Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Conservadorismo e Racismo

Iniciado por paulo_20 em 17/07/2009 · 29 mensagens

paulo_20#1
* Esse texto foi publicado também na Comunidade Eric Voegelin. Aqui, com algumas alterações.

Prezados, saudações.

Tenho flertado há algum tempo com as idéias do professor Olavo de Carvalho. Acho-o contundente e preciso em algumas questões. Apesar de minha quase completa ignorância política e filosófica, acho muito relevantes suas posições e vejo algumas com bastante apreço.

Sou novo na Comunidade (agradeço a aceitação) e percebi que há um número bastante considerável de discussões sobre racismo – apesar de todas terem o mesmo viés, digamos, unilateral. Li algumas delas e muitas perguntas surgiram em minha cabeça confusa, rs.
A idéia de que o Brasil não é um país racista porque não há um racismo “organizado” ou institucional – como nos EUA, por exemplo – para mim soa como escapismo à verdadeira questão, que é muito mais complexa. E dizer também que o problema da abolição marginalizou os recém-libertos somente porque os imigrantes ganharam proeminência para as novas oportunidades de emprego remunerado, pois tinham qualificação profissional, também me parece muito estranho; afinal de contas, quem fazia TUDO até então?

Confesso que temo pela recepção desta postagem, pois sinto um ranço em relação ao assunto. Porém, não posso deixar de querer trazer a discussão para uma perspectiva que julgo menos tendenciosa. Peço que me dêem essa oportunidade.

Acabei de ler “Reflexões Autobiográficas”, de Eric Voegelin. Gostei demais! Sua maneira clara de ver os acontecimentos e organizar as idéias lembraram-me a definição de Prudência de Josef Pieper: “ver as coisas como são”.
Ler Voegelin também foi um incentivo para essa postagem e pretendo ainda me aprofundar em suas idéias sobre o conceito de raça.
paulo_20#2
Não sei se conseguirei ser sucinto e inteligível no que quero dizer, mas tentarei. Peço que me perdoem de antemão.
Um pouco da colcha de retalhos que sou eu: negro (como veem na foto), casado, profissional de informática, cristão protestante, profundo admirador de autores católicos como Sto. Agostinho, Sto. Thomás de Aquino, Gustave Thibon e G. K. Chesterton; bem como de protestantes como Martinho Lutero, Dietrich Bonhoeffer, C. S. Lewis e Karl Barth. Admiro as idéias de René Girard e do próprio Voegelin. Sem esquecer-me de Platão e Aristóteles, claro, que venho conhecendo e estudando com bastante calma e apreço.

A maneira como vejo o cristianismo não me deixa ser enquadrado por nenhum sistema político-filosófico definido, e, pelo menos conscientemente, não sou favorável a qualquer ideologia. Algumas idéias progressistas parecem-me razoáveis, bem como algumas idéias conservadoras. Não concordo com o marxismo, com o individualismo reinante em nosso tempo, com a defesa dogmática de gênero (mulheres, homossexuais, etc.), e pouco gosto da estrutura militante dos Movimentos Negros brasileiros. Porém, do mesmo jeito que acho que as idéias progressistas assumem um caráter ideológico que serve a interesses espúrios, as posições conservadoras vez por outra se tornam bastante intransigentes e inflexíveis.

Aqui começam minhas lucubrações:

Também acho que a Esquerda tomou as questões raciais para si, colocou-as sob uma carapaça ideológica social e misturou-as com a defesa de gênero, descaracterizando quase completamente suas origens. Acho que a discriminação contra homossexuais não tem absolutamente NADA A VER com o racismo. Nem mesmo o tipo de preconceito social que é exercido contra nordestinos, por exemplo, tem a ver com o racismo. É um erro grosseiro associá-los e, se o problema dos homossexuais e nordestinos (e por que não das mulheres?) é uma questão de direitos, o problema racial é uma questão de deveres.
paulo_20#3
Reflitam um pouco comigo, por favor: nosso país, que foi fundado sob a égide do tráfico desumano de africanos – coisa sem igual na história, pelo menos que eu saiba – e que, consequentemente, deu base para um tipo de racismo de proporções absurdas e das mais funestas (incomparável até com o tipo de racismo praticado pelo nacional-socialismo alemão), tem sim uma dívida histórica com os descendentes de africanos escravizados, por um motivo simples: com a “abolição”, os negros e seus descendentes foram imediatamente lançados em uma situação de extrema vulnerabilidade, sofrendo todo tipo de sanção e opressão racial e, nesse caso, social. Imediatamente lançados à sorte, discriminados e desconsiderados como mão-de-obra qualificada.
A escravidão acabou, mas não levou consigo as idéias que a grande maioria dos brancos tinha (e tem) dos negros; a herança escravista e racista ainda os fazia (e faz) pensar nos negros como seres (vejam bem, SERES) inferiores. Ou seja, o problema é ontológico e não social ou ético.
E admitamos: os descendentes dos senhores de escravos carregam, mesmo sem querer, um estigma quase genético do racismo praticado por seus antepassados; que podemos até considerar injusto, porém, eu duvido que não haja um branco sequer que não tenha em sua família pelo menos uma pessoa racista em algum nível.

