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A Influência de Atlas Shrugged

Iniciado por breno_2 em 09/10/2007 · 70 mensagens · página 1 de 2

breno_2#1
por Yaron Brook

No 50º aniversário de sua publicação, o épico de Ayn Rand sobre um grupo de empreendedores que se rebelam contra uma sociedade que os controla e condena - Atlas Shrugged - está por todo lugar. Não se passa um dia sem uma menção sobre o romance na mídia ou por alguma celebridade ou empresário proeminente que o considera como o livro mais significante que já leu. Ao mesmo tempo, os romances de Ayn Rand, incluindo Atlas, são ensinados em dezenas de milhares de escolas do ensino médio. As vendas no último ano do livro atingiram o impressionante número de 130.000 cópias - mais do que na primeira vez em que foi publicado.

Como diretor executivo do Ayn Rand Institute, eu acompanho diariamente o impacto de Atlas Shrugged. Eu sou continuamente surpreendido pela quantidade de pessoas - de todas as posições sociais e de toda parte do planeta, estudantes do ensino médio e ativistas políticos provenientes de países tão diversos quanto Hong Kong, Bielorússia e Gana - que avidamente me confessam: "Atlas Shrugged mudou minha vida."

Diversos líderes empresariais - entre CEOs das 500 maiores companhias da Fortune a jovens empreendedores do Vale do Silício - afirmam que retiraram muito combustível espiritual de Atlas Shrugged. Muitos me dizem que o romance os motivou a fazerem o máximo das suas vidas, inspirando-os a serem mais ambiciosos, mais produtivos e mais bem sucedidos em seus trabalhos. E muitos políticos e intelectuais americanos que afirmam lutarem pela liberdade econômica escolheram Atlas Shrugged como livro que mais lhes influenciou. Não tenho dúvidas que o romance desempenhou um papel considerável em desacreditar o socialismo como um ideal e de tornar a discussão sobre o capitalismo intelectualmente legítima.
breno_2#2
Se você já leu Atlas Shrugged e ingressou no universo de Dagny Taggart, Hank Rearden e John Galt, você consegue entender porque o romance inspirou tantas pessoas assim. Atlas Shrugged retrata os grandes empresários como pensadores criativos e heróicos e venera capitalismo como o único sistema social que liberta essas mentes a fim de criarem e produzirem os valores materiais dos quais nossas vidas dependem. Ele dá expressão estética e filosófica ao espírito notadamente americano de individualismo, de auto-confiança, de empreendedorismo e de livre mercado.

Mas enquanto muitas pessoas apreciam esses elementos de Atlas Shrugged em um nível emocional e pessoal, normalmente elas se sentem desconfortáveis - em um nível moral - com os argumentos do romance em defesa do comércio e do capitalismo.

A filosofia ética de egoísmo racional de Ayn Rand - sobre a qual a admiração dela pelos empresários de sucesso e a defesa apaixonada pelo capitalismo se baseiam - constitui um desafio radical às crenças dominantes de nossa cultura. Rejeitando as idéias prevalescentes sobre moralidade - as quais originam a moral em um ser sobrenatural ou a partir de um decreto social - Rand defende que moralidade é uma ciência que pode ser provada pela razão. Rejeitando a idéia altruísta de que moralidade consiste em abnegadamente servir a algo "superior" - seja o Deus Judaico-Cristão ou uma sociedade coletivista - ela sustenta que o máximo da virtude moral é perseguir racionalmente os nossos próprios objetivos pessoais.
breno_2#3
O socialismo está morto como um ideal político. Mais a moralidade que o gerou - de cada um conforme sua habilidade para cada um conforme sua necessidade - ainda nos assombra. Enquanto necessidade e "interesse público" forem considerados beneficiários morais de cheques a serem pagos com a capacidade dos produtivos, o aumento contínuo do controle do governo sobre a economia e sobre nossas vidas é inevitável.

Aquele que leram Atlas Shrugged normalmente ficam impressionados com a similaridade entre os eventos ocorridos no romance e os desastres transmitidos pelo noticiário - as tentativas do governo de controlar a saúde, pontes com estruturas precárias e que desabam, obstáculos impostos pelo governo aos empresários como a lei Sarbannes-Oxley. As similaridades não são por acaso: a justificação para esses programas do governo são as carências dos necessitados, o chamado interesse público e a contenção do egoísmo dos empresários. Sem uma revolução moral, nós não conquistaremos liberdade econômica ou política.

Embora Atlas Shrugged tenha fornecido inspiração a milhões e algum nível de apreciação das virtudes do capitalismo e dos males do estatismo, ele não teve a influência que poderia ter tido - caso as idéias por trás dele conquistassem maior entendimento. Apesar de ter mudado vidas individuais, ele não mudou o mundo. Mas eu acredito que o livro o pode (e deve).

Imagine uma futura América guiada pelos princípios encontrados em Atlas Shrugged - uma cultura de razão, onde a ciência é valorizada e respeitada, e não expulsa das aulas de biologia e dos laboratórios de pesquisa de células-tronco - uma cultura de individualismo, na qual o governo é o protetor dos direitos individuais e não o principal violador - na qual o mercado não é considerado apenas como a opção mais eficiente entre as imperfeições disponíveis, mas onde o capitalismo laissez-faire é reconhecido e venerado como o único sistema social moral -
breno_2#4
uma cultura na qual os empresários inovadores entendem que ambição, esforço produtivo e criação de riqueza não são apenas necessidades práticas mas virtudes morais - uma cultura na qual tais empresários, afirmando orgulhosamente o direito deles ao próprio trabalho, são totalmente liberados e aplicam o seu gênio produtivo na criação de inimaginável progresso econômico.

Este é o mundo que Atlas Shrugged nos desafia a lutar. Mas a fim de chegar lá, o pleno significado filosófico do romance deve ser compreendido. É precisamente por isso que o Ayn Rand Institute existe: para transmitir a profunda mensagem de Rand. E a mensagem dela está se disseminando, entre intelectuais profissionais, nos campus e por toda a América, que estão começando a estudar as idéias de Ayn Rand com uma seriedade que nunca exibiram antes.

Com cada vez mais pensadores dando a Atlas Shrugged a atenção que ele merece, eu tenho confiança que a sua real influência ainda há de se fazer percebida.

Yaron Brook é diretor executivo do Ayn Rand Institute ( http://www.aynrand.org/ ) em Irvine, CA. O Instituto promove Objetivismo, a filosofia de Ayn Rand. Contate o escritor via media,volta e meia em,aynrand.org.Copyright © 2007 Ayn Rand® Institute. All rights reserved.

Tradução: Breno Barreto
tiago_8#5
Caro Breno,

Nao li nada da Ayn Rand, mas fiquei interessado pelo artigo que voce traduziu. O ataque ao socialismo e sempre uma coisa produtiva, mas me chamou a atencao a ideia de moral como produto da razao ou como racionalmente justificave, nao sei ao certo qual seria a ideia defendida no caso, e tambem a ideia do individualismo como valor moral dos mais altos.

