Dar uma prova cabal do que quer que seja, num artigo de jornal, é quase impossível. Aí não se vai além da argumentação retórica, ou prova por verossimilhança. Há, no entanto, retórica e retórica. Algumas argumentações retóricas só valem enquanto tais: têm na verossimilhança o limite extremo da sua possibilidade de prova. Outras são apenas a abreviatura provisória de teorias que, desdobradas em todos os seus detalhes, mostram todo o rigor das provas que as sustentam.
Pedro Laín Entralgo chegou a definir, por essa diferença, o gênero ensaístico: ensaio é a teoria... menos a prova explícita. Captar nas entrelinhas a prova embutida ou a definitiva e irremediável ausência dela – eis a habilidade que se requer do leitor desse gênero de escritos, habilidade que falta miseravelmente às classes letradas do Brasil de hoje, educadas num dualismo patológico que entre a demonstração matemática e a fantasia poética só enxerga um vasto deserto. A essas, como a crianças, é preciso explicarmos tudo nos mínimos detalhes, tapando com respostas cabais cada hiato que sua mesquinha imaginação não logre saltar por suas próprias forças; e no fim ainda temos de suportar, com infinita paciência pedagógica, que ostentem sua demanda voraz de muletas lógicas como um sinal de rigor intelectual e sentido crítico, valha-nos Deus! Neste país a pura dificuldade de pensar tem a glória e o prestígio dos pensamentos difíceis.
Um cartesianismo de almanaque inoculou em certos círculos da nossa sociedade o culto da dúvida, venerada como suprema virtude filosófica. Mas o que diferencia da insegurança ranheta o autêntico senso crítico é que este sabe quando parar, e aquela continua duvidando onde já não há mais nada que perguntar. O limite é dado pelo senso da evidência, sem o qual toda demanda de provas é jogo fútil ou comichão doentia: se alguém é incapaz de distinguir o certo do duvidoso, para que há de cultivar a dúvida senão por deleite ou compulsão?
E como não haveriam estas paixões de fechá-lo em seus prazeres ou dores subjetivos, afastando-o cada vez mais do objeto sobre o qual finge pensar? Por isso, a sã credulidade do cidadão comum é melhor ponto de partida para os estudos filosóficos do que a mania argumentativa que hoje se impinge às nossas crianças a título de introdução ao filosofar. Antes de aprender a duvidar, é preciso aprender as razões de duvidar. Mas como estas não são senão a inversão simétrica das razões de crer, não tendo outra consistência senão a que delas receba por negação, só o homem que crê seriamente é capaz de duvidar a sério, e uma geração educada desde tenra idade no ceticismo pedante e na contestação fútil nunca passará de um bando de simuladores de dúvidas, macaqueadores de discussões filosóficas. Mais tola que a crença ingênua é a dúvida leviana.
Não apenas tola, mas positivamente daninha. A corrosão fácil não destrói as crenças habituais (um efeito que só poderia ser obtido pela crítica rigorosa): cria apenas uma inibição de examiná-las atentamente; inibição que nem por se pavonear de ceticismo voltaireano deixa de ser o que é: um temor à experiência profunda, um recuo defensivo para a superfície. E quando toda a capacidade raciocinativa de um homem está empenhada nessa operação de fuga, é fatal que ele não alcance nunca a verdadeira independência de pensamento, mas viva numa insegurança que, quanto mais duvida, mais necessita de crer. Só que, como sua inteligência está toda a serviço da corrosão, o caminho da crença racional lhe está vedado, não lhe restando senão apegar-se à pura emotividade. E, como as emoções são flutuantes por natureza, não podem lhe dar a segurança que ele deseja, a não ser que algo as regule e discipline de fora: daí a busca da emoção coletiva, que exerce sobre a pobre alma o efeito ordenador, estruturante – e, afinal, calmante – de um Ersatz da razão.
Eis por que, na mente das nossas classes letradas, o ceticismo mais corrosivo pode coexistir pacificamente com a adesão aos grosseiros moralismos políticos do dia, ninguém aí enxergando a menor contradição em negar a existência do bem e do mal e clamar, ao mesmo tempo, pelo castigo dos maus. Que essa mistura de Pirro e Savonarola sofra de uma insaciável fome de bodes expiatórios, nada mais lógico: o falso clamor de justiça é a exteriorização padronizada do ódio que a alma moralmente inconsistente tem de si mesma.
Ser cético no dia a dia não tem muita coisa a ver com o ceticismo filosófico, pirrônico. Olavo tem a mania de enxergar/criticar tudo sob a ótica filosófica, mesmo quando não é o caso.
Trata-se apenas de ir atrás de informações, evidências, provas, criticar o que se é oferecido, não engolir qualquer coisa de imediato, ter espírito de pesquisa, tentar cavucar a verdade. Ou seja, aquilo que qualquer cidadão deveria fazer, e justamente por não fazê-lo, cai em todo tipo de engodo e armadilhas, desde comprar vitaminas porque o Zico está na propaganda até votar nos políticos do PT, por exemplo.
Não tem nada de filosófico nisso, não tem nada de "duvidar eternamente de tudo", "culto da dúvida", "temor à experiência profunda", "recuo defensivo para a superfície", "operação de fuga", "inteligência a serviço da corrosão" ou qualquer outra coisa do tipo.
É verdade, Lucas.
Me espanto todos os dias em ver até que ponto os imbecis relativizam o Bem e o Mal - sou muito mal-vista por julgar, imagine você! Cheguei a um ponto em que chamo de idiota pra baixo qualquer um que ouse me vir com essa parvoíce de "não se deve julgar", "cada caso é um caso", etc.
E ao mesmo tempo dizem que "não querem impunidade", e que isso ou aquilo é "uma injustiça"...
Só esganando, fala sééério!!!!!
Eis por que, na mente das nossas classes letradas, o ceticismo mais corrosivo pode coexistir pacificamente com a adesão aos grosseiros moralismos políticos do dia, ninguém aí enxergando a menor contradição em negar a existência do bem e do mal e clamar, ao mesmo tempo, pelo castigo dos maus.
Não vejo o bem e o mal como forças externas à natureza que se contrapõe eternamente e que podem dominar os indivíduos, acho isso de um simplismo injustificável.
Bem e Mal são conceitos que tentam classificar ações que se desenrolam por uma série de eventos, que envolvem impulsos e anseios humanos. Classificamos bem e mal conforme nossa própria conveniência na maioria das vezes, e quem não percebe isso não tem condições de fazer julgamentos de quem quer que seja.
Por fim, o Olavo tem um péssimo hábito de citar genericamente que determinada classe pensa e age assim ou assado, e colocando tudo num mesmo saco.