Eu sofro racismo ainda hoje. Ainda hoje, por exemplo, pessoas olham diferente para mim em lugares que acham que eu não deveria estar; quando garoto, até da polícia apanhei; já fui chamado de todos os apelidos de conotação racial conhecidos; malogrei vagas de emprego por causa de minha cor – e não de minha raça, pois o racismo do Brasil é de acordo com a cor da pele –; ouvi ofensas a meus pais; fui desprezado por garotas, etc.
paulo_20#4
Tudo bem, como sempre, alguém pode dizer que isso é coisa da minha cabeça e que meus argumentos não servem como base para caracterizar racismo; que digo isso porque sou negro e vejo racismo em tudo. Entretanto, amigos, tentemos não cair no Bulverismo, nome da pseudo-filosofia “criada” brilhantemente por C. S. Lewis:

“Você deve mostrar que um homem está errado antes de começar a explicar porque ele está errado.” (1)

É preciso analisar a História do Brasil de maneira imparcial para depois julgar meu pensamento. Seria prudente, inclusive, começar analisando o histórico de suas próprias famílias (conforme eu disse acima) e consciências.

Vale ressaltar que também não coaduno com o tipo de militância feita pelos Movimentos Negros, e concordo que algumas vezes isso resulta mesmo em um tipo de racismo às avessas. Mas eu não chamaria de racismo invertido, mas responsivo, como um mecanismo de defesa, de se defender atacando.
Não há como impedir o desequilíbrio das manifestações de repúdio a tantos anos de sofrimento e exclusão.

Agora o nó górdio: se os sistemas liberais tomaram a luta racial para si, o que fizeram os conservadores?

Somente esbravejar que a lei contra o racismo é racismo não adianta; somente dizer que o Movimento Negro é racista ao contrário não adianta; somente dizer que o sistema de Cotas é racista não adianta; somente dizer que tem sangue de tataravô afrodescendente não adianta; somente dizer que o melhor amigo é negro não adianta; somente uma pessoa, individualmente, dentro de um sistema complexo desse, dizer que não é racista, não adianta!
Se o sistema de cotas é uma falácia, qual seria a opção para minimizar o estrago feito durante tanto tempo a um povo inteiro discriminado pela condição desumana a que foi exposto?
Alguém pode também dizer: “se você não precisou, por que outros precisam?”
Respondo: porque nem todos são iguais a mim.
paulo_20#5
Vejam bem, minha visão é limitada, pois falo do que vejo, conheço e vivo hoje, aqui, no Brasil. Não descarto a possibilidade de estar errado. Por isso, não julguem esse texto como uma provocação, e sim como uma tentativa de diálogo, de alguém que deseja compreender melhor o posicionamento de pessoas cujo pensamento admiro muito.
E posso, inclusive, não estar compreendendo corretamente os termos Conservador e Liberal.

Agora, se não há um racismo velado por trás das idéias conservadoras, como muitos dizem, e se, é um engano meu achar que até entre nós, aqui nesta comunidade, esse racismo se manifesta, gostaria muito descobrir, e a ajuda de vocês é fundamental.

Também tenho plena consciência – segundo uma perspectiva cristã, claro – que toda essa celeuma faz parte de uma desordem maior; uma desordem na estrutura humana, cuja definição não poderia ser mais precisa do que a fornecida pela pequena palavra “Queda”. É um problema que só se resolverá com a renovação do Cosmos.
Porém, como faremos para minimizar tais estragos?

E chega que já escrevi demais, rs.

Um abraço a todos e desculpem a verborréia.
Paulo Cruz.

(1) – C.S. Lewis, God in the Dock
Retirado de: http://angueth.blogspot.com/2006/12/bulverismo-ou-os…ntos-do.html
gbschmitt#6
E qual é a pergunta mesmo?

