Nós últimos anos os cristãos evangélicos na América do Norte têm experimentado uma transformação política considerável. Até aproximadamente dez anos atrás, muitos evangélicos estavam convencidos que religião e política não se misturam e não deveriam ser misturadas. Hoje, contudo, muitos crêem que Cristianismo e política não podem ser separados.
A maioria dos evangélicos recém-politizados são defensores fundamentalistas da Nova Direita Cristã. Uma pequena minoria está na esquerda radical. O que é surpreendente sobre esse desenvolvimento é que alguns líderes, tanto da esquerda como da direta, atribuem seu pensamento político à obra do teólogo e estadista holandês, Abraham Kuyper (1837-1920). Portanto, pode ser útil analisar sua vida e seu pensamento político, a fim de buscar entender algo das raízes do movimento político evangélico contemporâneo. O último é encontrado mais recentemente declarado nas Palestras Stone, consideradas por Kuyper como uma declaração autoritativa de suas visões. As Palestras Stone foram pronunciadas no Seminário Teológico Princeton, em 1898, e foram publicadas com o título Palestras sobre o Calvinismo (Amsterdam, Hoocker and Wormser Ltd., 1898). [Nota do tradutor: No Brasil foi publicado com o título “Calvinismo”, pela Editora Cultura Cristã]
Em adição à discussão de política, Kuyper também inclui em suas Palavras sobre o Calvinismo suas visões sobre religião, arte e ciência. Ao se tornarem familiarizados com os argumentos de Kuyper nesse monógrafo, os leitores ficarão numa posição de avaliar a política conservadora de escritores como R.J. Rushdooney, Tim LaHaye e Francis Schaeffer, bem como o pensamento radical de grupos como o Comitê para Justiça e Liberdade de Toronto – todos dos quais têm um débito intelectual para com Kuyper.
Abraham Kuyper nasceu em 29 de outubro de 1837. Seu pai era um ministro da Igreja Reformada Holandesa que pregava uma versão diluída de evangelicalismo. Como um estudante, Kuyper freqüentou o Ginásio Middleburg e a Universidade de Leyden, onde ganhou as mais altas honras acadêmicas. Após receber seu doutorado em teologia em
1863, foi ordenado um ministro na Igreja Reformada Holandesa. Sua primeira paróquia foi a pequena vila de Beesd. Ali encontrou o que considerava paroquianos atrasados e ignorantes, impregnados nas doutrinas calvinistas tradicionais. Ao tentar educar esse povo e iluminá- los para as verdades do mundo moderno, o próprio Kuyper converteu-se do liberalismo teológico para uma fé viva em Jesus Cristo como Senhor. Como resultado dessa experiência altamente emocional, ele reavaliou sua teologia e retornou à ortodoxia calvinista.
Em 1867 mudou de Beesd para Utrecht e em 1870 para Amsterdã. Durante esses anos desenvolveu uma cosmovisão abrangente para expressar sua fé viva e suas convicções calvinistas. Em 1869 encontrou Green van Prinsterer, um companheiro calvinista, que tinha fundado um pequeno agrupamento calvinista no parlamento Mitch, baseado sobre o qual van Prinsterer chamava “princípios anti-revolucionários”. Kuyper apoiou os ideais de Prinsterer e ajudou a fundar o primeiro partido político holandês moderno, o Partido Anti-Revolucionário.
Após dois anos como editor do De Standaard (O Estandarte), Kuyper entrou no parlamento para representar o novo partido. Em 1880 fundou a Universidade Livre de Amsterdã. Devido a discórdias com a hierarquia da Igreja Reformada Holandesa, Kuyper conduziu um movimento de cessação em 1896 para fundar sua própria Igreja Reformada independente. No ano seguinte suas atividades políticas viram frutos nas reformas constitucionais e a extensão da cidadania para muitas pessoas, incluindo membros do seu partido, que até então eram privados do voto.
