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A Preciosidade de Uma Existência Finita

Iniciado por breno_2 em 24/08/2008 · 62 mensagens · página 1 de 2

breno_2#1
Por Gina Liggett

[Postado originalmente em Politics without God (Política sem Deus) http://www.seculargovernment.us/blog/index.shtml o blog da Coalizão para um Governo Secular.]

A maioria dos valores religiosos ou “espirituais” inclui a crença na vida eterna, tal como uma pós-vida no paraíso ou a reencarnação em outro corpo físico após a morte.

Enquanto isso, aqui mesmo e agora, um objetivo chave do ativismo religioso moderno é a defesa daquilo que muitos fiéis chamam de a “santidade da vida” [http://www.thomasmore.org/qry/page.taf?id=39]. Os crentes aprendem que a vida é dada e pertence a Deus [http://www.baptiststandard.com/2003/1_6/pages/family.html] e, portanto, nós não devemos interferir nos assuntos divinos da vida e da morte.

Essa é a base bíblica para as proibições do aborto, da eutanásia e das pesquisas com células tronco, mesmo se essas práticas têm o propósito de aliviar o sofrimento e melhorar as vidas de indivíduos vivos. (E também é a base moral para a votação no Colorado da proposta de conceder direitos a óvulos fertilizados [http://www.seculargovernment.us/blog/2008/07/amendment-48.shtml])
breno_2#2
Mas quando a interpretação religiosa da “santidade na vida” é a lei local, as pessoas são obrigadas a suportar sofrimento. Por exemplo, uma mulher que engravida de um estuprador, deve viver para sempre com o ônus psicológico e social de criar um filho que ela não quis. Um paciente de câncer terminal agonizando de dor tem como única opção de alívio o uso de mega-doses cada vez maiores de analgésicos ao invés de ter a permissão de encerrar sua vida com dignidade. Esses exemplos demonstram o inverso de respeito à santidade da vida.

Como os fiéis toleram essas indignidades psicologicamente? Acreditando em uma vida eterna: quando tudo estiver acabado, a alma continuará viva. Ela poderá ir para o Céu e permanecer com Deus em um estado de felicidade eterna, ou poderá reencarnar e progredir a um “plano superior” de existência através das “lições aprendidas” na vida passada.

Mas essa crença cobra um preço alto: acreditar em uma alma eterna torna a vida daqui e de agora descartável. Se você vive para sempre não importa, em última análise, se você sofre nesta vida. Tudo o que importa é que os humanos não devem “brincar de Deus” assumindo a propriedade de suas próprias vidas.

Uma das verdades mais difíceis que nós enfrentamos como seres humanos é a de que nossa existência é finita. Isso é algo que nós devemos aprender a aceitar e lidar. A crença religiosa em uma vida após a morte é uma evasão total dessa dura verdade.
breno_2#3
O fato fundamental de que nós todos morreremos significa que esta vida é que é sagrada. Portanto, nós devemos ter uma sociedade que proteja a única, finita e preciosa vida de cada indivíduo vivo. Tal sociedade baseada em egoísmo racional [http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/selfishness.html] tem um código moral fundamentado nas realidades de nossa existência finita e dos requerimentos da vida humana.

Mas uma sociedade baseada em fé, que inquestionavelmente aceita a idéia de uma alma eterna pode racionalizar fazer qualquer coisa que ela deseje aos indivíduos em nome de Deus, já que as pessoas, de qualquer modo, possuem uma vida eterna.

Uma adequada santidade da vida é para os vivos. Não é para uma vida em potencial, uma vida “eterna” dos sonhos, nem para Deus.

