Colunista comenta a forte resistência dos americanos em aceitar a teoria da evolução formulada por Charles Darwin.
De Nova York para a BBC Brasil - Oh, Canadá. Que saudade! Nunca morei lá, mas com a fúria fundamentalista evangélica americana, as seguradoras, os bancos, a poluição, os hospitais, a indústria farmacêutica, os Toyotas, a associação das armas, que mais?, a galinhagem dos republicanos, o cagaço dos democratas, a fragilidade do Obama...enfim, nesta paisagem, o Canada parece cada dia mais irresistível.
Progridem lá, regridem aqui. Cada semana um Estado americano dá mais uma paulada na educação, na ciência ou no verde. A última foi no Kentucky, que aprovou uma lei para "encorajar professores a debater as vantagens e desvantagens de teorias científicas como o evolucionismo, as origens da vida, o aquecimento global e a clonagem de células".
Na realidade, a intenção é incluir as versões religiosas e conservadoras nos livros didáticos e forçar professores a ensinar a teoria do "desenho inteligente" (criacionismo) e questionar a clonagem de células-tronco e as supostas mazelas do aquecimento global.
O cenário atual já não é dos melhores. Entre conservadores, só 23% acham que o homem é responsável pelas mudanças climáticas. Na população em geral o número é um pouco melhor, 36%, mas fica muito abaixo dos outros países ricos.
Educação é um problema desta deformação e, de ano para ano, os americanos ficam mais para trás. No nível secundário estavam em primeiro lugar, hoje estão em 18º entre os países desenvolvidos. Um estudante de 15 anos no Canadá está quase dois anos na frente de um estudante americano da mesma idade.
A campanha anti-Darwin tinha sofrido uma derrota na Geórgia em 2005, quando um juiz decidiu que os livros didáticos não podiam atacar o evolucionismo porque contrariava a lei de separação entre estado e igreja.
Sempre há quem descubra um furo na lei e a solução, neste caso, foi não atacar só o evolucionismo de Darwin. Se empacotassem juntos o aquecimento global, o argumento da separação de igreja e estado perderia força. Deu certo .
Desde então, Kentucky, Oklahoma, Dakota do Sul e o poderoso Texas aprovaram leis que questionam o evolucionismo e outras teorias científicas no ensino secundário. Estas leis podem alterar livros didáticos e os currículos em todo país.
A campanha mais feroz obscurantista é contra Darwin, cujo bicentenário em 2009 passou meio às escondidas nos Estados Unidos, bem como os 150 anos da publicação de Origem das Espécies.
A BBC e o UK Film Council produziram um filme excepcional, Creation, The Real Story of Charles Darwin, que estreou no festival de Toronto ( Oh, meu Canadá!) - foi imediatamente comprado e distribuído quase no mundo inteiro, mas, nos Estados Unidos levou um tempão para surgir uma distribuidora: a Newmarket, a mesmo que distribuiu A Paixão de Cristo.
Creation ficou duas semanas em cartaz em Nova York só em dois minicinemas, recebeu ótimas críticas e sumiu de circulação, mas com certeza não vai entrar em extinção.
O filme é baseado no livro Annie's Box, de Randal Keynes, tetraneto de Darwin e mostra o drama pessoal do cientista que teve dez filhos mas não se conformou com a morte da mais velha, Annie, aos dez anos, provavelmente de tuberculose.
A graça e a inteligência dela enriqueciam a vida do cientista numa casa vitoriana íntima, educada, feliz até aparecer a doença e a morte de Annie. A partir daí o filme lida com as angústias, as depressões de Darwin e as brigas com a mulher profundamente religiosa sobre a publicação da teoria que, segundo seu amigo e colega cientista, Thomas Huxley, "matou Deus".
O filme, como a Origem das Espécies, não é uma crítica à religião nem questiona a existência de Deus, embora Darwin, pai ferido, não aceitasse a morte da filha como parte de qualquer plano divino. A igreja podia oferecer uma explicação, até uma causa, mas não uma razão.
