Olá,
Como a gente não escolhe a data do nosso nascimento, eu só pude ler o livro do prof. Olavo acerca de Aristóteles no ano retrasado. Este data de 1996, quando tinha eu 14 anos. Pude ler agora, já mais velho e, afortunadamente, interessado na filosofia do Estagirita (de fato, foi esse interesse que me fez topar com a obra do prof. Olavo). Enfim, sem mais delongas, quero fazer aqui uma humilde contribuição ao professor, mencionando uma artigo que, por sua vez, faz referências a outros escritos, ambos mencionando a pertencença da Poética e da Retórica à unidade do Organon.
O artigo se intitula “Observations on the reception of the aristotelian Poetics in the Latin West”, seu autor é E.N. Tigerstedt. Foi publicado no vol. 15 (1968) da revista Studies in Renaissance, pp. 7-24.
Os dados interessantes que o artigo coloca para o problema colocado pelo prof. Olavo são:
1-. (p.4). A menção à existência de uma tradução latina da Poética feita direto do grego em 1278 por um auxiliar de Tomás de Aquino, cujo nome é “William of Moerbecke” (Guilherme de Moerbecke, creio, seria a tradução). Mas o autor questiona o postulado da existência dessa tradução (postulado que não é dele) dizendo que as tentativas de encontrar evidências da leitura do texto grego ou mesmo desta tradução latina pelo Aquinatense falharam. Se essa tradução existisse de fato, haveria de se questionar a idéia mencionada pelo prof. Olavo segundo a qual “o Ocidente Medieval só teve acesso indireto ao texto da Poética”. Aliás, o artigo também dá detalhes do percurso da Poética pela via da tradução e do comentário mencionada pelo prof. Olavo ao falar em “conhecimento indireto” : tradução do grego para o siríaco (séc. IX), deste para o árabe por Abu Bisr, comentários de Averroes (1174) a partir desta tradução árabe e tradução dos comentários para o latim feita por Hermannus Alemannus (1257).
2-. Quanto à pertencença da Poética e da Retórica à unidade do Organon, o autor faz uma afirmação muito interessante: parece ser que a separação da Poética e da Retórtica do corpo do Organon é coisa acontecida no Renascimento, e não conseqüência direta da organização de Andrônico. O contexto da afirmação do autor é o da descrição do ressurgimento do texto grego da Poética no séc. XV e a sua menção em escritos, cursos e projetos de tradução das obras aristotélicas por parte de estudiosos italianos (Poliziano e Barbaro):
“Barbaro's words are animated by a true humanistic fervor. The contempt for Averroes as a characteristic of the 'new learning' as a extoling of the Greeks. We notice the express mention of the Poetics; nota bene not in connection with the Logic. This, too, is something new, because in the middle ages -as already in the antiquity- the Poetics as well as the Rethorics, was regarded as part of the Organon” (p. 7).
Note-se, pois, que o autor afirma que na Idade Média e mesmo na Antigüidade a Poética e a Retórica eram tidas como parte do Organon. Para esta afirmação em particular, o autor cita como respaldo três estudos. Ele sugere que sejam vistos: Richard Walzer, 'Zur Traditionsgeschichte der aristotelichen Poetica', in: Studi italiani di filologia classica, XI (1934), pp. 5-14. Também: M. Guide & R. Walzer, 'Uno scritto introduttivo allo studio di Aristotele', in: Accademia dei Lincei, Classe de scienze morali, Memorie. Ser. VI, vol. VI (1937-1940). Ele ainda sugere que seja confrontado: P.O. Kristeller, Renaissance Thought. New York, 1965. II, 168 e ss.
Note-se igualmente que, ainda que o autor não trate da origem da separação daqueles dois textos do corpo do Organon, afirma que o modo como Barbaro trata as obras em separado do Organon é “something new”, ou seja, algo que, no mínimo, não era freqüente até o ressurgimento e estudo do texto grego da Poética no Renascimento.
De todos modos, deve ficar claro que nada se diz acerca da Teoria dos Quatro Discursos, mas apenas acerca da questão filológica do Organon. Ou seja, pode ser que o prof. Olavo tenha sido inexato ao afirmar que já desde a organização de Andrônico a Poética e a Retórica eram lidas como obras separadas do Organon; apesar disso, mesmo que as duas obras tenham sido consideradas na Antigüidade e na Idade Média como parte do Organon, os que assim o faziam não tiveram a intuição dos Quatro Discursos (excetuando-se, e dando fé ao afirmado pelo professor, Avicena e T. de Aquino).
Acredito que estes dados postos pelo artigo são contribuição interessante para quem se debruça sobre o livro do prof. Olavo. Acredito que para ele mesmo esses dados são interessantes se, de fato, estes não chegaram ao seu conhecimento, passada já mais de uma década desde publicação da sua obra.
Pode ser também que estes dados constem em alguma nota de outra edição da obra do professor, da qual só possuo a primeira e que, por isso, eu desconheço o fato.
Quem se interessa pelo artigo em questão pode encontrá-lo na base JSTOR (
http://www.jstor.org/), mas para lê-lo ou fazer download é preciso ter uma assinatura de acesso ao conteúdo da base ou acessá-la a partir de uma instituição que tenha uma assinatura. Eu o baixei quando estudava na UFSC, posso enviá-lo por email a quem mo peça por scrap.
Saudações,
Enrique.
Isso foi passado para o Olavo?
Muito interessante.
Obrigadíssimo pela dica.´Vou averiguar e depois darei algum comentário, se cabível. Meu livreto só foi reeditado uma vez, pela É-Realizações, sem qualquer alteração. Tenho pilhas de notas que pretendo algum dia enxertar em uma nova edição, mas nenhuma delas diz respeito 'a parte histórica.
Seria interessante descobrir que alguém mais, na Idade Média ou na Antigüidade, percebeu a unidade dos quatro discursos. Isso só faria ressaltar ainda mais a cegueira dos intérpretes modernos, inclusive alguns dos melhores. O que sei é que essa unidade existe e que sem ela a visão que se tem da filosofia de Aristóteles como um todo resulta necessariamente deformada -- se é que esse todo não acaba por se dissolver como acontece em Cherniss, Jaeger e outros tantos. Nunca esqueci a lição de Éric Weil, de que toda filosofia, por definição, busca a unidade e em função dela deve ser compreendida, mesmo quando falha em alcançá-la. É só lida assim que uma filosofia realmente incoerente se revela como tal. E às vezes até mesmo a incoerência acaba por torná-la valiosa, se nela não buscamos uma resposta final e sim o estímulo para continuar investigando.