Eu sei que este assunto está por demais desgastado nesta comunidade, mas gostaria muito que vocês lessem abaixo parte da introdução da grande obra O Século do Nada do grande escritor Gustavo Corção, onde nos trás sua narrativa sobre o conturbado período de 1964.
Para vocês terem uma idéia da gravidade que corria no Brasil, parte da própria população civil começou a sair de casa armada, por temor ao assalto marxista que seguia. O então Presidente da República, João Goulart, incentivada paralisações, revoltas, passeatas e a insubordinação. O próprio subversivo Carlos Prestes afirmou que os comunistas já estavam no governo mas ainda não possuíam poder suficiente para executar de vez a revolução. Tudo era questão de tempo.
A introdução parece ser longa, mas não é. Consome no máximo 10 minutos de leitura.
Leiam com muita atenção, parágrafo por parágrafo, e comparem a reação popular daquela época frente ao governo corrupto e subversivo de Goulart. Como as coisas mudaram!
O que me deixa atônito é que hoje nossos militares são caluniados pelos revanchistas por terem cometido o "crime" de salvar o Brasil de um iminente assalto comunista. Alguns destes revanchistas hoje estão no poder e se autodenominam de "democratas", mas que se calam pela brutal ditadura cubana e a recém-ditadura venezuelana, bem como não reconhecem as FARC como organização criminosa.
Sujeitos que assaltaram bancos, explodiram bombas, seqüestraram, torturavam e mataram civis em nome de uma ideologia virulenta, hoje estão imunes pela Anistia e recebem vultuosas indenizações do Estado por terem sofrido o "crime de tortura" pelos militares (sendo que familiares de oficiais mortos pelos terroristas recebem indenizações pífias). Como dizia o grande professor Corção, não me canso de pasmar de tamanho disparate.
"(...) É instrutivo reanimar a memória para aqueles dias sinistros em que parecia vivermos um pesadelo. Depois de anos de demagogia populista e de estatizações catastróficas, o Brasil chegou ao período Kubitschek em que a pátria parecia transformada num carro carnavalesco. (...)
Segue-se a este período de alegre irresponsabilidade o curto governo de um louco, que não merece comentário. E estamos agora no sinistro período do Governo Goulart. Agrava-se a inflação e o Presidente chama a si a organização da desordem. Como todo ressentido, ou como todos os chamados homens de esquerda, João Goulart imagina que a ofensa ao princípio de autoridade agrada aos pobres, o que seria verdade se todos os pobres do Brasil já estivessem “conscientizados” pelo famoso MEB das cartilhas de luta de classes. E, com esta idéia-mestra, Goulart por seus ministros e pelegos, insuflou desordens, greves, insubordinações e insolências. Os comunistas tomam posições-chaves, e no Ministério da Educação se apoderam dos dinheiros públicos com espantosa facilidade: rapazes de vinte anos passavam recibo de somas de milhões em farrapos de papel e levavam como melhor título de recomendação a prova de pertencerem ao Partido Comunista. A UNE conseguia do Congresso verbas de 3 bilhões, que valiam o que hoje valem 500 mil cruzeiros.
Caminhávamos para o caos. O episódio da Faculdade Nacional de Filosofia é bem característico: os terroristas do diretório recusam entrada ao paraninfo eleito, o governador Carlos Lacerda. O Governo Federal mobiliza suas forças para garantir a desordem. O paraninfo, o Reitor e os demais professores são desfeiteados. E nesta mesma tarde eu vi um bravo barbeiro a agitar sua navalha e a perguntar ao céu, às árvores e ao vento:
— Como pode? Como pode? Atirar alunos contra os professores é o mesmo que atirar filho contra o pai...
Aceleram-se os acontecimentos depois do comício na Central do Brasil, no dia 13 de março. Lembro-me bem, e gostaria de que todos rememorassem aquela tarde sinistra. Sentíamos uma ameaça pesada e próxima. Dir-se-ia que até no céu carregado se viam prenúncios de desgraça. Estavam ali reunidos os possessos que desejavam reduzir o Brasil a um presídio com oitenta milhões de detentos. Os rádios, histericamente, transmitiam notícias, nomes, frases. Um matutino compusera sua primeira manchete com o novo titular: O COMISSÁRIO DO POVO... (...) E o povo? O povo, que a UNE chamava de antipovo, olhava com medo e repugnância a desordem crescente. Greve todos os dias. Naquela tarde sombria e lívida com contrastes de tempestade e bonança, havia falta de luz. Racionamento da Light. (...)
