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O Anelo

Iniciado por pedro_9 em 09/10/2009 · 45 mensagens

pedro_9#1
Johann Wolfgang von Goethe - Tradução de Manuel Bandeira

Só aos lábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira a morte no fogo.

Na noite em que te geraram,
Na noite que geraste, sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascinas o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detem as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Á vida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te:" enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Como vem da cana o sumo
Que os paladares adoça,
Flua assim da minha pena
Flua o amor o quanto possa.
pedro_9#2
Copiei o poema de Goethe com pressa, nem reparei na crase virando acento agudo e no "detem".

Agora Dante, traduzido por... Orlando Fedeli!

Paradiso, XXIII, 1-21

Vergine Madre, Figlia del tuo Figlio,
umile e alta più che creatura
termine fisso d’etterno cosiglio,

tu se’ colei che l’umana natura
nobilitasti si, ch’ l suo fattore
non disdegnò di farsi sua fattura.

Nel ventre tuo si raccese l’amore
per lo cui caldo nell’etterna pace
così è germinato questo fiore.

Qui se’a noi meridiana face
di caritate, e giuso, intra i mortali,
se’ di speranza fontana vivace.

Donna, se’ tanto grande e tanto vali,
che qual vuol grazia ed a te non ricorre
sua disianza vuol volar senz’ ali.

La tua benigtate non pur socorre
a chi domanda, ma molte fiate
liberamente al dimandar precorre

In te misericordia, in te pietate,
in te magnificenza, in te s’aduna
quantunque in creatura è di bontate.

***

Virgem Mãe , filha de teu Filho,
mais humilde e elevada que toda outra criatura
objetivo fixo da eterna Sabedoria,

tu és aquela que a natureza humana
enobreceste tanto, que o seu Criador
não desdenhou fazer-se sua feitura.

Em teu seio se reacendeu o amor
por cujo ardor, na eterna paz [do céu],
germinou esta flor [formada pelos anjos e santos]

Aqui [no céu] és face claríssima
de caridade, e lá em baixo, entre os mortais,
és de esperança fonte vivaz.

Mulher, és tão grande e tanto vales,
que quem quer graça e a ti não recorre,
seu desejo quer voar sem ter asas.

A tua bondade não socorre apenas
a quem pede, mas muitas vezes,
generosamente, ao pedir precede.

Em ti misericórdia, em ti piedade,
em ti magnificência, em ti se reúne
tudo quanto na criatura há de bondade"
pedro_9#3
O Fedeli acabou com a cadeia e a sequência de rimas, deixando só o sentido explícito; ele mesmo admitiu, na página do site Montfort de onde tirei o poema.

***

Antonio Machado - RETRATO

Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,

y un huerto claro donde madura el limonero;

mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;

mi historia, algunos casos que recordar no quiero.

Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido

— ya conocéis mi torpe aliño indumentario —,

mas recibí la flecha que me asignó Cupido,

y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.

Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,

pero mi verso brota de manantial sereno;

y más que un hombre al uso que sabe su doctrina,

soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.

Adoro la hermosura, y en la moderna estética

corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;

mas no amo los afeites de la actual cosmética,

ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.

Desderio las romanzas de los tenores huecos

y el coro de los grillos que cantan a la luna.

A distinguir me paro las voces de los ecos,

y escucho solamente, entre las voces, una.

¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera

mi verso, como deja el capitán su espada;

famosa por la mano viril que la blandiera,

no por el docto oficio del forjador preciada.

Converso con el hombre que siempre va conmigo

— quien habla solo espera hablar a Dios un día —;

mi soliloquio es plática con este buen amigo

que me enseñó el secreto de la filantropía.

Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.

A mi trabajo acudo, con mi dinero pago

el traje que me cubre y la mansión que habito,

el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.

Y cuando llegue el día del último viaje,

y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,

me encontraréis a bordo ligero de equipaje,

casi desnudo, como los hijos de la mar.
priscila#4
Vou contribuir hoje com o soneto LXI de Shakespeare, um favorito romântico, o primeiro que eu aprendi de cor...

