O Fedeli acabou com a cadeia e a sequência de rimas, deixando só o sentido explícito; ele mesmo admitiu, na página do site Montfort de onde tirei o poema.
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Antonio Machado - RETRATO
Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.
Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
— ya conocéis mi torpe aliño indumentario —,
mas recibí la flecha que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.
Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y más que un hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.
Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;
mas no amo los afeites de la actual cosmética,
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.
Desderio las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.
¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso, como deja el capitán su espada;
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.
Converso con el hombre que siempre va conmigo
— quien habla solo espera hablar a Dios un día —;
mi soliloquio es plática con este buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.
Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.
Vou contribuir hoje com o soneto LXI de Shakespeare, um favorito romântico, o primeiro que eu aprendi de cor...
Is it thy will thy image should keep open
My heavy eyelids to the weary night?
Dost thou desire my slumbers should be broken,
While shadows like to thee do mock my sight?
Is it thy spirit that thou send'st from thee
So far from home into my deeds to pry,
To find out shames and idle hours in me,
The scope and tenor of thy jealousy?
O, no! thy love, though much, is not so great:
It is my love that keeps mine eye awake;
Mine own true love that doth my rest defeat,
To play the watchman ever for thy sake:
For thee watch I whilst thou dost wake elsewhere,
From me far off, with others all too near.
...que eu já postei aqui a propósito de não me lembro o que; o "Mar Português", ou "Mare Nostrum"...
Ó mar salgado, quanto do teu sal
Sao lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram,
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não e pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele e que espelhou o céu.
Fernando Pessoa de fato tem grandes poemas - "Deem-me aqui onde jazo/só uma brisa que passe:/Não quero nada do acaso/ Senão a brisa na face..." é uma coisa LINDA!
Mas o melhor de todos talvez seja o "Aniversário", do qual faz parte o trecho abaixo:
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
A beleza vaga de um romântico
Traz flores e faz apaixonar
Ter sentimentos é bom ,mais é praga
Não é saudável sofrer,não é bom amar
Quando o espinho do amor recai
Sobre o coração amante a suspirar
Se só ficar neste ,não a dor maior
O reflexo no olho do ser amado a chorar
Juras de amor são tão suaves,tão malditas
A mente dorme ,tudo é bom ,tudo vai durar
No fundo a afetividade é ferida
Não é saudável sangrar ,não é bom amar
Não escrevo isto tomado de pessimismo
Nem por desilusão um poeta vem cantar
Sou amante ,mas sou reflexo
Insistente ,perdido,num indiferente olhar
Minha escuridão é uma flor linda
Tem um perfume e um veneno que faz matar
Me sinto bem de olhos fechados no sonho
E a tristeza sempre volta com o despertar
Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.
"O nobre filho de Acreu continuava colérico. Entanto
alça-se o velho Nestor o orador delicioso dos Pílios
de cuja boca fluíam mais doces que o mel as palavras.
Gerações duas de seres de cúria existência já vira
desaparecer que com ele nasceram no solo arenoso
da sacra Pilos; qual rei na terceira ora o mando exercia.
Cheio de bons pensamentos lhes disse arengando o seguinte:
“Deuses! Que dor indizível se abate nos povos da Acaia!
Príamo grande alegria por certo há-de ter e seus filhos
todos os outros Troianos também ficarão muito alegres
quando notícia tiverem de que ambos desta arte contendem
os mais distintos heróis nos conselhos de guerra e nas pugnas.
Ora atendei-me que muito mais moços do que eu sois sem dúvida.
Já convivi noutros tempos com mais vigorosos guerreiros
do que vós ambos; no entanto nenhum inferior me julgava.
Não nunca vi nem presumo que possa ainda ver algum dia
homens do porte de Driante pastor de guerreiros Pirítoo
o grande Exádio Ceneu e o que aos deuses é igual Polifemo
e ainda Teseu que de Egeu descendia de formas divinas.
Esses realmente os mais fortes heróis que na terra viveram
não foram fortes somente: lutaram com fortes guerreiros
monstros alpestres a todos matando por modo terrível.
Fui companheiro de todos nas lutas de então pois chamado
por eles próprios me vira de Pilos longínqua arenosa.
Sim quanto me era possível lutei pois dos homens que a terra
ora alimenta nenhum suportara confronto com eles.
Obedeciam-me entanto; meu voto era sempre acatado.
Obedecei-me também que é melhor aceitar bons conselhos.