[Tradução minha. Veja o original no blog Noodlefood: http://www.dianahsieh.com/blog/2008/08/preciousness-…stence.shtml]
breno_2#4
Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida, mas no além – no nada -, tira-se à vida o seu centro de gravidade. A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda a razão, toda a natureza... tudo o que há de benéfico, de vivificante, tudo o que promete o futuro, suscita agora a desconfiança. Viver de tal maneira que já não se tenha razão de viver, isso converte-se agora na razão da vida... (Friedrich Nietzsche, O Anticristo)

A necessidade de fé, de alguma coisa que não depende do sim e do não... é uma necessidade da fraqueza. O homem de fé, o “crente” de toda espécie, é necessariamente um homem dependente, alguém que não se considera como fim, que não pode determinar os fins. O “crente” não se pertence... deve ser consumido, tem necessidade de alguém que o consuma. O seu instinto presta a maior honra a uma moral de sacrifício; tudo o persuade desta moral... Toda espécie de fé é por si mesma uma expressão de sacrifício, de alheamento de si... (Idem)

A necessidade da fé na imortalidade para desprezar o “mundo”... com o “mais além” se mata a vida. (Idem)

...o conceito “além”, inventado como “mundo verdadeiro” para arrancar o valor ao único mundo existente – a fim de não deixar à nossa realidade terrena nenhum objetivo, nenhuma razão, nenhuma tarefa! A noção de “alma”, “espírito”, e por fim até a de “alma imortal”, inventada para desprezar o corpo, torná-lo enfermo – “santo” – para tratar com frivolidade terrível todas as coisas que na vida merecem seriedade, as questões de alimentação, moradia, dieta espiritual, tratamento a doentes, limpeza, clima! Ao invés da saúde, a “salvação da alma”... (Friedrich Nietzsche, Ecce Homo)

Eu não endosso a filosofia de Nietzsche, mas os trechos acima são muitíssimo perspicazes!
breno_2#5
A questão do aborto envolve muito mais que o término de uma gravidez: é uma questão da vida inteira dos pais... A paternidade é uma responsabilidade enorme, é uma responsabilidade impossível para jovens que são ambiciosos e lutadores, mas pobres... Para tais jovens, a gravidez é uma sentença de morte: a paternidade os forçaria a desistir de seu futuro, e os forçaria a uma vida de trabalhos duros e sem esperança, de escravidão às necessidades físicas e financeiras de uma criança. A situação de uma mãe solteira, abandonada por seu amante, é ainda pior.

Eu não consigo imaginar o estado da mente de uma pessoa que desejasse condenar um semelhante humano a tal horror. Eu não consigo projetar o grau de ódio necessário para fazer mulheres se agruparem em cruzadas contra o aborto. É ódio o que elas certamente projetam, não amor pelos embriões, um sentimento absurdo que ninguém jamais experimentaria, mas ódio, um ódio virulento por um objeto não nomeado. A julgar pelo grau de intensidade dessas mulheres, eu diria que é uma questão de alto-estima e que seu medo é metafísico. O seu ódio é dirigido contra os seres humanos como tais, contra a mente, contra a razão, contra a ambição, contra o sucesso, contra o amor, contra qualquer valor que traga felicidade à vida humana. Em concordância com a desonestidade que domina o campo intelectual hoje, elas chamam a si mesmas de “pró-vida”.
(Ayn
Rand, Junho de 1981
).

Belíssimo diagnóstico!!! Veja mais em [http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/abortion.html]
breno_2#6
O subjetivismo de sempre.
breno_2#7
Se toque você!

Você não é dono da comunidade!

Caso o Filidis considere tais tópicos indesejáveis, eu não mais os farei. (Seria incoerente visto que os tópicos diverjem muito aqui. Mas eu acataria o pedido.)

Sinta-se livre de perguntar a ele.
joo_orkut_3#8
Nietsche é um grande charlatão. Sua percepção de mundo é muito limitada e errada. Ele critica o cristianismo sem nem entendê-lo. É tpo um Dawkins assim...

Acreditar na vida eterna não significa não se importar com nada nessa vida.
breno_2#9
"Quem não acredita em uma vida depois da morte faz o que quiser sem medo de ir para o Inferno" é um argumento ainda pior que "mimimimimimi".

Nossa, Maria!
Mas que abuso do ad hominem!
breno_2#10
Maria: "Ad hominem?"
Sem dúvida!