Is it thy will thy image should keep open
My heavy eyelids to the weary night?
Dost thou desire my slumbers should be broken,
While shadows like to thee do mock my sight?
Is it thy spirit that thou send'st from thee
So far from home into my deeds to pry,
To find out shames and idle hours in me,
The scope and tenor of thy jealousy?
O, no! thy love, though much, is not so great:
It is my love that keeps mine eye awake;
Mine own true love that doth my rest defeat,
To play the watchman ever for thy sake:
For thee watch I whilst thou dost wake elsewhere,
From me far off, with others all too near.
priscila#5
...que eu já postei aqui a propósito de não me lembro o que; o "Mar Português", ou "Mare Nostrum"...

Ó mar salgado, quanto do teu sal
Sao lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram,
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não e pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele e que espelhou o céu.

Fernando Pessoa de fato tem grandes poemas - "Deem-me aqui onde jazo/só uma brisa que passe:/Não quero nada do acaso/ Senão a brisa na face..." é uma coisa LINDA!

Mas o melhor de todos talvez seja o "Aniversário", do qual faz parte o trecho abaixo:

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
pedrohenrique#6
Olhos de vidro

Olhos fugazes
Cheios de essências
Sutis
Eclodem a indecência
Ou a sapiência
Dos loucos indecisos

Glóbulos brilhantes
Incandescentes
Sem direção

Olhos de vidro
Cheios de água e de luz
Um arco íris infinito
Este um não mata,não fala
E nem conduz

De Pedro,o Pomba.
pedrohenrique#7
Nada exato

A beleza vaga de um romântico
Traz flores e faz apaixonar
Ter sentimentos é bom ,mais é praga
Não é saudável sofrer,não é bom amar

Quando o espinho do amor recai
Sobre o coração amante a suspirar
Se só ficar neste ,não a dor maior
O reflexo no olho do ser amado a chorar

Juras de amor são tão suaves,tão malditas
A mente dorme ,tudo é bom ,tudo vai durar
No fundo a afetividade é ferida
Não é saudável sangrar ,não é bom amar

Não escrevo isto tomado de pessimismo
Nem por desilusão um poeta vem cantar
Sou amante ,mas sou reflexo
Insistente ,perdido,num indiferente olhar

Minha escuridão é uma flor linda
Tem um perfume e um veneno que faz matar
Me sinto bem de olhos fechados no sonho
E a tristeza sempre volta com o despertar

De Pedro,o Pomba.
riscardo#8
Estrelas (Murilo Mendes)

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás,
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.
joovtor#9
É preciso que a música aparente,
no vaso harmonizado pelo oleiro
seja perfeitamente consistente
com o gesto interior, seu companheiro

e fazedor. O vaso encerra os cheiros
e ritmos da terra e da semente
porque antes de ser forma foi primeiro
humildade de barro paciente.

Deus, que concebe o cântro e o separa
da argila lentamente, foi fazendo
do meu aprendizado o seu compêndio

de opacidades cada vez mais claras.
E com silêncios sempre mais esplêndidos,
Foi limando, aguçando o que escutara.
angelina#10

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* UTOPIA?*

"De ver extinta a pobreza"
De ver reinar a alegria
Sentir do amor a grandeza
Curar a dor com poesia.

Um sonho, uma utopia?
Findar de vez a tristeza
De ver extinta a pobreza
De ver reinar a alegria.

Dar-se as mãos; que beleza!
Semear amor, é magia
Perdoar sempre, é nobreza
Sonhar, boa terapia
De ver extinta a pobreza....

TIAGILLA.13/05/2011
22:32
" " Clarice
andr_10#11
Dece do Céu imenso, Deus benino,
para encarnar na Virgem soberana.
«Porque dece divino em cousa humana?»
«Para subir o humano a ser Divino».

