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A Cruz

Iniciado por renan_6 em 30/09/2009 · 10 mensagens

renan_6#1
A efusão do sangue de Cristo na Cruz é a causa meritória da nossa saúde eterna. É da Cruz que nos vem todo e qualquer benefício espiritual. Toda a espiritualidade católica baseia-se na Cruz e dela se nutre. Retire-se a Cruz, e haverá uma queda contínua até o seu abismal avesso: o prazer hedônico, doentio, fetichizado, cego, pervertido, invertido, insaciável, utilitarista. A Cruz é o sofrimento com um sentido — um sentido divino, transcendente. Afastar-se da Cruz é perder o significado da dor de amor** e, portanto, da própria vida humana. Aproximar-se da Cruz é tornar sagrado o sofrimento. É sacrum facere. A Cruz é o amor em seu ápice pletórico insuperável.

Sem a Cruz, só nos resta cair na depressão psicológica — ou, como diziam os latinos, no pecado da acídia —, pois como suportar as dores, os males, as doenças, as traições, a morte, as faltas e as incompletudes que parecem constituir toda a nossa existência, sem acabar por descrer da excelência a que estamos destinados? Só a Cruz pode dar sentido a tudo isso. A Cruz dá perfeito sentido à vida e à morte.

Sem a Cruz, só nos resta cair na languidez de uma feérica atividade da imaginação, pois, quem não consegue encontrar nenhum sentido para a inevitável dor de viver, há de viver imaginando como fugir da dor. E dar asas à imaginação, como diziam os Padres do Deserto, é dar armas para o demônio.

Sem a Cruz, só nos resta sucumbir às atitudes mais antiéticas possíveis. Sempre que se apresentar a ocasião, o homem para quem a dor e os males não têm sentido fará de tudo para minimizar os seus problemas, a qualquer custo. Só na Cruz pode haver verdadeira ética; as demais éticas estão, em relação à da Cruz, como o imperfeito está para o que é perfeito.
renan_6#2
Sem a Cruz, só nos resta cair no individualismo, esse vício mental terrível. Para o individualista (sempre uma pessoa sumamente problemática), não existe verdadeira doação de amor, mas apenas ações torpemente interesseiras, movidas ou pelo desejo de auto-satisfação ou pela inveja — como no caso da anticatólica teoria de René Girard, uma "diabolice" de péssimo gosto. Se essa teoria satânica fosse correta, não haveria boas ações, em sentido próprio, mas as haveria apenas por analogia de atribuição extrínseca. Um católico que acreditasse nisso seria um católico, literalmente, sem Cruz.

Sem a Cruz, só nos resta perder o sentido espiritual da beleza, mais cedo ou mais tarde. A beleza, sem a Cruz, é a beleza física, a beleza emparedada na imanência, num plano meramente sensível, limitado e limitante. A beleza, com a Cruz, é a beleza da vontade que escolheu o bem do próximo — por amor a Deus —, e também da inteligência que assimilou as verdades fundamentais.

Tudo isso (e muito mais) veio-me à mente hoje, ao reler o belíssimo texto intentio cordis, do Nougué, onde se reafirma a eterna verdade do pó que somos e do pó que havemos de ser — os quais só alcançam sentido humano na Cruz.

Amar a Cruz, no entanto, é uma meta, um desafio. Algo que só se consegue com o auxílio da Graça. Senti-o eu mesmo, quanto extraí um câncer, há três anos, e agora, quando um insidioso problema de saúde me acomete. É difícil, sim, mas não há outro caminho para o cristão.

** Dizia o Padre Pio: “A verdadeira dor é a que nos causam as pessoas que amamos”.

Em tempo: Agradeço a todos os que têm rezado pelo meu pleno restabelecimento, que, se for da vontade de Deus, virá. Em caso contrário, rogo-Lhe que me ajude a carregar essa Cruz.
renan_6#3
renan_6#4
Não sou cristão, mas a analogia se mostra sublime.
renan_6#5
Muitos cristãos têm horror, sentem uma verdadeira repulsa a Cruz.

É sério isso?
renan_6#6
Se é sério que muitos cristãos têm "repulsa à cruz"?

Soa absurdo.
renan_6#7
As we have taken the circle as the symbol of reason and madness, we may very well take the cross as the symbol at once of mystery and of health. Buddhism is centripetal, but Christianity is centrifugal: it breaks out. For the circle is perfect and infinite in its nature; but it is fixed for ever in its size; it can never be larger or smaller. But the cross, though it has at its heart a collision and a contradiction, can extend its four arms for ever without altering its shape. Because it has a paradox in its centre it can grow without changing. The circle returns upon itself and is bound. The cross opens its arms to the four winds; it is a signpost for free travellers.

Orthodoxy, cap. 2
falko#8
O ESQUECIMENTO DO ETERNO
JOSÉ ENRIQUE BARREIRO

"De um lado o espírito da sociedade política, do outro o culto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião do cosmos opõe-se à aliança de Deus com o homem."

OLAVO DE CARVALHO

Se em vez da última legião da história
houvesse luz e fogo incandescente,
o lamentável grito de vitória
do ordinário sobre o transcendente

não vibraria na pele, na memória,
no coração do ser inteligente.
A matemática e toda a sua glória
retórica perfeita, mas tangente,

parceira da história nesse plano,
fechou o cerco à vertical poesia,
e o horizonte é tudo o que sabemos.
falko#9
A aliança do cosmos soberano
com a música das horas formaria
o equívoco sem graça em que vivemos.

O pássaro da vida, aquele traço
que vai da alma humana ao firmamento,
grudado aqui, no chão do tempo-espaço,
acorrentado à carne e ao pensamento,

não pode ser amor, nem mesmo abraço
e nem palavra-sol, ensinamento.
Canção sem voz, poema sem compasso,
imensidão de luz no esquecimento,

assim caminha, só, a humanidade,
acreditando ser a natureza
e o acontecer horizontal das eras

o território inteiro da verdade,
a fonte incomparável da beleza
e o coração de todas as quimeras.

A metafísica e os seus escuros,
o coração de Deus e seu abismo
diante de um exército seguro
da exatidão da lei e do algarismo:
falko#10
quem vencerá então o tal enduro?
A terra, o céu e seu paralelismo?
Ou o poder pagão de um cosmos puro
em que o Estado é todo o catecismo?

De um lado, a matéria, densa e forte,
de outro a fé, a suprema insensatez.
Na dobra decisiva dessa esquina

uma resposta sela a nossa sorte:
seremos bárbaros todos de uma vez
ou é maior que tudo a luz divina?

Só uma solução cessa o conflito:
o encontro entre o símbolo profundo
do sonho que atravessa o infinito
com as terras do planalto deste mundo.

No coração da cruz estão unidos
o sal e o mel, o rei e o vagabundo,
o âmago de todos os sentidos,
o Deus mais alto e, em mim, o eu mais fundo.

Se o espírito do amor inteligente
cruzar ali os braços do terreno,
o homem poderá colher o fruto

de tudo aquilo que já é semente —
trocar enfim o módico veneno
pelo eterno sol do absoluto.

< http://www.olavodecarvalho.org/poesia.htm >

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