Antes de falar em racismo é preciso, primeiramente, conceituar o que venha a ser racismo. Legalmente racismo é aquilo que a lei diz que é racismo. A lei, no caso, é a n.º 7.716/89. Vigora no Brasil o principio de que não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal.
O que tu chama de racismo velado: cara feia, injúria, olhar de esguelha, etc... É comum a todo ser humano. Ou tu achas que só os membros da raça negra são tratados de forma diferencial? Se um branco entrar em um bairro negro tu acha que ele não recebe o mesmo tratamento? Se um japonês entrar em uma área majoritariamente muçulmana, não haverá tratamento igual? E assim vai... Um católico em um bairro protestante na Irlanda do Norte; um argentino no Brasil, etc. Quanto aos EUA, o pessoal adora falar da KKK, mas se esquecem que o Harley ou o Bronx são tão perigosos para uma pessoa branca quanto uma zona rural sulista e branca é hostil a um indivíduo negro.
Racismo, mesmo, é tu discriminar um sujeito em razão da cor dele, tipo: proibir a entrada de um negro em uma agência bancária; barrar um negro em uma festa por ele ser negro... Em regra, implica tu limitar um direito constitucional à alguém em razão de fatores raciais... Como, tu dar a vaga de um sujeito branco, melhor qualificado no vestibular, para um sujeito negro (por questões raciais).
Segundo, a escravidão é uma das instituições mais antigas da sociedade humana. Muito antes de a Europa ter uma importância singular na história, povos da África e do Oriente Médio já conviviam com a escravidão. Aliás, foi a partir da Europa que essa instituição começou a ser abolida.
anna#7
O rapaz mandou muito bem. Concordo plenamente com as suas dúvidas quanto ao perfil daquela comunidade e até desta aqui. A dúvida dele é a minha também. Infelizmente a experiência que ele teve como negro, também é a minha. No caso da mulher negra a coisa é até mais chata eu acho porque é quase sinônimo de que tem pouca moral, ou ser fácil. Sinto a necessidade de uma reação inteligente à questão racial no Brasil, mas só vejo de um lado um grupo demandando ações questionáveis em termos de reparação e de um outro pessoas negando que exista um problema racial. Darcy Ribeiro, apesar de defender a ideologia que defendeu, nos legou um texto fantástico em termos da história da formação social do Brasil. Foi depois de ler "O Povo Brasileiro" que eu deixei desse papo de movimento negro. Conhecer as raízes do sofrimento de um povo que nos seus dirigentess os maiores beneficiários de sua desgraça me fez olhar com mais compaixão, não só para os negros, mas para o nordeste que ele chamou de criadouro de gente e os índios. Mas vejo que a direita ou o liberalismo dá mais oportunidade aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade porque não os subestima, não os trata enquanto eternas vítimas, sua filosofia está mais ligada a autonomia e responsabilidade do ser do que na sua incapacidade. O triste é o cabresto, o coronelismo hoje eletrônico, a doutrinação da vitimização nas escolas públicas às custas do dinheiro público. Triste é estudar mais de 16 anos em instituições públicas e nunca aprender que a democracia pode ser usada a meu favor e que eu sou responsável pela situação da minha comunidade ou meu município; ao contrário disso escutar campanhas grevistas de professores sempre interessados em defender o seu.
massasofrida#8
não eram errados.

eram aceitos e válidos, e quem somos nós para condenar nossos avós que nos geraram.
peregrino#9
Massa sofria agora me lembrou Karl Marx, ele também pensava exatamente dessa forma sobre racismo e escravidão.
peregrino#10
Paulo. É complicado, e você foi amplo demais, mas vou tentar dar uma opinião.
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Acho que a solução, da forma que você colocou o problema , é simples: não tem solução. Se a questão for apenas de combater desigualdade e pobreza eu até imagino uma solução, mas para tudo isto ai que você colocou fica difícil.
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Acho que a identificação étnica é um fator humano natural, está com os humanos antes mesmos de estes se tornarem humanos, antes de descermos das arvores; não há como acabar com isto, nós nos identificamos com quem é etnicamente igual a nós. Desse ponto de vista acho que combater o racismo pode se tornar até mesmo um ato não natural.
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Mas o que é exatamente racismo? Hoje entendemos por racismo o nazismo e o escravismo dos negros na America. Foram estes dois movimentos que criaram a noção negativa que temos do racismo hoje. Mas antes disso os gregos eram super racistas, romanos eram racistas, japoneses, persas, chineses e outros, inclusive tribos negras, ainda são super racistas. E via de regra, ninguém fala nisto, o ocidente se orgulha da sua cultura grega, oposta ao barbarismo das outras raças e culturas. E isto é visto como correto.