«Pois como vem tão pobre e tão minino,
rendendo-se ao poder da mão tirana?»
«Porque vem receber morte inumana
para pagar de Adão o desatino».

«Pois como? Adão e Eva o fruto comem
que por seu próprio Deus lhe foi vedado?»
«Si, por que o próprio ser de deuses tomem».

«E por essa razão foi humanado?»
«Si. Porque foi com causa decretado,
se o homem quis ser deus, que Deus seja homem».
pedro_9#12
"Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel serrana bela,

Mas não servia ao pai, servia a ela,

Que a ela só por prêmio pertendia.

Os dias na esperança de um só dia

Passava, contentando-se com vê-la:

Porém o pai usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

Assim lhe era negada a sua pastora,

Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,

Dizendo: Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida. "

Camões
pedro_9#13
A GERÓN, REY DE SIRACUSA,

VENCEDOR EN LAS CARRERAS DE CABALLOS.

Nada hay mejor que el agua: brilla el oro
Como luciente llama en noche oscura
Entre las joyas de real tesoro.

¿No ves ¡oh Musa! en la celeste altura
Que en medio al solitario firmamento
Ninguna estrella como el sol fulgura?

Si celebrar victorias es tu intento,
A la Olímpica lid lleva tu lira;

Que otra no habrá más digna de tu acento.

Ella a los vates el cantar inspira
Del Tenante en honor; con que resuena
La augusta casa do Gerón respira;

Rey que a Sicilia (de ganados llena)
Mientras la flor de las virtudes liba,
Con cetro bienhechor rige y ordena.

La música dulcísima cultiva,
Y, brillante cantor, el arpa hiere
Con que el poeta en el festín cautiva. —

Descuelga ya del clavo que la adhiere
A la pared, la cítara de Doria
¡Oh Musa! si cantar tu numen quiere

Del Alfeo y Ferénico la gloria.
¡Noble bridón! corrió sin acicate
Y a los brazos llevó de la victoria

A su dueño, de Pisa en el combate.
¡Ah! Con razón del Rey siracusano,
Sus corceles al ver, el pecho late.

Su fama admira el pueblo fuerte y sano
Que Pélope,de Lidia condujera;
A quien amó Neptuno soberano,

Después que en la purísima caldera
Volvió a formar su cuerpo Cloto santa
Y el hombro de marfil le dio hechicera,

Mil maravillas hay; y al hombre encanta
Fábula que de bella se gloría
Más que verdad cuya crudeza espanta.

Tal hermosura da la Poesía
Y tanta autoridad, que hace creible
Lo que antes imposible parecía.

Mas la posteridad es infalible
Juez. Hable de los Númenes el sabio
Sin proferir jamás calumnia horrible.

¡Hijo insigne de Tántalo! el agravio
De repetir antiguas falsedades,
No te hará, no, mi reverente labio.

Cuando, correspondiendo a sus bondades
En Sípilo a banquete sin mancilla
Convidó tu buen padre a las Deidades.

PÍNDARO
pedro_9#14
Aprenda com Nestor:

