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Um pânico moral

Iniciado por lzaro em 30/03/2010 · 9 mensagens

lzaro#1
Padres pedófilos: um pânico moral
Por Massimo Introvigne

Por que se volta a falar de padres pedófilos, com acusações que se referem à
Alemanha, a pessoas próximas ao Papa e agora até mesmo ao próprio Papa?
Será que a sociologia tem algo a dizer a respeito ou deve deixar o caminho livre
para os jornalistas? Creio que a sociologia tem muito a dizer, e que não deve
ficar quieta por medo de desagradar este ou aquele. A discussão atual sobre
padres pedófilos – considerada do ponto de vista sociológico – representa um
exemplo típico de “pânico moral”. O conceito nasceu nos anos 1970 para
explicar como alguns problemas são objeto de uma “hiperconstrução social”.

Mais precisamente, os pânicos morais foram definidos como problemas
socialmente construídos, caracterizados por uma amplificação sistemática dos
dados reais, seja na exposição midiática, seja na discussão política. Duas outras
características foram mencionadas como típicas dos pânicos morais. Em
primeiro lugar, problemas sociais que existem há décadas são reconstruídos na
narrativa midiática e política como “novos”, ou como objeto de um suposto e
dramático crescimento recente.
lzaro#2
Em segundo lugar, a sua incidência é exagerada por estatísticas folclóricas que, mesmo não confirmadas por estudos acadêmicos,são repetidas pelos meios de comunicação e podem suscitar campanhas midiáticas persistentes. Philip Jenkins assinalou o papel dos “empreendedores morais” – cujas agendas nem sempre são declaradas – na criação e gestão dos pânicos. Os pânicos morais não fazem bem a ninguém. Eles distorcem a percepção dos problemas e comprometem a eficácia das medidas que deveriam resolvê-los. Uma análise errada não pode produzir senão uma intervenção errada.

Que fique claro: os pânicos morais têm na sua origem circunstâncias objetivas e
perigos reais. Não inventam a existência de um problema, mas exageram suas
dimensões estatísticas. Numa série de valiosos estudos, o mesmo Jenkins
Padres pedófilos – um pânico moral 2/7 mostrou como a questão dos padres pedófilos talvez seja o exemplo mais típico de um pânico moral. Estão presentes de fato os dois elementos característicos: um dado real na origem, e uma exageração desse dado por obra de ambíguos “empreendedores morais”.
lzaro#3
Primeiro, o dado real na origem: existem padres pedófilos. Alguns casos são ao
mesmo tempo desconcertantes e repugnantes, foram objeto de condenações
definitivas e os próprios acusados nunca se disseram inocentes. Estes casos –
nos EUA, na Irlanda, na Austrália – explicam as severas palavras do Papa e o
seu pedido de perdão às vítimas. Mesmo se os casos fossem apenas dois – e,
infelizmente, são muitos – isto já seria demais. Mas já que pedir perdão – apesar
de nobre e oportuno – não basta, sendo necessário evitar que os casos se
repitam, não é indiferente saber se os casos são dois, duzentos ou vinte mil. E
tampouco é irrelevante saber se o número de casos entre sacerdotes e religiosos
católicos é mais ou menos numeroso do que entre outras categorias de pessoas.
Os sociólogos frequentemente são acusados de trabalhar sobre números frios,
esquecendo que por trás de cada número há um caso humano. Mas os números,
embora não sejam suficientes, são necessários. São o pressuposto de toda análise adequada
lzaro#4
Para entender como de um dado tragicamente real se passou a um pânico moral
é necessário saber quantos são os padres pedófilos. Os dados mais amplos foram
coletados nos EUA, onde, em 2004, a Conferência Episcopal encomendou um
estudo independente ao John Jay College of Criminal Justice da City University
of New York, que não é uma universidade católica e é unanimemente
reconhecida como a mais autorizada instituição acadêmica dos EUA em matéria
de criminologia. Esse estudo nos diz que de 1950 a 2002, num universo de
109.000, 4.392 sacerdotes americanos foram acusados de ter relações sexuais
com menores. Desses, pouco mais de uma centena foram condenados por
tribunais civis. O baixo número de condenações por parte do Estado deriva de
diversos fatores.
lzaro#5
Em alguns casos as verdadeiras ou supostas vítimas Padres pedófilos – um pânico moral 3/7 denunciaram sacerdotes já mortos, ou foram consumados os prazos de
prescrição. Em outros, à acusação e à condenação canônicas não corresponde
nenhuma violação a qualquer lei civil: é o caso, por exemplo, em diversos
Estados americanos, do sacerdote que tinha uma relação consensual com uma –
ou mesmo um – menor com mais de 16 anos. Mas também aconteceram muitos
casos clamorosos de sacerdotes inocentes acusados. Esses casos foram
multiplicados nos anos 1990, quando alguns escritórios de advocacia
perceberam que poderiam obter transações milionárias com base em meras
suspeitas. Os apelos à “tolerância zero” são justificados, mas também não
deveria haver qualquer tolerância com quem calunia sacerdotes inocentes.
lzaro#6
Acrescento que em relação aos EUA as cifras não se alterariam de forma
significativa se somássemos o período 2002-2010, pois o estudo feito pelo John
Jay College já observava o “declínio claríssimo” dos casos no ano 2000. Os
novos inquéritos são poucos, e as condenações pouquíssimas, graças a medidas
rigorosas introduzidas seja pelos bispos americanos, seja pela Santa Sé.
O estudo do John Jay College nos diz que quatro por cento dos sacerdotes
americanos são pedófilos? De modo algum. Segundo aquela pesquisa, 78,2%
das acusações se referiam a menores que haviam superado a puberdade. Manter
relação sexual com uma menina de 17 anos não é certamente “una bella cosa”,
muito menos para um padre: mas não se trata de pedofilia. Portanto, ao longo de
cinqüenta e dois anos, os sacerdotes acusados de pedofilia nos EUA são 958,
dezoito por ano. As condenações foram 54, pouco mais de uma por ano.