Enfim, o racismo está com a humanidade desde sempre. Como acabar com isto? Eu me pergunto: Acabar...? Como assim acabar ? Isto é do homem, não há como acabar. O Máximo que se pode fazer é uma política de valorizar o cruzamento de etnias. O que não deixa de ser também uma política racial, e invasiva da autonomia de cada um. Ou então assegurar direitos sem considerar a etnia, o que acho mais correto.
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E nesse ponto me pergunto. Que racismo estamos combatendo? O racismo político, instituído como uma política social de um estado ou sociedade, ou o racismo pessoal de cada um?
peregrino#11
Tá, tudo bem, o racismo político vem da cabeça de cada pessoa, então para combater o racismo político não deixa de ser necessário combater a cabeça de cada pessoa, tudo bem, esta certo. Mas, este combate na cabeça das pessoas tem um limite, não dá para querer moldar, lapidar, a cabeça de alguém conforme o que se pensa ser correto, ou mesmo conforme o que é correto. Assim devemos buscar um estado que não discrimine ninguém por etnia , que ofereça oportunidade para todos, mas esta ação tem limite, caso contrário o Estado passa a gerir aspectos da vida pessoal das pessoas, aspectos este que também dizem respeito a sua etnia. E neste ponto cada um pode se entender como quiser. É ai que digo que não há como combater a identidade racial que cada um tem de si, e que portanto o racismo é um fator natural do homem.
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Por outro lado Paulo, penso que você esta também muito preocupado com a identidade negra. Você parece querer parar o tempo. Me responda uma coisa, se a questão racial esta em assegurar direitos a uma determinada cor de pele, então como não dizer que isto em verdade consiste em querer manter uma certa situação racial passageira, congelando a sua raça no tempo? Se você tivesse um filho moreno, e depois um neto loiro, você acha que ele ainda deveria ter os direitos reservados aos de pele negra? Assim a sua política de reparações consiste basicamente na valorização de um fenótipo, e não em reparar um mal ocorrido no passado sobre pessoas, uma vez que os descendestes destas pessoas que no passado sofreram este mal, podem muito bem hoje em dia serem loiras e de olhos azuis. Eu por exemplo, como quase todo brasileiro eu também tenho sangue negro, mas se você olhar para mim dirá que eu sou branco, eu portanto não me incluiria na sua politica de reparação, embora eu tambem tenha sofrido este dano.
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No mais o seu tema é muito amplo, e muito complexo. Só o que dá para dizer é que, pelo menos da minha parte, eu não tenho solução para todos os problemas do mundo.
laurongelo#12
Creio, com já foi dito, que aversões imediatas são inevitáveis. Desde certos alimentos que alguns não gostam (e até sentem nojo) até o que se diz por raça. E isso é foro íntimo, como também já foi dito: às vezes é tão espontâneo e natural que não pode ser dito como maldade. Acho que o que é nocivo é aquilo que já é forçado, embora não ache, por exemplo, que piadas devam ser vetadas (quantas não existem falando de raças, religiões, costumes profissões...): rio de todas (dentro de um certo limite), inclusive das que me atingem.

Pra mim o melhor remédio para o racismo é o esquecimento e o convite para a autoconsciência: nada que deva ser tratado com clausulas específicas (o que foi dito aqui como uma "legislação racista", dando privilégios a "raças" - o que é uma verdade irrefutável).

E acho que o esquecimento é a melhor forma mesmo. Suponhamos, por exemplo, que apliquem-se a cotas por X anos e acabe o racismo até lá:
1º - quando é que vão conseguir estipular que agora já está suficiente?
2º - se há pessoas que foram tratadas de forma desigual, como fazer a população acreditar que são pessoas iguais?
3º - será que a população marginalizada não terá, agora sim, um motivo pra ser racista?

Pra mim todas essas medidas são maneiras de se perpetuar o ranço eterno, que fará sempre o racismo prevalecer. Nada melhor que jogar as pessoas à própria sorte (como já dito aqui) e à própria consciência: aliás, é isso que um cristão deveria esperar do próximo: um cristão deve confiar no próximo e na sua capacidade como manifestação da vontade divina. Caso contrário, falta confiança em Deus.

O racismo é mais um problema de depuração individual. Não devemos delegar isso ao Estado.
paulo_20#13
Amigos, muitíssimo obrigado por suas respostas!

Continuem, por favor.

Só um pequeno adendo:

1º- não concordo com qualquer tipo de reparação e vejo o sistema de cotas quase que como um mal necessário. Confesso que é um beco sem saída para mim;
2º- a escravidão praticada na antiguidade (inclusive na África) não tem quase nada a ver com o tipo de escravidão praticada na era colonial;
3º- uma coisa aceita e válida não significa que é uma coisa boa e certa;
4º- o racismo que existe hoje no Brasil está mais ligado à ignorância do que qualquer outra coisa.

Uma maneira de tratar (pois já disse que acho que não tem solução) o problema é assumir que ele existe (e isso já seria fantástico!), mensurá-lo corretamente - tirando-o das mãos das ideologias - e cada um, individualmente (concordando com Lauro, que postou acima) e dentro de suas famílias combater essa ignorância histórica de nossa sociedade.

Saudações,
Paulo.
gbschmitt#14
Repara-se um dano. Qual seria o dano a ser reparado? E quem seriam os credores e os devedores? Se existe afro-descendentes no Brasil, isso se deve, unicamente, ao fato do país ter sido uma nação escravocrata. São não fosse a escravidão, não haveriam afro-descendentes nessa terra, e o Brasil, provavelmente, seria uma nação majoritariamente branca, como o Canadá ou a Austrália.

2º- a escravidão praticada na antiguidade (inclusive na África) não tem quase nada a ver com o tipo de escravidão praticada na era colonial;