Essas mudanças levaram a uma vitória eleitoral que trouxe os Anti-Revolucionários ao poder em 1889 com uma pequena maioria.
Alguns anos depois, em 1891, Kuyper começou uma série de ataques contra o capitalismo, nos quais defendia uma forma de socialismo cristão. Como resultado, a ala direita do seu partido desligou-se para formar o Partido Histórico Cristão em 1893-94. Não foi até 1901 que o Partido Anti-Revolucionário de Kuyper ganhou poder indisputável no parlamento, e Kuyper se tornou Primeiro Ministro, um posto que ocupou até 1905, quando foi derrotado nas eleições, após disputas amargas e agitação revolucionária por oponentes socialistas. Ele se afastou da política em 1913 e morreu sete anos depois, em 1920.
A Perspectiva Cristã de Kuyper
Declarando o conservantismo morto e o liberalismo morrendo, Kuyper buscou recriar uma perspectiva cristã sobre a política e a sociedade que formariam a base para a ação social cristã. Ele encarou isso como uma parte integral de uma cosmovisão cristã baseada nas Escrituras e sua interpretação dentro da tradição agostiniana-calvinista. Embora tenha escrito profusamente em holandês sobre teologia, arte, política, educação e centenas de outros assuntos, somente alguns dos seus escritos foram traduzidos para o inglês. A declaração mais abrangente de sua posição em inglês [e português] é encontrada no previamente mencionado Palestras Stone. O restante desse artigo consistirá de uma exposição e crítica das visões de Kuyper como apresentadas nessas palestras.
Calvinismo
Para Kuyper, Calvinismo é “uma teoria de ontologia, de ética, de felicidade social e de liberdade humana, derivada totalmente de Deus” (p. 9). Ele observa que, diferente dos luteranos, os calvinistas não [Nota do tradutor: O número das páginas corresponde à edição em inglês, usada pelo autor.] incluíram o nome de Calvino nas denominações que fundaram, mas preferiram chamar a si mesmos de Cristãos Reformados.
Por conseguinte, ele diz que os calvinistas têm sido conhecidos por muitos nomes em diferentes paises, e adiciona, “pode ser dito que todo campo que foi coberto pela Reforma, até onde ele não era luterano nem sociniano, foi, a princípio, dominado pelo Calvinismo. Até mesmo os Batistas aplicaram-se em abrigar-se nas tendas dos calvinistas” (p. 11). Assim, a diferença entre o centro e a circunferência poderia variar
grandemente e produzir muitos tipos diferentes de organizações e expressões calvinistas, mas essencialmente, todos “sistemas gerais de vida” giram em torno de três relações fundamentais. Essas relações são “(1) nossa relação com Deus, (2) nossa relação com o homem, e (3) nossa relação com o mundo” (p. 16).
Como exemplo do que queria dizer, Kuyper argumenta que o Paganismo é um sistema de vida que adora a Deus na criatura. Essa adoração resulta numa distorção das outras relações do homem, ao permitir que alguns homens se tornem semideuses, criando assim sistemas sociais na sociedade. Ao mesmo tempo, uma estima muito alta
é colocada sobre a idéia da natureza, que leva a uma deificação do mundo. Kuyper oferece interpretações similares do Islamismo, Romanismo e Modernismo, contrastando todos com o Calvinismo. É somente o Calvinismo, ele argumenta, que pode encontrar o equilíbrio correto entre essas relações vitais.
De acordo com o entendimento de Kuyper do Calvinismo, Deus entra em comunhão imediata com sua criatura, o homem. Esse, declara Kuyper, é o verdadeiro significado da doutrina da predestinação. Assim, de acordo com essa doutrina, nossa vida humana inteira é colocada imediatamente diante de Deus, assegurando, como resultado, a igualdade de todos os homens diante de Deus e uns com os outros (p.
