Este post foi escrito como uma resposta a uma pergunta feita por meu amigo André Ricardo. Coloco-o aqui por se tratar de um tópico de relevância para os admiradores de Olavo de Carvalho. Explico-me: um dos pontos centrais da argumentação de Olavo é sua defesa da validade do argumento ontológico na formulação de Sto. Anselmo. Esta defesa baseia-se, segundo creio, em elaborações de lógica modal que contrariam a Teoria das Descrições Definidas de Russell. Não conheço extensamente o argumento de Olavo, mas com certeza ele terá de passar sobre as objeções -bastante fortes a meu ver - que a filosofia analítica lhe ofereceu nas últimas décadas. Não aludi em nenhum momento às especulações do prof. Olavo de Carvalho quanto a isso, mas me lembrei delas enquanto estava repetindo as já clássicas objeções ao argumento ontológico de Anselmo
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"Só agora li este tópico seu, André Ricardo. Muito bom tópico, rapaz!
"Bem, o que eu posso dizer é que Russell pretendia com esta teoria responder a tese de Frege, segundo a qual os nomes tinham tanto sentido quanto referência. Para Russell, o significado de um nome próprio reduz-se ao fato de referir-se a um objeto, mas eles jamais podem dar garantia da existência do objeto que nomeiam. Todo mundo sabe que jamais houve um príncipe da Dinamarca chamado Hamlet, por exemplo. Os nomes próprios entram aí como elementos da linguagem natural que exercem função de abreviações de descrições definidas.
"Logo, para Russell é um erro traduzir enunciados do tipo “Sócrates é grego” para a forma lógica de Pa, onde “P” está no lugar do predicado e “a” está no lugar de Sócrates. Pois se as descrições definidas dão por pressuposto dois aspectos do objeto, a saber, a existência e a unicidade, então a sua forma lógica deve torná-las explícitas também. Um enunciado do tipo “Sócrates é grego” deve ser traduzida numa linguagem sem ambigüidades, onde apareça explicitada a idéia de existência e de unicidade.
"O famoso exemplo de Russell “o atual rei da França é calvo” mostra bem isto aí. Neste caso temos uma descrição definida. Conforme Russell, esta descrição não seria nem verdadeira nem falsa, de vez que não há nenhum rei da França na atualidade. Na verdade, o enunciado esconde sua forma lógica sob uma forma gramatical ambígua. O enunciado é na verdade formado por:
1 Existe ao menos um indivíduo que é um atual Rei da França (existência)
2 Existe apenas um indivíduo que é um atual Rei da França (unicidade)
3 Este indivíduo é calvo
"Bem, eu não consigo traduzir isto para linguagem formal no computador, não. (A propósito, alguém sabe como se colocam quantificadores nesta droga de máquina?!)
"Mas em linguagem natural, o enunciado explicitado ficaria mais ou menos assim: “existe alguém tal que é um atual rei da França e todo aquele que for um atual rei da França é igual a este, e este é calvo”. Obviamente, o enunciado é falso, pois é falso que exista “alguém tal que é um atual rei da França”.
"Então, a resposta a sua primeira pergunta é positiva: Deus é um nome próprio no sentido de Russell, pois abrevia uma descrição definida. E a descrição definida terá a seguinte forma.
1 Existe ao menos um indivíduo que é Deus
2 Existe somente um indivíduo que é Deus
3 Este indivíduo tem todas as perfeições.
"Isto invalida o argumento de Sto. Anselmo, pois para que este argumento seja verdadeiro é preciso que a existência possa ser dedutível de 3. Como a existência não está inclusa em 3, então o argumento é falacioso.
"Mas, lembre-se ainda, André, que a teoria de Russell não é a última palavra em matéria de filosofia da lógica. Na verdade, ela sofreu críticas severas do Saul Kripke, a partir de uma abordagem da lógica modal. O próprio argumento ontológico foi retomado pelo grande Charles Hartshorne que recorreu às leis da lógica modal para defender o argumento, de modo que a discussão tornou-se bem mais sofisticada do que sugerem os manuais.
Um abraço!
Após uma outra pergunta, repondi mais isso aqui:
"Em primeiro lugar, o que uma descrição definida faz é mostrar o que o nome abrevia. Um nome próprio é uma abreviação de descrição definida, como eu lhe disse. Só os chamados "nomes logicamente próprios", tais como as constantes individuais da lógica matemática, referem-se diretamente a objetos independentemente de quaisquer propriedades.
"O argumento não é falacioso porque uma de suas premissas pode ser ou não colocado na forma de uma descrição definida.
"O que a formalização correta mostra é a falácia que já está contida no argumento. Ela revela a insustentabilidade lógica do argumento de Sto. Anselmo ao mostrar a impossibilidade de se deduzir a existência de Deus a partir da simples enunciação do seu conceito.
Alguém se propõe a discutir este ponto? Ah, e a base desta discussão são duas obras filosóficas importantíssimas: o proslogium e o artigo de Russell, On Denoting. Do primeiro sei que há boa tradução em português. Do último, há tradução péssima em português, portanto, sugiro a leitura do original inglês mesmo. Aliás, Russell é claríssimo em qualquer língua contanto que lhe traduzam corretamente.