Caio
Por que elas têm de ir a algum lugar?
breno_2#11
É verdade que crença ou ateísmo não são suficientes para uma avaliação moral de indivíduos (ou de movimentos). E é um grande mérito da sua parte admitir isso, pois demonstra honestidade.

O que explica os diversos movimentos assassinos e as suas conseqüências não é uma questão entre crença ou descrença, mas uma questão entre irracionalidade e racionalidade. É irracionalidade o que explica tanto o “fazer valer a palavra de Deus” quanto a “utopia irrealizável e inatingível” e as mortes resultantes. Irracionalidade é o diagnóstico mais generalizado dos movimentos citados, mas a maneira como ela se manifesta diverge em cada um deles.

Focando especialmente no comunismo, é muitíssimo errado considerar ateísmo como a essência desse movimento. Esse erro absurdo, bastante difundido entre religiosos (alguns chegam até a igualar ateísmo a comunismo) é, às vezes, cometido de forma puramente ingênua, outras, por malícia. Mas ateísmo, por si só, explica ou deixa antever pouquíssimo de uma pessoa ou de um movimento.

No caso do comunismo, a irracionalidade essencial dele, o seu mal característico, o mal que explica, possibilita e justifica todas as atrocidades que cometeu chama-se altruísmo: uma irracionalidade que o comunismo compartilha - não com ateísmo – mas com a grande maioria das religiões. Altruísmo é um mal que põe o comunismo muito mais próximo das concepções morais religiosas que de ateísmo.
breno_2#12
Não é no coração que se encontra as respostas: as justificativas dos atos de um indivíduo - não existe tal determinismo. Mas nas suas premissas, nas idéias que um indivíduo aceitou e defende: na racionalidade ou na irracionalidade das suas idéias.

Gostei bastante da sua afirmação “a fé ... tanto pode servir para justificar o bem quanto para justificar o mal”, foi exatamente isso que a autora do texto que abre o tópico quis dizer quando afirma “uma sociedade baseada em fé ... pode racionalizar fazer qualquer coisa que ela deseje aos indivíduos em nome de Deus”, e é exatamente por isso que as leis jamais devem ser baseadas em fé. Quanto ao “culpar a nós mesmos”, achei a afirmação horrível mas (pelo menos) não me ficou muito claro o que você quis dizer.

Um ateu tanto pode como não pode ter um código moral. Isso é por conta e risco dele mesmo. Se não o possui, não é por implicação do ateísmo. Possuindo um, esse código pode ser racional ou não, coerente ou não ao restante das suas convicções.

E quanto a sua avaliação do valor de limitar as ações por causa do julgamento de Deus (se existisse um), ela se baseia numa premissa subjetivista: a de que qualquer objeto ou ação é bom ou desejável, bastando apenas que o indivíduo assim o considere. Mas não existe tal coisa como objetos ou ações bons na Terra e ruins em algum lugar mais. O que é bom, é bom por fazer progredir a vida do ser humano em todos os aspectos e necessidades. É o absolutismo da realidade que impõe os freios aos quais o indivíduo deve se submeter. É o absolutismo da realidade que determina o que é bom ou ruim, não os caprichos de alguém – ou de Deus.
hiranclair#13
As religiões tem um valor positivo, quem é crente tem algo a mais do que os ateus ou agnósticos, pois ateísmo é uma não crença, por isso algo negativo.

As principais religiões do mundo possuem um corpo de ensinamentos morais que são transmitidos para os seus fiéis durante toda a vida. Quem frequenta uma religião é constantemente estimulado a ser solidário com o próximo, perdoar, desenvolver bons sentimentos e boas ações. Quem não acredita em nada e não tem nenhum vínculo com alguma religião tem sua ética racional, sem dúvida, mas não tem o estímulo do ambiente e da riqueza milenar dos ensinamentos morais da religião.

Isso não garante que todas pessoas religiosas serão sempre boas, mas vivendo nesse ambiente moral rico e estimulante há uma grande probabilidade de se tornarem melhores que os ateus.