"O nobre filho de Acreu continuava colérico. Entanto
alça-se o velho Nestor o orador delicioso dos Pílios
de cuja boca fluíam mais doces que o mel as palavras.
Gerações duas de seres de cúria existência já vira
desaparecer que com ele nasceram no solo arenoso
da sacra Pilos; qual rei na terceira ora o mando exercia.
Cheio de bons pensamentos lhes disse arengando o seguinte:
“Deuses! Que dor indizível se abate nos povos da Acaia!
Príamo grande alegria por certo há-de ter e seus filhos
todos os outros Troianos também ficarão muito alegres
quando notícia tiverem de que ambos desta arte contendem
os mais distintos heróis nos conselhos de guerra e nas pugnas.
Ora atendei-me que muito mais moços do que eu sois sem dúvida.
Já convivi noutros tempos com mais vigorosos guerreiros
do que vós ambos; no entanto nenhum inferior me julgava.
Não nunca vi nem presumo que possa ainda ver algum dia
homens do porte de Driante pastor de guerreiros Pirítoo
o grande Exádio Ceneu e o que aos deuses é igual Polifemo
e ainda Teseu que de Egeu descendia de formas divinas.
Esses realmente os mais fortes heróis que na terra viveram
não foram fortes somente: lutaram com fortes guerreiros
monstros alpestres a todos matando por modo terrível.
Fui companheiro de todos nas lutas de então pois chamado
por eles próprios me vira de Pilos longínqua arenosa.
Sim quanto me era possível lutei pois dos homens que a terra
ora alimenta nenhum suportara confronto com eles.
Obedeciam-me entanto; meu voto era sempre acatado.
Obedecei-me também que é melhor aceitar bons conselhos.
Mas forte embora não queiras Atrida tomar ao Pelida
a bela escrava alto prémio que os fortes Aqueus lhe entregaram.
[...]
Se és em verdade robusto e uma deusa por mãe te enaltece
este é bem mais poderoso porque sobre muitos domina.
Faz cessar teu furor nobre Atrida te peço; não deixes
ir para adiante tua cólera contra o Pelida pois ele
tem sido o amparo dos povos aqueus contra os males da guerra.”"

Homero, Ilíada
g_orkut_3#15
CASA VAZIA

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo
pedro_9#16
"7. Não há absolutamente nada superior a Mim, Dhananjaya.
Todo Universo está preso a mim, como as pérolas de um colar
estão presas ao fio que as mantém unidas.

8. Eu sou, filho de Kunti, o sabor da água, a luz do Sol e da
Lua, das palavras sagradas Eu sou o pranava OM.
O som no éter e a virilidade nos homens.

9. Sou puro perfume na terra, o brilho do fogo, a vida dos
vivos, a santidade dos santos.

10. Sabe, filho de Pritha, que Sou a semente de toda a
manifestação, sou a sabedoria dos sábios e o poder dos
poderosos.

11. Sou a força dos fortes, livre de apego; Eu Sou o puro
amor dos amantes, ó príncipe dos bharatas.

12. Entende que de Mim procedem todas as coisas -
as feitas de satwa, aquelas feitas de rajas
e aquelas feitas da qualidade de tamas;
Eu não estou nelas mas elas estão em Mim.

13. Iludido pelos três atributos da natureza (satwa, rajas e
tamas), que se revelam em todas as coisas, não sabe que Eu
estou acima delas e sou imperecível e imutável.

14. Difícil, ó príncipe, é romper o véu de ilusão que cerca a
manifestação. Somente aqueles que se aproximam de Mim
superam a ilusão. "
orkut_28#17
Muito legal a tradução de If do Guilherme de Almeida. Gosto muito dele. (:
Abaixo segue uma poesia do próprio e uma tradução sua de Baudelaire.

O Ciúme

Minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal.

Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
Que os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei;

Agora, que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei;

Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não me podes dar a impressão que me deste,
A primeira impressão que me fizeste,
Louco, talvez,

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela primeira vez.

À uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!
orkut_28#18
E DAÍ?
Tradução: Ivo Barroso

Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.

Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.

Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.

Obra completa, já maduro, tosse:
"Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe."
E a voz mais alto: E daí? E daí?

WHAT THEN?
W. B. Yeats

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"

All his happier dreams came true —
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
poets and Wits about him drew;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"

"The work is done," grown old he thought,
"According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought";
But louder sang that ghost, "What then?"

1936
antnio_4#19
Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto...

Milagre é acreditarem nisso tudo!

Mário Quintana
riscardo#20
http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpa…8YP8#t=2686s

Mas tem de haver mais

Agora o verão se foi
E poderia não ter vindo
No sol está quente,
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos.
Como uma folha de cinco pontas
Mas tem de haver mais.

