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A Influência de Atlas Shrugged

Iniciado por breno_2 em 09/10/2007 · 70 mensagens · página 2 de 2

priscila#51
Sabe, Breno, you said it.

Tem toda a razão quando diz (não importa que esteja dizendo criticamente; o ponto é legítimo): a vida humana é/ não é o padrão de valor moral.

É daí (desta noção) que se parte. Mas esta noção (ou julgamento) é a única de fato absolutamente essencial.
priscila#52
E eu também acho pateta cobrar coerência de Ayn Rand, ou de qualquer um. Como disse em outro tópico, Verdade sempre ganhou de Coerência.

Verdade eu cobro; coerência pode ser ajeitada, melhor interpretada, melhor compreendida.
Ou não: mas se "não", acaba por ferir a verdade, e aí cai em categoria diferente. Porque, naturalmente, Verdade é um conceito absoluto que não pode ser nem ajeitado e nem interpretado.
uriel#53
.

é verdade que Rand foi também amante de Phillip de Rothschild?
priscila#54
Eu não disse isso. Justamente a verdade é absoluta, e você pode agir incoerentemente em relação a ela sem desconhecê-la e mesmo sem negá-la. Sua incoerência não significa que a verdade não existe. Significa que você é incoerente, não significa que não é verdadeiro. Todo mundo está sujeito a isso, e eventualmente FAZ isso mesmo, porque somos humanos, imperfeitos e limitados.

É claro que não é bom ser incoerente, mas é melhor admitir a incoerência do que falsear a verdade para que a incoerência pareça coerente, entendeu?
Mas talvez a maioria das pessoas faça o contrário.

É por isso que eu digo que a verdade é mais importante do que a coerência. A verdade é mais importante do que qualquer coisa.
priscila#55
A PRÓPRIA Rand foi incoerente em relação àquilo que ela julgava ser a verdade - mas não se trata aqui de julgar a incoerência dela, e sim de julgar a sua proposta do que era a verdade. Se eu achasse que a proposta era certa, portanto verdadeira, o fato dela ter sido incoerente seria apenas secundário, e não invalidaria a mencionada verdade. Óbvio.
Mas, independentemente de qualquer incoerência de Ayn Rand, eu penso que sua tese se baseia numa premissa falsa: a de que a medida é o homem.
priscila#56
Em suma, só pra deixar claro: a Verdade índepende de qualquer ação humana, e transcende todas. É claro que nunca pode ser "incoerente" - a Verdade não "é" nada, além de ser verdadeira. Nós é que nos comportamos incoerentemente ou não em relação a ela.

Neste ponto, Ayn Rand toca a essência da coisa, e toca adequadamente. Não existe "a minha" Verdade, ou a "sua" Verdade; existe a Verdade.

Mas o filtro para a percepção da Verdade não é apenas a razão humana, e sim também a consciência humana, que é uma ligação transcendente com Deus. Claro que esta é uma visão religiosa, mas acontece que ela é verdadeira. Deus existe MESMO, e não há equação que possa dar certo sem incluir isso.

