Todas as mulheres usam véu e saia na altura do joelho. Os homens ocupam os bancos da direita e elas os da esquerda. Não há mistura, uma forma de simbolizar a diferença entre os sexos e a submissão do feminino em relação ao masculino.
Na Sociedade Religiosa Regina Pacis, ou Escravas de Maria, as regras começam por aí. As missas, uma vez ao mês e sempre em latim, são o sinal de que nesta igreja o que vale é a tradição. O convento, de apenas duas irmãs, garante ser ainda mais radical que o grupo católico Opus Dei, que dentre algumas estranhezas ao mundo atual, proíbe as seguidoras de adotar qualquer método contraceptivo.
Na Escravas de Maria a pílula e a camisinha também são coisas pecaminosas e a mulher tem de ficar em casa, cuidando dos filhos. O trabalho fora só é aceito quando a família é humilde e precisa de renda extra.
Homossexuais podem frequentar a pequena capela de pedras, mas só se não praticarem “o pecado” propriamente dito. “A gente aceita a pessoa, não o pecado”, justifica a irmã Joana d’Arc.
Uma das meninas que freqüenta a igreja, já faz catequese há cinco anos. “São bem exigentes”, explica a mãe Cláudia d’Avalo, que também tem dificuldade para batizar os filhos. “Aqui não aceita casal que não seja casado na igreja. Como hoje todo mundo é só juntado, fica difícil encontrar alguém”, comenta.
Apesar de pregar o “Encanto e a Formosura”, já na abertura do material com as orientações aos fiéis, a madre que comanda o grupo é daquelas que enfrenta tudo com a postura de um zagueiro.
Com 1,80 metro, ex-campeã de basquete, com passagens por times de São Paulo, Gilcéia da Silva Oliveira mudou o nome e passou a ser a irmã Joana d’Arc, depois de ser convidada por uma colega a rezar um terço. “Escolhi esse nome porque é de uma guerreira, que todo mundo falava que estava errada e depois descobriram que era uma heroína”, explica.
A madre reclama da discriminação, principalmente da Arquidiocese de Campo Grande, que não reconhece a igreja “Escravas de Maria” com parte da Igreja Católica.
“Eles que são os errados, que mudaram a missa que querem fazer diferente. Nós somos a raiz, o puro, sem misturas, o que a igreja pregava lá no início”, defende. Para ela, a rejeição da cúpula da igreja em Campo Grande é “o que no basquete chamamos de jogo baixo”.
Gilcéia largou a carreira promissora no esporte aos 20 anos e agora, 20 anos depois, garante que pouco se importa com o que os outros pensam dos dogmas que defende. “Podem me prender por preconceito, não tenho medo. O que acredito é na palavra de Deus e Ele não aceita o homossexualismo, por exemplo. Já viu sair filho de dois homens ou de duas mulheres”.
Ela comprou o terreno e construiu a igrejinha em uma rua que mais parece picada aberta com nome de rua. Depois de 8 anos, a ideia é ampliar o convento, para receber outras meninas dispostas a vestir o hábito. Por enquanto apenas uma jovem, de 18 anos, atua na comunidade como candidata à freira.