Por mais que eu creia que o individualismo enquanto sentimento de responsabilidade individual seja algo profundamente louvavel, tenho forte resistencia a ideia de que o individualismo em si pode ser elevado a valor norteador da sociedade. Uma sociedade radicalmente individualista tendo somente o Capitalismo como referencia e uma sociedade, a meu ver, que confunde valores com sistema economico, e acaba perdendo os valores protestantes (diria Weber) ou judaicos (diria Jacques Attali) que informam o sistema capitalista. Nao sei se poderia adotar a ideia de autopoiesis do Luhman por que creio em valors perenes que estao na base de qualquer atividade humana, mebora seja isso que me parece implicar esta visao abrangente do Capitalismo.

A ideia de moral como produto da razao era querida do iluminismo, salvo engano, e teve resultados catastroficos. A proposta kantiana de razao infomando a moral (o famoso imperativo categorico) foi bem refutada por Schopenhauer num artigo quase humoristico mas bem convincente chamado "Sobre o Fundamento da Moral".

Gostaria de saber o que voce poderia dizer para me esclarecer com relacao a esses topicos.

Atenciosamente,

Tiago
jeov#6
Além disso, fragiliza o campo teórico da direita como um todo, pois a esquerda pode atacar o capitalismo usando o argumento de que ele é "pragmático, insensível, imoral"

O racionalismo vai é justificar o capitalismo...
jeov#7
Concordo com o que você disse. Só que Ayn Rand também justifica o capitalismo a partir de certos valores. Você pode não concordar com a justificativa. Mas o fato é que ela justifica.

Os piores defensores do capitalismo são os pragmáticos - aqueles que só sabem dizer que o capitalismo é o único sistema que funciona e pronto.
jeov#8
Eu não conheço muito a Ayn Rand.

Vou dizer o que eu acho:

As pessoas tem um sentimento de individualismo que pode, sim, ser chamado de "egoísmo racional". Mas, certas pessoas, em certos momentos, são capazes de fazer algo por alguém sem querer nada em troca ou deixar de fazer algo que lhe beneficie financeiramente por considerar imoral. Geralmente, a pessoa faz isso baseada num sentimento de justiça do tipo "se eu tivesse no lugar dele".

O que eu acho é que o Sistema deve estar preparado para lidar com pessoas extremamente egoístas, fazendo com que elas não roubem a BMW, por exemplo.

Eu não roubaria a BMW, mesmo que me garantissem que eu jamais seria pego pela Polícia. (Carro de pobre...)

Tem gente que só deixaria de roubar a BMW se acreditasse que seria pego pela Polícia.

Logo, o Sistema deve ter uma polícia bastante eficiente para que ninguém roube.

A lei deve ser um contra-incentivo para os imorais.
geraldo_3#9
Mais ainda, num trabalho que demandará séculos, concomitantemente à repressão, é necessário criar uma cultura onde a maioria absoluta das pessoas não pretenda roubar, além de continuar reprimindo e impondo sanções severas a quem transgride a lei. Deve-se pulverizar a subcultura do jeitinho e da impunidade.
lusafonso#10
O problema é que Ayn Rand (que comecei a ler "The Fountainhead", há décadas) , pelo que li dela e, principalmente pelos escritos de seus admiradores, sempre esquece que o ser humano é pautado pelo equilíbrio.
Ninguém é completamente racional ou emotivo, nem só individualista ou coletivista.
O problema está nas posições extremas.
O coletivismo como um fim em si mesmo, acaba em anulação do indivíduo, das suas capacidades únicas, pois nunca existirá um ser humanao "standard" padronizado. Tudo por uma boa causa e pelo bem dos "despossuídos".

Já o individualismo "racional" peca pelo excesso do mesmo, ou seja, não há nada maior do que o "EU".

Nenhum serve para construir nada durável. Os libertários a la Ayn Rand acabam numa defesa de uma "liberdade" tão panfetária e falsa como a "igualdade" dos coletivistas.

Pior, acabam comendo na mão dos Frankfurtianos, concordando com seus mantras libertários enquanto ajudam a destruir as bases de qualquer sociedade minimamente funcional.
É tal a influência destrutiva destes sobre os libertários que, de longe acabam se confundindo com os coletivistas em sua sanha destrutiva gramsciana, também conhecida como "guerra cultural", ou "multiculturalismo". Defendem o aborto, eutanásia, liberação das drogas, etc....

O único ponto em comum com os conservadores é a defesa do capitalismo. Mas eles acabam levando o conceito de mercado ao paroxismo. Tudo é mercado.

Li um artigo do National Review que acusava o universo randiano de ser um espaço vedado à crianças. Quer dizer, só funcionaria se todos fossem adultos, racionais e maduros...

Tudo é racional e material. Metafísica não existe. Mesmo que - contraditóriamente - fiquem a louvar e adorar uma entidade virtual: a tal "mão invisível" do mercado.

Adam Smith sabia muito bem de quem era a "mão" , mas eles esqueceram disso.

Mas no fundo acho que sabem disso, pois sempre esperam que ao final, algum conservador lhes dê uma "mãozinha" contra os radicais coletivistas...
breno_2#11
Tiago, a origem da moral é metafísica. Ela tem origem num fato da realidade: o ser humano precisa saber como deve agir para viver e a natureza não lhe fornece esse conhecimento automaticamente. Quais são os valores que a vida requer? Quais são os objetivos corretos que o homem deve perseguir? Cabe a moral responder a estas perguntas. A moral (ou ética), como ciência, visa a descoberta e a definição de um código de valores que forneça guiamento para as escolhas e ações do homem. Moral é uma necessidade humana objetiva e inescapável - assim como o fato que lhe dá origem. A moralidade é produto das nossas posições em metafísica e epistemologia. Uma realidade sobrenatural inevitavelmente levará a misticismo em epistemologia e a uma moral revelada. Uma realidade incognoscível (kantiana) levará a ceticismo em epistemologia e a uma moral subjetivista. Apenas uma realidade firme e compreensível pode levar à defesa da razão em epistemologia e a uma moral objetiva - o quer dizer: valores objetivos.
breno_2#12
Separar racionalidade de moralidade equivale a afirmar que valores morais não são objetivos, ou seja, que são ou revelados ou subjetivos. Mas valores são fatos da realidade (objetivos) examinados em relação a um padrão - o valor maior que justifica e possibilita os demais. Não é necessária ajuda divina para perceber que o valor maior é a vida. Viver é a escolha primária e estar vivo é pré-condição para a conquista de qualquer outro valor. O que beneficia e promove nossa vida é o bem, o que a prejudica e impede é o mal. Um código ético racional terá a vida como padrão de valor.