A religião é como uma força ascendente, puxa as pessoas pra cima, faz elas buscarem melhorar e superar sua fraqueza, isso supondo-se uma prática religiosa séria e não apenas uma vinculação frágil e superficial a uma religião.

Sem nenhuma crença religiosa, numa vida futura, uma pessoa tem seu horizonte limitado aos prazeres materiais da vida e perde motivação para ser solidário, buscar se superar moralmente. Pra que se preocupar em se tornar uma pessoa melhor? Se só existe o mundo material e essa vida é melhor viver egoísticamente, ser um hedonista, pois não vale a pena se esforçar para os outros.

Fora isso, a crença numa justiça divina futura, ou lei do carma como pregam hindus e budistas fortalece a motivação para não fazer o mal, pois segundo essas crenças quem faz o mal vai receber o mal de volta e quem faz o bem colhe o bem de volta.

A falta de religião ou pelo menos de uma perspectiva espiritual enfraquece a moralidade pública. Achar que é indiferente moralmente uma sociedade ter crença religiosa ou não é um grande erro.
joo_orkut_3#14
Discordo Breno.

O que vocẽ põe como racionalidade x irracionalidade é na verdade a obediência ou desobediência aos valores morais.

O que eu creio é que existe um conjunto de valores morais absolutos, que são reconhecidos pela maioria dos seres humanos. Você mesmo deve reconhecer alguns desses valores (eu espero). Estes valores não são uma construção racional, não são uma construção cultural e muito menos são a manifestação de nossos instintos. Esse conjunto de valores, que C. S. Lewis chama de Tao em seu livro A Aboição do Homem, são dados a nós pelo próprio Criador.

Agora, se você quer ser coerente, ou você aceita esse conjunto de valores morais absolutos, e aceita a sua origem divina, ou você não aceita nenhum deles, e abdica da sua condição de Homem, vivendo uma vida animalesca. O que você não pode fazer é pegar alguns valores, hipertrofiá-los e construir ideologias a partir disso, ignorando completamente outros valores. (ex clássico: comunismo).

Tentei ser bem sucinto sobre esse assunto, mas se tiveres interesse, te sugiro que leias A Abolição do Homem de C. S. Lewis.

Também te sugiro Cristianismo Puro e Simples, do mesmo autor. Talvez seria até melhor ler este primeiro.

Sobre o mal do comunismo ser o altruísmo... bem... talvez devêssemos chegar antes a uma definição comum de altruísmo, a partir da qual poderemos continuar o debate, pois pra mim matar 50 milhões de pessoas não é altruísmo. Fiquei curioso agora sobre o teu conceito de altruísmo.
joo_orkut_3#15
Dê uma olhada nesse artigo, do Dr. William Lane Craig, sobre as bases teológicas da ética: http://www.apologia.com.br/?p=9