18). O próprio mundo deve ser honrado, não por ser divino, mas por ser uma criação divina – a obra das mãos de Deus.
Do ponto de vista prático, isso significa para os cristãos que “a maldição não deveria mais repousar sobre o mundo em si, mas sobre aquilo que é pecaminoso nele, e em vez de vôo monástico do mundo, o dever de servir a Deus no mundo, em cada posição na vida, é agora enfatizado... Deste modo, a sobriedade puritana veio de mãos dadas com a reconquista da vida toda do mundo...” (p. 31).
Esfera de Soberania
A terceira palestra na série é intitulada “Calvinismo e Política”. Aqui encontramos um esboço breve, porém denso, da teoria política de Kuyper destilada a partir de sua grande obra, Ons Programme (Nosso Programa, 1878). Ele argumenta que o princípio determinativo para a teoria política calvinista é “a soberania do Deus Triúno sobre todo o Cosmos” (p. 99). A partir dessa declaração de princípio, ele deduz três reinos de soberania; o Estado, a Sociedade e a Igreja. Ele então se refere a esses reinos ou áreas de relacionamento como conjuntos integrais, que chama de “esferas”. Dessa forma, ele fala sobre seu princípio político como a aplicação do princípio de “esfera de soberania” à política (p. 116).
O Estado
A primeira aplicação dessa noção é ao Estado. Kuyper não define o que quer dizer por Estado, mas assume que seus leitores estão de acordo com ele quanto a como o Estado deve ser entendido. O que ele parece querer dizer por “o Estado” é o governo civil como reconhecido tanto pelos cidadãos de um país como por potências estrangeiras. A humanidade, Kuyper argumenta, é organicamente relacionada pelo sangue, de forma que uma humanidade existe durante todo o tempo. Mas por causa do pecado e da Queda, a unidade original do homem foi fraturada, e a vida política se tornou uma necessidade. Se não houvesse uma Queda, não haveria nenhuma necessidade para o estabelecimento das estruturas do Estado. Pelo contrário, todos
os homens seriam governados por relações familiares.
Assim, a política e o Estado são desenvolvimentos não naturais na história humana, o
Estado sendo uma estrutura mecânica imposta sobre as relações orgânicas naturais que unem os homens. “Deus tem instituído os magistrados por causa do pecado” (p. 102). Portanto, do ponto de vista da criação original de Deus, o Estado não deveria existir, mas à luz da Queda, deve existir para restringir o mal e tornar a vida num mundo caído tolerável.
Kuyper rejeita todas as teorias que implicam um contrato social como a base da sociedade, pois essas são baseadas sobre a noção do “povo” como o elemento primário no Estado. Ele afirma que “nenhum homem tem o direito de governar sobre outro homem, do contrário um direito como este necessária e imediatamente torna-se o direito do mais forte” (p. 103). Como Calvino, Kuyper não crê que alguma forma de
governo seja, por si só, correta para todos os tempos e lugares. Antes, a forma que o governo toma está associada a mudanças nas circunstâncias históricas e sociais. Essa posição pode ser traçada até Agostinho.
Na visão de Kuyper, todos os sistemas de vida devem ser vistos em termos de suas profundas raízes no passado e as formas nas quais combinam vários elementos dos sistemas de governo precedentes. Os cristãos devem buscar um governo piedoso sem demandar uma forma fixa. Ao dizer isso, Kuyper rejeita a idéia de uma teocracia, que ele argumenta ter sido restrita ao antigo Israel.
Ele resume o pensamento político calvinista nesses três:
1. Somente Deus – e nunca qualquer criatura – possui direitos soberanos sobre o destino das nações, porque somente Deus as criou, as sustenta por seu poderoso poder, e as governa por suas ordenanças.
2. O pecado tem, no campo da política, demolido o governo diretode Deus, e por isso o exercício da autoridade com o propósito de governo tem sido subseqüentemente conferido aos homens como um remédio mecânico.