Fato e Valor
Não existe separação entre fato e valor. A vida mesma é um fato da realidade e é o valor maior. A vida humana necessita de um curso específico para ser preservada. A especificidade desse curso também é um fato da realidade que por sua vez determinará os demais valores - fatos que promovem o valor maior. Valores são tão objetivos quantos os fatos que os originam. Negar à razão a capacidade de descobrir valores (separação entre racional e moral) equivale a afirmar que não sabemos como diferenciar o que promove e o que prejudica a vida, que equivale a afirmar que não temos a capacidade de identificar o relacionamento de um fato com outro, que equivale a afirmar que não conseguimos compreender cadeias de causas e efeitos, que equivale a afirmar - em última análise - que não podemos compreender a realidade.
breno_2#13
Não sei o que você quis dizer com a expressão "individualismo em si". Individualismo é um termo empregado em diversos sentidos diferentes - o termo não indica virtudes ou valores apenas o beneficiário adequado de uma ação humana - e eu precisaria saber em qual sentido você o está utilizando. Mas, no meu entendimento, individualismo, em política, quer dizer a defesa de direitos individuais invioláveis. Um sistema social individualista é baseado em um código de valores que determina que o principal beneficiário de uma ação moral é o indivíduo que a executa. A justificação moral do individualismo é conseqüência da vida do homem como padrão de valor. Além disso, liberdade (ou capitalismo) não são primários - e este é o erro fundamental do Libertarianismo. A defesa de liberdade e capitalismo resulta da aplicação de princípios morais objetivos a questões sociais. Dessa forma, não é por coincidência que o capitalismo possui as mesmas virtudes de um código ético objetivo - entre elas racionalidade, produtividade, independência, integridade, justiça, honestidade. Não existe separação entre moral e prático - separação entre valores morais e sistemas econômicos - assim como não existe separação entre valor e fato. O prático deriva da moral e esta, se for racional, deve beneficiar a vida humana com os requerimentos que a vida de um ser racional exige. Devido à má filosofia, a aceitação generalizada da moralidade altruísta levou o altruísmo a incorporar nas discussões filosóficas o próprio significado do termo "moral" - evadindo a origem metafísica deste. Por isso, quando quer que um esquerdista acuse o capitalismo de ser imoral devemos, antes de lhe refutar, perguntar: "Imoral? Por qual padrão?"
breno_2#14
Tiago, mesmo sabendo do comportamento exemplar de Kant como cidadão, Ayn Rand o considerava "o pior ser humano da história da humanidade" devido às conseqüências das idéias dele. Ela costumava dizer que em todo ponto essencial a filosofia de Kant é o exato oposto da dela. O trecho a seguir foi retirado de uma apresentação feita por Ayn Rand em universidades americanas no ano de 1960 e toca o ponto que você citou. A tradução é minha.
breno_2#15
Se você me pedir para nomear o maior responsável pelo atual estado do mundo, o homem cuja influência quase obteve sucesso em destruir as realizações do Renascimento - eu responderei Immanuel Kant. Foi ele o filósofo que salvou a moralidade do altruísmo e que sabia do que ela tinha de ser salva: da razão.

Isto não é uma mera hipótese. É um fato histórico conhecido que o interesse e propósito de Kant em filosofia era salvar a moralidade do altruísmo, a qual não consegue sobreviver sem uma base mística. A metafísica e epistemologia dele foram planejadas para esse propósito. Ele, obviamente, não se anunciou como um místico - desde o renascimento, poucos o fizeram. Ele se anunciou como um defensor da razão - da razão "pura".

Há dois modos de destruir o poder de um conceito: um, é pelo ataque direto em uma discussão aberta - outro, é subverter o significado do conceito, construindo um boneco de palha e o refutando em seguida. Kant utilizou o segundo método. Ele não atacou a razão - ele meramente construiu uma tal versão da razão que, em comparação, fazia o misticismo parecer puro bom-senso racional. Ele não negou a validade da razão - ele meramente afirmou que a razão é limitada, que ela nos leva a contradições impossíveis, que tudo que percebemos é ilusão e que nós nunca poderemos perceber a realidade ou "as coisas como elas são". Ele afirmava, de fato, que as coisas que nós percebemos não são reais, porque nós as percebemos.
breno_2#16
Um "espantalho" é uma metáfora simplificada para uma construção tão inchada, problemática e maçante feito o sistema de epistemologia de Kant. Ainda assim, um espantalho era o que ela era. E as dúvidas, a incerteza, o ceticismo que seguiram - ceticismo sobre a capacidade do homem de conhecer qualquer coisa - não eram, de fato, aplicáveis a consciência humana, porque não era uma consciência humana que o robô de Kant representava. Mas os filósofos o aceitaram dessa forma. E enquanto proclamavam que a razão tinha sido invalidada, eles não perceberam que a razão já tinha sido completamente retirada da cena filosófica e a faculdade sobre a qual eles discutiam não era mais a razão.

Não, Kant não destruiu a razão. Ele fez apenas um trabalho de corrupção tão meticuloso como ninguém mais poderia fazer.

Se você traçar as raízes de todas as filosofias atuais - Pragmatismo, Positivismo Lógico e o restante dos neomísticos que anunciam alegremente que você não pode provar que você existe - você descobrirá que todos eles têm origem em Kant.

Quanto à versão de Kant sobre a moralidade altruísta, ele afirmou que ela derivava da razão "pura", não de uma revelação - exceto que ela se baseava em um instinto especial para o dever, um "imperativo categórico" o qual alguém "apenas sabe". A versão dele de moralidade faz a versão Cristã parecer um saudável, alegre e benevolente código de egoísmo. O Cristianismo meramente diz ao homem a amar o seu vizinho como a si mesmo; o que não é exatamente racional - mas pelo menos não proíbe o homem de amar a si mesmo. O que Kant propunha era abnegação plena, total e abjeta: ele afirmava que uma ação só é moral se você a executa a partir de um sentido de dever e não se beneficia da ação de qualquer maneira, nem material, nem espiritual; se você obtiver qualquer benefício, sua ação já não é mais moral. Esta é a maior forma de exigir de um homem que ele se transforme em um "shmoo" - o animalzinho místico das tiras de Li'l Abner, que estava sempre buscando alguém para comê-lo.
breno_2#17
É a versão de altruísmo de Kant que é geralmente aceita hoje, não para ser praticada - quem poderia praticá-la? - mas culposamente aceita. É a versão de altruísmo de Kant que as pessoas, mesmo que nunca tenham ouvido falar nele, professam quando igualam auto-interesse com o mal. É a versão de altruísmo de Kant que está atuando quando quer que alguém tenha medo de admitir algum prazer ou ganho ou interesse pessoal - quando quer que os homens tenham medo de professar que estão buscando sua própria felicidade - quando quer que empresários tenham medo de confessar que estão tendo lucro - quando quer que as vítimas de uma ditadura que avança tenham medo de afirmar seus direitos "egoístas".

O maior monumento a Kant e a qualquer moralidade altruísta é a União Soviética.
Ayn Rand, Faith and Force: The Destroyers of the Modern World publicado em Philosophy: Who Needs It.
breno_2#18
Nada a ver com Ayn Rand.

