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Dialética e Ciência

Iniciado por pedro_9 em 23/07/2010 · 9 mensagens

pedro_9#1
Tenho uma pergunta para os amigos que se dedicam a estudar Aristóteles: o estagirita atribuía aos raciocínios dialéticos, que partem de hipóteses e chegam a opiniões prováveis, o caráter de ciência (episteme)? De acordo com Platão, eles são plenamente científicos, embora o título de "episteme" caiba melhor ao conhecimento essencial das coisas. Já para Sto. Tomás, a dialética é pré-científica, por não demonstrar nada.

Em resumo: é uma tremenda confusão. Para piorar um pouquinho a situação, os antigos pitagóricos chamavam de ciência justamente o conhecimento aproximado e hipotético. Agradeço se alguém souber o parecer do tio Aristóteles.
renan_6#2
Trata-se de uma interessante questão essa que você trouxe à baila. Eu sinceramente não me recordo que conclusões a respeito dela teceram os famosos comentadores de Aristóteles.

Não tenho como te dar uma opinião “definitiva” de Aristóteles, até porque creio que não haja um consenso acerca dela. Sempre bom lembrar que herdamos do gigante macedônico uma bela colcha de retalhos que nesses 24 séculos não foi assim tão bem recosturada.

De todo modo, relendo algumas anotações minhas dos Topica, parece-me correto, à primeira vista, atribuir mais um caráter metódico e propriamente técnico do que epistêmico à Dialética.
renan_6#3
O próprio Aristóteles, no princípio dos Topica, define o propósito da obra como “descobrir um método (methodon eurein) pelo qual possamos raciocinar a partir de opiniões geralmente aceitas sobre qualquer problema diante de nós e, ao sustentarmos um argumento, evitarmos dizer algo contraditório”.

À parte da mera atenção à superfície do texto, algo jamais suficiente, logo em seguida vemos que Aristóteles distingue entre o silogismo apodeiktikos e o silogismo dialektikos, o primeiro partindo de archai verdadeiras, ou supondo um conhecimento delas derivado, enquanto o segundo procedendo de opiniões geralmente aceitas (endoxa). É uma distinção muito clara e elucidativa feita pelo estagirita neste ponto, ainda mais tendo em vista o quanto a noção de archai e cadeias axiomáticas formam o suco da episteme aristotélica. Onde temos um chão seguro sobre o qual possamos erguer uma trama apodítica, temos episteme.

Ainda neste início dos Topica, um dos trechos mais importantes de todo o Organon, mais precisamente no capítulo 2, Aristóteles elucida a utilidade do tratado:
1) Treinamento mental (gumnasian)
2) Conversações (enteuxeis)
3) às ciências filosóficas (philosophan epistemas), pois ajuda a discernir verdades e falsidades.
4) útil também na conexão com as bases de cada ciência (pros ta prota ton peri ekasten epistemen [archon]), pois é próprio (“ou propriíssimo”, diz Aristóteles) da dialética discutir os princípios das opiniões.
renan_6#4
Outra passagem que considero importante para avaliar a questão, e que complementa esta análise acima: o princípio do livro VIII, quando Aristóteles faz a comparação entre o filósofo e o dialético. Segundo ele, ambos investigam a mesma coisa quanto ao topos, mas o arranjo e a disposição das perguntas pertencem ao dialético. Isto é, o dialético dirige-se sempre a outro sujeito argumentativo, é sempre um pros heteron, enquanto o filósofo é o homem que investiga por si mesmo (zetounti kath eauton). O arremate do estagirita é importante, quando ele ainda declara que de fato o filósofo estará mais ansioso para assegurar que seus axiomas sejam o mais familiares e próximos dos archai possíveis, “pois este é o material dos raciocínios científicos (epistemonikoi sullogismoi).”

Enfim, ao meu gosto, passagens como essas parecem jogar uma boa luz sobre a questão.

Abraço
pedro_9#5
Excelente! Obrigado, Renan.

A questão vai se complicando muito na Escolástica, quando começa uma das únicas tentativas sérias de conciliar Aristóteles e Platão. Mais tarde, no mortífero Renascimento, os proto-teósofos platônicos (organizados em torno de Marcilio Ficino) e os proto-materialistas aristotélicos (que fariam corar de vergonha aos averroístas), desistitiram da empreitada. Aliás é interessante como até hoje o universo intelectual do Ocidente está dividido entre mistificadores esotéricos e ateus furiosamente empenhados em manter o espírito rés ao chão. O que não diriam os dois filósofos!

