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O vôo de Ícaro

Iniciado por wellington_2 em 05/11/2009 · 4 mensagens

wellington_2#1
Esses dias tava relendo dois textos de Olavo, um era o Abandono dos Ideais e o outro era Aurora, uma resenha sobre o filme de 1927. Um trecho do Abandono dos Ideais me chamou a a atenção:
"A exaltação imaginativa é um estado em que a mente, embevecida com o seu ideal, se identifica mais ou menos inconscientemente com ele e atribui a si as perfeições que a ele pertencem, como se já as tivesse realizado. Para Diel, o símbolo por excelência da exaltação imaginativa é o vôo de Ícaro. As asas de cera representam a força da imaginação, que só pode elevar aos ares um corpo imaginário. O exaltado toma o potencial por atual, imaginando possuir as perfeições a que aspira. Por isto mesmo, sua alma experimenta, como num choque de retorno, um sentimento de estranheza e de impotência perante o mundo, que não cede, como ele esperava, aos seus encantos ou poderes. Acuado pelas exigências da realidade, ele exacerba ainda mais sua adoração de si mesmo diante de um mundo que ele julga vil, mesquinho e incompreensivo, quando na verdade é ele mesmo quem não compreende o mundo e, por não compreendê-lo, está impotente para agir nele. É a síndrome do "jovem incompreendido", que, pela simples razão de ter aspirações elevadas — ou que lhe pareçam elevadas — já se sente ipso facto superior ao seu ambiente e, portanto, limitado ou coagido pela mesquinhez real ou aparente dos pais, da escola, da sociedade, do emprego, etc6. Nem sempre ele declara seu sentimento em voz alta; uma vaga intuição do caráter doentio do seu estado pode envolver este sentimento numa complexa rede de disfarces, atenuações e racionalizações muito difícil de deslindar. Também é certo que seu diagnóstico depreciativo sobre o mundo em torno pode ser, em si mesmo, objetivamente verdadeiro, sendo falso apenas o lugar e a função que ocupa na sua alma, já que a degradação do mundo lhe aparece, por vezes ao menos, como uma espécie de contraprova de suas próprias qualidades excelsas"
wellington_2#2
"Não raro o doente alia-se a outros jovens imbuídos do mesmo sentimento, em busca de apoio e confirmação de suas queixas contra o mundo. A comunidade de sentimentos e a repetição das queixas, criando uma atmosfera de comprovação intersubjetiva, parece dar consistência real ao diagnóstico distorcido e subjetivista que cada um dos membros do grupo faz quanto ao estado do mundo, legitimando seu discurso contra a mediocridade e grosseria das pessoas "de fora". "Estar dentro" do grupo é então sinal de uma espécie de eleição, a prova de uma qualidade excelsa e incomunicável. O sentimento de ter acesso a algo misterioso, profundo, especial, pode exacerbar a exaltação imaginativa ao ponto de provocar uma verdadeira ruptura com a realidade ambiente, incapacitando o indivíduo para o cumprimento dos deveres sociais mais elementares8. Quando a exaltação imaginativa chega a efeitos tão profundos, é que o doente já se encontrava à beira de um colapso intelectual e social, contra o qual provavelmente terá sido advertido pelos pais, por amigos, ou por uma infinidade de sinais diretos e indiretos."
wellington_2#3
"Estes sinais, por sua vez, aguçam a sensação de estar afundando no completo isolamento e na impotência; e o pressentimento de abandono, às vezes mesmo de loucura e morte, contrasta tão dolorosamente com os primeiros vôos de exaltação imaginativa, que o doente é então tentado a buscar às pressas, como tábua de salvação, algum tipo de reintegração forçada no mundo que desprezava9. Como, porém, isto implicaria a humilhação de voltar atrás nas críticas e a renúncia à independência afetada, a mente só consegue a reintegração forçada mediante o artifício de operar uma inversão de valores: ao invés de abandonar somente a atitude de auto-exaltação, passando a uma postura de humildade perante o ideal, ela vai, ao contrário, desidentificar-se do ideal para poder abandoná-lo sem perder o sentimento de sua própria superioridade. Conserva, assim, sua auto-exaltação, mas sob uma forma destituída de conteúdo pretensamente idealístico, e revestida, agora, de uma pose de "realismo" terra-a-terra, e não raro de maquiavelismo, carreirismo profissional, cinismo, materialismo, etc. É a esta atitude que Diel denomina banalização."
wellington_2#4
Então o aonde quero chegar. Relendo isso esses dias percebi em mim um pouco, talvez muito da minha personalidade sendo como o vôo de Ícaro. Por ser Cristão acho que posso julgar o mundo e que nada presta, que todos são culpados que o mundo não serve pra nada. Aí a gente vem aqui e se sente da mesma forma, todo mundo esbravejando contra o mundo. O que me ocorreu que eu gostaria de partilhar com vcs é quem sou eu????

Quem sou eu?????? O que faço para mudar a mim mesmo????
Fico aqui como um franco atirador, impotente como diz o texto.
Dessa forma creio que o meu futuro é cair na banlização e perder todo o sentido do meu Ideal cristão.
Não sei talvez seja o caso daqueles que se identificarem com o texto pensar e fazer um exame de conciência sobre os rumos que estamos tomando. Toma essa reflexão para mim mas também acho que está comunidade está ficando assim.
Reclamamos de tudo, do mundo naõ cristão e etc. Mas quando foi a ultima vez que alguem aqui postou algum tópico para trazer forças, para trazer esperança? Não sei, posso estar errado mas apenas gostaria de partilhar isso.
Na resenha sobre o filme aurora, o Olavo comenta que o filme fala da vida de um sujeito que tenta matar a mulher para ficar com a amante e fugir para cidade. Conforme a trama pasa ele se arrenpende e tenta consertar tudo, mas aí a mulher morre afogada de causa natural e ele enxerga que a busca por uma outra vida, a vida na cidade, é uma fuga besta e diabólica, que lugar dele é na fazenda. Ele aprende que o sentido da vida está em fazer aquilo que ele deve fazer. Acho que aquilo que nós devemos fazer não é reclamar mas tentar consertar. É preciso assumir a missão, temos muito a fazer. Acho que reclamar não ajuda em nada. Sei lá é isso que penso posso estar errado. Que vcs acham?

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