Honestidade
Honestidade, fundamentalmente, é a recusa em falsificar a realidade ou, noutras palavras, é a recusa em aceitar o que é irreal, pois o irreal não pode ter valor algum. A aplicação desse princípio à ação humana requer que avaliemos nossos interesses em relação a todo o contexto das necessidades de um ser racional. Um desejo não necessariamente é um interesse legítimo e, portanto, a satisfação de um desejo pode não representar o ganho de um valor - pelo contrário, pode resultar na perda de valores. Igualar roubo com a satisfação de interesses legítimos é um erro fruto de uma mentalidade ligada ao concreto, ao perceptual - um tipo de consciência sub-humana. Esse procedimento é inadequado a uma consciência conceitual, que é como a consciência do ser racional é de fato. Roubar nos põe em confronto com a realidade, o que nos obrigaria a mentir em um nível proporcional ao volume do roubo, a fim de que a realidade possa permanecer encoberta. Mas, independentemente das mentiras, é na realidade em que vivemos. Nada que nos leve a nos afastar da realidade - do reino dos valores - pode ser benéfico à vida do homem e portanto é imoral. Além disso, incorrer na desonestidade e nos demais vícios que ela acarreta, torna inviável uma virtude fundamental que não foi citada no post anterior: o orgulho - que é o comprometimento em realizar a própria perfeição moral, a soma de todas as outras virtudes ou, nas palavras de Aristóteles, a coroa de todas as virtudes. Sem orgulho, não temos auto-estima, que é um sentimento fundamental para que nos consideremos dignos de viver e merecedores dos nossos valores - do fruto de nossa própria ação moral. O abalo na auto-estima que um ato de desonestidade provoca é fruto de uma auto-avaliação a qual conclui sermos não possuidores dos requisitos mínimos para uma vida independente. Uma vida sem orgulho e auto-estima não é uma vida digna de ser vivida. Quem duvidar, que roube alguma coisa e depois se olhe no espelho.
breno_2#19
A sua cordialidade é um exemplo para todos nós da comunidade.

Com a exceção óbvia dos trechos que tratam da apresentação de Ayn Rand, os posts que enviei apresentam nada mais que o meu próprio entendimento do assunto discutido no tópico. Portanto, eu sou o único responsável por qualquer erro que eles contenham.

Caso você tenha interesse em se aprofundar na visão de Ayn Rand sobre o tema, dê uma olhada nos textos presentes no livro dela The Virtue of Selfishness, principalmente o primeiro, "The Objectivist Ethics", além do texto "Causality Versus Duty" em Philosophy: Who needs it? e no "Discurso de Galt" em Atlas Shrugged. Todos esses livros podem ser obtidos facilmente pela Livraria Cultura ou pela Amazon.
breno_2#20
Em 10 de Outubro de 1957 era publicado Atlas Shrugged.

Até hoje milhões agradecem.
breno_2#21
A quantidade de erros sobre Objetivismo em seu post é espantosa! Você mesmo admite que só tem um minúsculo conhecimento e de segunda mão. Infelizmente, não tenho tempo nem paciência para comentar todos esses erros. Focarei o mais grave deles.
jeov#22
"Rand defende que moralidade é uma ciência que pode ser provada pela razão."

Como racionalismo não tem nada a ver com Rand ?
tiago_8#23
Caro Breno,

Por enquanto so posso agradecer o fato de voce ter tido a disposicao de me dar uma resposta de folego como essa. Certamente farei todo o possivel para dedicar ao que voce disse a atencao que o assunto merece, antes de dizer qualquer coisa mais.

Atenciosamente,

Tiago
breno_2#24
Individualismo e coletivismo são posições políticas originadas de códigos morais distintos. Os princípios que fundamentam esses códigos são frontalmente opostos: o que é bom em um é mau no outro e vice-versa. Para um defensor consistente do individualismo, nenhuma conciliação - que você eufemisticamente chama de "equilíbrio" - entre princípios morais opostos é possível. Um código moral que tenha a vida como padrão de valor, se for bem definido não pode fazer concessões. Como afirmava Ayn Rand, uma mistura entre alimento e veneno em qualquer proporção só pode beneficiar a morte. O maior motivo para a defesa moral de meio-termos, não é a resolução de conflitos na política partidária cotidiana, até porque a política é logicamente posterior a um posicionamento moral. Mas, sim, a salvaguarda para si mesmo de em determinados momentos não seguir princípios morais. Trata-se de um posicionamento claramente subjetivista, pois o critério para o abandono momentâneo da moral é o capricho do momento, o desejo de em determinadas circunstâncias não querer ser correto, e colocar a culpa, não em si mesmo, mas em algum fator externo e falso (como a falta de livre-arbítrio humano, a separação entre moral e prático ou a separação entre material e espiritual). O homem honesto pode cometer erros de julgamento ou de ação, mas este, no momento em que compreende os fatos, assume sua culpa e não responsabiliza fatores externos. Enquanto não defender princípios morais inconciliáveis, o conservadorismo americano não conseguirá salvar o ocidente dos perigos que enfrenta, pois não terá a certeza moral que é necessária para tomar ações decisivas. O fracasso do governo Bush é o melhor exemplo disso.
breno_2#25
Ok. Estou a disposição sempre que possível.
lusafonso#26
Se existem erros nas minhas considerações sobre o objetivismo Randiano, as coletei nos debates em que supostos "Randianos" apresentavam o que descrevi aqui como sendo o "objetivismo".

Se for assim, pode-se dizer que a maior parte dos libertarians que se dizem randianos estão completamente errados?

Noventa por cento deles discursa exatamente como o relatado por mim.

Abs,

LA
priscila#27
Eu não sou expert em Ayn Rand - mas não sou justamente porque não me interessei em ser, por considerar que toda a filosofia de Ayn se baseia num equívoco, equívoco este que é subjacente a tudo o que ela propõe.

Se o pressuposto de que o homem é um ser racional e nada mais do que racional fosse verdadeiro, a filosofia de Ayn Rand seria válida.

Seria irretocável: É irretocável, dentro do paradigma de que um grau maior de razão é a determinante única para compreender/explicar o homem.

Mas acontece que na minha opinião não é assim: e o equívoco de Ayn Rand é, na verdade, um erro de paradigma - ela parte de um pressuposto errado, e em torno dele desenvolve uma lógica impecável.

Neste exato ponto do espaçotempo ( - eu gostaria de deixar claro que odeio o termo, acho impreciso e idiota, e só estou usando pra não encher o saco de ninguém com três longos parágrafos de explicações irrelevantes para o assunto em questão e não achei nenhum melhor), o paradigma da "racionalidade determinante" ou da "determinação racional" é o dominante: Ayn Rand é a filósofa do Brave New World, e eu não só acho como tenho certeza de que suas idéias ganharão ampla divulgação, e serão muito bem aceitas.

E a idéia da soberania única da razão é falsa, na minha opinião.

A filosofia de Ayn, a honesta, e o Brave New World, portanto, estão assentados sobre uma premissa errada: e tão enganosa quanto um pântano com uma oscilante camada de cimento em cima.
breno_2#28
Priscila, o ponto de partida de Ayn Rand é a própria realidade, que existe independente da consciência humana. O princípio metafísico fundamental é a lei da identidade - as coisas são o que são independentemente do conhecimento, da vontade, dos desejos e dos temores do homem, ou seja, A é A (em termos aristotélicos). À consciência humana, cabe perceber e entender a realidade, e não ser o princípio fundador dela - deixe isso para Descartes.