Ricardo,
[mode massa sofrida on]
VOCÊ É UM DOS MAIS CULTOS DO ORKTUT parabéns ...
[mode massa sofrida off]
Agora falando sério, o debate é meio difícil... Se bem me lembro, já falei no seu outro tópico sobre o argumento ontológico ( e se bem me lembro, tomei uma piaba sua).
Explica melhor o ponto, às vezes dá para contribuir.
PS.: Concordo com você. O Russell é claríssimo. Às vezes é idiota (tudo o que já li dele sobre ser ateu e não ser cristão, por exemplo, não vale um tostão furado; o Wisdom of the West tem um montão de bobagens), às vezes é genial. Mas sempre escreve muito bem.
Russell é desigual. Suas invectivas anti-cristãs são de uma burrice atroz. Para mim não há nada de particularmente maligno em ser anti-cristão. Mas deve-se sê-lo com algum donaire, alguma sutileza nos argumentos, precisamente o que Russell abandonava quando ele argumentava contra os "fanáticos".
E era um péssimo historiador da filosofia pela parcialidade descarada com que escrevia sobre alguns autores. E jamais entendeu uma só linha do Tractatus.
Agora já chega, não? Já malhamos o Judas o suficiente. E devo admitir contigo que ele escrevia muito bem, sim. Mesmo quando falava bobagem.
Quanto a dificuldade do tópico, por favor, me faça uma pergunta específica. Qual foi ponto que você não assimilou, amigo? Se eu souber eu lhe explico. Um abraço.
Que a prova de Santo Anselmo é Auto-Evidente e necessáriamente verdadeira.
1. Um ser absolutamente necessário existe necessáriamente,diz Santo Anselmo.
2. A objeção de Kant é que um ser assim definido é definido por nós,portanto sua existência é hipotética,fundando-se na suposição- feita por nós- de que o ser nela definido é absolutamente necessário.
3. A contraditória é "Um ser absolutamente necessário não existe necessáriamente" ou "Um ser absolutamente necessário necessáriamente inexiste?" sendo impossível decidir,é proposição equivoca e não tem sentido.
3. Logo a prova de Santo Anselmo é auto-evidente.
4. Não havendo auto-evidência hipotética (7:1-5) a prova de Santo Anselmo é necessáriamente verdadeira. http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/identidade.htm
Não ficou claro para mim se você considera que o argumento ontológico é insustentavel lógicamente ou estava apenas expondo a objeção de Russell.
De qualquer forma se o argumento ontológico é insustentavel lógicamente o Olavo incorreu em alguma falácia ao defende-lo.
Qual seria?
Ou é a crítica de Russel que não se sustenta frente a esses argumentos do Olavo?
Pedro, hoje você tomou risol. É a segunda vez que rio sozinho por sua causa, hoje.
Ricardo, minha intenção é que pusesse um ou dois pontos da mensagem, dos quais você quisesse mais falar.
Meu pitaco: pelo que eu me lembre, o argumento de Sto. Anselmo não se baseava no nome de Deus, mas era mais ou menos assim: Um ser necessário existe necessariamente, certo?
Na época, argumentei na base de idéias minhas - bem elementares, é verdade - com o desenvolvimento de objeções legíveis à luz do Quadro de oposições aristotélico-escolástico. Agora reproduzi algumas objeções da Escola Analítica - Russell - que na época eu mencionei. No mesmo tópico, o Bernardo agumentou muitíssimo bem contra Olavo servindo-se do instrumental da lógica simbólica.
Não vi nenhum argumento entre os debatedores que me sugerisse outra opção. Portanto, creio que o argumento de Sto. Anselmo é realmente falacioso. Fico com a crença até descubrir razões para defendê-lo.
O argumento que eu teci a partir da Teoria do Russell não consiste em provar a impossibilidade da existência de Deus, mas simplesmente provar que a existência de Deus não se pode deduzir da sua essência. Veja que quando você exige a prova da auto-contraditoriedade de Deus, você simplesmente tangencia o ponto fazendo-me uma exigência sobressalente. Não é necessário provar que Deus é conceito contraditório para provar que Sua existência não é dedutível da essência.
Marcos,
"Um ser necessário" é uma expressão linguística que em lógica pode ter a função de nome, sim. Importa para a conceituação clássica de nome que ele seja uma variável da função-conceito, que é sempre insaturada e, portanto, exige um argumento que a complete. De qualquer modo, o argumento de Russell consiste em mostrar que Deus não é um nome logicamente próprio, pois refere-se a uma entidade cuja existência não é logicamente necessária.
Para Russell, os nomes logicamente próprios sempre tem referência.
Ricardo, eu não disse que você estava errado. Eu só disse que a crítica do Russel sobre o nome de Deus não se aplica neste caso porque o argumento não é sobre o nome de Deus.
1 - Godel (o matemático) desenvolveu um argumento ontológica baseada na lógica modal;
2 - De acordo com a formulação da lógica modal:
a) o argumento de S. Anselmo é válido;
b) a crítica de S. Tomás não procede;
c) a crítica de Russel é totalmente desprovida de valor. A teoria das descrições não possui nenhuma relação com o assunto, pois é incapaz de lidar com a expressão "nescessário".