Resolvi reaproveitar o tópico anterior, utilizando-me do mesmo caminho metodológico que já havia começado: a dialética tomista.
O objetivo é continuar o desenvolvimento dialético dessa investigação filosófica até chegar ao rigor de uma demonstração apodíctica.
E, é claro: vacinar a comunidade contra o veneno gramsciniano.
O texto que eu havia escrito era exatamente esse:
”Com o malfadado livro "Concepção Dialética de História" de Antonio Gransci em mãos defino os seguintes termos como o pressuposto de um conceito gramcista de "filosofia":
1. Gramsci não separa a Filosofia da História da Filosofia. A reflexão filosófica parte da consciência da historicidade dos processos sociais.
2 Gramsci não vê validade num projeto filosófico universal e prefere falar em filosofias particulares. A filosofia não é um movimento autônomo do pensamento.
3 A filosofia só se torna “filosofia” na medida em que busca desenvolver uma cultura especializada.
4 A unidade entre teoria e prática proporcionada pela filosofia da práxis não ocorre mecanicamente, mas pelo devir que estabelece os campos do filosofar e do agir.
5 Cabe aos intelectuais como agentes culturais superar o mecanismo que entrava a relação entre teoria e prática e acelerar o ativismo que vai realizar o projeto filosófico.
6 Existe uma igualdade indiscernível porém perceptível entre filosofia e política. A única filosofia é a História em ato, ou seja, a própria vida humana.
7 A ideologia é distinta da estrutura, forma o bloco histórico que muitas vezes se confunde com o próprio homem em sua realidade social.
“Diante isso, eu pergunto:
Qual a substância da filosofia em Gramsci???
Substância compreendida no sentido aristotélico de essência necessária e singularidade existente.
Ou: Qual a ontologia própria da filosofia para que se estabeleça a tensão essencial com o ato de filosofar que em Gramsci é exclusivamente histórico???
Vou mandar uma carta para o José Dirceu para ver se ele me responde essa dúvida cruel...
Pois, infelizmente, sou levado por mera dedução lógica a pensar que em Gramsci não existe filosofia nenhuma, não que o comunista italiano tenha sido incapaz de realizá-la. Ele simplesmente não acreditava na existência da filosofia e na possibilidade do surgimento de um projeto filosófico”.
“Para tornar mais explícita as objeções que faço a Gramsci levantarei uma CONTRATESE a cada TESE sua”.
TESE 1: “Gramsci não separa a Filosofia da História da Filosofia. A reflexão filosófica parte da consciência da historicidade dos processos sociais”.
CONTRATESE 1: Se a filosofia parte da consciência da historicidade dos processos sociais e ela mesma (a filosofia) é histórica então o filosofar nunca tenderia a transcender seu próprio tempo histórico. Deste modo, não há História simplesmente.
• TESE 2: Gramsci não vê validade num projeto filosófico universal e prefere falar em filosofias particulares. A filosofia não é um movimento autônomo do pensamento.
CONTRATESE 2:Se a filosofia não é um movimento autônomo do pensamento depende de um outro ser para existir ou ser definida, então a filosofia existe como mero predicado ou acidente de uma substância. Logo, a filosofia não existe em si mesma, é uma mera extensão de um outro processo implícito.
• TESE 3: A filosofia só se torna “filosofia” na medida em que busca desenvolver uma cultura especializada.
CONTRATESE 3: Se a filosofia é especialização não existe diferença entre ciência e filosofia e esta é incapaz de promover a unidade do conhecimento. Desta forma, a filosofia não tem utilidade nenhuma e deveria ser absorvida pelos métodos científicos.
TESE 4: A unidade entre teoria e prática proporcionada pela filosofia da práxis não ocorre mecanicamente, mas pelo devir que estabelece os campos do filosofar e do agir.
CONTRATESE 4: Se o devir estabelece o campo do filosofar isto indica que o filosofar não pode vir antes do devir. Se a filosofia cria uma civilização e um outro devir é sinal que a própria filosofia é o devir e o próprio devir é a filosofia. Como pode o devir existir antes dele mesmo??? Se for um outro devir inicial e um outro conjunto de causalidades que afetam o devir atual deve-se discutir o apriori e o posteriori coisa que Gramsci nunca fez.
O devir responsável pela união entre teoria e prática. Gramsci inverte a idéia marxista original de que é a ação humana que produz os acontecimentos históricos.
• TESE 5: Cabe aos intelectuais como agentes culturais superar o mecanismo que entrava a relação entre teoria e prática e acelerar o ativismo que vai realizar o projeto filosófico.
CONTRATESE 5: O devir histórico pode ser acelerado e acerela-lo é o dever dos intelectuais. O projeto filosófico se realiza neste devir acelerado e não no campo do esforço intelectual individual. A coletividade histórica é filosófica, o indivíduo não. Rasguem as Histórias das Filosofias que Gramsci escreveu uma nova e definitiva.
TESE 6: Existe uma igualdade indiscernível porém perceptível entre filosofia e política. A única filosofia é a História em ato, ou seja, a própria vida humana.
CONTRATESE 6: A filosofia é a História. A ação humana no mundo histórico é a encarnação da filosofia. Mas como a História pode ser a filosofia se a ação humana (a não ser a ação de filosofar no mundo histórico) não é o filosofar em si??? Gramsci faz uma contrasenso dos diabos para aproximar a filosofia da política.
• TESE 7: A ideologia é distinta da estrutura, forma o bloco histórico que muitas vezes se confunde com o próprio homem em sua realidade social.
CONTRATESE 7: O homem é ideologia??? A realidade é ideologia??? Se a ideologia se confunde com a realidade social que é muitas vezes estrutural como a ideologia pode ser distinta da estrutura???
Quer saber??? Cansei desse pensador maluco!!!
Como as contrateses são respectivas respostas às teses, abreviaremos para que não se torne muito cansativo as respostas as teses e partimos diretamente para as respostas às contrateses.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 1: A impossibilidade do filosofar na verdade é traduzida pela necessidade de uma nova história e o que é pior: de uma nova consciência que apreenda os dados sensíveis em sua historicidade absoluta. A consciência filosófica se dissolve na historicidade dos fatos e da ação histórica.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 2:O processo implícito ao qual a CONTRATESE 2 se refere é, evidentemente, o processo histórico que absorve a consciência individual e a transforma numa sub-estrutura sem capacidade de produzir valores próprios.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 3: A cultura especializada, na verdade, é uma ideologia revolucionária que é o sentido da práxis em Gramsci. Essa ideologia se sobrepõem ao próprio método científico.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 4: Gramsci nunca deixa claro o que é apriori ou a posteriori em seu pensamento. O lugar do devir na “filosofia” de Gramsci é num espaço que não existe em nenhum ponto empírico ou teórico discernível. Na verdade, é um imenso vazio conceitual que se abre entre a percepção e a realidade na consciência humana.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 5: A história não será mais uma história dos casos concretos da sociedade. Mas uma história do sujeito coletivo ou uma história das estruturas que se tornam o único referencial de realidade possível.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 6: A filosofia em Gramsci é pura ação política. Não há possibilidade nenhuma de filosofar em Gramsci. Qualquer conceito formado serve diretamente à ideologia comunista.
RESPOSTA AOS ARGUMENTOS DA CONTRATESE 7: É a conclusão inevitável: O homem é estrutura. O homem se desumaniza ao se submeter a ideologia. Pois essa passa a ser sua representação máxima de realidade social.