Se a premissa inicial de Rand incluisse Deus, ela teria construído uma filosofia impecável. Como só inclui o homem, ficou falsa, ou incompleta. Ou seja, o padrão da medida é que está errado. E se o padrão da medida está errado, todas as medições feitas por ele estarão, obrigatoriamente, erradas. também.
breno_2#57
Caio, seja qual for a origem dos princípios que você defende, eles terão de ser apreendidos pela forma humana de conhecimento que por si mesma, segundo o que você escreveu, é "inteiramente subjetiva". Neste contexto, princípios absolutos seriam impossíveis - seria uma expressão sem significado a qual homem algum jamais chegaria - pois você anulou a capacidade do ser humano de apreendê-los como tais. Ainda, as suas afirmações só teriam validade para você mesmo (como acontece com qualquer defesa de subjetivismo), e não poderiam ser tratadas como conhecimento por mais ninguém, pois você não pode qualificar a avaliação humana como "inteiramente subjetiva" sem incluir a sua própria nesta categoria.
breno_2#58
Não há contradições. A posição de Ayn Rand quanto à arquitetura encontra-se posts acima. Ela afirma claramente que a "arquitetura está em uma classe por si mesma, porque combina arte com um propósito utilitário e não recria a realidade, mas cria uma estrutura para utilização ou habitação humanas, expressando os valores do homem".
breno_2#59
Por expressar valores humanos em suas criações, podemos experimentar a arquitetura enquanto arte e em sentido filosófico. Uma criação arquitetônica vai além da fachada externa, da harmonia visual, do puramente sensório. Ela materializa valores destacando o que é importante existencialmente - metafisicamente - ao ser humano. Um projeto de uma residência, por exemplo, destaca o importante ao ser humano pelos espaços que apresenta, digamos: áreas confortáveis para recepção de amigos, outras para crianças brincarem, um quarto de casal convidativo, uma capela, uma biblioteca, etc. A inclusão (por escolha) de um ambiente para uma determinada atividade e o destaque individual recebido revelam a importância atribuída à atividade, a sua significação ao homem, isto é: valores humanos. O resultado final concretiza estes valores num todo harmonioso que integra espaços, iluminação, fachadas, cores, etc. Ou seja, concretiza conceitos (abstrações) num objeto perceptual, mesmo que de grande escala, e transmite uma visão idealizada da existência, uma avaliação do que "a vida pode e deve ser". O mesmo pode se considerar em um projeto não residencial. O critério guiador sempre será o que é importante ao homem naquele determinado contexto. Pelos valores que transmite, e na medida da importância e veracidade que é atribuída a esses valores, pode-se gostar ou não de uma criação arquitetônica, mas a apreciação vai muito além de um eventual propósito utilitário. Uma obra arquitetônica não é uma obra de arte pura, mas pode ser contemplada em si mesma, porque a arquitetura satisfaz a função da arte de mostrar ao homem o seu lugar na existência. Demais objetos que possuam como elemento artístico apenas apelo sensorial, não podem ser considerados arte no sentido filosófico do termo, porque não concretizam valores reveladores do que é importante à existência humana.
breno_2#60
É muito comum uma foto expressar valores humanos, mas ela não é uma criação. A fotografia é uma técnica científica de capturar a realidade. Por maior que seja o talento do fotógrafo com lentes e luzes ao buscar efeitos propositais e por mais que apreciemos seu trabalho, o resultado é uma cópia e não uma criação. Casos difíceis podem existir na aplicação do conceito (abstrato) de arte a um trabalho fotográfico (concreto); e muito bem pode fazer tanto quem produz trabalhos fotográficos quanto quem os compra; e, também, pode-se utilizar coloquialmente as expressões "artista fotográfico", "arte fotográfica" ou "fotografia artística", mas, ainda assim, a fotografia não é arte em sentido filosófico. Quem considera a fotografia como arte, deve apresentar um conceito estético-filosófico no qual ela se enquadre totalmente e apresentar os fatos objetivos que o apóiam.

