Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Sobre a estrutura da realidade

Iniciado por willian em 20/01/2010 · 14 mensagens

willian#1
Amigos, gostaria de debater com vocês um assunto que foi proposto em minha aula de filosofia e que terei de entregar amanhã minhas observações:

Todos nós sabemos que mesmo o próprio Deus em Sua onipotência respeita a estrutura da realidade. Por exemplo: Deus é onipotente, más não pode fazer um triângulo de quatro lados ou um círculo quadrado.

Sendo Deus "impotente" (entre aspas mesmo) perante a estrutura da realidade, será que podemos concluir que a mesma não foi criada por Deus?! Transcenderia ela ao mistério Divino ?

Quem me ajuda com esse pepino?!
dorian#2
"Todos nós sabemos que mesmo o próprio Deus em Sua onipotência respeita a estrutura da realidade. Por exemplo: Deus é onipotente, más não pode fazer um triângulo de quatro lados ou um círculo quadrado.

Sendo Deus "impotente" (entre aspas mesmo) perante a estrutura da realidade, será que podemos concluir que a mesma não foi criada por Deus?! Transcenderia ela ao mistério Divino ?"

A questão não é que Deus "respeita"a estrutura da realidade. Ora, sendo Deus o Criador de todas as leis que regem a "realidade", por quais motivos haveria de mudá-las conforme as circunstâncias ?

Deus não é impotente perante a realidade. Nós é que somos limitados e não enxergamos além da realidade.

O Mistério Divino é que transcende a realidade.
marcos_12#3
"Sendo Deus "impotente" (entre aspas mesmo) perante a estrutura da realidade, será que podemos concluir que a mesma não foi criada por Deus?! Transcenderia ela ao mistério Divino ?"

O segundo questionamento não faz sentido na medida em que coloca a realidade como trascendente a Deus.

Grosso modo: a realidade é a expressão do próprio caráter divino; ela é expressão de sua moralidade. Pelo fato de ser uma estrutura (e uma ordem, portanto), a realidade apresenta uma configuração que não pode ser banida ou alterada sem o consentimento Dele. Alterar a realidade significaria alterar o caráter divino. O Seu caráter é permamente.

Thomas Woods faz um breve comentário sobre o porque Deus fez um Universo "X" não "Y":

"De acordo com ele [Santo Anselmo], uma vez que Deus nos quis revelar algo sobre a sua natureza, sobre a ordem moral e sobre os seus planos de redenção, por isso mesmo obrigou-se a seguir determinado comportamento, e podemos confiar em que se manterá coerente"

Repare que a realidade é, para Deus, permanente na medida em que DEVE ser permamente para que Seus planos se realizem. Ou seja: Deus é onipotente quanto à estrutura da realidade, mas a deixa ser o que é porque assim Ele deseja.

Podemos acrescentar a essa reflexão outro trecho a seguir:

"Como explica [Stanley] Jaki, a visão católica tomista considerava importante saber que universo Deus criou a fim de evitar elocubrações abstratas sobre que universo deveria ter criado. A completa liberdade criadora de Deus significa que o universo não tinha de ser de um certo jeito;"

Ou seja: não que não devemos imaginar porque o Universo é "X" e não "Y", ou porque Deus mantém a estrutura da realidade como é e não faz uma nova, mas que se entrarmos em outras especulações, elas serão infinitas e não chegarão a lugar algum. Isso implicaria em saber porque Deus quis "assim" e não "assado".

Os destaques são do autor. O livro é Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental
orkut_7#4
Há quem argumente que Deus não existe precisamente porque o universo não poderia conter outras leis.

Não vai ajudar em nada a dúvida do rapaz, mas certa vez eu li uma teoria muito interessante sobre o (hipotético) big crash (grande esmagamento), em que o autor especulava que esse evento seria tão avassalador que poderia mudar as leis da física existentes. Segundo ouvi de OdeC, as leis da física que conhecemos são pre-existentes a criação do Mundo (que seja o Big Bang), logo deve existir leis da física "não-manifestas", desconhecidas do homem, porque não fariam sentido nesse Mundo, mas poderão fazer em outro.
willian#5
Pessoal, muito boa as observações , continuem me ajudando.
pedro_9#6
A resposta a essa dúvida precisaria entrar nas dificuldades tremendas relativas ao absurdo e ao impossível. Quem já leu um pouquinho de Empédocles (aquele sujeito que escreveu um belo poema sobre o ser e o nada absoluto) sabe como o assunto é espinhoso. Exemplo: se nós dizemos algo sobre o nada, estamos nos referindo a alguma coisa, e não a nada. Referir-se ao nada é não referir-se.

A coisa vai começando a ficar cada vez mais louca na medida em que tratamos das incongruências e das impossibilidades metafísicas, que estão incluídas num treco chamado pelos pitagóricos de "contexto delta". Não vou detalhar demais, porque seria meio pedante e não cabe fazer essas coisas no orkut.