A Razão Como Característica Essencial do Homem
Segundo o Objetivismo, uma característica essencial é aquela que possibilita e explica a maioria das outras características de um existente, além de ser a sua característica definidora. A característica humana essencial é, indubitavelmente, a posse da faculdade da razão, sem a qual o homem não seria o ser que é. A razão, como um valor, e a sua respectiva virtude, racionalidade, compreendem todos os aspectos da vida humana. Está certo que o homem possui outras características, mas estas ou são dependentes da característica essencial ou são acessórias. Características como "religiosidade", "idealismo político", "escrever livros" ou "pilotar aviões" são exclusivamente humanas, mas nenhuma dessas é um primário independente, todas elas são dependentes da característica humana essencial. O foco no essencial é um requerimento indispensável para a boa capacidade cognitiva. Focar no não-essencial, no acessório, inevitavelmente nos leva a resultados cognitivos imprecisos ou mesmo falsos. Ao avaliarmos a adequação ao homem de um código moral, de uma conduta pessoal ou familiar ou de uma teoria política, é através da compatibilidade destes com a característica humana essencial que poderemos obter uma resposta correta - e da forma cognitiva mais eficiente.
breno_2#29
"Eu não só acho como tenho certeza de que suas idéias ganharão ampla divulgação, e serão muito bem aceitas." Querida! Esse foi o prognóstico mais animador que eu já li no Orkut! A defesa do capitalismo não pode ser efetuada apenas através de ação política (o erro do Libertarismo: http://www.aynrand.org/site/PageServer?pagename=educ…libertarians ). É imprescindível o correto entendimento das bases morais da liberdade e do capitalismo - dos valores e virtudes necessários ao ser humano que os justificam - além de princípios metafísicos e epistemológicos verdadeiros que não só consolidem a moral, mas que, também, sejam os integradores e guardiões de todas as ciências, não permitindo que estas se contradigam mutuamente, como hoje ocorre. Ou seja, é necessário que a filosofia reassuma o seu papel de integradora e protetora do conhecimento humano. A ação a ser tomada por aqueles não satisfeitos com o atual estágio da sociedade é educacional, e deve visar primordialmente as instituições de ensino (universidades e colégios) pois estas são as responsáveis pela formação dos futuros intelectuais e políticos, assim como também foram as responsáveis pela destruição do papel fundamental da filosofia na vida humana. Sem dúvida não é uma tarefa fácil e pode levar gerações, mas é a correta e, sem a qual, ação política apenas não adiantará, pois esta não ocorre num vácuo de idéias. Uma defesa sólida (por princípios verdadeiros) de liberdade, capitalismo, direitos inalienáveis e um governo que os proteja, terá como conseqüência lógica progresso econômico e cultural (inseparáveis) e não a sociedade estatista dos delírios de Huxley.

"Eu não peço, nem aceito, a ajuda de falsos intelectuais. Eu quero pessoas filosoficamente educadas: aquelas que entendem idéias, importam-se com idéias, e disseminam idéias corretas. A forma como minha filosofia se difundirá é a mesma pela qual outras filosofias se espalharam ao longo da história: por meio de pessoas que a entendam e a ensinem aos outros." Ayn Rand.
adelice#30
Para mim, Atlas Shrugged serve para retratar de forma brilhante, como o socialismo acaba com uma sociedade. A descrição feita pela Ayn Rand dos personagens é muito boa (às vezes alguns episódios no nosso país me lembra tanto Atlas Shrugged - a queda do avião da TAM, aquela ponte que caiu na BR).

Se você encarar como ficção, que é, e não ficar encarando como viável a proposta alternativa dela, eu acho bom.

Para mim, foi o que me fez deixar de ser esquerdista.
adermir#31
Breno, acho importante você destacar Ayn Rand do libertarianismo que se diz, muitas vezes, seu herdeiro. Mas tenho para mim que a racionalidade e o objetivismo são secundários na própria formação mental do indivíduo, e portanto, seu código moral depende de ser continuamente construído para indivíduos adultos. Nesse sentido, transportando o desenvolvimento individual para o de uma civilização, é preciso ver que a racionalidade não preexiste, ela sempre se constrói, e depende de algum elemento fundador que a preceda.
breno_2#32
Realmente eu tentei tornar claro que é um erro igualar Objetivismo e Libertarismo. Fico muito feliz por ter percebido. Obrigado.

Caio
Caso você realmente tenha um interesse maior na fundamentação de princípios morais, por favor consulte as obras que citei em um post anterior.

A solidez metafísica de uma autoridade teológica deve sempre ser examinada. A maior autoridade em qualquer questão é a realidade.

Talvez sem perceber, você fez uma defesa do ceticismo: "filosoficamente, tudo é virtualmente refutável", que equivale a afirmar "virtualmente, não existe verdade em filosofia", que equivale a endossar a maioria das filosofias modernas. Nós dois conhecemos as conseqüências destas no estado atual do mundo.

As religiões foram as primeiras tentativas da humanidade de fornecer uma visão integrada da existência, a qual é uma real necessidade do homem e tarefa primordial da filosofia.

O que uma sociedade precisa saber é se os princípios que a guiam politicamente são adequados ao ser racional (com todas as implicações do termo) e se estes mantém a vida do homem como padrão de valor: se promovem e beneficiam a sua existência. Nenhuma sociedade que defenda consistentemente princípios dessa natureza está fadada a desaparecer.
breno_2#33
Uma nação tem o direito moral de atacar militarmente uma outra nação que roubou propriedade de cidadãos da primeira ou ameaçou a vida deles?
Sim.

O governo britânico deixou de cumprir sua obrigação ao não ter forçado por via militar o regime iraniano a retirar a pena de morte decretada contra o escritor Salman Rushdie?
Sim.

Os governos ocidentais deixaram de cumprir suas obrigações ao não ameaçarem derrubar os regimes sírio e iraniano caso estes continuassem a insuflar muçulmanos fanáticos que prometiam atacar órgãos de imprensa que publicassem caricaturas de Maomé?
Sim.

