Aproveitando o sexto podcast em que Olavo de Carvalho comenta sobre as tradições religiosas, gostaria de levantar o tema sobre a perspectiva perenialista que perpassa a filosofia e a religião tendo como grandes representantes René Guenon e Frithjof SCHUON,
Até que ponto os principios metafísicos revelados em comum subtendem uma espécie de religião única e transcendente aos diversos fatos históricos e civilizacionais que o compõem???
Por outro lado, essa suposta religião perene não ameaçaria dissolver e destruir as próprias religiões tradicionais em busca de uma unidade e de uma síntese final???
Quanto a relação entre símbolo e conceito, creio que o que eu escrevi em outra comunidade traduz bem minha visão sobre o assunto:
O fundamento lógico do Messias:
Ou: do fundamento lógico-dedutivo de “conceito” superando ontologicamente o signo e chegando à essência necessária e à experiência mística.
I
Para mim o conceito é apreendido pela intelecção humana à essência de um ser e é a essência concreta de uma coisa ou próprio ser. Se diferenciarmos então a apreensão do conceito como intelecção de mundo e conceito como signo lingüístico (sua representação sob forma de palavra), teremos o primeiro como a percepção da inteligência do fundamento e realidade de um objeto cognoscível e o segundo como uma representação deste movimento do espírito, uma mediação cifrada entre a intelecção e a coisa tal como ela é.
Mas o signo não poderia ser ao mesmo tempo - para não negar seu princípio de identidade - abstração e forma concreta, mediação e realidade ou mesmo verdade e intelecção.
Por isso, é errado dizer que ontologicamente o conceito é um signo mediador entre a realidade do ente e a mente humana (sendo este apenas palavra) e é o conceito a essência de um ser apreendido pelo pensamento que apenas corriqueiramente é traduzido pelo signo lingüístico.
Contudo, é errado também fazer uma crítica radical ao signo, pois sua propriedade lógica é a mediação e aproximação da realidade, não a realidade em si.
II
É claro que para efeitos metodológicos podemos tratar o conceito como signo para pensar e representar o mundo. Assim, podemos formular e propor a existência de dois signos: o signo lingüístico expresso pela palavra e o próprio conceito expresso como signo de uma realidade específica.
Mas, ontologicamente o conceito deve voltar à plena identificação da essência de uma coisa ou ser. Caso o contrário, a realidade por dedução lógica seria também um conceito e, desta forma: signo.
Desta forma, teríamos signos de signos ao infinito e voltaríamos à necessidade da interrogação metafísica: “Qual a essência da realidade”???
E Essência necessária e não “substância” em sentido estóico.
Mas a substância em sentido Aristotélico-formal. Como Categoria ontológica primeira de um ser: Ousía.
Por isso: O conceito deve voltar sempre à essência e no caso divino se identificar perfeitamente com sua existência.
É uma pena que o orkut não reconheça caracteres gregos, pois gostaria de usar o grego bíblico para citar a passagem: “No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus”.
Porque, assim, faria uma demostração lógico-semântica do termo “lógos” (nesta acepção fonética mesmo) que prefiro traduzir como “palavra”, mas que sei também possuir no grego clássico (como o Aristotélico) a acepção de “conceito” e “essência” ou, até mesmo, “razão”. Sem maiores prejuízos para uma tradução didática.
Desta forma, os cristão vão me entender: Cristo, o milagre do verbo encarnado ou em linguagem filosófica específica do conceito vivo ou da palavra possui a perfeita identificação da unidade entre essência e existência e participa necessariamente por extensão lógica da essência divina.
Sem querer cutucar meu amigos não cristãos da comunidade: Cristo é Deus.
Na filosofia de formação de conceitos que eu construí associando sempre (metodologicamente) o conceito já depois de formado pela mística à um signo, faço o conceito reintegrar misticamente o ser à essência. Por exemplo: Associei o conceito de essência à uma fonte, e desta fonte criei um exercício utilizando uma fonte (natural ou artificial) para contemplação filosófica do ser e integração mística do ser na harmonia do Ser Supremo. Baseei-me numa lei metafísica universal e apodíctica. As experiências concretas a que cheguei individualmente e depois dividindo-as com certas pessoas estratégicas foram simplesmente divinas, a verdadeira integração na Unidade da consciência filosófica que não conseguiria compreender tal realidade maior sem este tipo de experiência.
A questão da religião comparada só em termos de método (eu imagino assim) pode e deve ser buscada no sentido de encontrar princípios metafísicos comuns que a unifiquem. E de buscar as representações desses princípios comuns ocultas nas formas culturais.
Este seria um começo possível. Sob pena, é claro, de todas as limitações e mesmo contradições possíveis.
De Guenon eu li um maravilhoso livro chamado: “Os símbolos da Ciência Sagrada” em que este desenvolve e estuda dezenas de símbolos( Santo Graal, A Cruz, O Sol e a lua...) estou, neste momento, deixando-me influenciar pela perspectiva guenoniana.
"Álvaro, essa é uma questão que me interessa bastante mais que conheço muito pouco. A primeira vista poderia se sugerir uma distinção entre especulação metafísica (lógica), presente entre todas as religiões, e a tradição do mito. A metafísica, por ser um discurso pautado na lógica, tenderia evidentemente a produzir certa unidade de pensamento. Por outro lado poderíamos entender o mito como condicionado culturalmente e diverso".
RESPOSTA: É necessário, desde já, distinguir a metafísica como ciência lógica apodíctica e universal do ser entendida como substância singular, do mito que é um conceito ou metáfora mediadora de um aspecto que sempre abre uma possibilidade maior para o real.
"Até ai temos uma antinomia e claro o dualismo da inteligência humana".
RESPOSTA: Eu não colocaria esse problema numa perspectiva dualista, nem mesmo numa antinomia. A diferença entre metafísica e mito é muito, muito grande mesmo. É a diferença que vai de um conceito à uma ciência.
'O problema é que com a perspectiva da teoria dos quatro discursos e toda a análise categorial lógica do Mário Ferreira dos Santos (tratado de simbólica) surge uma ponte entre símbolo e conceito".
RESPOSTA: Na teoria dos 4 discursos de Olavo de Carvalho o mito ou símbolo encontra-se, na minha opinião,no discurso poético, a metafísica – ciência da possibilidade universal - encontra-se em todos os discursos.
Eu já insisti aqui na comunidade, várias vezes, sobre a relação entre a década sagrada dos pitagóricos, a tradição hermética, a cabala mística e a decadialética de Mário Ferreira dos Santos.
Este um argumento a favor de perenialismo.
“Ainda não li Guenón ou Schuon. Mas como tradicionalistas sei que afirmavam a impossibilidade de um ecumenismo absoluto. Ou a unificação das religiões. Só não sei em que bases”.
RESPOSTA: Os princípios são transcendentes, seria necessário um tópico inteiro para discutir isso.
A novidade para mim foi a afirmação do Olavo de que as religiões não são espécies do mesmo gênero. Imaginava eu que fossem sim concorrentes por tratarem da mesma coisa. Pelo menos as 3 grandes (Judaísmo, Islã, Cristianismo). A exceção ficaria por conta do Budismo.
RESPOSTA: De fato, não são concorrentes entre si mesmo. As religiões tradicionais são unificadas no plano absoluto. Dizem respeito a planos diferentes.
Então minha pergunta é; como pode haver a unidade transcendente se as religiões não podem ser comparadas? E se alguém afirmar que elas podem ser comparadas, mas não no plano cultural, não estaria afirmando uma contradição, uma vez que há ligação entre símbolo e conceito
RESPOSTA: Creio que já tratei disso mais acima.