(original em ingles: http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/meta-eth.html)
uriel#16
comparar Nietzsche com Stalin é doudera.
adermir#17
O texto inicial é um exemplo interessante de paralaxe cognitiva da autora, que advoga uma sociedade fundamentada em algo denominado “egoísmo racional” ao mesmo tempo em que ataca as religiões “altruístas” porque... provocam sofrimento nos outros. Ou seja, advoga o egoísmo de uma perspectiva altruísta...
A obrigatoriedade de suportar sofrimento está presente em diversos aspectos da vida que não necessariamente os exemplificados pela autora. No mundo todo há homens que são obrigados a pagar pensão alimentícia a ex mulheres com quem têm relacionamento difícil, ou a sustentar pela vida toda filhos nascidos de relacionamentos eventuais. Não foram desejados, assim como os gerados por estupro (desconte-se, é claro, o componente de violência contido neste e ausente na relação eventual). É um sofrimento e um estorvo.
Cuidar de uma pessoa que sofre uma doença prolongada é também um grande sofrimento; e essa doença não precisa necessariamente ser terminal. No mundo todo há pais que cuidam de filhos deficientes físicos, doentes mentais, portadores de doenças degenerativas, etc.. sofrem com isso. É possível conceber racionalmente a eliminação de todas essas fontes de sofrimento, e há exemplos históricos de sociedades em que tal se fez.
adermir#18
É fácil conceber uma moral por caricaturas: o paciente terminal com muita dor, o filho nascido de um estupro... difícil é aplicá-los no momento em que, existencialmente, é preciso fazer uma escolha. Esse é o real momento em que o indivíduo decide, por si, e arca com as conseqüências de sua escolha – aqui e na eternidade. Pois o filho nascido do estupro pode vir a ser fonte de amor e orgulho, e muitas doenças que antes eram tidas como condenação à morte hoje são curáveis. Não é possível, no caso, partir de pontos de vista apriorísticos.
O que há no tratamento do caso é uma alta dose de desonestidade intelectual. Atribui-se aos detratores do aborto e da eutanásia a pecha de “irracionais” e parte-se desta como premissa para todo o ataque posterior.
O que se esquece é que não existe “racionalidade” da forma como concebida pelos adeptos de Ayn Rand – essa racionalidade é tão somente uma construção ideológica, e se formos a fundo na busca de seu substrato veremos um ponto de inequívoca irracionalidade.
De outro giro, qualquer sistema legal tem como ponto de partida um substrato moral, sem o que padece de ilegitimidade. E esse substrato moral não tem de onde ser retirado senão de algo que o transcenda, como a religião. Isso não significa que o estado deva ser religioso; apenas que não há outra fonte possível para a moral, pois é na idéia do divino, do eterno, que podemos conceber algo para além de nós mesmos, o que, em última análise, é o que constrói a sociedade.
adermir#19
É fácil conceber uma moral por caricaturas: o paciente terminal com muita dor, o filho nascido de um estupro... difícil é aplicá-los no momento em que, existencialmente, é preciso fazer uma escolha. Esse é o real momento em que o indivíduo decide, por si, e arca com as conseqüências de sua escolha – aqui e na eternidade. Pois o filho nascido do estupro pode vir a ser fonte de amor e orgulho, e muitas doenças que antes eram tidas como condenação à morte hoje são curáveis. Não é possível, no caso, partir de pontos de vista apriorísticos.
O que há no tratamento do caso é uma alta dose de desonestidade intelectual. Atribui-se aos detratores do aborto e da eutanásia a pecha de “irracionais” e parte-se desta como premissa para todo o ataque posterior.
O que se esquece é que não existe “racionalidade” da forma como concebida pelos adeptos de Ayn Rand – essa racionalidade é tão somente uma construção ideológica, e se formos a fundo na busca de seu substrato veremos um ponto de inequívoca irracionalidade.
De outro giro, qualquer sistema legal tem como ponto de partida um substrato moral, sem o que padece de ilegitimidade. E esse substrato moral não tem de onde ser retirado senão de algo que o transcenda, como a religião. Isso não significa que o estado deva ser religioso; apenas que não há outra fonte possível para a moral, pois é na idéia do divino, do eterno, que podemos conceber algo para além de nós mesmos, o que, em última análise, é o que constrói a sociedade.
uriel#20
a diferença entre liberais e conservadores é que liberais são egoístas/individualistas enquanto conservadores são altruístas.

Conservadores rejeitam o colectivismo extremo da esquerda - e também rejeitam o individualismo exacerbo e atomismo antropológico dos liberais.

Os liberais são os progressistas da direita.
adermir#21
O "altruísmo" dos comunistas é meramente discursivo e tático como instrumento de um fim egoístico que é a conquista do poder pela "vanguarda da classe operária".
fbio_6#22
A necessidade da fé na imortalidade para desprezar o “mundo”... com o “mais além” se mata a vida. (Idem)

Bela frase de efeito. Agora provar que é bom...
adermir#23
Nem sempre, Silvio, nem sempre...