Platão tinha o cuidado de corresponder a cada modalidade de "acesso ao real" um plano de realidade. Aristóteles, por sua vez, não tinha grande talento para isso, mas era um gênio no estudo da linguagem, e conseguiu uma bela correlação entre os modos de conhecimento, tal como Platão os descrevia, e os discursos. Não sei se o Olavo menciona em seu livro que TUDO o que Aristóteles disse sobre os quatro discursos foi sob influência de seu professor, e não faz sentido fora desse contexto. Se não mencionou, hélas!

Por exemplo, o discurso poético (e artístico, em geral) tem a finalidade de reproduzir sensações, e corresponde ao mais baixo tipo de conhecimento (o sensível), e também à mais baixa camada de realidade, aquilo que os hindus chamam de namarupa, o reino das formas sensíveis. Claro que, na arte, isso tem um papel simbólico, a menos que ela degenere em glamour e fotos de lingerie.

Mas e o discurso dialético? Aí reside o busílis da questão, confrade! Se seguirmos Platão, em sua exposição na "República", à dialética dizem respeito os entes matemáticos. Esquisito, não? Mais ou menos. Platão está se referindo ali à Matemática operativa, que tem apenas "coerência interna" e "argumentos consistentes" e não procura partir de definições para provar seus teoremas. Ou seja, algo bem diferente da nossa matemática, derivada quase inteira de alunos de Platão.
pedro_9#6
Este é um detalhe que o Olavo perdeu em seu "Jardim das Aflições": a Matemática moderna é um treco extraordinariamente genial, e só foi surgindo após esforços gigantescos por parte de caras sinceramente dedicados à ciência. Sem dúvida havia um monte de malucos pitagóricos que estavam a fim de adorar a Tetractis (vide o caso surreal dos Quatérnios: http://en.wikipedia.org/wiki/Quaternion ), mas também havia gente como Euclides e Nicômaco de Gerasa nesse desenvolvimento.

Quando chega Aristóteles e pega o bonde andando, Platão e seus antecessores já tinham conseguido progressos impressionantes na Matemática, fazendo dela um domínio da apodeixis (a "razão certíssima" dos escolásticos). Mas os alunos da academia jamais deixaram de treinar com figuras geométricas e números, dialeticamente. Quando você pega, sei lá, um livro de Duns Scot, é impossível não estranhar a impressionante semelhança entre as sutlezas dele e a linguagem dos livros de Cálculo, por exemplo. E no entando aquilo é um monstrusoso exercício de dialética; só aparecem demonstrações estritamente lógicas em parte das obras. O mesmo ocorre na Suma Teológica, mas dificilmente os "contra impugnantes" da vida vão sacar isso.

Resumo da ópera: a Dialética trata do que não é confirmadamente verdadeiro, mas tem probabalidade e coerência suficientes para merecer raciocínios. Isso corresponde ao reino dos acidentes necessários (ou propriedades).

Parece que os trechos do velho Ari só vêm a "corroborar nossa tese" 🙂
renan_6#7
Oi, Pedro, vejo que você nos seus estudos arriscou traçar um paralelo entre a divisão quaternária que Platão faz da realidade, calcada nos modelos pitagóricos, e os discursos aristotélicos. Confesso que é uma idéia que também me passou pela cabeça, e, do que li do Olavo, creio que ele esteja bem ciente dela.

No livro VI da República, o ateniense, em um excelente diálogo entre Sócrates e Glauco, nos diz que a matemática, a geometria e outras ciências se realizam através de imagens para captar outras imagens, que são como um "viajar por hipóteses sem ultrapassar suas fronteiras", é considerar as hipóteses como os objetos últimos do pensamento.

E aí é que entra o poder dialético, a investigação de hipóteses a ponto de ultrapassar esse limiar, esse nível, esse patamar da percepção, e ser capaz de considerar as hipóteses não como primeiros princípios, mas realmente como hipóteses.