Mas forte embora não queiras Atrida tomar ao Pelida
a bela escrava alto prémio que os fortes Aqueus lhe entregaram.
[...]
Se és em verdade robusto e uma deusa por mãe te enaltece
este é bem mais poderoso porque sobre muitos domina.
Faz cessar teu furor nobre Atrida te peço; não deixes
ir para adiante tua cólera contra o Pelida pois ele
tem sido o amparo dos povos aqueus contra os males da guerra.”"
"7. Não há absolutamente nada superior a Mim, Dhananjaya.
Todo Universo está preso a mim, como as pérolas de um colar
estão presas ao fio que as mantém unidas.
8. Eu sou, filho de Kunti, o sabor da água, a luz do Sol e da
Lua, das palavras sagradas Eu sou o pranava OM.
O som no éter e a virilidade nos homens.
9. Sou puro perfume na terra, o brilho do fogo, a vida dos
vivos, a santidade dos santos.
10. Sabe, filho de Pritha, que Sou a semente de toda a
manifestação, sou a sabedoria dos sábios e o poder dos
poderosos.
11. Sou a força dos fortes, livre de apego; Eu Sou o puro
amor dos amantes, ó príncipe dos bharatas.
12. Entende que de Mim procedem todas as coisas -
as feitas de satwa, aquelas feitas de rajas
e aquelas feitas da qualidade de tamas;
Eu não estou nelas mas elas estão em Mim.
13. Iludido pelos três atributos da natureza (satwa, rajas e
tamas), que se revelam em todas as coisas, não sabe que Eu
estou acima delas e sou imperecível e imutável.
14. Difícil, ó príncipe, é romper o véu de ilusão que cerca a
manifestação. Somente aqueles que se aproximam de Mim
superam a ilusão. "
Muito legal a tradução de If do Guilherme de Almeida. Gosto muito dele. (:
Abaixo segue uma poesia do próprio e uma tradução sua de Baudelaire.
O Ciúme
Minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
Que os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei;
Agora, que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei;
Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não me podes dar a impressão que me deste,
A primeira impressão que me fizeste,
Louco, talvez,
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela primeira vez.
À uma passante
A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.
Obra completa, já maduro, tosse:
"Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe."
E a voz mais alto: E daí? E daí?
WHAT THEN?
W. B. Yeats
His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
All his happier dreams came true —
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
poets and Wits about him drew;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
"The work is done," grown old he thought,
"According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought";
But louder sang that ghost, "What then?"
O Yuri Vieira é gente fina pra caramba ! Por influência dele é que comecei a ler o Livro de Urântia, e oh livrinho complicado ! Aliás livrinho não, livrão maior até do que a bíblia!
Um soneto de Camões que, se não consola, pelo menos nos faz ver que por todos os tempos este mundo será, na maior parte das vezes, uma sucessão de desgostos. Eia, pois, e sentemos à margem dos rios da Babilônia para chorarmos as lembranças de Sião!
Soneto 45
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Ó meu Deus, que combate cruel!
Em mim, dois homens a lutar:
Se um deles me manda te amar
Com grande amor sempre fiel,
A ti, meu Deus, o outro revel
Me faz tua lei desprezar.
Um, a este mundo sendo infesto,
Manda que, sempre ao céu ligado,
E pela graça sustentado,
Eu menospreze todo o resto;
E o outro com peso bem funesto
Me traz à terra sujeitado.
Ai! Comigo mesmo lutando,
Onde achar poderei a paz?
Quero, mas não cumpro jamais.
Quero, mas, ó crime nefando,
Não faço o bem que estou amando,
Só o mal que odeio, nada mais.
Ó graça, lume necessário,
Da íntima paz, me aponta o norte,
E sujeitando, suave e forte,
O pecador, que te é contrário,
Transforma em servo voluntário
Um pobre servo preso à morte.
Para mim, este poema abre com os versos mais fortes de nossa literatura, provavelmente é também o que de mais forte e sincero saiu dos nossos românticos. Escrito de um pai para o filho morto ainda bebê, deixo aqui um trecho deste poema:
Cântico do Calvário
À Memória de Meu Filho Morto a l l de Dezembro de 1863.
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
(...)
Noite Escura
“Em uma noite escura
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
’stando já minha casa sossegada.
Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! Ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
’stando já minha casa sossegada.
Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.
Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em lugar onde ninguém aparecia.
Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada no amado transformada!
Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.
v Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.
Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado”.