Nao li o tópico inteiro, mas me parece que não foi sugerida:
Poética - Terra (narrativa concreta)
Retórica - Água (apelo imagético)
Lógica - Ar (analogia, movimento ascensional)
Dialética - Fogo (ímpeto fontal, pervade todos os elementos, é a intuição direta)
Outra hora desenvolvo melhor.
Queria mesmo era ressuscitar o tópico.
Abs
Sempre associei com outra analogia, veja o que acha:
Lógica ou analítica - Terra, porque dá o suporte mais concreto e seguro para a verificação da verdade do discurso. Em si mesmo não leva ao conhecimento (tudo o que é demasiadamente concreto não permite a passagem da luz). Além disso, é o mais célere dos quatro discursos, como o próprio elemento que o simboliza.
Dialética - Aqui concordamos, de todos, é o que mais promove o conhecimento, portanto eu o associo à luz e ao fogo. Além disso, na prática, é o que está mais ligado ao calor gerado pelo confronto entre ideias opostas.
Retórica - Associo ao ar, por estar associado à palavra, ao dom de convencimento do orador. Também considero ascencional, requer uma atitude do ouvinte quando se concluiu. É mais refinado e polido do que o dialético, porque tenta evitar o confronto. "Levante-se e faça alguma coisa!"
Poético - a possibilidade (é o discurso do "possível"), pra mim, sempre esteve ligada à água. No Gênesis, "e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas" era o momento em que Deus ainda não havia criado o mundo, quando "a terra era sem forma e vazia". Além disso, está mais ligado ao sentimento, aos fluidos, ao líquido. E eu penso que o apelo imagético é muito mais forte aqui do que no discurso retórico.
Eu penso que há ainda outras possibilidades de analogia, segundo outros critérios. O que usei é um critério mais psicológico, mas creio que possam ser associadas com outras formas de analogia como, por exemplo, a finalidade de cada discurso, ou seu grau de aproximação da verdade e assim por diante.
Parabéns por ressuscitar o tópico.
Não me lembrava do comentário sobre as analogias no livro do Olavo.
Vou dar uma olhada novamente quando chegar em São Paulo.
Abç
Tem razão, Luís, os Quatro Discursos podem ter analogias perfeitamente compatíveis sempre que os critérios forem bem definidos. Psicologicamente, o seu parece de fato o mais apropriado.
Confesso que eu não havia pensado claramente ainda sobre o critério, foi algo bem instintivo, ganhou corpo conforme eu estudava umas aulas do Olavo sobre Husserl e ciência tradicional.
Agora, comparando com a sua, vejo que minhas analogias fundaram-se diretamente num tipo de descrição pura, sem consideração dos motivos psicológicos. Isto é, eu procurei ver cada discurso em seu "modo de apresentação" próprio. É como se a sua analogia fosse quoad nos, e a minha quoad se.
A Dialética é a própria atividade do Espírito, portanto ela inevitavelmente pervade todos os outros modos de consciência. É o fogo que faz girar a roda que contém a si e aos demais elementos. É atividade pura, "continuirlichen action" como o próprio Husserl define a percepção interna. É a vontade e a inteligência, indefiníveis, porque são elas mesmas, em coação, quem definem e recortam os dados da consciência. É a Dialética quem ilumina a experiência, quem nos faz ver ("noein") a realidade. Como atesta a Bíblia, o Espírito é "pneuma noeron, monogenes, polymeres, lepton, eukineton", entre diversas outras predicaçõs analogáveis e esclarecedoras deste esquema.
A Lógica é Ar porque é plena ascensão da consciência em sua vontade da intuição direta. Quando a sua consciência ascende de verdades menos gerais para verdades mais gerais? Quando estabelece relações, e este é o âmago da atividade epistemológica. E quanto menos presente o fogo do espírito no discurso lógico, mais instrumental ele será, mais "matemático" e "computacional", fundado-se somente na relação pela relação, sem jamais a consciência voltar-se para o próprio fundamento dessa atividade relacional. É isso o que Platão queria dizer na fala de Glaucon dirigida a Sócrates na República em 513c-d: "você chama o estado dos Geômatras pensamento [dianoia] mas não compreensão, o pensamento sendo o intermediário entre opinião e entendimento [nous]."
Por que a Retórica é Água? Porque a retórica é o modo vívido da descrição concreta. A retórica não simplesmente descreve, ela "pinta" o que ela descreve. Quando em sua capacidade narrativa ou proposicional a consciência lança mão das imagens que a memória lhe forneceu, ela está sendo retórica. Eu não consigo ver essa divisão assim tão clara entre Retórica e Poética. Eu penso que, ao menos quanto à sua natureza íntrinseca, é preciso ver os Quatro Discursos como um continuum orgânico e fractal, onde todas as partes estão sempre presentes na consciência, de um modo ou de outro. Toda poética necessariamente expressa-se por uma boa dose de retórica. A retórica consiste em escolhas guiadas pela condição interna da psique, que jamais se ausenta na intelecção simbólica do real, exceto na intuição direta, e vice-versa. Quando a consciência tem a certeza da evidência, a imagem se esvai. Inversamente, quando a consciência está imersa em fantasias e imaginações, a luz da certeza parece muito distante. Fogo e água. Não por menos que a alma em Coomaraswamy possui um aspecto "infernal", no sentido de antepor os sentimentos à intuição da verdade. A psique em seu estado puro é egofania, pra utilizar um termo voegeliano. A consciência ególatra é maximamente retórica.
Já a Poética está na raiz da percepção sensível. Em seu modo mais ativo, é descrição do que está ocorrendo no exato instante, hic et nunc. E, para "ver" o que descreve, precisa da luz dialética, e para ilustrar o que descreve é preciso retórica, e para estabelecer relações entre essas formas é preciso lógica. E o fogo noético da intuição direta da verdade permanecerá como fim último da consciência.
Essas são minhas impressões, ao menos provisoriamente.
Abraço