3. E, em qualquer forma que esta autoridade possa revelar-se, o homem nunca possui poder sobre seu semelhante em qualquer outro modo senão por uma autoridade que desce sobre ele da majestade de Deus.
Sociedade
Construindo sobre esse fundamento, Kuyper continua para discutir a esfera da sociedade. Essa esfera, ele mantém, inclui a família, negócio, ciência, artes e assim por diante. Ela permanece em antítese ao Estado. A sociedade, ele declara, não é um todo, mas várias partes diversas. Cada parte tem soberania nas esferas sociais individuais, a fim de que possa estar claro e decididamente expresso que estes diferentes desenvolvimentos da vida social nada tem acima deles exceto Deus, e que o Estado não pode intrometer-se aqui” (p. 116). A família é a base de todos as relações humanas sociais, e como tal é baseada sobre a relação sanguínea original. Assim, a sociedade funciona organicamente e pode ser comparada nesse nível a uma planta. Na sociedade “o propósito principal de todo esforço humano continua aquele que era em virtude de nossa criação e antes da queda, - a saber, domínio sobre a natureza” (p. 117).
Diferente dessa visão de sociedade, o governo é um dispositivo mecânico, que é colocado sobre as pessoas. Suas características essenciais é seu poder sobre a vida e a morte, que deveriam ser exercidas na administração da justiça. Isso tem uma aplicação dupla: 1) manter a justiça interna; 2) preocupar-se com o povo como uma unidade no país e fora dele. Mas porque o governo é mecanicamente imposto sobre as esferas orgânicas da sociedade, o atrito ocorre entre diferentes áreas sociais e o governo. Kuyper diz que “o governo está sempre inclinado, com sua autoridade mecânica, a invadir a vida social, a sujeitá-la e arranjá-la mecanicamente” (p. 120). Ao mesmo tempo, Kuyper argumenta que as várias esferas sociais se esforçam para livrar- se de todas as restrições do governo. Assim, os homens encaram continuamente os dois perigos gêmeos do Estatismo e da anarquia.
Mas o Calvinismo, Kuyper mantém, evita esses extremos insistindo na soberania de Deus e a justiça de uma pluralidade de esferas sociais “sob a lei”, que é mantida pelo governo (p. 121).
Dentro da esfera social Kuyper encontra inúmeras outras esferas. Ele divide essas em quatro grupos principais: 1) a esfera de relações sociais onde os indivíduos se encontram e interagem uns com os outros. Essa ele vê como a esfera da personalidade; 2) a esfera corporativa, que inclui todos os argumentos de homens num sentido corporativo. Aqui ele inclui a unidade, os sindicatos, empregadores, organizações, companhias, etc.; 3) a esfera doméstica, que trata com questões familiares e inclui o casamento, a “paz doméstica”, a educação e a propriedade pessoal; e finalmente 4) a esfera pública, que inclui todos os agrupamentos de homens nas relações públicas. Com isso ele quis dizer ruas, vilarejos, municípios, cidades, etc. Cada uma dessas esferas, Kuyper argumenta, tem seu próprio padrão de desenvolvimento e leis individuais, sobre as quais Deus reina e o Estado não tem poder para alterar.
Deveres do Estado
O próprio Estado tem três deveres para realizar. Eles são: 1) Traçar um limite entre as diferentes esferas sociais para evitar o conflito social.
Assim, há um limite entre a vida doméstica e a vida corporativa do homem. Por exemplo, o trabalhador nunca deveria ser explorado por seu empregador de tal forma a lhe privar de uma vida familiar ou do interesse particular, pois tal desenvolvimento significaria que a esfera corporativa invadiu ilegitimamente a esfera doméstica; 2) defender indivíduos e elementos fracos dentro de cada esfera. Ao dizer isso Kuyper parece contemplar uma subdivisão de cada esfera social em esferas adicionais. Dentro da esfera doméstica, por exemplo, existe uma esfera separada de educação, que não deve ser confundida com a esfera do casamento, ou vice-versa; 3) constranger todas as esferas separadas da sociedade a apoiar o Estado e sustentar suas funções legítimas.