Agora, essa dicotomia "egoismo-altruísmo" conduz a uma falsa questão. Adam Smith, quando formulou o axioma segundo o qual "nós não devemos a carne em nossa mesa à bondade do açougueiro" não estava de modo algum renegando essa "bondade" ou professando um egoísmo absoluto. O que essa frase quer dizer, no fundo, é que a realidade humana é a de interdependência, o que significa que para satisfazer nossos próprios interesses devemos agir para atender aos interesses dos demais. Ou, puxando mais para São Francisco, é dando que se recebe...

O egoísta absoluto e o altruísta absoluto são seres inviáveis.
adermir#24
Quando a Ayn Rand escreveu as besteiras que escreveu, e quando ela cooptou seu séquito de yuppies novaiorquinos, ela o fazia em benefício de seus leitores e fiéis, para tirá-los das trevas da irracionalidade, ou em proveito próprio, para arrumar um meio de vida graças a credulidade e devoção alheia?

Paralaxe cognitiva?
breno_2#25
Do que o homem tem necessidade é uma visão integrada da existência, ou seja, de uma filosofia, mas não necessariamente de uma religião – que são formas primitivas de filosofia. Ateísmo, certamente, não é uma filosofia, muitíssimo menos uma filosofia sistemática. Você mostra entender que um ateu não é necessariamente um amoralista, que um ateu pode ter uma ética racional (ou irracional, acrescento eu). Mas observe que o “estímulo do ambiente” e os “ensinamentos” milenares que você afirma que as religiões proporcionam não têm nenhum valor separados dos fatos da realidade.

Cabe a filosofia, através da ética ou moral, fornecer os princípios que guiarão a vida do homem. Tradição não implica em verdade. O fato de que pessoas do passado acreditavam em certas idéias e as ensinaram aos outros, e assim sucessivamente, não implica que essas idéias são verdadeiras. Perdão, solidariedade, não são primários, devem ser justificados. Se são bons, o são por qual padrão? Por favor entenda que eu não estou afirmando que o perdão ou a solidariedade são necessariamente errados, apenas que, se são virtudes, deve ser possível explicar porquê.

Não é verdade que só a religião pode melhorar as pessoas. O que limita o horizonte, o poder de entendimento, é a falta de uma visão integrada da existência – de uma filosofia. O que contribui para tornar as pessoas melhores não é o “ambiente” proporcionado pela religião. Nem somente basta o interesse, o desejo de aprender, o objetivo de se aperfeiçoar ou de se superar. O que é fundamental é a veracidade das suas idéias.
breno_2#26
“Vida futura”, “justiça divina”, “carma”, “se esforçar para os outros”, tais crenças não têm qualquer valor se são falsas. Nenhum bem real a propagação delas poderá fazer se são falsas. Pelo contrário, só males reais podem resultar disso. Altruísmo não tem qualquer valor se for falso - se não for justificado filosoficamente. O mal do altruísmo é facilmente demonstrado. Altruísmo, ao contrário do que se acredita, não significa simples bondade, solidariedade, perdão, consideração ao próximo, etc. Na verdade, altruísmo é a visão moral “de que o homem não possui qualquer direito de existir para si mesmo, de que a única justificação para a sua existência é servir aos outros” (Ayn Rand). Se isso não bastar para entender o mal do altruísmo, é bom que saber que a sua principal virtude é sacrifício, ou seja, a perda de valores. Sacrifício é irracional, prejudicial, por definição.

Está bem claro que altruísmo é a concepção por trás de suas afirmações morais e julgamentos de valor, daquilo que você considera bom ou mau. Infelizmente, pelo fato de altruísmo ter dominado as concepções morais da humanidade, muitas pessoas confundem os termos altruísmo e moral, tomando-os às vezes como sinônimos, fazendo passar despercebido que uma moral egoísta é possível ou mesmo imaginável (o que muito interessa aos esquerdistas, diga-se de passagem).