Nada de mau se perdeu,
Nada de bom foi em vão...
Uma luz clara ilumina tudo
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu,
À segurança de suas asas.
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia...
Mas tem de haver mais.
anderson_4#21
,volta e meia em,cardini

De onde você tirou essa benção celta? 
jnior_2#22
Gosto muito deste poema:

DA ADORAÇÃO EXPECTANTE VII

Não me perguntes pelo último poema,
que a neurose do verso me consome.
E eu não diria nada, sem a fome
de dizer algo de maneira extrema.

Daí calar-me sobre qualquer tema,
que seja apenas tema, e não se some
ao que eu possua para além do nome
que as coisas circunscreve ao seu dilema.

Talvez, porque o calei, seja mais forte
o verso que não fiz, que vela a face
num sono que é devida e não de morte.

Aquele mais completo e mais urgente
que, por não se entregar assim tão fácil,
alcance a duração do permanente.

                                                                Ângelo Monteiro
juliana#23
Transforma-se o amador na cousa amada

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Luís de Camões
clodoveualves#24
(Uma Litania ante o Sagrado
Coração, concebida em Paray-le-Maunial,
à época do acidente fatal
de Anecy Rocha) ---------- Bruno Tolentino

Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre — um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário.

Começa a amanhecer e uma vez mais
rebelo-me, mas sei que a minha vida
não tem como ou porque voltar atrás.

Aceito que a mais dura despedida
é bem mais que metáfora do nada
a que se inclina no chão; que uma ferida

e a papoula sangrenta da alvorada
pertencem ao mundo sobrenatural
tanto quanto uma lágrima enxugada

à beira de um caixão. Mas afinal,
Senhor, amas ou não a humanidade?
Não fui ao escandaloso funeral

e imaginá-la em Tua eternidade
dói demais! Vou passar mais este teste,
sim, mas protesto contra a insanidade

com que arrancas a muque o que nos deste!
Tu sabes que a soberba da família
era maior que a dela e eu tinha a peste —

pai e mãe apartavam-me da filha
e o irmãozão nem... E hoje, coitados,
como hão de estar? Aqui é a maravilha,

as genuflexões.... Os potentados
e os humildes, a nata da esperança,
todos chegam por cá meio esfolados,

sangrando como a luz. Não só da França,
toda a Europa rasteja até aqui
esfolando os joelhos, não se cansa

de ensangüentar-se até chegar a Ti,
e ao menos a um pixote do Além Tejo
restituíste a vista: eu quando o vi
clodoveualves#25
solucei — mas que o cego e o paraplégico
saiam aos pinotes, que o Teu coração
se escancare e esparrame um privilégio

aqui e outro acolá na multidão,
só me faz perguntar: E ela? E ela...?
Não consigo entender que a um aleijão

concedas tanto enquanto a uma camélia
Tu deixas despencar.... Porque, Senhor?
Olho tudo do vão de uma janela,

mas vejo a porta de um elevador
escancarar-se sobre um outro vão,
um vão sem chão... E a seja lá quem for

aqui absurdamente dás a mão!
Me pões trêmulo, gago, estupefato,
pasmo, Senhor — mas consolado não.

A mesma mão que fez gato e sapato
da minha doce Musa, cura e guia,
cancela as entrelinhas do contrato,

Dominus dixit... Mas quem merecia
mais do que uma açucena matinal
um manso desfolhar-se ao fim do dia,

quem mais do que uma flor, Senhor? Igual
nunca se viu nem mesmo entre os crisântemos,
tinha direito a um fim mais natural,

à morte numa cama, em casa ao menos...
Mas não — tinha que ser total o escândalo!
Por que, se nem nos circos mais extremos

Teus mártires andaram despencando
sobre os leões, se nem o lixo cai
de oito andares aos trancos, Santo Vândalo?!

Não vim denunciar o Filho ao Pai
ou o Pai ao Filho, não vim dar razão
aos que recusam e usam cada ai

contra a humildade; vim porque a Paixão
me chamou pelo nome a a alma obedece
e aceita suar sangue — como não?