PS - As explicações para as suas dúvidas estão na própria pág 74 e na 75. São patéticas (e erísticas) as suas insinuações de que eu não li The Romantic Manifesto. Eu tenho este livro e li mais de uma vez os capítulos mais importantes. Nele, Ayn Rand fornece os essenciais da estética e os aplica aos casos concretos mais relevantes (incluindo fotografia). Se alguém aqui não o leu com atenção foi você mesmo.
ika_orkut#61
Tanta coisa importante pra ler, pra viver, construir, e eu ainda nem comecei ! Já sei, vou deixar Ayn Rand pro final( se der tempo...). Por enquanto fico com os posts de Priscila, nossa, nota 10 Prisc !!!
breno_2#62
Não existem diferenças essenciais entre sua posição e subjetivismo. A fonte superior que você cita não pode ser outra coisa que uma consciência sobrenatural, sem a qual só existiriam avaliações "inteiramente subjetivas" ao homem. Um subjetivista também concorda que o único acesso possível a conhecimento objetivo é através de fontes superiores. A diferença é que um subjetivista normalmente não acredita na existência delas e, portanto, resta a ele tomar como verdade o que quer que indique suas impressões pessoais. O subjetivista concorda que fontes superiores seriam a única forma certa de conhecimento - se existissem. Subjetivismo e o tipo de misticismo que você defende são os dois lados de uma mesma moeda: a defesa da incapacidade da mente humana de compreender a realidade. Afirmar que o conhecimento depende de princípios de origem superior (sobrenatural) é afirmar que apenas o que não foi descoberto pelo homem pode ser considerado conhecimento. Mas tudo o que o ser humano afirma conhecer (incluindo misticismo) foi descoberto e entendido por ele mesmo (ou então acriticamente aceito). Todo conhecimento, inclusive moral, é obtido através de um processo racional ativo e através da adesão à realidade - que é única e absoluta. Nenhum conhecimento é obtido por revelações sobrenaturais sem as quais nada restaria de objetivo para guiar o homem. A moral é totalmente objetiva porque valor e vida são inseparáveis. Os requerimentos da vida humana também são objetivos e determinam os demais valores e a objetividade deles. Não há escolha subjetiva quanto à veracidade desses fatos.
breno_2#63
O que um autor afirmou num site sobre o que outro autor afirmou de Ayn Rand, segundo alguém que presenciou, não conclui nada. A questão da arquitetura não é de agora. Eu conheço o site Aristos, apesar de não ter lido What Art Is (e nem pretender ler). No trecho deste livro, a afirmação retirada de ITOE está fora do contexto exato e de maneira muito mal-guiadora. O que se afirma, num modo mais geral, é que um novo conceito não pode ser formado pela integração arbitrária de existentes devido a um atributo comum secundário e desconsiderando suas diferenças essenciais. Exemplo: formar arbitrariamente um novo conceito designando "entidades que correm", e incluir nele homens, rios, comentários, carros, porque todos eles de certa forma "correm". Isso seria arbitrário e contra-cognitivo porque as diferenças entre eles são mais significativas que a possível semelhança. Essa observação não se aplica à questão da Arquitetura e por si só já anula a argumentação. Mesmo que não fosse assim, objetos mistos existem e isso é óbvio. Um exemplo comum é uma escultura transformada em abajur. Em casos como esse, o resultado final deixa de ser uma obra de arte pura devido ao propósito utilitário, mas sempre será possível identificar, examinar e apreciar o seu lado artístico - o que concretiza valores metafísicos. Combinar "arte com um propósito utilitário" é uma característica da Arquitetura, mas é uma característica secundária e conseqüente da essencial. A característica essencial e definidora da Arquitetura é a criação de "uma estrutura para utilização ou habitação humanas, expressando os valores do homem".
breno_2#64
Márcio, não fantasie golpes de misericórdia. Ao longo do tópico, você fez defesas bobas de buscar "equilíbrio" e de pacifismo; afirmou que defender padrões estéticos é ser contra a liberdade; afirmou que, segundo Rand, a avaliação estética de uma obra de arte deve ser julgada pela ideologia do artista; não distinguiu o elemento artístico essencial (concretizar valores metafísicos) de elementos acessórios; e utilizou artifícios erísticos. Discordei dessas posições e você não respondeu nada. Você tem tantas condições de efetuar um golpe de misericórdia quanto o cavaleiro negro do Monty Python.
breno_2#65
Todo conhecimento humano é obtido através da razão, inclusive moral, e isso é evidente. O que é necessário provar é a existência de uma fonte sobrenatural de princípios que guiem o homem, pois não há qualquer fato da realidade que justifique essa afirmação. Como já foi afirmado, o conceito de moral, tem origem num fato metafísico: o ser humano precisa saber como guiar a sua vida e esse conhecimento não é automático. À moral cabe fornecer esse conhecimento. A moral não é sinônimo de sacrifício, altruísmo e dever. Essa confusão é advinda da ampla aceitação da moral nesses termos. A matéria que você citou falha tristemente ao considerar a moral apenas desta maneira. A moral fornece ao homem princípios abstratos, os quais cabe ao indivíduo aplicá-los nas situações concretas da vida cotidiana. O objetivo da moral é lhe ensinar a viver a sua vida e não a se sacrificar em situações mirabolantes como as da matéria. A vida normal do homem não é composta por uma seqüência de opções extremas. Por fim, o que quer que a ciência descubra sobre o funcionamento cerebral humano, não mudará o fato de que as emoções não são ataques de causa desconhecida ou provenientes de algum mundo místico. As emoções são frutos de julgamentos de valor anteriores, conscientes ou não, correspondentes aos fatos ou não. Portanto, têm base intelectual.
breno_2#66
Já li diversos artigos do site Aristos, o que eu não li e nem quero ler é o livro What Art Is. Você não entende o conteúdo de suas próprias indicações: o trecho onde ITOE foi citado é do livro What Art Is. A afirmação retirada realmente está fora do contexto e não se aplica a argumentação, se você também não entende isso o problema é seu.

