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Marilena Chauí sobre Deus

Iniciado por renan_6 em 06/10/2009 · 20 mensagens

renan_6#1
Vídeo do YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=hiS9Xuvm33c
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Qual é a sua visão da religião, da filosofia, e qual a solução que a sra. encontrou para a questão de Deus?
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Eu vou colocar [esta questão] a partir de Spinoza, porque eu concordo com ele, aprendi a pensar e a ver isto com ele. Spinoza faz uma clara diferença entre o campo religioso da fé e o campo filosófico do trabalho do pensamento, da razão. O campo da fé é o campo onde as verdades são reveladas, as regras de conduta são reveladas, e o que se espera é que você tenha fé, que você creia, que você aceite e que você cumpra aquilo na esperança de salvação. Em contrapartida, o campo da filosofia é o campo do trabalho da razão, portanto é o campo da descoberta da verdade, e não da recepção da verdade, é o campo de questionamento de valores, normas, regras estabalecidas, e não do seu cumprimento, e é uma outra concepção de felicidade e salvação como obra individual de cada um de nós enquanto um ser ético.
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No campo da fé, a senhora teria alguma fé?
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Não, eu conheço Deus, eu não acredito nEle. Acreditar em Deus é esperar que ele se revele através dos textos sagrados. Conhecê-lo é exercer o trabalho do pensamento na direção de conhecer a estrutura do universo e o modo de realização do universo.
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E aí, concordam?
renan_6#2
Sim, eu sei, ela é bizarra, uma panteísta marxista! Mas debatamos.
willian#3
Ela têm razão ao tratar Deus como objeto acessível ao intelecto pela luz da filosofia e do conhecimento, más se equivoca em sua concepção pueril do que seja a FÉ, como se a mesma estivesse desconectada de um princípio racional.

O mais correto seria pensar como Santo Agostinho: Intellege ut credas, crede ut intellegas .
fabio_10#4
bom , a teoria da mais valia nem deve ser citada jamais sob pena de petrificacao, pq tah loco , esta ja era faz hora
a questao do jornalista do estado(?) foi imbecil.totalmente imbecil aos meus olhos.
ddo oiapoque a chauii
esse eh o brasil olimpico
renan_6#5
Sim, creio que o erro principal seja esse, como exposto nas seguintes premissas:

1) conhecer e crer são duas atividades do espírito que nada possuem em comum.
2) a investigação tem precedência absoluta sobre a crença .
priscila#6
Olha, eu cada vez mais vejo que a existência desses dois modelos de cognição - que eu costumo chamar de dois paradigmas - é verdadeira. É uma noção correta, e se refere MESMO a uma realidade.

O "crede ut intelligas; intelliga ut credes" não é um conselho religioso - é uma descrição da realidade. É ASSIM que as coisas se passam, obrigatoriamente! Qualquer "quebra" nessa unidade interativa ANULA a capacidade de qualquer pessoa de efetivamente compreender QUALQUER COISA.

Eu já sabia disso, tinha mesmo CERTEZA de que, anulando UM LADO, o "resultado da interação" também seria anulado. Mas não tinha jamais encontrado, a não ser na frase agostiniana (que a ignorante aqui sempre pensou que era de Santo Tomás, mas não tem importância: são ambos Doutores da Igreja, e gigantes intelectuais), alguma referência a isto.

Até que, não mais que de repente, comecei a praticamente tropeçar em referências a esta mesma idéia:

- "Because it seems to be certain that it will always b quite impossible to explain the mind on the basis of neuronal action within the brain, and because the mind develops and matures independently throughout an individual' s life as a continuing element, [...] I am forced to choose the proposition that our being is to be explained on the basis of TWO fundamental elements." - Wilder Penfield, em "The Mistery of the Mind"

- "A growing number of neuro-physiologists and brain experts - including some leading authorities - have come to believe that the monist position is untenable, and that the phenomena of perception and thought can only be explained on the assumption that, in addition to the brain, there exists also a 'second element' or mind." - Wolfgang Smith, em "The Quantum Enigma".
priscila#7
- "This ancient teaching, which I am merely putting into modern terms, implies that there are two elements or agents involved rather than one: the computer programmer and the computer. [...]That the fullness of the human mind cannot be accounted for by one element alone is the universal assertion of all the great religions, an assertion which has recently been corroborated by modern science". - E.F. Schumacher, em "A Guide for the Perplexed".

Portanto, o modelo "unicamente racional" de Dona Chauí está simplesmente ERRADO, é capenga.

