Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Os quatro discursos

Iniciado por marcos_8 em 17/02/2007 · 56 mensagens · página 2 de 2

renan_6#51
Nao li o tópico inteiro, mas me parece que não foi sugerida:

Poética - Terra (narrativa concreta)

Retórica - Água (apelo imagético)

Lógica - Ar (analogia, movimento ascensional)

Dialética - Fogo (ímpeto fontal, pervade todos os elementos, é a intuição direta)

Outra hora desenvolvo melhor.

Queria mesmo era ressuscitar o tópico.
Abs
orkut_33#52
Sempre associei com outra analogia, veja o que acha:

Lógica ou analítica - Terra, porque dá o suporte mais concreto e seguro para a verificação da verdade do discurso. Em si mesmo não leva ao conhecimento (tudo o que é demasiadamente concreto não permite a passagem da luz). Além disso, é o mais célere dos quatro discursos, como o próprio elemento que o simboliza.

Dialética - Aqui concordamos, de todos, é o que mais promove o conhecimento, portanto eu o associo à luz e ao fogo. Além disso, na prática, é o que está mais ligado ao calor gerado pelo confronto entre ideias opostas.

Retórica - Associo ao ar, por estar associado à palavra, ao dom de convencimento do orador. Também considero ascencional, requer uma atitude do ouvinte quando se concluiu. É mais refinado e polido do que o dialético, porque tenta evitar o confronto. "Levante-se e faça alguma coisa!"

Poético - a possibilidade (é o discurso do "possível"), pra mim, sempre esteve ligada à água. No Gênesis, "e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas" era o momento em que Deus ainda não havia criado o mundo, quando "a terra era sem forma e vazia". Além disso, está mais ligado ao sentimento, aos fluidos, ao líquido. E eu penso que o apelo imagético é muito mais forte aqui do que no discurso retórico.

Eu penso que há ainda outras possibilidades de analogia, segundo outros critérios. O que usei é um critério mais psicológico, mas creio que possam ser associadas com outras formas de analogia como, por exemplo, a finalidade de cada discurso, ou seu grau de aproximação da verdade e assim por diante.

Parabéns por ressuscitar o tópico.
orkut_33#53
Não me lembrava do comentário sobre as analogias no livro do Olavo.
Vou dar uma olhada novamente quando chegar em São Paulo.
Abç
renan_6#54
Tem razão, Luís, os Quatro Discursos podem ter analogias perfeitamente compatíveis sempre que os critérios forem bem definidos. Psicologicamente, o seu parece de fato o mais apropriado.

Confesso que eu não havia pensado claramente ainda sobre o critério, foi algo bem instintivo, ganhou corpo conforme eu estudava umas aulas do Olavo sobre Husserl e ciência tradicional.

Agora, comparando com a sua, vejo que minhas analogias fundaram-se diretamente num tipo de descrição pura, sem consideração dos motivos psicológicos. Isto é, eu procurei ver cada discurso em seu "modo de apresentação" próprio. É como se a sua analogia fosse quoad nos, e a minha quoad se.

A Dialética é a própria atividade do Espírito, portanto ela inevitavelmente pervade todos os outros modos de consciência. É o fogo que faz girar a roda que contém a si e aos demais elementos. É atividade pura, "continuirlichen action" como o próprio Husserl define a percepção interna. É a vontade e a inteligência, indefiníveis, porque são elas mesmas, em coação, quem definem e recortam os dados da consciência. É a Dialética quem ilumina a experiência, quem nos faz ver ("noein") a realidade. Como atesta a Bíblia, o Espírito é "pneuma noeron, monogenes, polymeres, lepton, eukineton", entre diversas outras predicaçõs analogáveis e esclarecedoras deste esquema.
renan_6#55
A Lógica é Ar porque é plena ascensão da consciência em sua vontade da intuição direta. Quando a sua consciência ascende de verdades menos gerais para verdades mais gerais? Quando estabelece relações, e este é o âmago da atividade epistemológica. E quanto menos presente o fogo do espírito no discurso lógico, mais instrumental ele será, mais "matemático" e "computacional", fundado-se somente na relação pela relação, sem jamais a consciência voltar-se para o próprio fundamento dessa atividade relacional. É isso o que Platão queria dizer na fala de Glaucon dirigida a Sócrates na República em 513c-d: "você chama o estado dos Geômatras pensamento [dianoia] mas não compreensão, o pensamento sendo o intermediário entre opinião e entendimento [nous]."
renan_6#56
Por que a Retórica é Água? Porque a retórica é o modo vívido da descrição concreta. A retórica não simplesmente descreve, ela "pinta" o que ela descreve. Quando em sua capacidade narrativa ou proposicional a consciência lança mão das imagens que a memória lhe forneceu, ela está sendo retórica. Eu não consigo ver essa divisão assim tão clara entre Retórica e Poética. Eu penso que, ao menos quanto à sua natureza íntrinseca, é preciso ver os Quatro Discursos como um continuum orgânico e fractal, onde todas as partes estão sempre presentes na consciência, de um modo ou de outro. Toda poética necessariamente expressa-se por uma boa dose de retórica. A retórica consiste em escolhas guiadas pela condição interna da psique, que jamais se ausenta na intelecção simbólica do real, exceto na intuição direta, e vice-versa. Quando a consciência tem a certeza da evidência, a imagem se esvai. Inversamente, quando a consciência está imersa em fantasias e imaginações, a luz da certeza parece muito distante. Fogo e água. Não por menos que a alma em Coomaraswamy possui um aspecto "infernal", no sentido de antepor os sentimentos à intuição da verdade. A psique em seu estado puro é egofania, pra utilizar um termo voegeliano. A consciência ególatra é maximamente retórica.

Já a Poética está na raiz da percepção sensível. Em seu modo mais ativo, é descrição do que está ocorrendo no exato instante, hic et nunc. E, para "ver" o que descreve, precisa da luz dialética, e para ilustrar o que descreve é preciso retórica, e para estabelecer relações entre essas formas é preciso lógica. E o fogo noético da intuição direta da verdade permanecerá como fim último da consciência.

Essas são minhas impressões, ao menos provisoriamente.

Abraço

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