em sua essência - num sistema onde só os interesses e necessidades de grupo são imperativos, nada mais natural que indivíduos que não se adequassem nesses interesses e necessidades fossem suprimidos pelo "bem do coletivo". O coletivismo inevitavelmente resulta em uma conduta política aberrante e imoral. Poderíamos simplesmente então concluir, como muito se faz: o coletivismo é errado por que é imoral?

Apesar de certamente os regimes baseados no coletivismo merecerem a denominação de imorais, como exposto acima, encerrar a questão dessa forma encerra alguns problemas. Primeiro, estaríamos atacando as ações dos coletivistas e não o princípio que rege estas ações; poderia alguém argumentar que estas ações imorais se deveram essencialmente ao caráter dos líderes destes regimes, ou mesmo ao espírito do tempo em que viveram, não às idéias coletivistas em si? Seria de todo modo uma refutação superficial e inconclusiva. O que tem que ser exaustivamente desnudado é que a imoralidade do coletivismo tem sua origem no erro fundamental das próprias idéias coletivistas.
marcel#5
Passemos a isso, o erro fundamental do coletivismo: um ser humano é um ente concreto e material. Tem consciência de si mesmo e é senhor de seus atos. Seus interesses e ações são decorrentes de suas necessidades materiais e de sua consciência de si mesmo. Um grupo, pelo contrário - seja ele a raça, a sociedade, a família, a classe etc. - é uma abstração, um construto criado pela mente humana, por sua natureza racionando sempre associando e classificando as coisas.

Vejamos o conceito de "raça", por exemplo: perguntando o que seria a "raça alemã" para algumas pessoas diferentes, certamente receberíamos respostas diferentes ou até mesmo contraditórias. Um neonazista provavelmente responderia que é o grupo de descendentes "puros" dos antigos teutônicos; um nacionalista diria que é conjunto dos atuais habitantes da Alemanha, descontados os imigrantes recentes (turcos e outros estrangeiros); um antropólogo provavelmente diria que não existe uma "raça alemã" e sim uma raça "caucasiana nórdica"; um geneticista diria que simplemente não há raças e que esta classificação é um equívoco!

Uma vez que um coletivo é uma abstração e portanto um conceito subjetivo, parece até ridículo que a essa abstração sejam conferidos predicados inerentes a sujeitos concretos, resultando no absurdo de predicados sendo atribuídos a predicados! Lamentavel e paradoxalmente, muitos intelectuais de alto gabarito se deixaram atrair para a armadilha do coletivismo no início do século XX - pessoas que certamente veriam a estupidez e o ridículo em sentenças como "a feiúra precisa de cosméticos caros" mas se embriagavam com slogans do tipo "a raça verde-oliva precisa de um espaço vital para crescer".
marcel#6
O coletivismo perdeu muito de seu apelo com o fracasso do fascismo na II Guerra mundial e depois foi quase tornado um palavrão com a ampla divulgação dos crimes dos regimes socialistas após a queda do Muro de Berlim. Não obstante, se lastimarmos os crimes dos regimes políticos de orientação coletivista sem manter sempre em foco a vigarice intelectual - tomar o abstrato por e acima do objetivo - que é a base essencial de toda forma de coletivismo, haverá sempre o risco destas idéias voltarem a tona, com novos nomes e velhas práticas.
marcel#7
... e, apesar de meu posicionamento político destoar da quase totalidade dos membros da comunidade, achei que esse texto poderia interessar a vocês. 😄
marcel#8
Obrigado pelos comentários, Luttinem! 🙂
tiago_6#9
Eu estava meditando o que Gustavo Corção escreveu nestas belas linhas:

"O coletivismo de que morre o mundo e de que vivem os novos aventureiros é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um: é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos.
[...]
"Quando, porém, se esgota a euforia dessa espécie de atomização social e nas almas pesa a solidão, correm todos a se amontoar, a encher as praçaz públicas levantando ora o braço direito, ora o esquerdo, em sinal de congraçamento; ou no morno contato dos ombros, dos peitos, das nádegas, no trépido aconchego de curral, os homens coletivos sorriem reconfortados, com um sorriso de rua, felizes de terem escapado, por um triz! do pesadelo horrível de terem almas. Falam então de solidariedade humana, isto é, do sentimento de estarem colados uns aos outros, pelos hombros, pelos peitos, pelas nádegas."
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http://penademorteja.wordpress.com/2009/05/31/descob…coletivismo/
wellington_4#10
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[No coletivismo] "os bens de produção e consumo são igualmente distribuídos por cada membro da coletividade"
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Outro problema que surge aí é o seguinte: QUEM será o responsável pela distribuição igualitária? COMO realizar a distribuição igualitária?
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Depois de responder as questões escreva no paredão:
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"TODOS OS MEMBROS DA COLETIVIDADE SÃO IGUAIS
MAS OS RESPONSÁVEIS PELA DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS"
eric_2#11
como eu falei em outra comunidade
Toda ideia coletivista é derivada direta do senhor Marx.
douglas_5#12
Nem todas são de Marx...houve outros coletivistas(utópicos em maioria, "científicos" em minoria)...
wellington_4#13
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Essa palhaçada começou com Grachus Babeuf, o cara da "conspiração dos iguais", na revolução francesa.
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"Friedrich Engels e Karl Marx reconhecem nele um precursor do comunismo e na Conjuração dos Iguais o "primeiro partido comunista". Babeuf é frequentemente considerado o primeiro militante comunista." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_No%C3%ABl_Babeuf )
marcel#14
Marcos Alberto, família é uma abstração. Entendi seu ponto de vista, de qualquer forma. No direito romano o pater familias era, não obstante, um indivíduo.

Douglas, bem frisado.

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