De qualquer maneira, ela demonstra através do que diz que algum vestígio da noção certa está lá - não inteiramente nítida, mas também não inteiramente apagada.
marcos_12#8
A segunda pergunta é uma ENXURRADA de pérolas. Aí vai:

"Não, eu conheço Deus, eu não acredito nEle."

Errado!! É IMPOSSÍVEL conhecer algo que não se acredita. Isso não faz o menor sentido!! Se se conhece algo, esse algo já existe POR DEFINIÇÃO e pressupõe o contato da pessoa com o objeto. Ou seja: Chauí está dizendo que não crê naquilo que vê.

Isso é paralaxe cognitiva PURA e/ou loucura total. Isso é burrice.

"Acreditar em Deus é esperar que ele se revele através dos textos sagrados."

Essa é uma das infinitas formas de ter Deus revelado. Ele pode revelar-se por um insight, na simples oração (e daí o insight), numa conclusão lógica inevitável que leve à pertinente existência dele (aqui penso em Sto. Tomás de Aquino), ou, por que não, no presenciamento de um fenômeno como aparições, visões, vozes, etc. Essa concepção da Chauí é extremamente estreita, e isso é idéia comum na sociedade moderna atual. Não me admira que a religião tenha perdido muito espaço nas últimas gerações e se transformado em algo pedante e caquético. Desumanizaram o Deus cristão.

"Conhecê-lo é exercer o trabalho do pensamento na direção de conhecer a estrutura do universo e o modo de realização do universo."

Errado. Conhecê-Lo é ABRIR-SE a Ele, DEIXAR-SE tocar por Ele, entrar em COMUNHÃO com Ele. Deus fala pelo CORAÇÃO, E NÃO PELA RAZÃO! A razão pode levar à Sua conclusão necessária e inevitável, creio eu, mas não pode levar ao conhecimento de Deus. Chauí está dizendo que a razão é o ponto mais elevado do ser humano, mas não é. O nosso ponto mais elevado é o espírito, e ele transcende a razão e possui o fio que nos liga à transcendência.

A visão da Chauí está esmagadoramente errada e toda deturpada.
priscila#9
É talvez MAIS que isso, Renan - essa segunda "coisa", que eu sempre chamei de "consciência", e que até agora não vi ser "batizada" por ninguém (todos dizem "segundo elemento"), representa na verdade uma realidade definida - uma realidade perceptível. Não "inteiramente perceptível", porque a rigor nós NÃO percebemos NENHUMA realidade de forma COMPLETA - isso é impossível, é claro.

Mas perceptível como todos os pedaços de realidade que podemos perceber são perceptíveis. Ou seja, não é uma abstração, uma idéia - é uma "coisa", mesmo. Não quero dizer com isso que seja uma "coisa concreta", ou uma "estrutura encontrável".

Bom, enfim - eu tentando explicar alguma coisa é sempre meio catastrófico.

Por alguma circunstância que ainda não consegui definir qual foi, eu realmente nunca achei que estivesse "vendo" tudo, e sim só uma espécie de "casca" das coisas - e que um "pedaço" do que fica do outro lado eu posso "ver" (posso saber que existe), mas de uma outra maneira. É uma longa história, e de interesse apenas pessoal, é claro. Mas, como talvez tenha mais alguém no mesmo caso, eu resolvi tentar explicar: quando era criança, supunha que todas as pessoas também tivessem essa mesma percepção, e depois é que vi que não, porque ninguém entendia do que raios eu estava falando. Devem existir outras pessoas na mesma situação, suponho, e por isso eventualmente procuro achar alguma.
priscila#10
😄 - Sim, tem toda razão, a senhora Chauí anda para trás, e diz que "conhece" uma coisa que afirma que "não existe". Em matéria de contradição absurda, é ótima, essa.
priscila#11
Mas Marcos, essa contradição ocorre JUSTAMENTE porque os tais dois elementos - os quais a referida senhora não INTEGRA - estão lá, mas desconectados.

Essa desconexão faz com que ela CONTINUE tendo "noções" - mas não consiga ter "A noção".

Eu penso que é a maneira como as pessoas são TREINADAS a "pensar" que desintegra o jeito certo.

Eu vejo como uma deformação CAUSADA, tão realística quanto as deformações ósseas nos pés das mulheres chinesas de antigamente, causadas pelo uso de faixas para torná-los pequenos.
renan_6#12
Ótimas contribuições, caros amigos.

Esta discussão pode retornar inclusive àquele velho debate sobre o Paradoxo de Meno em Platão.

É possível investigar sem já conhecer algo?
renan_6#13
It is idle to talk always of the alternative of reason and faith. Reason is itself a matter of faith. It is an act of faith to assert that our thoughts have any relation to reality at all.

