Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Rombo no Banco do Vaticano e o Papa João Paulo II

Iniciado por rafael_33 em 12/07/2010 · 5 mensagens

rafael_33#1
Bento XVI despediu todas as pessoas ligadas a João Paulo II - João Paulo II estaria a par das actividades ilegais e fraudulentas que se desenrolavam no Banco Vaticano

Bento XVI despediu todas as pessoas ligadas a João Paulo II

Entrevista Gianluigi Nuzzi

Bento XVI despediu todas as pessoas ligadas a João Paulo II

Papa falecido em 2005 conhecia ilegalidades no Banco Vaticano mas não terá tomado nenhuma medida.

João Paulo II estaria a par das actividades ilegais e fraudulentas que se desenrolavam no Instituto de Obras Religiosas (IOR), o Banco Vaticano, e que são reveladas no livro Vaticano S.A., do italiano Gianluigi Nuzzi. Porém, nada fez para inverter a situação. O novo Papa, Joseph Ratzinger, ou Bento XVI, quis romper com a indiferença do anterior Sumo Pontífice e demitiu todas as pessoas do sector financeiro que estavam ligadas a João Paulo II na Santa Sé. Em entrevista ao Negócios, Nuzzi conta que Karol Wojtyla, o anterior Papa, tinha dívidas significativas, e revela como conseguiu escrever um livro onde expõe as finanças do Vaticano de uma forma nunca antes vista.

No livro propõe-se a divulgar "a verdade sobre os escândalos financeiros e políticos da Igreja". Mais à frente, diz que no Vaticano "a verdade não é só uma". Como pode garantir que a verdade que nos revela é a única?
A verdade única não existe, só serve como definição para explicar a inspiração do autor. Mas dentro dos documentos está a verdade mais verdadeira que se pode encontrar. Neste livro há cinco mil documentos, organizados não para vir a público, mas para tentar resolver a crise das finanças no Vaticano.
rafael_33#2
Por que razão Renato Dardozzi divulgou o arquivo?
Renato Dardozzi passou toda a sua vida como padre na tentativa de combater os negócios ilegais dentro do Vaticano, através dos conselhos e conversas que tinha com João Paulo II. Ele foi conselheiro secreto de todos os secretários que encontrou no Vaticano. A tarefa dele era combater a ilegalidade. Creio que como Dardozzi não conseguiu levar a cabo esta sua missão em vida, deixou connosco este arquivo para que fôssemos nós a concluir esta missão.

Por que é que entregou os dados a si?
Porque os executores do testamento de Dardozzi vieram à revista Panorama, onde eu trabalhava como correspondente, para cumprir a vontade expressa no testamento de tornar público o arquivo, sem que este fosse instrumentalizado. Foram ter com a revista porque era uma revista moderada. Como eu tratava da área judiciária, o meu director encarregou-me de estudar o arquivo. Quando vi os dados, vi que se tratava de uma hemorragia de notícias sobre o Vaticano sem precedentes. Nunca se tinha visto um papel do Instituto de Obras Religiosas.

Há quem defenda que Dardozzi divulgou os dados por estar irritado com o IOR. Isso não poderá retirar alguma credibilidade aos documentos?
Estamos a falar de uma pessoa licenciada em várias áreas. A minha tendência é excluir que ele agisse por instinto. Essa história de que Dardozzi ficou irritado com o IOR é verdadeira, e pode ter contribuído para a decisão, mas não a determinou. Ele era conselheiro do vice-Papa, uma pessoa que todas as quintas-feiras tomava o pequeno-almoço como João Paulo II. Dardozzi tinha em mãos segredos devastadores das finanças do Vaticano. Ele percebeu que estava só. Além de não ter recebido o dinheiro, começou a receber cartas com ameaças, em casa.

Caso essa divulgação tivesse ocorrido como retaliação, Dardozzi poderia ter omitido alguns documentos...
Nós temos um grande arquivo, mas não temos o arquivo todo. Se o tivéssemos, eu não estaria aqui a falar consigo - e não por minha vontade.
rafael_33#3
João Paulo II estava a par da situação de ilegalidade no IOR, mas não tomou medidas, ao contrário do que fez João Paulo I. Por que razão?
João Paulo II tinha, seguramente, dívidas significativas em todo o mundo. O primeiro ponto da sua missão era fazer ruir o Pacto de Varsóvia, em concomitância com os Estados Unidos. Para levar a cabo esta acção, precisou de dinheiro e contraiu mais dívidas. Creio que isto caracterizou o papado de João Paulo II, mesmo depois da queda do Muro de Berlim. Os "maus" que eu identifico no meu livro estão ligados àqueles que ajudaram o Papa a fazer o muro cair. A primeira conta aberta no sistema de contas paralelas no IOR está em nome de uma fundação inexistente, chamada Francis Spelmann. Era esse o arcebispo de Nova Iorque que apresentou a Itália pós-fascista aos norte-americanos e que fez com que o dinheiro da CIA chegasse à democracia cristã italiana, para que o partido comunista nunca pudesse ganhar as eleições.