Sabendo que os governos ocidentais já não mais cumprem suas obrigações legítimas, as nações criminosas se sentem fortalecidas e estimuladas a praticarem outras agressões?
Sim.
breno_2#34
"A arte realmente tem um propósito e de fato satisfaz uma necessidade humana; apenas não é uma necessidade material, mas uma necessidade da consciência do homem. ... A arte é uma recriação seletiva da realidade de acordo com os julgamentos de valor metafísicos de um artista. ... Arquitetura está em uma classe por si mesma, porque combina arte com um propósito utilitário e não recria a realidade, mas cria uma estrutura para utilização ou habitação humanas, expressando os valores do homem." Ayn Rand, The Romantic Manifesto.Objetivo da Arte
O propósito da arte é a contemplação dos nossos próprios valores metafísicos, os quais constituem a nossa visão básica da realidade. Arte é a concretização em um objeto (a obra de arte) de abstrações cujo significado e importância só poderiam ser transmitidos possivelmente através de longa explicação conceitual. A arte torna possível ao ser humano apreciar perceptualmente o que, de outra maneira, só poderia ser transmitido conceitualmente. Assim, a arte traz o abstrato para o alcance dos nossos olhos e ouvidos - da nossa percepção direta - e permite que o apreciemos com uma certeza sensória: a certeza de quem vê e ouve. A contemplação perceptual dos nossos valores mais importantes nos permite uma reação emocional e uma sensação de validade desses valores que não poderiam ser obtidas nem de forma imediata e nem com a mesma intensidade através de uma explicação conceitual, puramente intelectual. Daí o caráter inspirador e elevador da arte e o encorajamento espiritual que ela proporciona por fazer nos sentirmos corretos. "A razão pela qual a arte tem um significado profundamente pessoal para as pessoas é a sua confirmação ou negação da eficácia da consciência de um indivíduo, na medida em que uma obra de arte confirma ou nega a sua visão fundamental da realidade." AR, TRM. No primeiro caso nós gostamos da obra e, no segundo, não gostamos.
uriel#35
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essa ideologia individualista é boa para sociopatas funcionais bem ajustados e relativamente bem sucedidos - e fãs do Cristaldo.
breno_2#36
O fato que origina a arte é a necessidade da consciência humana de contemplar seus valores metafísicos - sua visão básica da realidade. Por lidar com o metafísico, a arte influi na ética e nos valores morais. Essa influência é o que chamamos "mensagem" de um trabalho artístico e pode ser utilizada conscientemente a fim de transmitir ou ensinar idéias a uma audiência. Mas esse não é o objetivo da arte, é uma conseqüência secundária do fato da realidade que lhe dá origem e a justifica. O objetivo da arte não é didático. A arte pode ser utilizada desta forma, mas de maneira complementar, facilitadora, ao processo pedagógico. Para fins propriamente didáticos existe a educação.

Multi-esteticismo
A arte expressa a filosofia. A crença de que as posições estéticas se equivalem é um erro fruto de ceticismo. Multi-esteticismo é um posicionamento tão errado quanto multiculturalismo, ambos contam com uma premissa evidentemente falsa: a incapacidade do homem de conhecer e, como conseqüência, de valorizar. Essas posições são comuns naqueles à esquerda. Aqueles na direita não caem no erro de defender multiculturalismo, mas muitos conservadores e (principalmente) libertários ainda acreditam que todas as expressões estéticas se equivalem, que arte é aquilo que se queira chamar de arte e que discordar dessa posição (libertários) não é compatível com a defesa da liberdade, como se esta fosse um primário auto-justificante e como se qualquer coisa afirmada em seu nome fosse válida.
breno_2#37
"O que não é digno de ser contemplado em vida não é digno de ser recriado em arte. Miséria, doenças, desastres, maldades, todos os aspectos negativos da existência humana são assuntos adequados de estudo em vida, com o propósito de entendê-los e corrigí-los - mas não são adequados de contemplação pelo prazer da contemplação. Em arte, e em literatura, esses aspectos negativos merecem ser recriados apenas em relação a algum aspecto positivo, como um realce, como um contraste, como uma forma de destacar o positivo e não como um fim em si mesmos. ... Que desejemos apreciar a contemplação de valores, do bem - da grandeza, inteligência, habilidade, virtude e heroísmo do homem - é auto-explanatório. É a contemplação do mal que requer explicação e justificação, assim como a contemplação do medíocre, do indiferenciado, do banal, do insignificante, do insensato. ... Foi Aristóteles quem disse que ficção possui maior importância filosófica que história, porque a história representa as coisas apenas como elas são, enquanto a ficção as representa 'como elas podem e devem ser.'" AR, TRM.

Da mesma forma que o trabalho de Ayn Rand na defesa do capitalismo consistiu em identificar claramente sua base moral, os valores e princípios que o tornavam necessário - os quais não haviam sido devidamente entendidos mesmo por defensores proeminentes do capitalismo - em estética Rand identificou os princípios por trás do que se entende como Romantismo em arte, os quais, também novamente, nunca haviam sido compreendidos em termos essenciais. É útil no entendimento da defesa do Romantismo pelo Objetivismo possuir um conhecimento prévio das suas posições em metafísica e epistemologia (principalmente o processo de formação de conceitos, que é absolutamente fantástico e exposto em Introduction to Objectivist Epistemology), mas não é indispensável. Aqueles que por ventura tenham interesse em uma defesa factual do Romantismo e em conferir um ataque impiedoso e demolidor à arte moderna, peço que consultem The Romantic Manifesto.
breno_2#38
Agir por princípios ao invés de buscar "equilíbrio""Um certo sábio reduziu toda a sabedoria ao caminho do meio." Baltasar Gracián, A Arte da Prudência (1647).

Márcio, "equilíbrio" não passa de um lugar-comum defendido a gerações com base em má filosofia. "É preciso saber dosar", "o caminho do meio é sempre melhor", "nem tanto lá, nem tanto cá", etc. Ouvimos variações desses argumentos sem que se diga uma só palavra para justificá-los. Esses clichês são sintoma típico de uma consciência incapaz de compreender seus próprios processos avaliativos e implicam relativismo moral (como tentei mostrar num post anterior). O que é preciso e importante é agir por princípios. Um princípio é uma verdade maior da qual outras verdades dependem. Princípios morais são amplas abstrações que condensam em termos essenciais os requerimentos da vida humana. Nenhum benefício pode ser adquirido através da violação de princípios morais consistentes com a vida humana como padrão de valor. Portanto, ao avaliarmos uma ação devemos nos certificar se esta obedece aos nossos princípios morais ao invés de "equilibrá-la" entre caminhos opostos. Nenhuma pessoa afirmaria que a ação a ser tomada é sempre uma média entre uma ação correta e uma catastrófica. Não se ela consegue identificar a correta. A aplicação de princípios morais (abstratos) em situações particulares (concretas) pode ser difícil. Mas só depois que nos certificamos de que não estamos violando algum princípio moral é que podemos avaliar uma situação específica de acordo com o nosso conhecimento dos fatos. Quando não temos pleno conhecimento dos fatos - e só nessas situações - é que podemos falar em buscar equilíbrio. Mas justamente para não violarmos algum princípio moral, como o da racionalidade ou o da justiça.
breno_2#39
É quase certo que quando alguém recorre às acusações de "falta de equilíbrio", "extremismo" ou "radicalismo", ao atacar uma pessoa ou idéia, que o ataque conta unicamente com a reação emocional negativa que esses termos provocam em nosso ambiente cultural. Nenhum capitalista verdadeiro rejeita comunismo pelo fato de este ser extremista em seu coletivismo, por não fazer um saudável "equilíbrio" entre coletivismo e livre iniciativa a qual, como dizem os pragmáticos, apenas "funciona". Rejeita-se comunismo por este ser baseado em falsidades, por ser essencialmente contra a vida humana e não por falta de "equilíbrio".
breno_2#40
A realidade existe independente da consciência humana e não pode ser modificada, recortada, ampliada ou construída por quem quer que seja e nem por alguma ciência especializada. Você falha ao não fazer distinções essenciais: sociologia, o método científico e liberalismo econômico não são filosofias. Nenhum conhecimento especializado substitui filosofia. Pelo contrário, todos dependem de filosofia e dos braços fundamentais desta: metafísica e epistemologia. A veracidade de um estudo especializado depende da veracidade dos seus princípios metafísicos e epistemológicos. Todos os exemplos que você propôs se fundamentam em uma metafísica incorreta.