Chesterton, Orthodoxy, Chapter III
eduardo_22#14
Não concordo objetivamente. Talvez estejamos sendo demasiadamente inquisitoriais.

Quando a Dra. disse que "conhece Ele, mas não crê Nele", TALVEZ tenha quererido dizer que "entende" ou ainda que "domina" o conceito de Deus, mas não concorda com esse conceito.

Como TALVEZ dizer que "conheço a teoria da mais valia mas não acredito nela", ou "não concordo com ela".

De toda maneira a forma de construir a expressão é infeliz, talvez realmente demonstre algum tipo de deformidade ou vício intelectual.
marcos_12#15
"Mas Marcos, essa contradição ocorre JUSTAMENTE porque os tais dois elementos - os quais a referida senhora não INTEGRA - estão lá, mas desconectados."

Bom, então posso dizer que ela vê os dois, mas quando vê um não vê o outro, e vice-versa. Daí a loucura no comentário dela.

De fato, é um pensamento dissociado.
ayrton#16
Apesar de ele ser totalmente cético, considero que o Mainardi também é filho de Deus e ,por isso, também tem o direito de chutar essa ideóloga e o seu contorcionismo gramatical relativista:

"Em Mito Fundador e Sociedade Autoritária, Marilena Chaui fez um apanhado de nosso imaginário nacionalista. O ensaio foi publicado no ano 2000. Quem o editou? Marco Aurélio Garcia, atual coordenador do programa de Dilma Rousseff. A meta de Marilena Chaui era contrastar a propaganda patrioteira de Fernando Henrique Cardoso, na festa dos 500 anos de Descobrimento do Brasil. De “semióforo” em “semióforo” - sim, Marilena Chaui interpreta semióforos -, ela argumentou que nosso chauvinismo “verde-amarelista” sempre foi usado pela classe dominante para manter o poder, esmagando “aqueles célebres 6%” de impatriotas que insistiam estupidamente em ignorar a grandeza do governante de turno.

De Pero Vaz de Caminha a Amaral Netto, passando pelo fascismo getulista e pelo regime militar, Marilena Chaui indicou algumas das patifarias nacionalistas marteladas no decorrer dos séculos. A primeira delas foi perfeitamente resumida por Afonso Celso, mais de 100 anos atrás: nossa riqueza natural é uma dádiva de Deus, e, se Deus “aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reserva alevantados destinos”. Lula recorreu à mesma impostura determinista quando estatizou o pré-sal, dizendo tratar-se de “uma dádiva de Deus e um passaporte para nosso futuro”. Marilena Chaui analisou também a imagem alegre e fraternal dos brasileiros, que a “cultura senhorial” disseminou a fim de domesticá-los. Mas foi nessa imagem alegre e fraternal que se baseou a mitografia petista, segundo a qual Lula condensaria as melhores características dos brasileiros - Lula, o Filho do Brasil.
ayrton#17
Marilena Chaui fazia parte da “urubuzada” agourenta. Depois que Lula foi eleito, ela deu uma amostra de seu rigor intelectual, tornando-se imediatamente “verde-amarelista”, alinhada à fanfarronice do Brasil Grande. Plínio Salgado - o Ricardo Kotscho integralista - inaugurou o “verde-amarelismo”. Alguns anos mais tarde, seu movimento totalitário teve uma segunda etapa. Nome? “Revolução da Anta”. Os célebres 6% que reprovam o governo Lula acreditam estar em plena “Revolução da Anta”."

"Do Kotscho à Chauí" ( Diogo Mainardi)

http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/na-revista/do-kotscho-a-chaui/
lucas_9#18
Não, eu conheço Deus, eu não acredito nEle.

Será que ela teve algum êxtase espiritual ou foi arrebatada ao terceiro céu, ou algo do gênero? Poderosa ela, não?
lucas_9#19
Quando a Dra. disse que "conhece Ele, mas não crê Nele", TALVEZ tenha quererido dizer que "entende" ou ainda que "domina" o conceito de Deus, mas não concorda com esse conceito.

Pois é, e é isso que acho mais escabroso ainda. Ela "conhece" a Deus sem acreditar n'Ele, ou seja, domina-O, O tem na sua mão, faz Ele se submeter à sua conceituação. Não admite que algo de transcendente possa ser recebido de fora (então como poderia ser transcendente? 😮) mas que todo o mérito do conhecimento é dado pelo esforço individual.

Que tristeza ver que esse pensamento é a moda de hoje.
falko#20
ela que vá cuidar das barricadas na USP

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