Gostaria de auxilio semântico da comunidade. Neste último sábado, 18-10-2009, findou-se O Congresso Francisco em Curitiba.
Para presidir o encerramento Leonardo Boff foi convidado – fiquem calmos – a questão a ser analisada não tem relação com a Teologia da Libertação. Aproveitando o momento, foi houve uma homenagem ao falecido frei Hermógenes Harada, e lançamento de uma obra sua: "Iniciação a Filosofia". Boff, companheiro de Harada no Instituto Teológico Franciscano, fez convidências:
"uma vez Harada disse a Boff: “A minha família era budista, nós nos convertemos e agora eu voltei ao budismo". Então, perguntei: "O senhor vai sair da Ordem?" Ele (Boff) respondeu: "Não, eu fico franciscano porque o franciscano é a forma ocidental de ser cristão. Então, eu fico franciscano”.
fonte: http://www.franciscanos.org.br/v3/noticias/reportage…_0809/03.php
O que significou afinal as palavras de Harada? Que se ele retornasse ao Oriente, pois frei Harada era japonês, seria mais uma
vez budista – porque o Budismo seria a forma Oriental de ser franciscano, isto é, cristão? Qual seria a forma Oriental de ser cristão, que não fosse cristã?
Sei que há aproximações positivas entre a via espiritual franciscana e o Budismo. No Livro "Budismo: Uma introdução concisa" de Philip Novak, retiro essa informação:
"Jean Marignolli, um enviado do Papa Benedito XII à China, visitou o Sri Lanka quando voltava para casa.
Ele comparou de modo favorável os monges budistas que encontrou com os franciscanos católicos" (2003: pág. 120)
Também já li um biografo, Henry Thomas, tentando fazer comparações entre São Francisco e Buda. Não obstante, sua aproximações eram ridículas.
Enfim, peço opiniões semânticas, principalmente, para a frase: "eu fico franciscano porque o franciscano é a forma ocidental de ser cristão".
Como ser cristão e budista simultaneamente. A perfeição de uma forma religiosa não excluiria a perfeição da outra forma religiosa?
O budismo nega que exista Deus. É uma religião atéia. Há budismos que transformaram Buda num ídolo, mas nessa religião a própria existência é vista como um mal. A vida é para eles um castigo. Então como poderão agradar a Deus que é a Vida?
LAZARO,
o Budismo não nega que exista Deus, essa leitura é superficial.
E essa salada do amigo do Boff é só isso: uma salada neoecumenista pseudocatólica. Me lembrou o conselho do Koomaraswamy pai para o filho. "Igualar" as religiões e pregar o ultraecumenismo é um modo bem eficiente de acabar com elas.
o budismo é gnóstico também por negar o ser.
Claro que os vários ramos do budismo podem explicitar mais ou menos as características da Gnose, mas todos os ramos são gnósticos.
Recordo-me da discussão entre Olavo e Orlando Fidele. Acho que eles nunca chegaram a um acordo comum, porque utilizavam a palavra gnose em sentidos completamente opostos. Não há problema em ser gnóstico quando entendida a gnose em seu sentido etimológico: conhecimento. Mas há problema quando se trata de uma doutrina que acredita numa Salvação através do simples conhecimento. Por favor, teria como definir o que chama de gnose ou gnóstico?
Da escola tradicionalista tenho leituras apenas de Guénon, Schuon, Evola e Lings. Nunca li nada de Koomaraswamy – seu projeto era igualar as religiões para acabar com elas?
Pelo pouco que entendo de Budismo, pouco estudo sobre o ramo ariano, não há a negação do Ser. Há a negação do Eu. O meu Eu não é o meu Ser. Porque a raiz de todas as coisas, a natureza últim de tudo, é o Ser absoluto – contemplado na Iluminação.
Caso eu tenha falado besteira, por favor, desconsiderar. Como disse: pouco sei sobre o ramo ariano.
não, eu escrevi na pressa e o post ficou truncado.
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa 😛
Eu disse que o Ananda K., segundo me lembro, tinha apoiado a conversão do Rama ao catolicismo. A explicação que o Rama deu para a conversão dele é mais ou menos parecida com a do monge budista-católico-amigo-do-genésio.