Mas não sei mais unir o rogo à prece
do que a elegia ao hino de louvor,
não seu amar-Te assim... Caso soubesse

teria que ficar aqui, Senhor,
aqui, arrebentando-me os joelhos,
esfolando-me todo ante um amor

que vai tornando sempre mais vermelhos,
mais duros os degraus do Teu altar.
Tu, que tudo consertas, dos artelhos

que desentortas e repões a andar
até às pupilas mortas de um garoto,
do cachoupinho que me fez chorar;

Tu, que a este lhe dás a flor no broto
e àquele o lírio pútrido do pus;
Tu, que passas por um de quatro e a um outro
clodoveualves#26
pegas no colo e entregas a Jesus;
Tu que fazes jorrar da rocha fria;
Tu que metaforizas Tua luz

ao ponto de fazer de uma agonia
um puro horror ou a morna mansuetude —
que hás de fazer, Senhor, comigo um dia?

Quando eu agonizar, boiar no açude
das lágrimas sem fundo... Quando a fonte
cessar de soluçar e uma altitude

imerecida me enxugar a fronte...
Como há de ser, Senhor? Oxalá queiras
que a mim me embale a barca de Caronte,

como o fazia a velha Cantareira,
o azul da travessia... A Irrecorrível
arrasta a cada um de uma maneira

e a quem quer que se abeire ao invisível
recordas a promessa: aquele a escuta
e este a recusa porque a dor é horrível,

mas, se a todos a última permuta
terá sempre o sabor da anulação,
o travo lacrimoso da cicuta,

a ela Tu negaste o próprio chão,
deixaste-a abrir a porta sem querer!
Nunca falou na morte, e com razão,

intuía, quem sabe, o que ia ver...
Sentença Tua? Em nome da promessa
não há negar Teu duro amanhecer —

mas quando arrancas mais uma cabeça
como saber que és Tu, que não mentia
O que ressuscitou? Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta... Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã...?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso, ela morreu... Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma ao prego e o último verso à traça,
vai doer — mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não... Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!

Do livro: Anulação e Outros Reparos, 1963
clodoveualves#27
Esta é a poesia mais linda que já li. Esta do Bruno Tolentino.
clodoveualves#28
Rimas Sacras, Soneto I

Cuando me paro a contemplar mi estado
y a ver los pasos por donde he venido,
me espanto de que un hombre tan perdido
a conocer su error haya llegado.

Cuando miro los años que he pasado,
la divina razón puesta en olvido,
conozco que piedad del cielo ha sido
no haberme en tanto mal precipitado.

Entré por laberinto tan extraño,
fiando al débil hilo de la vida
el tarde conocido desengaño;

mas de tu luz mi escuridad vencida,
el monstruo muerto de mi ciego engaño,
vuelve a la patria la razón perdida.

>>> Este me foi apresentado por um sujeito que hoje já não é mais amigo meu, contudo, grande soneto!

2 quadras e 2 terças que contém o que de melhor há no ser humano.
clodoveualves#29
A VIDA

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram...

De João de Deus, em Campo Flores.
willian#30
O Yuri Vieira é gente fina pra caramba ! Por influência dele é que comecei a ler o Livro de Urântia, e oh livrinho complicado ! Aliás livrinho não, livrão maior até do que a bíblia!

+ Paz
tiagooliveira#31
[url]/Main#Profile?uid=10345334204690191458[/url]:
Clodoveu, conhece esse texto do Yuri sobre o Bruno Tolentino?

http://textos.yurivieira.com/cronicas/o-marceneiro-e-o-poeta/

Já li. Excelente.
anderson_4#32
Uma redondilha do mestre:

Ao desconserto do mundo
(Luís de Camões)

Os bons vi sempre passar

no mundo graves tormentos;

e, para mais me espantar,

os maus vi sempre nadar

em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

o bem tão mal ordenado,

fui mau; mas fui castigado.