Afirmar que todos têm razão no âmbito individual equivale a afirmar que o ser humano não é capaz de validar objetivamente uma idéia, julgamento ou ação. Você assim reforça seu ceticismo ao defender subjetivismo.
breno_2#41
"A propriedade privada, bem como o direito a vida, etc" são abstrações abrangentes que têm como base factual as necessidades da vida do homem; portanto, são "realmente necessários" devido a natureza do ser humano. Não há qualquer verossimilhança na afirmação de que "a propriedade privada é um roubo". "Roubo" de quem? De onde veio o conceito roubar, senão da tomada de propriedade privada sem consentimento?

Você afirma que o ser humano não pode ter certeza nem mesmo da inviolabilidade de sua vida e propriedade, que argumentos neste sentido (violação da vida e propriedade) são válidos, pois são impossíveis de serem refutados apenas com os fatos disponíveis, pois essas certezas só seriam possíveis se aparecesse um ser extra-mundo e as afirmasse. Mas tal ser jamais apareceu e jamais aparecerá e as religiões não são autoridades indiscutíveis. Além disso, por possuir livre-arbítrio, o ser humano pode agir propositalmente contra a verdade, violando o princípio da integridade. Nada no mundo pode influenciar a consciência de um homem sem o seu consentimento. O que permite o julgamento moral dos homens - a apreciação ou condenação deles - é justamente o fato de que unicamente lhes cabe aderir ou evadir a realidade, ou seja, agir de acordo ou contra a verdade.

Novamente, a única autoridade indiscutível é a realidade e o conhecimento desta é possível ao homem. O ser racional possui a capacidade de entendimento, a capacidade de integrar as verdades disponíveis e, dessa forma, alcançar verdades muito além do nível perceptual e agir de acordo com as descobertas, com integridade, honestidade e justiça - os quais são princípios necessários ao homem devido a fatos objetivos e dispensam o sobrenatural para identificá-los ou validá-los.
breno_2#42
Não há contradições. A definição de Ayn Rand está a alguns posts acima - incluindo a posição dela quanto à arquitetura - e não menciona ausência de funções. Além disso, a posição política do artista não é critério para a avaliação de um trabalho de arte. Não atribua a Ayn Rand o que é fruto exclusivo de sua má leitura, nem confunda qualquer leitor dela com um objetivista e nem me peça para admitir algo que eu não concordo.