Como assim? Escravidão é escravidão.
Uma das características do movimento negro e, mais recentemente, do movimento indígena na America Latina, é o fato de ambos monopolizarem a escravidão... Como se fosse os únicos povos vítimas dessa instituição humana... E como se os europeus fossem os únicos povos escravistas no mundo. Muito antes de Portugueses e espanhóis chegarem à America e à África, em ambos os continentes, já existia escravidão. Esta, legalmente, na América durou apenas 4 séculos e meio. Povos como os Egípcios e mesopotâmicos conviveram com a escravidão por milênios.
andr_10#15
"E dizer também que o problema da abolição marginalizou os recém-libertos somente porque os imigrantes ganharam proeminência para as novas oportunidades de emprego remunerado, pois tinham qualificação profissional, também me parece muito estranho; afinal de contas, quem fazia TUDO até então?"
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Não creio que isso seja uma questão de qualificação profissional. Nem de racismo.
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É questão cultural mesmo. Os recém chegados da Europa e da Ásia já tinham alguma coisa de mentalidade capitalista, de trabalhar duro e poupar para ir acumulando riquezas e etc.
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Já os negros só tiveram uma experiência bem desagradavel com o trabalho assim que foram inseridos numa civilização maior. E assim como a escravidão corrempe toda a sociedade em sua relação com o trabalho, é óbvio que ela corrempe também as suas principais vítimas.
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Mas diferenças na média de rendimentos entre grupos raciais não caracterizam racismo coisa alguma.
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"Agora o nó górdio: se os sistemas liberais tomaram a luta racial para si, o que fizeram os conservadores?"
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Esse negócio de se usar o racialismo como ferramenta subversiva pelos comunistas e pela elite globalista é coisa recente. Antes o que tinhamos de "movimento negro" eram os Isabelistas da Guarda Negra, ou a Frente Negra Brasileira do Arlindo Veiga dos Santos. Não sei se dá para caracteriza-los como conservadores, pois ainda não estudei sobre o pensamento de tais movimentos, mas aparentemente eles estavam na direita do espectro político.
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Mas para mim esse negócio de luta racial, e etc é uma grande bobagem. O brasileiro, através da miscigenação, vinha resolvendo o seu problema racial muito bem até o fim da ditadura militar, pois foi aí quando se abriu as portas para as dezenas de milhões de dólares que o pessoal da Nova Ordem Mundial começou a despejar em nosso país todo ano apenas nessa questão.
andr_10#16
"1º- não concordo com qualquer tipo de reparação e vejo o sistema de cotas quase que como um mal necessário. Confesso que é um beco sem saída para mim;"
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Cotas raciais onde? Não dá para se discutir esse assunto se não for explicitado onde é que tais cotas deveriam existir e qual seria a justificativa para a existência desse "mal necessário". Aí poderems sair facilmente de qualquer beco sem saída.
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leandro_13#17
Paulo,
é certo que foram poucas palavras em relação à quantidade de assuntos citados, os quais exigem todos uma explicação bastante detalhada. São também assuntos profundos. Alguns mereceriam muita análise, para cada um deles.
Vou priorizar os que atingem a minha área, história, colocando as suas frases em fonte verde.

A idéia de que o Brasil não é um país racista porque não há um racismo “organizado” ou institucional – como nos EUA, por exemplo – para mim soa como escapismo à verdadeira questão, que é muito mais complexa.

Também rejeito a ideia que que não há ou que não houve racismo no Brasil. Aliás, isso é um consenso hoje em dia. A diferença está entre se dar ou não uma conotação política a esse racismo (vinculá-lo, por exemplo, ao conservadorismo).
Isso, definitivamente, rejeitamos.

Mas antes precisamos delimitar racismo de características que o fazem parte de um processo do comportamento humano chamado "diferenciação". Há diferenciações em várias escalas, em vários níveis. O mais presente na história da humanidade é o cultural (mas não posso abordar esse tema hoje).
Contudo, o racial também é presente.
O que não existiu no Brasil foi o segregacionismo. Aliás, também não no próprio sul dos Estados Unidos antes da abolição lá. O segregacionismo foi típico de sociedades brancas acuadas, no caso após grandes derrotas (a guerra civil, 1865, nos Estados Unidos; a guerra dos bôeres, 1902, na África do Sul).
Como o Brasil nunca teve tendência ao segregacionismo (a abolição não foi uma derrota), ficou muito forte a noção de que o racismo só existe com segregação, enquanto essa é apenas uma forma de racismo.

Contudo, o racismo é real em qualquer parte.
leandro_13#18
E dizer também que o problema da abolição marginalizou os recém-libertos somente porque os imigrantes ganharam proeminência para as novas oportunidades de emprego remunerado, pois tinham qualificação profissional, também me parece muito estranho; afinal de contas, quem fazia TUDO até então?

É claro que a abolição não garantiu novas oportunidades (seja de trabalho, seja de educação) aos libertos. Mas não devemos cair no falso discurso histórico de esperar que a abolição trouxesse isso. Na realidade, não havia trazido nem para os brancos daquela época, e hoje não há para os pobres.

Não que não existisse proposta naquele período de levar a educação aos que seriam libertos.
O problema é que sequer existia naquele tempo a educação pública para os demais, inclusive os brancos. A libertação dos escravos foi gradual e seria um non-sense um sistema de libertação com ação social para aqueles 10% da população negra que ainda restavam como escravos em 1888. E os demais, que foram libertados em massa nos anos anteriores? E os brancos?