Assim que só para mim

anda o mundo concertado.
clodoveualves#33
[url]/Main#Profile?uid=10345334204690191458[/url]:
Clodoveu, conhece esse texto do Yuri sobre o Bruno Tolentino?

http://textos.yurivieira.com/cronicas/o-marceneiro-e-o-poeta/
Excelente!!! Muito obrigado, Cardini.
anderson_4#34
Um soneto de Camões que, se não consola, pelo menos nos faz ver que por todos os tempos este mundo será, na maior parte das vezes, uma sucessão de desgostos. Eia, pois, e sentemos à margem dos rios da Babilônia para chorarmos as lembranças de Sião!

Soneto 45

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
jnior_2#35
Não li este livro. Apenas olhei bem rapidamente o sumário dele e alguma coisa a mais. Porém, há nele nomes importantes da literatura universal.

Está em PDF: pode ser baixado no computador ou lido na internet mesmo.

http://www.ubeblogs.net/2012/08/antologia-da-poesia-…rsal-um.html
pedro_9#36
Jean Racine
(França 1639 – 1699)
 
Pranto de um Cristão
 

Tradução de Cláudio Veiga

Ó meu Deus, que combate cruel!
Em mim, dois homens a lutar:
Se um deles me manda te amar
Com grande amor sempre fiel,
A ti, meu Deus, o outro revel
Me faz tua lei desprezar.
 
Um, a este mundo sendo infesto,
Manda que, sempre ao céu ligado,
E pela graça sustentado,
Eu menospreze todo o resto;
E o outro com peso bem funesto
Me traz à terra sujeitado.
 
Ai! Comigo mesmo lutando,
Onde achar poderei a paz?
Quero, mas não cumpro jamais.
Quero, mas, ó crime nefando,
Não faço o bem que estou amando,
Só o mal que odeio, nada mais.
 
Ó graça, lume necessário,
Da íntima paz, me aponta o norte,
E sujeitando, suave e forte,
O pecador, que te é contrário,
Transforma em servo voluntário
Um pobre servo preso à morte.
anderson_4#37
Para mim, este poema abre com os versos mais fortes de nossa literatura, provavelmente é também o que de mais forte e sincero saiu dos nossos românticos. Escrito de um pai para o filho morto ainda bebê, deixo aqui um trecho deste poema:

Cântico do Calvário

À Memória de Meu Filho
Morto a l l de Dezembro
de 1863.


Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!

Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
(...)
srtaanglica#38
Noite Escura
“Em uma noite escura
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
’stando já minha casa sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! Ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
’stando já minha casa sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em lugar onde ninguém aparecia.

Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada no amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.
v Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado”.

(São João da Cruz)
andr_10#39
Caminho da glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.

Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
É por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.
andr_10#40
Tenho frio e ardo em febre

Tenho frio e ardo em febre!
O amor me acalma e endouda! o amor me eleva e abate!
Quem há que os laços, que me prendem, quebre?
Que singular, que desigual combate!

Não sei que ervada frecha
Mão certeira e falaz me cravou com tal jeito,
Que, sem que eu a sentisse, a estreita brecha
Abriu, por onde o amor entrou meu peito.
andr_10#41
Beijo eterno

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
andr_10#42
Só

Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
- Este desabrochou como a erva má, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.

De motejo em motejo arrasta a alma ferida...
Sem constância no amor, dentro do coração
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.
andr_10#43

A morte absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
andr_10#44
Desencanto

Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.

Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
andr_10#45
Renuncia

Chora de manso e no íntimo... procura 
Tentar curtir sem queixa o mal que te crucia: 
O mundo é sem piedade e até riria 
Da tua inconsolável amargura. 

Só a dor enobrece e é grande e é pura. 
Aprende a amá-la que a amarás um dia. 
Então ela será tua alegria, 
E será ela só tua ventura... 

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