Adeus, Black Knight!
breno_2#67
Obrigado. Também gosto do tópico. Mas nenhuma epistemologia válida pode conter distinções como as que Kant faz entre conhecimento puro e empírico ou entre verdades analíticas e sintéticas. Todo conhecimento é fruto da experiência humana, seja da observação dos fatos ou seja por um processo racional aplicado à observação. A divisão das verdades entre analíticas e sintéticas é um erro advindo da falha em compreender que um conceito não corresponde apenas à sua definição, mas a todas às características de seus referentes. A moral de Kant se apresenta como objetiva mas se fundamenta em conceitos sem base real. Não há fatos na realidade que justifiquem a defesa de "imperativo categórico" ou "dever". Por trás destes, parece-me, há apenas emocionalismo - julgamento exclusivamente pelas emoções percebidas, sem identificar os julgamentos que as originam e se estes estão corretos ou não. A moral não é um dever a ser cumprido separadamente das necessidades práticas do ser racional. O objetivo da moral é exatamente a justa satisfação dessas necessidades, as quais Kant considera - de maneira negativa e distorcida - como "inclinações". A vida humana - o padrão de valor moral objetivo - requer a conquista de valores e não a perda deles através de sacrifícios. Conquistar valores requer do homem, não o cumprimento do "dever", mas uma postura de responsabilidade auto-interessada, pelo bem de si próprio. Afirmar que "dever" é o fator moral determinante e não as necessidades do homem (ou "inclinações" no sentido pejorativo kantiano), é uma defesa indireta de sacrifício (perda de valores). Por exemplo: a emoção negativa de um homem que se sente mal porque mentiu para salvar a própria vida (!) não é fruto da natureza humana, e sim da aceitação anterior da idéia que ser bom diverge de auto-interesse (mesmo que o indivíduo não consiga, através da introspecção, identificar que a origem de sua emoção é esse falso conceito moral).
breno_2#68
Mentir para salvar a própria vida ou de pessoas que amamos é um ato moral e nenhum sentimento de culpa causará a quem defende a própria vida como valor maior e seus próprios interesses como legítimos.
priscila#69
Mas a vida, Breno, não é o valor maior.

Só é o valor maior pra quem está dentro do gamut racional e não enxerga o outro gamut maior.

O erro Rândico é só esse, um erro de percepção. Ela só entende, mantendo a metáfora, a luz refletida - e nega que exista a luz emitida, condição sine qua non para que exista a luz refletida que ela percebe e pensa que é a única.

É tão simples que eu nem me animo a discutir, porque confesso que perco o interesse.
priscila#70
Desculpe, ficou horrivelmente arrogante o meu post.
Não era essa a minha intenção.
Não vejo como trocar as palavras pra melhorar essa má impressão: eu estaria falseando a verdade, e não posso fazer isso.
Espero que seja entendida pelo menos a boa-intenção, e se possível o resto também. !

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