Só 39% dos americanos acreditam na teoria da evolução e o número varia de 14% entre os que não terminaram o curso secundário a 74% entre os que tem PhD. Neste mundo de fanatismo muçulmano cresce aqui o fanatismo fundamentalista, mas ha exceções preciosas como a mais conhecida escritora católica americana, Mary Gordon.
Durante uma entrevista esta semana para o programa Milênio, perguntei a Mary como Darwin entrava na equação católica dela.
"Darwin esta certíssimo, um gênio que descobriu como e porque um inseto leva milhões de anos para desenvolver uma asinha. Esta igreja do Vaticano com homens vestidos de saias pretas é a farsa. Não precisamos que nos digam como devemos pensar", disse ela.
Vou escrever para a dona Mary para ela me explicar esse negócio do "levou milhões de anos para desenvolver uma asinha". Se há alguma coisa MAL explicada por Charles Darwin, é precisamente ISTO, o desenvolvimento de alguma coisa que represente UM SISTEMA. A teoria de Darwin poderia convencer como explicação somente com relação a "caracteres benéficos" que dependessem inteiramente de UMA mutação - mas rui fragorosamente se se meter a explicar os que dependeriam de MUITAS mutações, já que em todo o processo intermediário, como o sistema AINDA não existe, teria que haver algum motivo para o fato da seleção natural preservar, pelos tais milhares de anos, "mutantes intermediários", que não têm vantagem nenhuma sobre não-mutantes. Foi justamente o que o darwinismo nunca conseguiu fazer, dar esta mísera explicação, tão obviamente necessária. Se a asinha inteirinha - ou qualquer protótipo dela, funcionalmente vantajoso, aparecesse de uma vez só, aí se entenderia. Mas um pedaço de sistema não adianta xongas, não é funcional e portanto não representa vantagem alguma.
Acho que um cientista famoso, cujo nome me escapa no momento, já usou este argumento num debate com aquele Dawkins, a respeito do sistema visual. Um argumento imbatível, não refutado até o momento. E que se aplica a QUALQUER sistema, é claro.
Dawkins comenta acerca da asa no Deus, um delírio...
Os criacionistas que tentam usar o argumento da improbabilidade a seu favor sempre assumem que a adaptação biológica é uma questão de tudo — acertar na loteria — ou nada. Outro nome para essa falácia é "complexidade irredutível". O olho vê ou não vê. A asa voa ou não voa. Assume-se que não existem intermediários úteis. Mas isso está simplesmente errado. Intermediários assim 134 abundam na prática — exatamente o que deveríamos esperar na teoria. O segredo do cofre da vida é um mecanismo de "está quente, está frio". A vida real busca as encostas de subida amena por trás do monte Improvável, enquanto os criacionistas enxergam apenas o assustador precipício da frente.
Darwin dedicou um capítulo inteiro de A origem das espécies às "Objeções apresentadas contra a teoria da descendência com modificações", e é razoável dizer que esse curto capítulo previu e descartou cada uma das supostas objeções propostas desde então até os dias atuais. As objeções mais formidáveis são os "órgãos de extrema perfeição e complexidade" de Darwin, que às vezes são erroneamente descritos como "de complexidade irredutível". Darwin destacou o olho como um problema especialmente desafiador: "Supor que o olho, com todos os seus inimitáveis artifícios para ajustar o foco a várias distâncias, para admitir várias quantidades de luz e para corrigir aberrações esféricas e cromáticas, tenha sido formado pela seleção natural parece, confesso abertamente, o grau mais elevado de absurdo". Os criacionistas citam essa frase alegremente, sem parar. Nem é necessário dizer que eles nunca citam sua sequência. A confissão exageradamente aberta de Darwin revela-se um artifício de retórica. Ele estava atraindo seus oponentes para que o golpe, quando viesse, os atingisse em cheio. O golpe, é claro, é a explicação simples de Darwin sobre como de fato o olho evoluiu gradativamente. Darwin pode não ter usado o termo "complexidade irredutível", ou a "gradação suave para subir o monte Improvável", mas de certo compreendia o princípio de ambos.