Assim, cada esfera deve exercer as obrigações pessoais e financeiras para a manutenção da unidade natural da sociedade como protegida pelo Estado (p. 124-125).
A Igreja
A esfera final de Kuyper é a esfera da Igreja. Embora admitindo que uma igreja dividida apresenta muitos problemas, ele crê que implícito no ensino de Calvino sobre a liberdade de consciência está o ideal de uma igreja livre numa sociedade livre. No topo do seu jornal O Estandarte estava o moto, “uma Igreja livre para um Estado livre”. Embora reconhecendo que a unidade entre as igrejas tem um apelo estético, ele
argumenta que o governo deve suspender o julgamento nessa área e permitir que existam divisões entre os cristãos porque “o governo tem falta de dados para o julgamento, e porque todo julgamento magistral aqui infringe a soberania da Igreja” (p. 136). Conclui a partir disso que, embora formas extremadas de igrejas puritanas devam ser evitadas, devem-se permitir diferenças históricas e culturais entre as denominações, e ao dizer isso estava preparado, como Calvino, a aceitar os Católicos Romanos como aliados contra o ateísmo.
O Indivíduo
Kuyper conclui com uma breve seção sobre a “soberania da pessoa individual”, argumentando que a “consciência nunca está sujeita ao homem, mas sempre e continuamente ao Deus Todo-Poderoso” (p. 139). Isso o leva a declarar que a “liberdade de expressão e a liberdade de adoração” (p. 141) são essenciais numa sociedade justa. Todavia, como John Stuart Mill, Kuyper procura limitar tal liberdade aos “homens maduros”, e duvida que “pessoas retrógradas” possam receber tal liberdade. Nisso, como em todos os seus argumentos, o objetivo principal de Kuyper é habilitar “cada homem a servir a Deus segundo sua própria convicção e os ditames de seu próprio coração” (p. 142).
Para Kuyer, não é o desejo de assegurar a salvação pessoal de alguém que inspira os cristãos, mas antes o amor deles a Deus e o desejo de submeter todas as áreas da vida ao seu senhorio. Por meio de sua ênfase na criação-queda-redenção, Kuyper trouxe um entendimento mais abrangente da teologia calvinista. É importante perceber também que o Calvinismo não é estático, e que ao desenvolver o tema calvinista, Kuyper estava simplesmente continuando a tarefa da reforma iniciada por Lutero e formulada por Calvino.
Ambigüidades
Antes de nos mover para a crítica principal da obra de Kuyper, que concerne ao seu modelo de sociedade, várias ambigüidades em seus escritos devem ser observadas. Kuyper refere-se a esferas dentro da sociedade, mas o que ele quer dizer? Se essas esferas devem ser entendidas como entidades observáveis, por que todos os homens não as reconhecem? Se, por outro lado, elas são “fatos sociais” socialmente construídos num sentido durkeimiana, como os homens não as reconhecem? Ao falar sobre esferas, Kuyper refere-se a elas como “relações”, o que indica que ele tinha tal idéia em vista.
É igualmente importante notar sua observação de que algumas sociedades são “menos desenvolvidas” que outras. Isso parece indicar que em certas sociedades uma esfera particular pode estar “faltando” – um ponto tomado por Dooyeweerd em seu desenvolvimento do pensamento de Kuyper.
Sua referência à esfera do Estado como sendo “acima” da esfera da sociedade é embaraçosa. Qual é a relação entre o Estado e a sociedade? De uma forma similar, ele parece dizer que a família toma sua forma do Estado, embora insistindo ao mesmo tempo que o Estado é distinto da sociedade. Aqui, suas visões parecem muito obscuras.
