CAPÍTULO LXXVII da magnífica obra MONOLÓGIO (link no 3º post), de Anselmo de Canterbury, chamados por muito de "o pai da Escolástica"
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"O que é fé viva e o que é fé morta
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Por este motivo, qualquer que seja a certeza com que se crê numa coisa tão grande, a fé será inútil e como morta, se o amor não lhe imprime força e vida. De fato, a fé que está acompanhada adequadamente pelo amor, ao oferecer-se a oportunidade de agir, não fica inoperante; ao contrário, exercita-se com maior freqüência em obras
que não poderia fazer sem o amor, e a prova disto se encontra já no fato de que quem ama a justiça suprema não consegue desprezar o que é justo nem admitir algo que seja injusto.
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Portanto, como tudo o que opera alguma coisa mostra que tem vida, pois sem vida não é possível operar, não é absurdo afirmar que a fé operosa vive porque tem a vida do amor, sem a qual não operaria, e que a fé inoperante não vive porque carece da vida do amor, que a tiraria da ociosidade.
. Se, com justa razão, chamamos de cego não apenas a quem perdeu a visão, mas também a quem nunca a teve, embora a devesse ter, então por que não poderíamos chamar, igualmente de morta a fé que carece do amor? Isto não porque ela perdeu a sua vida, vale dizer o amor, mas porque não tem aquilo que sempre deve ter.
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Por isso, portanto, assim como a fé que opera pelo amor 91 revela-se viva, assim aquela que, por falta de interesse, permanece inativa, revela-se morta.
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Conseqüentemente, pode-se afirmar, com bastante conveniência, que a fé viva
consiste em crer naquilo em que se deve crer; e que, ao contrário , a fé morta é crer somente aquilo que se deve crer. 92"
91 Cf. Gálatas 5,6: Fides quae per caritatem operatur.
92 A diferença colocada por Anselmo entre a fé viva e a fé morta é sutil e relaciona-se com aquela colocada entre as preposições latinas in e ad, no capítulo LXXV.
Fé viva é crer em; fé morta é crer apenas. No primeiro caso, há o acompanhamento necessário do amor e a conseqüente penetração no objeto da fé. Portanto, há um dinamismo essencial, em oposição à estaticidade da fé morta, que se limita a crer o objeto, sem tender para dentro do objeto, porque lhe falta justamente o amor, que é fonte de vida e impulso de operosidade. A fé morta não é a perda da fé e, sim, a falta da fé, enquanto carente de amor: é o cego, que poderia e deveria ver, mas não enxerga aquilo que sempre poderia e deveria enxergar. É o cego que tem olhos, mas carece da visão: poderá ver o objeto, mas não penetrar, com a visão, no objeto. Parece, então, dever-se concluir que o conceito de Anselmo é o seguinte: não existe a fé sem as obras, mas, menos ainda, pode existir a fé sem amor. É, pois, o amor que dá sentido à fé, e com esta, opera. A fé operante só pode ser acompanhada pelo amor.
"Anselmo estabelece uma diferença sutil entre "tender para" e "tender em" e, correlativamente, "crer a" e "crer em", valendo-se da diferença semântica que existe, em latim, entre as preposições ad e in, indicando a primeira direção para, e a segunda, direção para dentro. No primeiro sentido, A dirige-se para B, mas não entra em B, apenas acerca-se dele. No segundo, A penetra e permanece em B. Conseqüentemente para Anselmo é preferível "tender em" e "crer em" a essência suprema a "tender para" ou "crer a" ela. A preferência é ditada por dois motivos: a) "tender em" e "crer em" indicam mais expressivamente o dinamismo da fé viva e total; b) e indicam mais profundamente, também, o momento de chegada e o estado de permanência na bem-aventurança amorosa de que Anselmo falou nos capítulos anteriores. É dessa maneira que se justifica uma distinção que, à primeira vista, parece bastante ociosa."
Curioso você expor esta noção anselmiana de verdade e justiça, pois eu não li a obra Verdade, mas há poucos dias escrevi um pequeno comentário a respeito dessa questão quando reli a Política de Aristóteles.
Na parte XII do livro 3 (ou capítulo 7 do livro 3, na horrorosa edição da Escala), diz Aristóteles:
[...] Pensam os homens que a justiça é uma espécie de igualdade e concordam, até um certo ponto, com os princípios filosóficos que expusemos em nosso tratado de Moral. Nele aplicamos o que é a justiça, e a que ela se aplica; e dissemos que a igualdade não admite diferença alguma entre aqueles que são iguais.
[...]
Embora deva se fazer, no estudo da Política, uma distinção entre a igualdade numérica e igualdada proporcional, o juízo importante a se ressaltar aqui é de que: Justiça é igualdade, e o Mérito é a igualdade proporcional, ou a qualificação de algo conforme o que lhe é próprio.
Segue o meu comentário:
A Justiça, neste sentido clássico (e verdadeiro!) está mais perfeitamente expressa no princípio da identidade. Ora, nada é mais próprio a uma coisa do que a própria coisas, e nada tem mais mérito de ser algo do que o próprio algo. Dado isso, intuímos que este que é um dos pilares do conhecimento também sustenta a noção de justiça, ou mais, que Justiça e Verdade são tão metafisicamente inseparáveis que acabam por fundir-se em um só.
É justo que eu seja eu mesmo.
Eu tenho o mérito de ser eu mesmo.
Tópico ótimo, mesmo!
Santo Anselmo, Aristóteles e Elomar Figueira de Melo, que maravilha...
Amigos, eu viajo amanhã e não terei tempo de fazer isso - mas que tal, já que se mencionou a "Política", e que o Renan a está justamente relendo, abordar os capítulos de IV a VIII do Livro Sexto, que tratam da democracia, oligarquia, tirania, república, etc?
Eu já tinha pensado em fazer isso, mas não tenho nem tempo e nem a necessária maestria - quer fazer não, Renan? 🙂! Eu acho que daria um debate tão proveitoso! Acho que as pessoas compreendem muito imperfeitamente todas essas coisas - e então fica a sugestão.
Meus elogios ao tópico, que vejo como um ornamento da comunidade, e que espero que tenha a participação de muitos!