O Papa não tomou medidas efectivas por se sentir em dívida para com essas pessoas que o terão ajudado?
Isso é uma mera dedução. Mas estas pessoas iam num dia pedir apoio ao IOR para as minorias católicas nos países de Leste, e no seguinte evitavam que as pessoas responsáveis por crimes e ilegalidades fossem despedidas do IOR. Porém, é um facto, e ainda bem que o sublinhou, que o Papa, desde Agosto de 1992, tomou conhecimento das situações ilegais dentro do IOR, mas até 1993 não fez nada para as corrigir. Ele até descobriu que era desviado dinheiro que tinha sido entregue à Igreja para celebrar missas de defuntos, que tinha sido entregue para beneficência através de heranças...
rafael_33#4
Se não houvesse imunidade diplomática nem a impossibilidade de julgar os membros do Vaticano, já lá teria havido detenções?
Sim, seguramente. Tenho grande sorte em não ser magistrado, mas de certeza que houve situações muito embaraçosas. Marcinkus foi responsável pela falência do banco Ambrosiano, e os juízes queriam detê-lo. Segundo o artigo 11° dos Pactos Lateranenses, Marcinkus não podia ser detido. O Vaticano não dá informações nenhumas sobre o que lá se passa. Quando um juiz manda uma rogatória para o Vaticano, não obtém resposta.

Não será altura de introduzir alguma transparência no IOR?
Absolutamente. Mas o processo é gradual. A primeira coisa a fazer é mudar as pessoas, porque, se elas não mudarem, as antigas não mudam nada. Não foi por acaso que Ratzinger despediu todas as pessoas que estavam ligadas a Karol Wojtyla ou que permitiu o julgamento dos casos de pedofilia em tribunais civis, o que marcou uma viragem de época na doutrina da Igreja.
rafael_33#5
O título Vaticano S.A. é esclarecedor. As finanças do Vaticano são, pela primeira vez, expostas ao mundo graças ao rico arquivo pessoal de Renato Dardozzi, monsenhor que esteve, durante 20 anos, ligado à Santa Sé como conselheiro das figuras mais importantes do Instituto de Obras Religiosas (IOR), o nome oficial do Banco Vaticano. A obra agrega, de forma mais ou menos cronológica, a história do banco e os escândalos a que ficou ligado.

O Banco Vaticano reúne os ingredientes necessários para deixar a Igreja Católica embaraçada, uma vez mais. No banco destacam-se os três presidentes. O padre Paul Marcinkus, líder da instituição, é responsável pela falência do banco Ambrosiano, em 1982. O IOR era o principal parceiro do banco, cujo líder, Roberto Calvi, foi encontrado morto em Londres, presumivelmente assassinado pela Máfia. Mas há outros condimentos. Nuzzi, sempre apoiado pela documentação de Dardozzi, revela que a Máfia usava as contas paralelas criadas no banco para lavar dinheiro e para o enviar para outros países. O IOR esteve ainda envolvido no maior suborno da história italiana, Enimont, que deu origem à operação "Mãos Limpas" e que fez cair a primeira República do país e todos os partidos que existiam.

A outra figura é Donato de Bonis, braço-direito de Marcinkus, que continuou o trabalho do americano ao criar um sistema "offshore" por onde passavam somas astronómicas.

Finalmente, Angelo Caloia, colocado à frente do banco por João Paulo II, responsável por uma grande renovação da equipa. O Papa sabia das ilegalidades desde 1992 e nada fez, acusa Nuzzi, que revela, no livro, uma parte importante do "paraíso fiscal inexpugnável em plena cidade de Roma".

imagem
http://www.presenca.pt/images/ep-icon-pdf.gif
Ver notícia original

Data de publicação: 2/7/2010

Fonte: Jornal de Negócios
Jornalista: Bruno Simões

‹ Voltar para a lista de tópicos