O número de condenações penais de sacerdotes e religiosos em outros países é
parecido, embora em nenhum país se disponha de um estudo completo como
aquele feito pelo John Jay College. Cita-se frequentemente uma série de
relatórios governamentais na Irlanda que definem como “endêmica” a presença
de abusos nas escolas e nos orfanatos (masculinos) administrados por algumas
dioceses e ordens religiosas, e não há dúvida de que casos muito graves de
abusos sexuais de menores nesse país realmente aconteceram. O exame
lzaro#7
Padres pedófilos – um pânico moral 4/7 sistemático desses relatórios mostra, ademais, como muitas acusações se referem ao uso de meios de correção excessivos ou violentos. O assim chamado Relatório Ryan de 2009 – que usa uma linguagem muito dura em relação à Igreja Católica – reporta, no período que investiga, a partir de um universo de 25.000 alunos de escolas, reformatórios e orfanatos, 253 acusações de abusos sexuais de meninos e 128 de meninas, nem todos atribuídos a sacerdotes, religiosos ou religiosas, de diversa natureza e gravidade, raramente referidos a menores impúberes e que, ainda mais raramente, levaram a condenações.
lzaro#8
As polêmicas dessas últimas semanas sobre a Alemanha e a Áustria exibem uma
característica típica dos pânicos morais: apresentam-se como “novos” fatos que
aconteceram há muitos anos ou são – em alguns casos há mais de 30 anos – já
conhecidos em parte. O fato de se noticiarem na primeira página dos jornais –
com uma particular insistência no que toca à área geográfica da Bavária, de onde
vem o Papa – ocorrências dos anos 1980, como se houvessem ocorrido ontem; e
de se suscitarem polêmicas violentas, com um ataque concêntrico que anuncia
todo dia, em estilo escandaloso, novas “descobertas”, mostra bem como o
pânico moral é promovido por “empreendedores morais” de forma organizada e
sistemática. O caso que – como alguns jornais publicaram – “envolve o Papa” é
um exemplo de manual escolar: refere-se a um episódio de abusos na
Arquidiocese de Munique, da qual era arcebispo o atual Pontífice, que remonta a
1980. O caso veio à tona em 1985 e foi julgado por um tribunal alemão em
1986; no julgamento ficou provado, entre outras coisas, que a decisão de acolher
na arquidiocese o sacerdote em questão não foi tomada pelo cardeal Ratzinger e
não era sequer do seu conhecimento, o que não admira numa grande diocese
com uma burocracia complexa. Por que um jornal alemão decide exumar esse
caso e publicá-lo na primeira página vinte e quatro anos depois da sentença, isto, sim, deveria ser a verdadeira questão.
lzaro#9
Uma pergunta desagradável (…), mas importante, é se ser um padre católico é
uma condição que comporta um risco de se tornar pedófilo ou de abusar
Padres pedófilos – um pânico moral 5/7 sexualmente de menores (como se viu, as duas coisas não coincidem, pois quem abusa de uma menina de dezesseis anos não é um pedófilo) mais elevado em relação ao resto da população. Responder a essa pergunta é fundamental para descobrir as causas do fenômeno e assim preveni-lo. Segundo os estudos de Jenkins, se se compara a Igreja Católica dos EUA às principais denominações protestantes se descobre que a presença de pedófilos é – dependendo das denominações – de duas a dez vezes mais alta entre os pastores protestantes do que entre padres católicos. A questão é relevante porque mostra que o problema não é o celibato: a maior parte dos pastores protestantes é casada.

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