Contudo, o problema era bem mais complexo.
Primeiro, porque a abolição não significou trabalho livre imediato para ex-escravos. O que aconteceu foi que eles passaram para uma semi-escravidão (chamada à ocasião de "prestação de serviços"), cujas características persistiram por décadas, até para brancos. E existe até a atualidade.
Atualmente, a história ampliou o conceito de escravidão (acabando com aquele dogmatismo marxista dos "modos de produção"), e engloba várias formas diferentes.
Os negros ex-escravos apenas foram passando de um sistema formal para outro mais sutil, a medida que se afastavam do controle do grande senhorio. Trabalho livre mesmo apenas em núcleos isolados ou nas cidades, o que valia também para os brancos.
leandro_13#19
Ou acha que os quilombos comemoram a abolição, como foi descrito pela ficção?
Nada, continuaram a margem da lei, isolados ou vivendo de ataques ou um comércio diferenciado.

O grande problema estava na organização agrária no Brasil, naquele momento, em que a quantidade de terras devolutas era um incentivo permanente para que brancos não-proprietários ou mestiços se afastassem do controle das vilas e desenvolvessem uma economia totalmente a margem da exportação (e até com alguns senhorios, bem mais modestos).
Por séculos, essa situação inviabilizou o trabalho livre, e mesmo a Lei de Terras de 1850 (proibindo a ocupação daquelas terras livres) não resolveu o problema. A solução temporária foram os imigrantes, mas isso não significou a dispensa sistemática dos negros. Eles continuaram naquele sistema de semi-escravidão, por todo o tempo em que era benéfico a eles.
O elemento nacional, branco ou mestiço, é que ficou distante.
leandro_13#20
A maneira como vejo o cristianismo não me deixa ser enquadrado por nenhum sistema político-filosófico definido, e, pelo menos conscientemente, não sou favorável a qualquer ideologia. Algumas idéias progressistas parecem-me razoáveis, bem como algumas idéias conservadoras.

Na realidade, o que me pareceu é sua simpatia pelo progresso, mas dentro de pressupostos conservadores. Isso é bom; só precisa uns esclarecimentos...
Eu imagino que seu dilema venha da comparação com a realidade social de 100 anos atrás, e de hoje por exemplo. Sem dúvida, está muito melhor. Há liberdade política (antes não havia), voto feminino (antes não havia), ensino restrito (hoje é universal, apesar de menor qualidade), ambiente contrário ao racismo (antes não havia).
Não entro na questão de outros problemas que surgiram no último século (violência urbana, drogas), mas o fato é que hoje a organização econômica e social melhorou, e até a pobreza atual tem acesso a muito mais bens que a pobreza de um século atrás.

A história conservadora não nega o progresso. Ele existe. O que ela contesta são os fatores que levam a este progresso. Os historiadores conservadores negam que aqueles grandes "saltos" representem passos decisivos para a evolução humana. Na realidade, eles despertam forças muito contraditórias e acabam produzindo novos efeitos que também devem ser eliminados.
Observamos assim, que os grandes progressos humanos (nas ciências, na sociedade, na cultura) ocorrem nos momentos de "calmaria". Dentro da história conservadora, a revolução francesa, por exemplo, continua um fato importante, mas secundário.
leandro_13#21
Porém, do mesmo jeito que acho que as idéias progressistas assumem um caráter ideológico que serve a interesses espúrios, as posições conservadoras vez por outra se tornam bastante intransigentes e inflexíveis.

Nem sempre.
O próprio Brasil mostra isso. Vejamos o exemplo clássico do parlamentar José de Alencar, o romancista, que manteve uma acirrada oposição liberal (e pessoal) ao imperador Pedro II, defendendo a abolição quando este tinha uma posição pusilânime, conformista...
Contudo, quando José de Alencar entrou para o ministério, e já contava com a firme adesão de Pedro II ao abolicionismo internacional, o parlamentar assume uma defesa intransigente da escravidão. E não era uma posição apenas pessoal. Após 1869, vários acirrados liberais entrarão em um defesa direta da escravidão em um momento em que surgia o consenso político pela sua extinção gradual.
Aliás, as leis abolicionistas sempre acabarão promulgadas por gabinetes conservadores.

Bom... alguém pode objetar (sem base, aliás) que conservadores e liberais do Brasil era da mesma classe proprietária, e que não tinham muita diferença entre si ou que essa é uma questão secundária.
Contudo, a situação repetia-se em outras nações, como os Estados Unidos (os republicanos dos grandes conglomerados, contra os democratas da classe média dos pequenos estados).
Após a abolição, alguns jovens republicanos da Bahia apanharam de um grupo de negros monarquistas.

Os conservadores apenas tinham em comum uma visão mais assegurada da transição econômica. Só queriam que a abolição se desse sem a interferência de fatores políticos "engajados". Ao parecerem inflexíveis, apenas queriam evitar rupturas.
leandro_13#22
Reflitam um pouco comigo, por favor: nosso país, que foi fundado sob a égide do tráfico desumano de africanos – coisa sem igual na história, pelo menos que eu saiba – e que, consequentemente, deu base para um tipo de racismo de proporções absurdas e das mais funestas

A escravidão, ao longo dos milênios em que foi adotada, teve como critério comum o da escravização do "estrangeiro", visando a sua assimilação e o desaparecimento como grupo. Foi o caso, por exemplo, da escravidão autóctone africana, mas exemplos semelhantes existiram são encontrados nas civilizações antigas.