Agora, é ainda mais interessante observar que você compreende que só alguma base mística pode levar a altruísmo: “Sem nenhuma crença religiosa, numa vida futura, uma pessoa ... perde motivação para ser solidário, buscar se superar moralmente (ou seja, se sacrificar)? Pra que se preocupar em se tornar uma pessoa melhor (para os outros)? Se só existe o mundo material e essa vida é melhor viver egoisticamente ... pois não vale a pena se esforçar para os outros”. (Omiti as implicações hedonistas, que são falsas). Quando quer que alguém afirme que não se chega à moral através da razão, devemos responder: não a uma moral altruísta.
breno_2#27
Certamente é verdade que toda a sociedade está baseada em algum código moral mas não segue que tal código deve obrigatoriamente ser religioso ou conter uma “perspectiva espiritual” sobrenatural ou ser altruísta. Aqui novamente, o valor, o progresso social, são obtidos quando as idéias defendidas pela sociedade, inclusive do ponto de visto moral, estão de acordo com os fatos da realidade.
breno_2#28
Você inverte a ordem lógica: valores morais não são primários, eles são baseados em uma epistemologia e uma metafísica. Primeiro, é necessário determinar se o ser humano obtém conhecimento através da razão, dos sentidos, ou através da fé, intuição, etc; e é preciso ter uma visão da existência (da realidade enquanto tal) e do homem antes que se possa assumir uma posição moral e definir quais são os valores que devemos perseguir. Não são os valores que determinam a nossa racionalidade e sim o inverso.

Não existe tal coisa como valores pairando numa realidade sobrenatural que apenas “são reconhecidos pela maioria dos seres humanos” ou dados pelo Criador. Nem se separa da condição humana quem percebe isso. Os valores morais são objetivos: têm base nos fatos (não existe dicotomia entre fatos e valores); base nos requerimentos da vida do homem, naquilo que preserva e promove a vida do homem como o ser racional.

Não se surpreenda com as milhões de morte do comunismo, pois totalitarismo é a expressão política mais bem acabada da moral altruísta. Caberá ao estado fazer valer o princípio de que o homem não tem nenhum direito de viver para si mesmo.

A definição de altruísmo está no post de resposta ao Hiranclair. Se quiser conhecer melhor a ética de Ayn Rand, leia The Virtue of Selfishness [http://www.amazon.com/Virtue-Selfishness-Ayn-Rand/dp…82972&sr=8-2], se quiser entender melhor ainda, leia Atlas Shrugged [http://www.amazon.com/Atlas-Shrugged-Ayn-Rand/dp/045…85154&sr=8-1] - por apresentar de forma dramática a importância de vida ou morte da moral (ambos são baratinhos na Livraria Cultura).

Para alguns trechos veja aqui[http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/altruism.html], aqui[http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/morality.html] e aqui[http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/values.html].
breno_2#29
Não tenho no momento tempo suficiente para avaliar o texto que você indicou. Mas meta-ética é um assunto de meu interesse e cedo ou mais tarde o farei. Portanto fico agradecido.
breno_2#30
"comparar Nietzsche (ou Ayn Rand) com Stalin é (doideira)" [2]
breno_2#31
Acredito que você se baseia na concepção popular de altruísmo: um sentimento vago de consideração e preocupação pelo bem-estar dos outros. Da mesma forma parece ser a sua concepção de egoísmo: mesquinhez, desconsideração total ou hostilidade aos outros (como prega a visão popular). Acredito que foi devido a essas concepções que o texto lhe pareceu contraditório.

A premissa do texto é a de que sociedades controladas por lei baseadas em fé religiosas levam a sofrimento injusto e desnecessário aos cidadãos. O texto não afirma nem implica que todo sofrimento é culpa da religião ou que todo sofrimento é injusto ou evitável e deve ser combatido por meios políticos. Tais conclusões não seguem do texto. A propósito, não consigo conceber uma eliminação racional de todos os sofrimentos que citou.

Não vejo como caricaturas os casos que a autora descreveu. São plausíveis, possíveis e terrivelmente injustos. O texto não defende que toda gravidez surgida de um estupro deve ser abortada, e sim que uma mulher deve ter o direito de fazê-lo se essa for a sua decisão. Sou testemunha da honestidade dos seus posts, inclusive esse. Porém, acredito que a forma como vê a “racionalidade de Ayn Rand” é baseada em algum tipo de preconceito ou falsa premissa.