Em nosso bairro as ruas estavam vazias, e nos rebordos das janelas víamos durante todo o dia velas acesas em sinal de que naquele apartamento rezava-se pedindo a Deus que não permitisse o assassinato do Brasil. (...)
Precipitam-se os acontecimentos. Foi nesta última semana ou na anterior? Cada manhã, à saída da missa, os amigos se entreolhavam com o ar de quem tem em casa um grande doente. Evitávamos falar no assunto. Nesta manhã, porém, alguém perguntou:
— Viram o que aconteceu ontem na Ilha do Fundão?
O Presidente Goulart aprazara encontro com o Reitor, professores e estudantes. Desceu de helicóptero, mas a meia altura mandou parar e começou a gritar:
— Os estudantes para a frente! Os estudantes para a frente!
E a manada de estudantes rompeu a socos e empurrões a fila dos professores. E nós, ouvindo a história, sentíamos uma vergonha profunda, alternada com convulsões de cólera perdida. (...)
Cada notícia era uma injúria; cada página de jornal, uma bofetada. E os nervos tensos, e o coração sangrando... Não se via uma perspectiva, uma saída. A tênue esperança que tínhamos era a de que o Exército se organizasse e seus chefes soubessem sobrepor à mesquinha legalidade produzida pelo positivismo jurídico. Saberiam? Poderiam? O fato é que o comunismo já se achava no Poder e já tinha a seu favor a moleza de uma sociedade maltratada por tantos e tão maus governos. Faltava-lhe um arremate de forma, mas contava com grande parte da imprensa, com os “intelectuais”, com os estudantes e com padres e até arcebispos “progressistas” que já ensaiavam a voz para a declaração:
— Companheiros! Eu também sou comunista! Eu sempre fui comunista!
De onde nos viria o socorro humano, a reação viável? Trouxeram-me um revólver. Que faria eu com um revólver contra um bando de executores que me cercassem a casa à noite? Aconselharam-me a mudar de posição a mesa de trabalho colocada diante da janela. Cheguei a pegar na mesa, mas detive-me, prevendo que entraria num espiral de precauções intoleráveis se admitisse a primeira. Aconselharam-me a mudar de casa, mas o mesmo horror da organização do medo me tolheu. Sinceramente, a um Brasil emporcalhado de marxismo, eu preferiria não sobreviver. Dias depois, fui dar minha aula na Companhia Telefônica, na Avenida Presidente Vargas. Quando cheguei ao local, vi-me cercado no carro por uns oito ou dez indivíduos de má catadura.
— O que vem fazer aqui?
— Vim dar uma aula — respondi com uma repugnância infinita.
— Somos o piquete da greve! Você não sabe que a CTB está em greve?
Senti oscilar a razão sob a pressão da cólera explosiva. Tive medo e raiva de ter medo. Consegui conter-me: engrenei o carro, baixei a cabeça para evitar algum tiro, e entre gritos dos pelegos e freadas de carros entrei na roleta russa da Avenida Presidente Vargas. No dia seguinte, li no jornal o que o mesmo piquete de greve fizera com uma moça datilógrafa que ousara discutir com eles. Despiram-na e deixaram-na nua junto de uma palmeira.
Os possessos! Os possessos! Tínhamos a impressão de que o número deles crescia, ou que se multiplicava a sua força. E pasmávamos diante da inexplicável insensibilidade de alguns intelectuais e de muitos padres e bispos que não sentiam o cheiro da substância que lhes entrava pelo nariz. (...)
Não víamos saída, sobretudo quando comparávamos nossa situação à dos países tombados sob o jugo do comunismo. Os processos se repetiam. “Vejam o caso da Tchecoslováquia!”, dizia-nos um comentador de política internacional. (...)
De Minas chegou a notícia consoladora de um comício pelego-comunista dissolvido por um grupo de senhoras armadas com o terço. Mas a anarquia se precipitava. O grupo de marinheiros rebeldes reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos venceu a resistência do próprio Governo. O Almirante Aragão voltou ao comando dos fuzileiros, e nesta tarde o povo carioca teve de suportar o vexame da carnavalesca passeata dos comandados do Cabo Anselmo na Avenida Rio Branco. De hora em hora arrematava-se a chinificação do Brasil. O Clube Naval esboçou uma resistência que obrigou o Presidente Goulart a voltar à ofensiva no tristemente famoso discurso no Automóvel Clube. Nesta noite o Brasil chegou ao ponto mais baixo de sua história. Um marinheiro rebelde, tomando a palavra, começou um discurso bobo e convencional, e pela força do hábito deixou escapar a palavra “disciplina”. Foi estrondosamente vaiado.
