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O platonismo vulgar do físico Marcelo Gleiser

Iniciado por lvaro_4 em 19/11/2006 · 14 mensagens

lvaro_4#1
I

A alguns tópicos, tenho insistido naquilo que eu considero um dos maiores pecados da cultura ocidental contemporânea: o platonismo vulgar.
Geralmente, mostrava essa vulgarização do platonismo associado às discussões em que muitos conceitos em jogo não se referiam à realidade nenhuma existente.
Propus um banho de aristotelismo como forma de se combater esse mal.

II

Noutro tópico, expus o enunciado: “substância só existe como singularidade” como a questão central sobre a qual gira toda a metafísica de Aristóteles. Ninguém lembrou-se de contrapor à minha definição a questão da ”causa primeira”, se alguém fizesse isso, eu teria que deixar claro que mesmo a “causa primeira” é, em Aristóteles, uma substância singular, portanto, existente. Se assim não o fosse, seria apenas mais uma idéia platônica.

III

Lendo uma declaração do afamadíssimo físico Marcelo Gleiser numa revista periódica e popular de divulgação científica, decidi tomá-la como um exemplo eloqüente do platonismo vulgar que assola o método científico contemporâneo, bem com toda a cultura contemporânea em geral.
lvaro_4#2
A afirmação do físico dominical Gleiser foi a seguinte:

“A metáfora do Deus Geômetra deriva da velha idéia platônica de um universo dualista, em que há a necessidade de existir uma ordem superior, mas continua influenciando a ciência até hoje”.

Absurdo: Além de iniciar sua argumentação com um ostensivo contrasenso, confundindo a idéia do “Deus geômetra” (imagem que ficaria melhor na filosofia de Descartes, Espinosa e mesmo no mecanicismo) com o Deus de Platão (que é o Supremo Bem, síntese metafísica do bom, do belo e do verdadeiro, a fórmula unum, verum, bonum), Gleiser ainda revela o quanto suas concepções filosóficas são de manuais introdutórios. .

E o que pior: Gleiser ignora totalmente que a realidade em Platão se divide em três níveis ou mundos: O mundo dos princípios, o mundo das formas, o mundo sensível.

Ninguém, absolutamente ninguém (só o Marcelo Gleiser, o físico do Fantástico!) tem o direito de ignorar isso. Principalmente, depois dos esforços de Giovani Reale em “Para uma Nova interpretação de Platão” e Mário Ferreira dos Santos em “A Sabedoria dos Princípios e a “Sabedoria das Leis Eternas”, em que o “dualismo platônico” sofre seu golpe definitivamente mortal, a medida em que: “as doutrinas não escritas” ensinamento mais precioso de Platão, segundo o mesmo, vão ficando mais claras.

A idéia de Platão não é nada velha, velha é a idéia que Gleiser tem de Platão.
lvaro_4#3
Marcelo Gleiser se propõem a ensinar física, filosofia, cosmologia num programa dominical para milhões de brasileiros, utilizando-se de puro senso comum e é claro: misturando informação com entretenimento, com conceitos filosóficos absolutamente ultrapassados para quem se dedica à filosofia com seriedade.

Se Gleiser quisesse mostrar algum serviço decente, deveria em seus programas (nunca consegui assistir um inteiro, confesso) ensinar, desde já: as recentíssimas descobertas sobre o aspecto mais profundo da obra de Platão.

E não explorar a ignorância alheia ou a sua própria falando de algo que nos coloca num universo falsificado e inventado pelos delírios do método científico contemporâneo, que, com certeza, Marcelo Gleiser representa.
lvaro_4#4
Tiago

Giovani Reale para mim é brilhante, sua História da Filosofia deve ser lida e estudada como uma disciplina filosófica em si.

O Platão do Giovani Reale é realmente uma das explicações mais próximas do ensinamento do filósofo grego.

Se você tiver o hábito de resolver problemas filosóficos, situe sempre seus problemas na perspectiva histórica em que foram aparecendo no pensamento humano. Afinal, estudar História da Filosofia é também filosofar.

E se você tiver algum conhecimento próximo do método histórico que começa com Ranke e eclode no historicismo alemão com Simmel, Dilthey, Sombart e etc, tente associar a esses métodos os antigos métodos filosóficos, Ex: Tente entender que relação é possível entre a hermenêutica histórica e a dialética, se você conseguir distinguir entre "hermenêutica teológica","hermenêutica romântica" e "hermenêutica histórica", já terá feito um bom serviço. Depois, é só filosofar a partir desses métodos e dessas distinções.

Outras obras que eu indico são: História da Filosofia" de Frederick Copleston e a adorável História da Filosofia de Julián Mariás, essa última é ao meu ver a mais inteligente e instigante introdução a quem se inicia nos estudos filosóficos.

A História Essencial da Filosofia de Olavo de Carvalho é também um grandioso projeto para esta disciplina, principalmente, porque a definição do Olavo de Carvalho de filosofia como a unidade do conhecimento na unidade da consciência muito me agrada. E, como sempre, é riquíssima em informações e em sementes de investigações futuras.
priscila#5
Concordo com o Rafael.
Plenamente.
marco_13#6
Os livros do Gleiser estão recheados de erros científicos, alguns meio grosseiros. Não admira que contenha erros filosóficos. Mesmo sendo para o público pop, tais erros não são perdoáveis.

