UOL - Por que, então, a investigação policial concluiu que ocorreu crime comum?
Wider Filho - A apuração policial foi muito útil porque
identificou a quadrilha responsável pela morte, que é a da favela
Pantanal [na divisa entre São Paulo e Diadema] --são os que vão ser
julgados agora. Mas a investigação se encerrou prematuramente. Eles não
avançaram na investigação até para verificar se a versão dos integrantes
da quadrilha era correta --e não era. Os integrantes da quadrilha
disseram que perseguiram o empresário desde o Ceagesp [zona oeste de São
Paulo]. Quebramos o sigilo telefônico da quadrilha e verificamos que
não houve essa perseguição, que os integrantes ficaram o tempo todo na
avenida Dr. Ricardo Jafet [zona sul]. A Polícia Civil sequer analisou o
exame necroscópico do prefeito. Um adolescente admitiu ter sido o
executor da morte, e foi feita até reconstituição, mas sem que houvesse o
exame de corpo de delito. Pedimos o exame do cadáver do prefeito, para
confirmar se a versão do adolescente batia com as agressões no corpo do
prefeito, e o laudo de exame necroscópico. Havia incoerências grandes.
Ouvimos esse adolescente várias vezes, e, no final, ele admitiu que não
foi o executor. A polícia aceitou passivamente a confissão dos
integrantes da quadrilha. Não se aprofundou nos verdadeiros motivos e
razões da morte.
UOL - Como foram as tentativas de reabertura das investigações policiais?
Wider Filho - Nós tentamos contar com o apoio da polícia
durante todo o tempo. Fizemos uma investigação preliminar e, logo que
essa investigação apontou novos elementos, fomos no DHPP (Departamento
de Homicídios e Proteção à Pessoa). Foi instaurado um inquérito
complementar e nomeado um novo delegado, o Luiz Fernando. Começamos a
fazer diligências em conjunto, mas o DHPP sempre mostrou uma resistência
muito grande. Chegou ao ponto de testemunhas levadas pelo MP serem
intimidadas no DHPP. Parece-me que a Polícia Civil insiste na tese de
crime comum por uma questão de honra, para provar que a tese deles
estava certa. Em nenhum momento dissemos que a investigação estava
errada, mas ela foi interrompida antes da obtenção dos resultados mais
importantes.
UOL - A investigação do MP detectou o envolvimento de pessoas ligadas ao PT no planejamento da morte de Celso Daniel?
Wider Filho - Identificamos o Sérgio [Sombra] como sendo um
dos mandantes. Embora existam indícios da participação de outras pessoas
na quadrilha de Santo André, não conseguimos aprofundar as provas e não
tivemos elementos para oferecer denúncia contra elas. Se não consegui
prova suficiente para oferecer denúncia, não posso imputar nada contra
essas pessoas. Seria uma irresponsabilidade minha.
UOL - O senhor acha que essa investigação precisa ser retomada pela polícia?
Wider Filho - Existem algumas questões que podem ser
investigadas. Depois da conclusão do inquérito complementar, fizemos
outro pedido, tempos depois, para a retomada do caso. Foi indicada a
delegada Elisabete Sato, na época do 78º DP (Jardins). Pedimos que
fossem feitas nove diligências. Também a doutora Sato, prematuramente,
relatou o inquérito --com uma posição surpreendente, cometendo vários
erros no relatório, um trabalho que não é do histórico dela--
reafirmando a tese do DHPP. Nós acreditamos que houve uma pressão do
DHPP para que ela fizesse isso, porque a investigação dela caminhava num
rumo bom. Entre outros elementos na investigação dela, colheu-se provas
de que dinheiro de corrupção foi encontrado dentro do apartamento do
Celso Daniel. Isso era uma prova relevante que demonstrava esse
desarranjo no interior da quadrilha.
UOL - Como funcionava o esquema de corrupção em Santo André? Qual a ligação da quadrilha com a morte do ex-prefeito?
Wider Filho - Existia uma quadrilha que fazia arrecadação
destinada a financiamento de campanhas eleitorais do PT. Em um
determinado momento, Celso Daniel descobre que boa parte desses recursos
eram desviados para o enriquecimento pessoal dos integrantes dessa
quadrilha. Com isso, ele não concordava. Havia secretários do PT,
filiados ao partido, que eram integrantes da quadrilha, mas a
investigação para outros integrantes do partido foi cerceada pelo STF
(Supremo Tribunal Federal), que impediu que a gente investigasse o José
Dirceu, o Gilberto Carvalho e a destinação final desses recursos. Nós
não podemos investigar, nem a Polícia Federal, que era a instância
competente. Depois eu tentei retomar essa investigação e o ministro Eros
Grau, também atendendo a uma reclamação do José Dirceu, impediu. Então a
gente nunca conseguiu fazer essa investigação. Portanto, não posso
falar nada sobre o que eu não investiguei. Mas existe uma reclamação
nossa no STF para investigarmos o José Dirceu que ainda não foi julgada