O reforço que Glaucon acaba dando a esta construção de Sócrates-Platão em 513c-d é irreparável [grifos meus]:

"Eu entendo, embora não ainda adequadamente, que você quer distingüir a parte inteligível daquilo que é a parte estudada pela ciência da dialética como mais clara do que a parte estudada pelas chamadas Ciências, para as quais suas hipóteses são primeiros princípios. E embora aqueles que estudam os objetos destas ciências sejam forçados a fazê-lo por meio do pensamento ao invés de pela percepção sensorial, ainda, porque eles não retornam a um primeiro princípio genuíno, mas procedem de hipóteses, você não acha que eles as entendem, embora dado tal princípio sejam inteligíveis e me parece que você chama o estado dos Geômatras pensamento [dianoia] mas não compreensão, o pensamento sendo o intermediário entre opinião e entendimento [nous]."
renan_6#8
Essa capacidade intelectiva, esse flash que representa o que Platão chama de "poder dialético", creio que em Aristóteles equivalia ao seu nous poietikos, o intelecto ativo.

Nessa comparação, há mesmo como ver o colossal espírito de Platão pairando sobre as formulações de Aristóteles, e, apesar de todas aquelas divergências* que conhecemos, creio que não podia ser diferente. Aliás, as biografias do estagirita indicam que a Dialética e a Retórica foram os primeiros grandes empreendimentos de Aristóteles na Academia. Naquelas aulas sobre o macedônico que há no site do Olavo, este nos conta que Aristóteles começou a ganhar enorme destaque muito cedo, num período em que se dedicou quase que integralmente a estabelecer as bases da Retórica e, creio, da Dialética. A Metafísica e as ciências mais especulativas são uma realização posterior. Uma progressão perfeita para aquele que é o mais orgânico de todos os filósofos pré-escolásticos.

Falando na natural organicidade e logicidade escolástica que você muito bem mencionou, sugiro que dê uma lida n’um http://tradufil.blogspot.com/2010/04/geometria-da-mente-parte-i.html que traduzi há algum tempo sobre o uso da Geometria no ensino e na filosofia medievais.

* Quando o estudo dedicado nos mostra essas águas platônicas correndo por debaixo do sistema aristotélico, ficamos ainda mais convencidos que as divergências que Aristóteles tão conspicuamente expressava, já na maturidade do seu sistema, eram muito mais fruto de uma má exegese do que propriamente a uma total negação de seu ilustre mestre, a quem tanto devia. Na verdade, Aristóteles era mesmo um péssimo exegeta, basta ver as bobagens que ele dizia sobre Anaxágoras e os pitagóricos.
pedro_9#9
Há ainda mais um fator que deve ser levado em conta: Aristóteles dividia a alma "cognitiva" em duas partes: a raciocinativa e a científica, para que cada uma correspondesse a uma instância de realidade. Quer coisa mais platônica que essa? A raciocinativa versa sobre o contigente, mas SOB O ÂNGULO UNIVERSAL. Ela não fica em singularidades repetidas, mas já realiza abstrações. Sto. Agostinho também dedica um estudo muito sério a essa parte da alma, no "De Trinitate"; e a meu ver ele põe a "estagnação" dianoética como a causa de toda a demência dos pagãos e hereges. O Aquinatense não concordaria com minha interpretação (ele mostra sua posição contrária em uma questão da Suma sobre o intelecto), mas, lendo o Tratado de Agostinho, é difícil não seguir a correlação dianoia-parte raciocinativa-ratio inferior.

O próprio Estagirita nos dá um exemplo eloquente na Metafísica: digamos que eu me recorde que um dado remédio curou Fulano, Ciclano e mais uma porrada de pessoas que estavam febris; daí eu concluo: ora, este remédio cura a febre. Ocorreu um salto para um novo nível de consideração daquele remédio, inaugurando assim a técnica, o saber prático e interessado, que nós encontramos nos músicos, médicos, geômetras (e tenho certeza que Aristóteles mecionaria hoje os engenheiros, hehe). É nesse patamar que está a dialética; ela funciona como uma arte de pensar, uma técnica que dá resultado. Algo bem diferente da Ciência (em sentido ANTIGO), ao que parece.

E nesses momentos que Descartes, Galileu e Bacon se afiguram ainda mais bisonhos, mais pedantes, mais lunáticos. A pretensão desses caras nada tinha de genuinamente compreensiva e científica, e sim de produtiva.

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