Naquela manhã, à saída da missa, percebemos logo que a anormalidade chegara a um ponto decisivo. Antes mesmo de ver os lençóis azuis, sentimos o ar de um dia diferente. O que faziam ali aqueles rapazes de lenço azul e revólver na cinta? Eram milicianos. O que é que se esperava? Um ataque ao palácio do Governador da Guanabara.
Esboçavam-se filas diante dos armazéns. A cidade inteira — adivinhávamos — se preparava e se retesava. Caminhamos na direção do Palácio e encontramos amigos, homens pacíficos, negociantes e professores, que se dirigiam também ao Palácio, com um revólver surgido na cinta que jamais sonhara tamanha responsabilidade. O brasileiro bom, o brasileiro sem jeito, modesto, caminhava mansamente e sem ares de heroísmo para uma situação em que possivelmente teria de dar a vida. Povo manso, povo bom, pensava eu, mas também povo bobo e sem jeito. O que iria acontecer?
Numa esquina ouvi uma conversa entre dois populares:
— Parece que os tanques vão atacar o Palácio pela Rua Paissandu.
— Não pode. Ô cara, você não sabe que é contramão?
Perto do Palácio adensava-se a multidão, mas no meio dos homens canhestramente dispostos a dar a vida pela Pátria passavam meninos de bicicleta e moças risonhas e despreocupadas. Seria da mocidade, desta bateria nova e bem carregada, que eles tiram energia? Não. O povo todo, observando melhor, ostentava uma graciosa e leve coragem. Uma coragem humorística. E eu tive, de repente, a intuição viva e fulgurante da vitória desse gênio brasileiro contra a substância que o ameaçava.
Pouco depois chegou a primeira onda de notícias surpreendentes: os tanques tinham aderido ao Governador, as Forças Armadas dominavam a situação, João Goulart fugira do Palácio das Laranjeiras, sem tempo de meter a fralda da camisa para dentro das calças. Pouco depois confirmava-se a notícia, e o povo brasileiro (com exceção dos intelectuais de esquerda e dos eclesiásticos paracomunistas) ficou sabendo que Nossa Senhora ouvira nossas súplicas, que Deus nos salvara e que o instrumento escolhido para este milagre fora o nosso bom soldado de terra, mar e ar.
Dois dias depois, em todas as cidades grandes do Brasil, o povo encheu as ruas com a Marcha da Família — com Deus pela Liberdade. Eu e quatro amigos estivemos perdidos, imersos na mais densa multidão que jamais víramos reunida. Ali estava o que os intelectuais de esquerda chamavam de antipovo. Ali estava o sangue vivo de nosso bom Brasil. E eu então senti-me possuído de uma enorme admiração por este povo singular que acabava de vencer uma Copa do Mundo no combate ao comunismo. Agradecendo a Deus os favores de exceção que de certo modo não merecíamos, agradecia também os favores da natureza e das merecidas conseqüências. Grande povo! “A Europa curvou-se ante o Brasil” nos dias de Santos Dumont. Menino de quatro anos, cantei o pequeno hino de nossa projeção internacional. Velho, às portas dos setenta, cantava outro hino e candidamente prelibava a admiração universal diante da facilidade dançarina, graciosa, dionisíaca, com que o povo brasileiro pôs a correr os comunistas. (Mal sabia, na embriaguez de meu entusiasmo, que o mundo inteiro nos caluniaria. Os Estados Unidos com base na superstição de sua liberal democracia, ou no seu “democratismo”, e a Europa com base no esquerdismo que se apoderou dos meios de comunicação).
Foi um dos mais belos espetáculos que vi. E tenho pena dos corações alienados que não tiveram a capacidade para acolher tão boa e tão bela alegria. (...)
Ora, em nossa grande Marcha — cuja fotografia está diante de mim — não houve menção de um só nome dos tantos civis e militares que bem mereceram o aplauso do povo. Havia um só nome: o nome de Deus. (...)"