Para sair de qualquer embaraço filosófico (ou pseudofilosófico, como já cansei de ver por aí), é melhor citar uma fonte segura, mais precisamente um Catecismo.

"27) Deus não pode pecar nem morrer; como é então que se diz que Ele pode fazer tudo?

Diz-se que Deus pode fazer tudo, embora não possa pecar nem morrer, porque o poder pecar ou morrer não é eleito de potência mas de fraqueza, a qual não pode existir em Deus, que é perfeitíssimo."

A ordem da realidade é concomitante a Deus. Nem anterior, nem criada por ele. Evidentemente o Ser infinito é possível, assim como nós somos possíveis (tanto que estamos aqui falando bobagem no orkut) mas enquanto nossa possibilidade é garantida por Deus, Sua possibilidade não precisa de garantias. Não me parece muito exato afirmar que a tal da "unidade do real" é uma expressão de Deus, pelo simples fato de que a unidade também vale para Ele. Pedro Sampaio é um, e não dois pedros, assim como Deus é Deus, e não três deuses.

Eu diria ao digníssimo professor de filosofia que se o Senhor Deus tivesse o poder de fazer uma pedra tal que nem Ele mesmo pudesse levantar, esse poder não poderia nem mesmo ser chamado de poder. Para conseguir essa besteira, a própria "essência do poder" teria de ser violada. Não é à toa que o primeiro imbecil a fazer essa pergunta cretina...

[CONTINUA]
pedro_9#7
... tenha sido o satanista Anton La Vey. Um satanista, por definição, é alguém que acredita que uma coisa é o que não é, e não é o que é. A capacidade de erguer essa pedra maldita não seria mais uma capacidade.

Em resumo, caso Deus incorresse numa contradição lógica, suas perfeições seriam negadas, ou pelo menos diminuídas, o que contraria completamente sua Majestade infinita.

Por isso eu tenho tanto medo desses malucos que ficam batendo punheta para "Atma", os "aspectos divinos que não podem ser manifestados", o "Non Être"-- nomes que designam, no fundo, o que os neoplatônicos dsignavam com "Super-essência". São temas muito sutis do pensamento hindu, que eles não têm a menor destreza em manejar. Cito esses caras aqui só para ilustrar a que níveis de baba na gravata pode chegar alguém quando começa a querer colocar o Senhor acima da lógica.
morien#8
Parta do seguinte princípio: se Deus não foi criado pelo homem, então Ele é indescritível, certo? Claro, pois não se limita a qualquer definição humana, como o bem e o mal, o certo e o errado.
E vou além: tal dinamismo não pode ser definido com linguagem e conceitos estáticos.
Querer entender e descrever tal dinamismo é o mesmo que querer limitar seu Deus aos próprios conceitos, e, portanto...defender que o criador de Deus é na verdade o homem?
Se você já partiu do princípio de que foi Deus quem criou o homem, e não o contrário, então o questionamento deve ser mais abrangente; por exemplo: será que o que temos, definimos e sentimos é o suficiente para compreender, mesmo que ligeiramente, tal dinamismo divino?
Pense em todo o nosso universo como uma reta; imaginamos que, além dessa reta, existe uma linha curva, que, vez ou outra, imaginamos cruzar a nossa realidade (aqui a chamo de "reta"). Damos a essa linha curva um nome; por exemplo, "Deus". Mas é só o que enxergamos: uma linha curva. Saindo dessa realidade ("reta"), será que ninguém (na "reta") pensou em se questionar se a entidade, que denominamos "Deus", não era, na realidade, uma superfície? Só enxergamos uma curva dessa superfície; paralelamente, nossa percepção do que chamamos e Deus é limitada.
Da mesma maneira, sendo Deus onipresente e onipotente, eu imagino, sim, que o Mesmo possa "criar uma pedra que Ele mesmo não possa carregar", afinal, quem disse que Ele, mesmo sendo único, seja sempre somente um? Se for somente um, corre o risco de não poder ser onipresente.
Claro que, no nosso contexto, isso seria um paradoxo, mas quem aqui iria querer limitar seu Deus ao nosso restrito contexto?
"Ele pode criar uma pedra que possa e ao mesmo tempo, no mesmo espaço e na mesma ocorrência, não possa carregar."
morien#9
"nossa percepção do que chamamos de Deus é limitada"
priscila#10
A minha resposta me parece a do Marcos, arrumada de outro jeito; Deus PODE fazer qualquer coisa, e escolheu fazer esta coisa, da qual conhecemos, por sinal, apenas um pedacinho devido à nossa limitação, que aliás também faz parte da construção. Não há nada, absolutamente nada "impossível para Deus", o conceito de "impossibilidade"não se refere a Ele, se refere a NÓS - porque se refere a um LIMITE. Não faço a menor idéia do que dizem os outros sobre isso, mas me parece óbvio que não se pode aplicar um conceito limitado a algo ilimitado; TODOS os conceitos humanos são limitados pela própria natureza humana - pela lógica, é óbvio que NENHUM conceito humano pode ser aplicado a Deus, então.