No caso da escravidão do tipo colonial (onde houve "transplante" contínuo de populações para determinadas áreas onde esse sistema vigorou: ilhas atlânticas, partes da América continental, Caribe, Reunião e Maurício), o objetivo não era a assimilação, nem o extermínio, mas o trabalho puro e simples. Os escravizados não eram o elemento frágil da população dominada, mas o mais forte.
Isso também exigia um tipo de domínio distinto.

Não se pode afirmar que a escravidão colonial tenha sido mais cruel que a africana. Nem mais branda.
O tráfico, sim, foi extremamente cruel e letal (1/3 de mortos na viagem; mais 1/3 no primeiro ano após o desembarque). Contudo, o cotidiano para os sobreviventes exigia maior sobrevivência dos escravos do que nas situações em que o objetivo era o extermínio. A indução de imagens de castigos corporais e a descrição de sofrimentos sádicos é insuficiente para concebermos o cotidiano do escravo como um corolário de sofrimentos. Sem dúvida, era uma vida sofrida, mas também foi um sistema patriarcal.
(por isso, calma aí ao comparar com o holocausto dos judeus)
leandro_13#23
com a “abolição”, os negros e seus descendentes foram imediatamente lançados em uma situação de extrema vulnerabilidade, sofrendo todo tipo de sanção e opressão racial e, nesse caso, social. Imediatamente lançados à sorte, discriminados e desconsiderados como mão-de-obra qualificada.

Esse é um elemento discursivo do movimento negro.
Os fatos são distintos:

- 90% da população negra já liberta antes de maio de 1888; apenas 300 mil beneficiados;
- permanência de um sistema de semi-escravidão nas décadas seguintes; não há a dispensa;
- havia tantos negros (livres ou não) quanto brancos nos ofícios urbanos de qualificação (o que se deve principalmente a costumes aristocráticos mantidos pela parcela branca);
- inexistência de um sistema de educação para 98% da população, inclusive brancos;
- disponibilidade de terras.

Mesmo existindo o racismo, é um contra-senso esperar que a abolição extinguisse uma situação que secularmente foi associada ao negro, em um grau até mais forte que a própria escravidão.

No século XIX, um grupo de angolanos livres chegou a Salvador para montar uma empresa comercial. Tiveram uma recepção altamente negativa e acabaram por ser repatriados à África.
Por que eram negros? Não exatamente. Existiam milhares de negros e mulatos libertos já nessa época em Salvador, alguns até exercendo pequenos ofícios. O que os angolanos tinham de diferença era a sua cultura ainda estrangeira para o Brasil. Isso os igualava aos escravos e eles, sendo livres, tinham que partir.
Era muito difícil manter 3 gerações sucessivas de escravos, porque a aculturação rápida na cultura brasileira eliminava o caráter estrangeiro do filho ou do neto de escravos (não a diferença social, obviamente). A alforria foi mais comum do que se imagina. A escravidão total, com vigia e açoites, era impraticável com quem fosse ambientado no Brasil.

Por esse motivo, abolição de escravidão e extinção do racismo devem ser tratados em contextos absolutamente separados.
leandro_13#24
os descendentes dos senhores de escravos carregam, mesmo sem querer, um estigma quase genético do racismo praticado por seus antepassados;

Todos nós temos algum antepassado remoto que foi escravo (ou semi-escravo) ou senhor de escravo. Das civilizações antigas, sobreviveram apenas aquelas que não caíram sob a escravidão de outra. As demais tiveram mulheres e filhos entregues à assimilação dos vencedores, enquanto os homens guerreiros eram exterminados.

O que existe é uma diferenciação, que se dá em variadas e amplas escalas. Não estou justificando a diferenciação, mas colocando que ela é muito superior ao racismo, e que qualquer "combate" a este último não terá êxito sem se colocar diante de todo o aspecto de diferenciação, que em muitos casos é inerente ao comportamento humano.
Combater apenas o racismo é injusto.

Trabalho em uma comunidade periférica majoritariamente de cor. São pessoas de uma cultura e valores distintos da classe média acadêmica. Brancos ou de cor, na mesma situação.
A diferenciação entre o sistema que eu represento e o deles se dá de várias formas, até mesmo oficiais. Todo o nosso sistema é voltado para adequá-los aquilo que se convencionou chamar de cidadania.
O fato de uns terem alcunhas raciais e outros alcunhas não-raciais é, sinceramente, irrelevante.

A maioria deles não deles não terá bons empregos, porque a sua cultura é diferente do padrão. Os que conseguirem, por mérito próprio, passar para a cultura padrão, também vão se mudar geograficamente. Não estão errados, lutam por segurança, e merecem tê-la.