Mas na TV aberta... considerando o nível da programação e do público do Fantástico... tá de bom tamanho. Já fiquei surpreso simplesmente pela existência do quadro.

E experimenta botar qualquer coisa mais profunda ou mais séria pa ver o que acontece... O pessoal vai bocejar e trocar de canal, ou achar que o quadro dominical é a hora certa de ir no banheiro.
hlio#7
O Catedrático da Unicamp, Roberto Martins, detonou o livro do Marcelo Gleiser em seu site, explicando detelhadamente cada besteira que ele escreveu, cada esterótipo.
marcos_12#8
Bom, sei muito pouco do que o Gleiser diz no Fantástico. Até gosto de ver pra saber se sai alguma curiosidade, mas jamais espero algo relevante.

Afinal, o que esperar de uma emissora que está mais preocupada em entreter e encher a bola do povo do que levar as coisas a sério? A Globo banaliza e achata tudo!!

Depois de ver uma reportagem sobre a Transiberiana e a Rússia em que o principal entrevistado era... Paulo Coelho?? É de chutar o balde!!!
hlio#9
Estas maluquices do Gleiser são antigas.
gerson#10
Tbm me chamou a atenção a quantidade de erros científicos, simplificações e generalizações no quadro apresentado no fantástico. Mas deve ter sido algo "intencional", para tornar as questões mais digeríveis ao grande público.

Só espero que não tomem aquilo por parâmetro para julgar o pensamento científico.
lvaro_4#11
Alberto:

Não se icomode com a minha citação de Copleston,citei apenas sua História da Filosofia como uma oportunidade de colocar numa escala temporal crescente as idéias e os problemas filosóficos para quem tem o interesse de seguir um caminho reto de pensamento e estudo.

Copleston recaí na antiga imagem dualista da filosofia de Platão,Marías tende para o mesmo caminho, mas ambos são etapas do pensamento filósofico que devem ser revistos sem ser abandonados enquanto leitura didática e introdutória.

Já Giovani Reale e Mário Ferreira dos Santos são estudos mais aprofundados destas questões.

Só para dar um exemplo: A obra de Jaeger continua ser uma das melhores interpretações de Aristóteles, embora hoje se saiba que Jaeger cometeu muitos erros como a separação entre o Aristóteles metafísico e o Aristóteles empirista.

E Copleston, Marías, Jaeger... tem mas lições preciosas para dar do que o Marcelo Gleiser.
lvaro_4#12
Ignorar que em Platão a realidade é dividida em três mundos (o mesmo número das grandes religiões reveladas ou tradicionais e de diversas místicas comparadas)é cair na antiga definição que opõem o mundo sensível ao mundo das idéias e põem o mundo das idéias como o das formas eternas, quando esta oposição não ocorre em Platão e muito menos o mundo das idéias e "mundo das formas eternas".O mundo das formas, muitas vezes, se confunde com o mundo sensível, daí mais um erro grostesco do Marcelo Gleiser numa afirmação tão curta: o mundo das formas não é superior, mas intermediário.

Acima do mundo das formas, nós temos o mundo dos princípios.

E esses princípios já são bem conhecidos hoje. Vide: "Sabedoria das Leis Eternas" de Mário Ferreira dos Santos.

Só um pequeno esclarecimento: Não tirei a afirmação do Gleiser de um programa do fantástico que, como já disse,não consigo assistir por falta de paciência,mas de uma declaração que o Gleiser fez num periódico de divulgação científica que eu estava lendo por acaso.

Gleiser costuma dar entrevistas ridicularizando a bíblia e os profetas, a reforma do senso comum que este distintíssimo físico doublé de filósofo promove ancorado na ignorância de toda a mística que funda a realidade sensível em que este está sentado, nos tempos de hoje, só pode mesmo resultar num trono de mídia, luzes e holofotes
marco_13#13
Gerson, o maior problema nem é o quadro no Fantástico, pois não dá pra esperar muito mesmo.

O problema são as publicações -livros e artigos- de Gleiser, que estão recheadas de erros. Para isso não há desculpa. Note que o Sagan tem livros e a série Cosmos usando uma linguagem bem pop, e nem por isso cheia de erros.
lvaro_4#14
Lembro que tinha um quadro no fantástico apresentado por Lázaro Ramos que era algo sobre a influência da biologia e dos instintos no comportamento social humano.

Eu dizia a mim mesmo:

- Isso é formação de senso comum para estimular a compra de remédios.

Já que, se meu comportamento social é influenciado pela biologia e por reações químicas dentro do meu corpo eu posso muito bem monitorar meu comportamento (utilizando um conceito da sociologia contemporânea) comprando remédios na farmácia mais próxima.

Aí, eu dizia a mim mesmo:

- O primeiro comercial que aparecer no próximo intervalo será anunciando algum remédio ou produto farmacêutico.

Tiro e queda! os comerciais que surgiam depois anunciavam aspirinas, drogas relaxantes, anti-depressivos ou analgésicos etc...

Essa é a mística da nossa época.

Trocaram a hóstia consagrada pelo prozac.

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