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Pensador e homem de fé

Iniciado por leandro_11 em 26/09/2009 · 5 mensagens

leandro_11#1
Sigmund Freud (1856-1939) se definia “herege incurável”; porém, sabia conviver tolerante e civilizadamente com um pastor luterano e pedagogo, de Zurique, Oskar Pfister (1873-1956). E o recíproco era verdadeiro, sendo talvez inusitado devido ao contexto marcado pelo fanatismo religioso e pela ciência que ridicularizava o raciocínio teológico, no início do século XX. E hoje, não é diferente.
Porém, a cordialidade, como manifestação vinda do interior das pessoas, fazia com que os dois fossem francos e afáveis ao mesmo tempo, conforme se pode verificar em suas correspondências, durante os anos 1909 a 1938. Numa delas o pastor escreveu: “Sua religião substituta” (referindo-se ao livro O Futuro de uma Ilusão, que provocou reações por parte de religiosos e cientistas) “é, em essência, o pensamento iluminista do século XVIII numa nova roupagem orgulhosa e moderna”, além de responder a Freud com o livro “A Ilusão de um Futuro”, que para o historiador Peter Gay (1923-) foi “a mais civilizada das réplicas e contestações, cortês e muito amorosa” (Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 487)
leandro_11#2
E, noutra carta: “No tocante à música, à filosofia e à religião, meus caminhos são diferentes dos seus”. Ao que Freud respondeu: “Já há tempos penso em escrever (O Futuro), mas posterguei a ideia por consideração a você, pois temia que viesse a ser-lhe doloroso. Se você adivinhou, eu escrevi para proteger a Psicanálise dos sacerdotes”. O pastor respondeu: Um adversário intelectualmente poderoso é certamente mais útil à religião do que mil seguidores inúteis. Você sempre foi tolerante comigo, não deveria eu também sê-lo em relação ao seu ateísmo? Você bem sabe que nem minha atitude em relação a você nem o prazer que extraio da psicanálise foram diminuídos por causa de minhas reservas no que diz respeito à sua rejeição da religião. Sempre enfatizei que a psicanálise é o mais fértil fruto da psicologia, mas nunca a considerei uma ciência completa da mente, e muito menos uma visão de mundo, ou da vida. Tenho certeza de que você é da mesma opinião”. (Um Judeu sem Deus. Rio de Janeiro, Imago, 1992. p.87-88)
leandro_11#3
A fé do “herege”: “a ciência é uma força poderosa e enrijece o nosso ânimo”; “a psicanálise em si não é religiosa nem anti-religiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso como o laico poderão servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores. Estou admirado de que eu mesmo não tenha me lembrado de quão grande auxílio o método psicanalítico pode fornecer à cura de almas, porém isto deve ter acontecido porque um mau herege como eu está distante dessa esfera de ideias.” Para o pastor, “o conhecimento não garante o progresso. A ciência, seca e antisséptica, também não poderá jamais ocupar o lugar da religião; não consegue inspirar valores morais ou obras de arte duradouras”.
leandro_11#4
Para Freud, “uma carta sua faz parte do mais belo que pode recepcionar a gente no regresso para casa”; “suas visitas e seu duradouro afeto, atestam seu gosto pela vida”. E Pfister, que encontrou na psicanálise meios de ajudar suas “ovelhas” emocionalmente perturbadas, pois considerava as discussões teológicas estéreis e disputas insípidas, chegou a considerar sua saída da Igreja. Porém, Freud o encorajou a permanecer, pois como “pastor-analista” tinha muito a contribuir: “Se me perguntassem sobre o lugar mais aprazível da terra, eu responderia: informem-se na casa do professor Freud!”; “cristão melhor nunca existiu, corajoso, honesto e benévolo!”; “sem a análise, há muito eu teria sucumbido”.

Pfister, sem temer seus limites, se preparou intelectualmente para contribuir com o conhecimento científico; sem abrir mão da sua experiência religiosa, interligou a Psicanálise à Pedagogia. A ciência solidificou sua fé. Um modelo a ser seguido. (Artigo enviado ao Jornal da Manhã)
massasofrida#5
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