Os civis não são necessariamente o alvo de uma reação militar a um governo criminoso, e sim a estrutura de poder deste. A um habitante de um país governado por bárbaros só existem três alternativas: fugir a qualquer preço (mesmo o de perder a vida), combater o governo que lhe subjuga (mesmo que morra tentando) ou sofrer as conseqüências. Entre estas últimas encontra-se a possibilidade de morrer durante a reação militar de um país livre. Um ataque militar só deve ser desferido após se esgotarem todas as advertências. Se apóia o governo criminoso, um civil deixa de ser vítima inocente. Sempre existirá a possibilidade de mortes entre inocentes, mas a responsabilidade destas será do governo criminoso e inflexível, e não do país livre que o combate. Não combater nações criminosas devido a possíveis perdas civis estrangeiras é dar aos bandidos tempo para se fortalecerem e provocarem um número ainda maior de mortes no futuro.
breno_2#43
Não é uma questão de opinião. Negar o que foi afirmado é um ato gritante de ceticismo. Racionalidade não é apenas um processo mental: é a característica essencial do homem, e é uma virtude - a principal - da qual todas as outras dependem. Negar a racionalidade das virtudes da honestidade e da integridade é característica de uma consciência ligada ao concreto, ao perceptual e ao imediato, uma consciência incapaz de avaliar os requerimentos da vida humana a longo-prazo e em todo o seu contexto, uma consciência que só considera necessidades materiais imediatas ou caprichos injustificados, sem prever as conseqüências. Negar a racionalidade dessas virtudes - afirmar que nenhum benefício pode ser verificado das suas práticas - mas aceitá-las como reveladas, é afirmar que praticá-las é moral apenas porque satisfaz a mandamentos sobrenaturais, retirando a vida humana como o padrão de valor moral e colocando no lugar o desejo de entidades de outro mundo.
breno_2#44
Sempre que questões morais estão em discussão, é necessário manter expressamente o padrão de valor considerado. O conceito valor só tem relação a seres vivos, inclusive o homem. A vida para ser mantida requer um curso específico. Nenhum ser humano pode ignorar essa verdade sem pôr em risco sua existência. Se quiser sustentar sua própria vida o homem deve utilizar a faculdade da razão. O pensamento é a ferramenta básica de sobrevivência humana e por isso racionalidade é uma virtude - a virtude básica e principal. Todo código moral objetivo, factual, manterá a vida como padrão de valor e defenderá o uso da razão como virtude essencial. Não se pode evadir esses princípios impunemente. Toda moral que não sustenta expressamente a vida humana como padrão de valor e como geradora dos demais valores não pode ser seguida consistentemente, o que leva a separação entre moral e prático, além da visão comum de que moralidade é um empecilho, ao invés de protetora do indivíduo e guia indispensável para sua prosperidade nesta terra. O prático, o que serve ao homem, o que funciona, são os campos mesmos da moral quando esta mantém consistentemente a vida humana como padrão de valor. Também: a moral torna-se plenamente racional, pois os requerimentos da vida do ser racional são passíveis de serem descobertos por ele mesmo e determinarão os seus demais valores. Aceitar um código moral que explícita ou implicitamente retira a vida humana como padrão de valor, torna a moral um peso inútil, e o ser humano fica sem o guiamento, os princípios, que caberia a moral fornecer.
breno_2#45
É uma contradição afirmar que princípios sem relação ao homem devem reger a existência humana. Retirar-se da "esfera do homem" em moral não pode resultar em outra coisa a não ser na retirada da vida humana como padrão de valor e na separação entre o moral e o prático: na separação entre o que é correto e o que é bom. Essa desintegração indevida leva a inevitáveis erros cognitivos, é causa de inúmeros racionalismos e desvincula a moral de seu propósito. Além disso, não subordine a moral à religião. Nada justifica acorrentar a moral às religiões por estas terem sido as primeiras tentativas filosóficas da humanidade. O objetivo da moral é fornecer guiamento para as ações e julgamentos do homem. Tal guiamento deve ser direcionado pelos fatos, incluindo a natureza do ser racional. A necessidade de moral é prática, a moral não é uma obrigação mantida com Deus. Agir moralmente é uma questão de identificação e escolha, ou seja, de racionalidade, e não uma obrigação imposta por princípios "fora do homem". Não subordine uma virtude objetiva a religiões, nenhuma religião inventou virtudes do nada. Uma ação é uma virtude em relação a um determinado padrão de valor moral. Tomando a vida como padrão de valor, uma ação é virtuosa quando ela habilita ao homem a conquista dos valores que a vida requer; portanto sua efetividade pode ser verificada objetiva e racionalmente. Mesmo que algumas destas virtudes tenham origem religiosa, elas poderiam ter sido descobertas em outras circunstâncias. Virtudes objetivas não são posse de uma determinada crença. A moral convencional e as religiões não conseguem fornecer guiamento adequado ao homem no atual contexto da humanidade, esse é o custo de sair da "esfera" humana. Por isso é lugar-comum o erro de ver a moral como um fardo a ser carregado separadamente do prático, deixando esse campo, que deveria ser estudo da moral, relegado aos caprichos, às tentativas e erros, aos pecadilhos e práticas econômicas que apenas "funcionam" e ao subjetivismo.
breno_2#46
As escolhas adequadas ao ser racional não são entre subjetivismo ("ser a medida de si mesmo", fazer sua "própria moral", não respeitar "a moral dos outros") ou religião (sair da "esfera do homem"). Defender que na ausência de religião só existe subjetivismo ao homem, não apenas condena o ser racional ao papel de autômato cumpridor de ordens sobrenaturais impossíveis de serem avaliadas por padrões humanos, dentro de sua "esfera", como também afirma a não existência de verdades objetivas para o guiamento dos homens - inclusive a vida humana como padrão de valor. O homem, o ser racional, tem o poder de descobrir guiamento objetivo através de seu conhecimento dos fatos. São errôneas as distinções subjetivistas entre verdadeiro "para mim", verdadeiro "para você" e verdadeiro "para ele". Subjetivismo sempre leva a destruição cognitiva. É verdadeiro o que está de acordo com a realidade e, em moral, o adequado ao homem, isto é, à vida do homem - a qual, para ser mantida, requer princípios objetivos que se aplicam a todos os homens, e cabe a moral descobrí-los.
breno_2#47
Princípios morais objetivos definem em termos essenciais abstratos os requerimentos da vida do ser racional. Esta é um fato específico que requer um curso específico. Um código moral bem definido que tenha a vida do homem como padrão de valor, devido à lei da identidade, será válido para todos os homens. Por isso, são falsas as afirmações de que o ser racional pode guiar-se por caprichos individuais; que todos os códigos morais se equivalem; que não existem critérios objetivos para determinar superioridade entre eles. Aceitar essas afirmações é aceitar o absurdo que, por quaisquer que sejam as ações, a vida humana será sempre adequadamente mantida. Mas, pela lei da identidade, homem é homem. O homem possui uma identidade específica e a sua vida requer um curso específico. A moral fornece ao homem os princípios abstratos. A correta aplicação deles às escolhas e casos concretos da vida cotidiana cabe ao próprio indivíduo em suas situações particulares. O indivíduo é responsável pelos acertos ou erros que comete, inclusive o de evadir princípios morais ou o de definí-los incorretamente.
breno_2#48
Um direito é um princípio moral que define e sanciona a liberdade de ação do homem em sociedade. O direito à "propriedade privada, bem como o direito a vida, etc" são necessários ao homem devido ao princípio que estabelece a vida do ser racional como padrão de valor moral e os requerimentos dela como os demais valores. A prática das virtudes necessárias para a conquista destes valores incluindo, entre outras, independência e produtividade, não seria possível sem os direitos mencionados, além do direito à liberdade. Direitos subordinam a sociedade à moral, possibilitando ao indivíduo exercer a prática moral, ser um fim em si mesmo e não um meio para o uso da sociedade ou de outro indivíduo. E todas essas verdades morais são alcançadas em termos conceituais (abstratos) através da integração de todos os fatos concretos (abrangentes) que a experiência humana proporcionou, avaliados em relação ao ser racional e às suas necessidades específicas (obs: em nenhum momento escrevi "abstração abrangente de valores").
breno_2#49
Um código moral que não integre vida e valor é falho e contra o propósito da moral. Vida e valor são inseparáveis. Um conceito não tem significação sem o outro. Assim como moral não tem significação fora da "esfera do homem". O que está fora do humano, o que não se relaciona ao homem, não tem qualquer significado moral. É justamente para fundamentar suas escolhas e ações concretas cotidianas que o homem precisa de moral, para identificar os valores e princípios que guiarão sua vida. Esse conhecimento não é automático e o ser racional deve utilizar a sua faculdade de cognição para descobrí-los. Daí o significado objetivo, terreno, da moral, mesmo que não seja reconhecido expressamente. Tais fatos são irrevogáveis e a única escolha ao ser humano é considerá-los ou evadí-los. Todo homem, pelo ato de viver, reconhece mesmo que implicitamente, ou não conscientemente, a vida como valor, e reconhece a faculdade distintiva de pensamento humano - o meio para a manutenção da vida humana - como indispensável, mesmo que falhe em identificar estes procedimentos não só com moralidade, mas como os próprios fundamentos da moral. A moral é, tem origem e deve ser objetiva, baseada nos fatos da realidade.

Caio, você consegue compreender os erros do comunista "através de petições de princípio e falácias", ou seja, através de racionalidade (pois lógica é o método da razão); e por ele não considerar as "conseqüências dos seus atos" (para a vida humana). Você compreende a imoralidade do comunista sem recorrer a revelações e sem retirar-se da "esfera do homem".
breno_2#50
Não há contradições. A posição de Ayn Rand quanto à arquitetura está a alguns posts acima. Ela afirma claramente que "a arquitetura está em uma classe por si mesma". A arquitetura não se enquadra totalmente no conceito filosófico de arte, mas ela possui elementos artísticos que assim podem ser apreciados. Quando contemplamos o que há de artístico em um trabalho arquitetônico, admiramos sem levar em consideração propósitos utilitários. Atribuir propósitos utilitários à arte devido à existência da arquitetura - um caso particular secundário - seria um desastre cognitivo, anularia o conceito de arte: não haveria como distinguir obras de arte dos demais objetos utilitários. Arquitetura é uma classe à parte por conseqüência e aplicação da definição de arte.

PS - Quando quer que alguém venha citar difamações pessoais (e invariavelmente injustas) contra Ayn Rand numa discussão sobre Objetivismo, é óbvio que estamos diante de um ataque erístico. Conheço de longa data os ataques do despeitado Rothbard a Rand e nada têm a ver com o que está sendo discutido. Aliás, trata-se do mesmo Rothbard que, segundo George Reisman, certa vez escreveu a Ayn Rand uma carta na qual ele a comparava com o Sol!

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