Os meus melhores alunos estão conseguindo empregos mal remunerados. Os piores nem isso conseguirão. Todos os dias vejo 10, 20 pipas no céu, empinadas tanto por moleques quanto por jovens de 18 anos que deveriam estar trabalhando. Os outros estão na lan house. Alguns nas drogas, outros na prisão.
leandro_13#25
Querem colocar cotas?

Não há nada mais injusto e nada mais enganador.
Enganador porque inevitavelmente haverá daqui a uma década 2 ou 3 vezes mais negros se formando em universidades do que há agora, existindo ou não cotas.
Elas só beneficiam uma classe média negra que fica a 7 ou 8 posições de desvantagem de seus concorrentes declarados brancos. Em termos sociais, isso é nada.
Aliás, está muito fácil para brancos também se beneficiarem com as cotas. Deviam se preocupar com isso em vez de sucessivos manifestos políticos.

Para resolver o problema, temos que considerar o problema.
O problema, definitivamente, não é de cor.
O problema de cor (que não nego, existe) é uma parte visível, um tipo de diferenciação que fica mais exposto por causa da sua vinculação com o racismo. Há milhões de pessoas desprezadas por conotações não-raciais que ficam fora do alcance das cotas. São descendentes de mestiços, e de uma boa parcela de brancos livres que não tiveram qualquer ganho com o sistema colonial. Pelo contrário, foram os primeiros a não serem "racistas". Agora ficarão em prejuízo por causa de um critério racial?

Já pensaram em uma política de emprego zonal, procurando absorver jovens de áreas periféricas?
Por que a rede de educação, em vez de ser o receptáculo da classe média acadêmica, não emprega pessoas que já moram nas áreas periféricas?
Por que crianças de famílias pobres da periferia são obrigadas a conviver com uma situação de violência e choque cultural, totalmente contrária ao progresso que se espera delas?
Por que não abrir possibilidades para que todas essas famílias adquiram, de forma módica e regular, os títulos de propriedade urbana ou rural, ao passo que acabamos com a cultura de invasão?

Por isso é que cota não resolve.
O sistema afirmativo apenas faz alterações de menor importância em um contexto de uma parcela já resolvida. Não vai direto ao problema. Não repara nada.
leandro_13#26
Agora, se não há um racismo velado por trás das idéias conservadoras, como muitos dizem, e se, é um engano meu achar que até entre nós, aqui nesta comunidade, esse racismo se manifesta, gostaria muito descobrir, e a ajuda de vocês é fundamental.

O esquerdismo é muito dogmático e aposto que até mesmo o que eu escrevi aqui seria considerado racista apenas por não se enquadrar nas ideias que o movimento militante defende.
Como não somos dogmáticos, a nossa inteligência é desafiada a buscar alternativas ainda mais ousadas e incisivas.

É claro que um sistema de cotas agradaria mais facilmente à população negra.
Agradaria, mas sem benefícios reais. Sendo uma população que sente a herança do passado escravista ou racista, essa medida pareceria ser reparadora. Não sei se repararam, mas é um sistema que não gera nenhum custo financeiro. Que reparação é esta que ninguém paga?
Há um setor minoritário que se lança contra por afetar o orgulho da raça (e é justo isso, meus melhores alunos eram negros) e criar condições para que menos capazes fiquem a frente de mais capazes.
Mas é difícil convencer a quem quer que seja que uma medida que, em tese, o beneficia, é imoral.
A minha própria categoria tem regalias realmente infames (se comparada com a iniciativa privada), mas eu jamais consegui convencer um colega disso.
leandro_13#27
Também tenho plena consciência – segundo uma perspectiva cristã, claro – que toda essa celeuma faz parte de uma desordem maior; uma desordem na estrutura humana, cuja definição não poderia ser mais precisa do que a fornecida pela pequena palavra “Queda”.

Tenho plena consciência de que o sistema de cotas é injusto, perverso e hipócrita.
Mas a sociedade não está se dirigindo para uma ordenação perfeita. É ilusão minha achar que teremos, por exemplo, 70% ou 80% da sociedade dentro de um padrão cultural compatível com o exercício da cidadania e superando de vez aquele "muro" que separa a parcela intelectualizada (e, por essa intelectualização, capaz de ter riqueza e propriedade) daqueles da periferia, sem bons empregos, educação qualificada ou propriedade privada.

Sempre haverá uma pequena parcela de 20% ou 25% sendo a vanguarda intelectual de todo o resto. Como sempre, serão estes que no futuro decidirão se um dia o aborto será aprovado, se as universidades federais devem continuar gratuitas ou se a religião deve ser submetido à coerção dos homossexualistas.
A única diferença é que haverá um pouco mais de negros nessa aristocracia cultural.
Com ou sem cotas.
paulo_20#28
Simplesmente brilhante, Leandro!
Obrigado.

Lerei tudo novamente, com calma...

Abraço.
andrmariosa#29
Li dois livrinhos que me ajudaram sobre o assunto:

Não Somos Racistas - Ali Kamel- Editora Nova Fronteira.

Ação Afirmativa ao Redor do Mundo--- Thomas Sowell -- Editora Univer Cidade.

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