"A perfeição de uma forma religiosa não excluiria a perfeição da outra forma religiosa?"
Claro. Não se pode ser perfeitamente um e outro simultaneamente. Se um não excluísse o outro em suas formas perfeitas ambos seriam o mesmo objeto.
Se ser perfeitamente homem não excluísse ser perfeitamente gato, então gato e homem são a mesma coisa.
Creio que ser perfeitamente budista e ser perfeitamente cristão confere uma compreensão perfeita do que seja o outro, o que não quer dizer estar aberto à experiência do outro! Suponhamos que eu seja perfeitamente cristão (impossível, creio eu). Minha condição espiritual retificada permitiria a mim ver, de forma clara, concreta e VERDADEIRA o que é ser perfeitamente budista. Isso não quer dizer que, em espírito, eu me deixaria abrir pela experiência búdica. Caso contrário eu deixaria de ser cristão e me tornaria budista instantaneamente.
Hoje pude ter um conversa com alunos de Harada. Eles me explicaram que Harada era um tipo inexplicável. Entre os quatro sacerdotes católicos que foram alunos de Heidegger, Harada foi o único a não largar a batina. Não obstante, ele era um heideggeriano convicto, e muitas vezes, embora fosse frei franciscano, parecia ser um ateo também (dificuldades de conciliação da doutrina católica e o a filosofia de Heidegger). Disseram-me que na ordem brincavam que Harada pensava em japonês, filosofava em alemão e tentava exprimir seus pensamentos e experiências em português, isto é, ninguém entendia. Contudo, tinha uma linguagem simples e era uma grande expositor do pensamento filosófico de outros. Por mais extranho que pareça – disseram que fez grandes contribuições ao pensamento franciscano.
A explicação que me deram sobre o frei franciscano budista é que Harada se correspondia com centros de estudo do pensamento de Heidegger no Oriente. E também com centros de estudos de filosofia oriental.
Enfim, ele foi, é e será sempre uma interrogação na Ordem dos Frades Menores.
O texto que você indicou, "Ser e Devir", embora esteja certo no que diz respeito a Heráclito, está errado em atribuir essa doutrina ao budismo e ao hinduísmo.
No hinduísmo existem várias doutrinas, de acordo com a darshana ou ponto-de-vista da doutrina, que são: lógica, cosmologia, metafísica, etc. Na cosmologia, chamada shamkya, há uma doutrina muito semelhante ao aristotelismo, que divide todas as coisas em dois princípios: purusha (ativo, determinante, essencial) e prakriti (passivo, determinável, material). Só que essa doutrina foi proposta antes de Aristóteles. Na metafísica, há várias escolas, das quais as duas principais são a de Ramanuja e a de Shankara. Este último adota uma visão muito semelhante a Parmênides, que é o oposto de Heráclito. Para Shankara, todas as mudanças são ilusões e somente o Ser supremo, divindade supra-pessoal, é real. A libertação ou salvação (moksha), então, consiste em tomar consciência dessa falta de realidade das coisas finitas e mutáveis. Já Ramanuja tem uma visão bem diferente. Ele combateu Shankara e defendeu que a libertação consiste na vida eterna da alma individual amando e conhecendo o Ser supremo pessoal. Na visão de Ramanuja, Deus, o mundo e pessoa humana são realidades indiscutíveis. Ou seja, atribuir ao hinduísmo a doutrina de Heráclito é falso.
Já no budismo, prevalece exatamente uma doutrina parecida com a de Shankara e Parmênides. Há uma realidade imutável (nirvana), enquanto o reino da mutação (samsara) é ilusório. A iluminação consiste em tomar consciência dessa realidade supra-pessoal, que é um sobre-ser (não é o nada). Buda combateu a noção de uma alma ou 'eu' subsistente, e afirmou a impermanência de todas as coisas, exceto a realidade suprema do nirvana (que, como eu disse, não é o ser, mas o sobre-ser, incognoscível, inefável, etc), daí a confusão com Heráclito.
Obs.: as informações sobre as religiões orientais na Introdução geral à filosofia de Jacques Maritain estão muito distorcidas, e ainda mal interpretadas pelo autor (que falha lamentavelmente em apreciar a riqueza filosófica oriental). Mas isso não tira o mérito da obra, que eu recomendo.