Às vezes Kuyper quase cai na classe de teólogos que diz que o Estado é um resultado do pecado. Todavia, uma leitura cuidadosa da sua obra mostra que sua visão não é tão simples. Ele definitivamente fala sobre o Estado sendo um resultado do pecado em sua forma presente. Nesse sentido, ele vê a tarefa primária do Estado como a manutenção da lei e da ordem. Mas ele também parece permitir o desenvolvimento de
funções semelhantes ao do Estado num mundo não-caído. Quais seriam essas funções ele nunca desenvolveu, mas o fato dele permitir várias delas é importante.
Mais Relações Fundamentais
Kuyper baseia sua análise do homem e da sociedade sobre o que ele chama as “três relações fundamentais” (p. 14). Essas começam com a relação do homem com Deus – embora sua análise não force alguém a aceitar sua visão de Deus. Por “relações” ele quer dizer algo como o entendimento de Paul Tillich de preocupação última. Como os homens vêem sua relação com Deus, ou quais são as questões centrais em suas
vidas, afeta tudo das suas vidas. Nisso ele está muito próximo do entendimento de religião de Weber. A segunda relação é aquela de homem para com homem, e a terceira do homem com o mundo. Em todas essas relações Kuyper vê a relação Deus-homem como determinativa. Como os homens vêem sua relação com Deus (ou o que
eles vêem como último) afetará todas as outras relações importantes. Em Deus ou num ídolo os homens encontram o ponto de partida que integra o todo da sua existência e fornece unidade para as suas vidas.
Problemas e Avaliação
O problema que alguém enfrenta ao tentar avaliar a obra de Kuyper é a natureza fragmentária do seu pensamento e a natureza prolífica dos seus escritos. Kuyper usa analogia e imagens com grande efeito e tende a encantar o intelecto ao invés de esclarecer os assuntos. Com essas habilidades, ele foi um grande político e líder, pois podia oferecer aos seus seguidores uma visão a ser seguida.
Mas para o observador distante, que tenta analisar o que ele está dizendo, sua obra apresenta muitos problemas. Grandes idéias são apresentadas, mas repetidamente
as perguntas se levantam: “O que isso quer dizer?”. Como chamar essas visões que foram traduzidas e transformadas da sociedade holandesa do século 19 para a sociedade norte-americana do século 20? A obra de Kuyper é talvez mais uma visão e modelo do que um plano a ser seguido. Todavia, tendo dito isso, conceitos tais como a distinção entre a natureza orgânica da sociedade e a natureza mecanicista do Estado são úteis e informativos. Ele consegue misturar dois modelos dominantes de sociedade numa teoria política. Ao fazer isso, ele une a imagem mecanicista do Estado, que é usualmente associada com o pensamento político radical, com a imagem orgânica da sociedade favorecida pelos pensadores conversadores. Como resultado, ele produz uma teoria política que não é radical nem conservadora, mas que tem o potencial de ser uma terceira via verdadeiramente cristã, incorporando o
entendimento verdadeiro do estado do homem, encontrado nas teorias radicais e conservadores.
Conclusão
Kuyper fornece assim aos cristãos uma visão singularmente cristã do Estado e da sociedade. Diferentemente de outros pensadores cristãos, ele que não adota uma posição conversadora ou radical, mas cria sua própria visão, baseada na Escritura, que permite tanto a continuidade árida como a mudança na sociedade, mas que também, acima de tudo, a ênfase bíblica sobre a justiça. Desde os seus dias, muitos cristãos têm caído no pensamento político radical ou conservador, sem modelos adequados sobre os quais construir suas próprias teorias distintamente cristãs. Ao enfatizar a importância das relações e ver a realidade do conflito entre as formas sociais e o Estado, Kuyper oferece aos cristãos a base de uma posição que pode ser desenvolvida numa alternativa cristã dinâmica e viável, para apresentar desafios seculares.