"Para que serve meio olho?" e "Para que serve meia asa?" são exemplos do argumento da "complexidade irredutível". Diz-se que uma unidade é irredutivelmente complexa se a remoção de uma de suas partes provocar a interrupção do funcionamento do todo. Assumiu-se que se trata de uma verdade óbvia tanto para olhos quanto para asas. Mas, assim que pensamos um pouco nessas suposições, enxergamos imediatamente a falácia. Um paciente de catarata que tenha tido o cristalino removido cirurgicamente não consegue ver imagens claras sem óculos, mas vê o suficiente para não trombar com uma árvore ou cair num precipício. Meia asa de fato não é tão eficiente quanto uma asa inteira, mas certamente é melhor que asa nenhuma. Meia asa pode salvar sua vida amenizando a queda de cima de uma árvore de determinada altura. E 51% de uma asa pode salvá-lo se você cair de uma árvore um pouquinho mais alta. Seja qual for a fração de asa que você tiver, há uma queda da qual ela o salvaria, e uma asa menor não salvaria. O experimento mental das árvores de diferentes alturas, da qual alguém pode cair, é apenas um modo de enxergar, na teoria, que é preciso haver uma gradação suave de vantagem desde o 1% de asa até o 100%. As florestas estão cheias de animais que planam ou fazem pára-quedismo, ilustrando, na prática, cada passo da subida daquele lado do monte Improvável.
E ainda tem outra coisa relacionada a isto, e que é que não se trata de UM sistema apenas, e sim de diversos que em tese estariam se desenvolvendo simultaneamente, é claro - de modo que o "primeiro" sistema a ficar "pronto" traria para seus portadores a vantagem genética sobre TODOS os outros sistemas "não-prontos", eventualmente eliminando-se assim, se o evolucionismo tivesse razão, não apenas os "não-mutantes", mas TAMBÉM os indivíduos mutantes dotados de outros sistemas diferentes ainda não-completos, e mesmo os dotados deste específico sistema em fases incompletas - não importando o grau de incompletitude.
Ou seja, a completitude de UM dos sistemas eliminaria, basicamente, os estágios intermediários de todos os outros e dele próprio - já que um mutante intermediário e um não-mutante são IDÊNTICOS quanto a "vantagens competitivas", e indistinguíveis do ponto de vista da seleção natural.
Seria como se a natureza funcionasse, no que diz respeito à especiação, através de "investimentos a fundo perdido" de forma esbanjatória, paradigma que é desmentido em qualquer outra instância, e que tornaria esta especiação uma espécie de "exceção" dentro do universo: que é, demonstrávelmente, econômico, não perdulário. E em matéria de desperdício, este seria vasto.
Eu sei que é meio idiota ficar discutindo uma coisa que na verdade está ela mesma incompleta, e cujo sentido é desconhecido, como a especiação; mas eu só digo isto porque quando eu tinha 15 anos de idade, no Colégio Andrews, eu já as dizia e as discutia nas aulas de Biologia. Aquilo não me convencia LÁ, imagina agora. A diferença é que naquele tempo os professores até gostavam de mim, e me deixavam argumentar quanto quisesse; e hoje se alguém abre a boca pra dizer as mesmas coisas caem cinquenta em cima pra tampar a boca do "ousado".
😄 - É meio difícil alguém me chamar de "crente" pejorativamente, num debate desses: CRENTES, neste sentido, são os evolucionistas! A minha argumentação é muito mais conforme a lógica científica do que a DELES.
E isto se deve à minha argumentação não ser A FAVOR de nada, e sim CONTRA o fato desta, especificamente, ser mencionada como "científica" - quando de científico não tem nada... É uma CRENÇA, como qualquer outra - aliás, uma crença bem capenguinha.
O Lucas Mendes me confunde. Ele preferiria se a educação americana fosse mais parecida com a educação do Brasil? É para rir?
Posso não ter a menor condição para discutir miudezas da biologia evolutiva, porém posso discutir o fato de que um jornalista fique horrorizado com o fato de que ascrianças americanas possam ser expostas a MAIS, e não MENOS explicações para o atual estado da vida na Terra. O sujeito se revolta porque não há mais pessoas pensando como ele nos Estados Unidos (certamente ele deve ter a própria inteligência em altíssima conta...).