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3 horas de trabalho por dia

Iniciado por mari_2 em 14/02/2010 · 3 mensagens

mari_2#1
Você teria mais tempo para filosofar com uma jornada mais curta
“QUE SE PROCLAMEM os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que as pessoas se obriguem a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite.” Esta é uma frase de um pequeno livro que é um clássico da iconoclastia e da provocação, O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue. Publicado em 1880, o livro era uma resposta a um outro que, algum tempo antes, descrevera as virtudes do trabalho. Lafargue, um homem de esquerda, genro de Karl Marx, pretendia minar o que julgava ser uma cultura favorável aos capitalistas e desfavorável aos trabalhadores: a crença de que o homem deve enxergar no trabalho uma atividade enobrecedora, com uma dimensão quase espiritual. Em busca de argumentos, Lafargue voltou ao passado.”Os filósofos da antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.”
Bem, a pregação de Lafargue não vingou, como todos sabemos. Não apenas os homens se entregaram a jornadas intermináveis, simbolizadas no workaholismo, como mais tarde as mulheres aderiram às mesmas rotinas no escritório. Lafargue morreu num pacto suicida com Elaine Marx, e suas idéias foram enterradas com ele.

Ou quase.

John Maynard Keynes, um dos maiores economistas do século passado, o gênio inglês controvertido que nos anos 30 deu sustentação teórica para intervenções do governo na economia para mitigar crises, vislumbrou um futuro em que as pessoas trabalhariam, como dissera Lafargue, três horas por dia. Todos, no sonho keynesiano, teríamos mais tempo para nos dedicarmos a ocupações como ler, refletir, meditar, filosofar, bebericar com os amigos, flertar — mandriar, enfim, para usar o verbo preciso de Lafargue.

Lafargue e Keynes, brilhantes cada qual do seu jeito, perderam.

Ou não?
mari_2#2
Ontem um relatório preparado por um centro de estudos britânico chamado New Economics Foundation propôs, com estardalhaço, uma jornada de três horas de trabalho diárias para o Reino Unido. Sobre o interesse que o assunto desperta, basta dizer que era o artigo mais lido na noite de ontem no site da BBC. Deixara para trás fatos como a morte chocante, aparentemente por suicídio, do estilista Alexander McQueen, aos 40 anos, o maior nome da moda inglesa. No momento em que escrevo, já há mais de 1 600 comentários num fórum da BBC aberto para que os leitores se manifestem. Disse um leitor: “É uma idéia fantástica. Com o pai e a mãe trabalhando menos, as famílias teriam muito mais tempo para se reunir.”

“Muitos de nós vivemos para trabalhar, trabalhamos para ganhar e ganhamos para consumir”, diz Anna Coote, co-autora do estudo. “Nossos hábitos de consumo estão dilapidando os recursos naturais do planeta. Jornadas menores poderiam quebrar esses padrões. Teríamos mais tempo para sermos pais melhores, cidadãos melhores e vizinhos melhores. Poderíamos até nos tornar empregados melhores: menos estressados, mais no controle das coisas, mais felizes em nosso trabalho e mais produtivos.” O estudo admite uma redução nos salários.
mari_2#3
Lafargue pregou o direito à preguiça
Lafargue não foi citado no documento, mas de alguma forma foi reabilitado moralmente pela proposta. Há 130 anos ela falou há mesma coisas, apenas com mais flama, mais poesia. A paixão “cega, homicida e perversa” do trabalho, escreveu ele, é “o mais terrível flagelo que já atacou a humanidade”. Keynes jamais foi de todo esquecido em sua defesa extraordinária de um governo capaz de intervir em economias adoentadas, embora tenha sido escarnecido nos anos em que a fé completa no mercado desregulamentado dominou os debates e as práticas. Mas a predição de uma jornada breve de trabalho que ele fez virou uma extravagância, algo capaz mais de provocar risada do que uma discussão séria.

E EIS QUE APARECE um documento que traz as três horas de volta à mesa. Que há uma massa enorme de trabalho inútil nas corporações, é inegável. Também é fato que a cultura do trabalho gerou hipocrisia em dose considerável: muita simulação de atividade, muitos truques para parecer que você está dando o sangue. Quem não viu com frequência paletós que vararam a madrugada pendurados numa cadeira cujo dono debandou fazia tempo? A glorificação do trabalho gerou deformações, também. Um amigo me contou, poucos dias atrás, que seu chefe lhe dissera, orgulhoso, que não fora ao enterro do avô porque tinha tarefas para executar.

Não vou dizer que três horas por dia façam sentido, como propõe um instituto britânico.

É uma utopia, me parece.

Lafargue falou nisso, depois Keynes, agora uma turma britânica, e é difícil acreditar que a idéia se materialize qualquer dia. Talvez num futuro remoto, mas, para lembrar uma frase célebre do próprio Keynes, “a longo prazo estaremos todos mortos”,

Mas.

Mas, que é tempo de discutir uma cultura capaz de levar alguém a citar como atitude inspiradora não ter enterrado por falta de tempo o avô, definitivamente é.

Ou alguém tem dúvida?
....
('Epoca' dessa semana)

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