No entanto, para falar de Deus entre nós, nós usamos nossos conceitos para poder nos referir a Ele; conceitos como Bom, Justo, Eterno, e até Ilimitado - que na verdade nenhum de nós tem a menor possibilidade de entender o que é. É o nosso esforço, e eu penso que é assim mesmo, que está dentro do contexto. Ninguém vai entender o que é algo sem começo e sem fim, é claro; a nossa mísera "noção"de infinito é uma coisa muito grande com uma coisa muito grande "colada"depois, e mais uma, e mais outra, etc: ou seja, não tem absoluta e rigorosamente a MENOR relação com a idéia de infinito, já que evidentemente não pode existir a "primeira" coisa, na qual se "colariam"as outras; infinito não tem "começo".

Neste específico universo em que estamos, existem quintilhões de imperceptibilidades indesvendáveis; e "ESTE não significa "TÖDOS"os universos construtíveis. Esta LIMITAÇÃO que Deus impõe ao criado SEPARA, de uma forma nítida, este criado DELE, O Criador. O Criador não se "confunde"com o criado, e embora possa CONTER esse criado, o criado não pode, é arqui-óbvio, contê-Lo.
priscila#11
Então, quem disse que não existe a quadratura do círculo, ou triângulos de vinte e cinco lados? Nós vemos através de um vidro embaçado, apenas - e, embora eu pessoalmente goste muito do que vejo, eu SEI que o que percebo é uma ínfima parcela do perceptível - e uma infinitesimal parcela do Infinito Criador, que por Seu amor me permitiu tão esplêndida fração de percepção!

Pela qual, é claro, não me cansarei jamais de agradecer, assim Deus me conserve, amém.
priscila#12
😄 - Eu acho que aquilo pelo qual eu mais tenho a agradecer seria a minha profunda incapacidade de me interessar por qualquer coisa que se afaste de uma espécie de claridade essencial que é como uma música, uma palheta de cores, um absoluto significado de simplicidade e perfeição tão intensas que permeia tudo, e a tudo colore e ilumina.

Mais uma vez eu uso conceitos humanos, os que me foram fornecidos tão bondosa e magníficamente. As inúmeras "explicações"em meia hora me desinteressam, pois eu só vejo nelas a tentativa forçada de fazer conter o Infinito Transcendente em caixas humanamente concebidas, e das quais Ele se derrama em Si mesmo; e de tudo isso resta a compreensão de que o que deveria ser entendido é que cada um de nós já É, precisamente, essa "caixa"- não concebida por nós, mas concebida por Deus.
willian#13
Muito grato a todos pelas contribuições.

Com relação ao paradoxo da pedra, vale lembrar que o nosso amigo Gabriel (aqui da comunidade) formulou uma solução brilhante:

http://filosofiaverdade.blogspot.com/2007/04/resolve…a-pedra.html

Um abraço a todos
pedro_9#14
Por que a exaltação da Onipotência divina deveria ferir o bom senso e os princípios elementares da lógica? Para que ficar tão deslumbrado com a Vontade a ponto de saltar sobre a Inteligênca? Não consigo entender isso. Quando um reles ser humano, verme entre os vermes, descobre que A=A, a descoberta não cabe mais na sua insignificante escala vermicular, e sim na escala da Verdade, que no fundo, é divina.

Deus nos revela dúzias de coisas que ultrapassam nossas capacidades naturais, e ainda nos dá de presente a Fé para podermos aceitá-las, mas isso não quer dizer que essas coisas sejam CONTRÁRIAS à racionalidade. Os artigos e fé contidos no Credo, por exemplo, sem dúvida são complicadíssimos, e eu tenho certeza de que morrerei sem compreendê-los completamente. Mas daí a dizer que, apenas por estarem além dos limites da MINHA compreensão, eles estão além da própria natureza da compreensão, é um pouco demais.

Numa palavra, as leis da realidade nos aprisionam -- Pitágoras já usava uma expressão assim para falar delas--, mas o que está fora dessa prisão são as trevas do absurdo, a noite infinita do nada. Quando eu vejo alguém que, em nome da sublimidade das verdades divinas, pisoteia nossas pobres verdades naturais, é difícil não pensar que quem faz isso está enredado numa espécie de barbante metafísico. E é difícl não pensar no tio Brabante: http://www.newadvent.org/cathen/13784a.htm

‹ Voltar para a lista de tópicos