Normalmente, é uma determinada visão da existência o que leva à defesa de “algo para além de nós mesmos”, a uma moral nesses termos, que vê a afirmação como um absoluto inquestionável. É uma visão na qual o homem, o ego, a razão, a terra e a vida nesta terra, são enormemente rebaixados ou anulados. Uma visão pessimista. Não é verdade que não existe alternativa ao “algo para além de nós mesmos”. E sabe muito bem disso qualquer um que reconheça o valor do homem, do ego, da razão, da terra ou da vida nesta terra. Inclusive aqueles por ventura sejam crentes.
breno_2#32
Obs: Crentes dessa natureza, independendo de quaisquer contradições altruístas que mantenham, não abordam o divino em termos de reverência a “algo para além de nós mesmos”, mas em tom de agradecimento.
breno_2#33
Percebi que coração estava em sentido figurado. Só que quando li a frase pareceu-me que defendia algum tipo de visão determinista do caráter de cada indivíduo. Mas agora está entendido.
joo_orkut_3#34
Ok. Aguardo seus comentários sobre o artigo então.

Sobre valores morais, qual você acha que é sua origem?
hiranclair#35
É fato que o ser humano não necessariamente tem que ter uma religião para viver, mas é um fato antropológico que religião é algo muito forte que acompanha o ser humano desde a pré-história e nem esse mundo moderno com toda a ciência conseguiu destruir.

Será que é só mais uma questão de tempo e as "luzes da razão" em breve vão iluminar o mundo e as "superstições religiosas" vão desaparecer? Acho que não, o Positivismo de Comte já não conta com muita credibilidade entre os sociólogos, o comunismo não conseguiu acabar com a religião, com todo o progresso moderno os EUA continuam muito religiosos, ou seja, a religião persiste.

Considero portanto que é algo forte e importante psicologicamente para o ser humano a crença em algo transcedental, isso dá força para viver, ânimo nas situações difíceis, esperança em dias melhores, e motiva a um esforço moral de solidariedade e amor ao próximo que dificilmente pessoas materialistas vão conseguir ter. E essa moral altruísta é superior à moral egoísta, porque o altruísmo ao fazer as pessoas buscarem o bem umas das outras aumenta o grau de felicidade geral, enquanto na moral egoísta a pessoa só busca os seus interesses e só ajuda o outro por calculo interesseiro, o que restringe a solidariedade.

Como se sentiria alguém com moral egoísta se, ficando velho e doente, outros deixarem de ajudá-lo porque nunca vai poder retribuir por exemplo?

Outro fato que lembrei, nos campos de concentração nazistas, o Psiquiatra Viktor Frankl, constatou que as pessoas que possuíam uma fé religiosa, uma fé em algo superior, um sentido superior para a vida resistiam muito mais que as outras ao sofrimento e sobreviviam mais. Pessoas com doenças graves, tendo fé também suportam melhor o sofrimento que descrentes. Portanto a fé em algo superior pode refletir positivamente nessa vida atual, acho que isso é algo que deve ser levado em conta.

Se é falso ou não, isso não vou discutir porque seria outro debate, mas, verdadeira ou falsa, uma crença trancedental ajuda as pessoas.
fernando_18#36
"Quem não acredita em uma vida depois da morte faz o que quiser sem medo de ir para o Inferno."

Pascal.
adermir#37
Acredito que você se baseia na concepção popular de altruísmo: um sentimento vago de consideração e preocupação pelo bem-estar dos outros. Da mesma forma parece ser a sua concepção de egoísmo: mesquinhez, desconsideração total ou hostilidade aos outros (como prega a visão popular). Acredito que foi devido a essas concepções que o texto lhe pareceu contraditório

Na verdade costumo ser bastante rigoroso com os termos, e não concebo o altruísmo (e o egoísmo) no que você chamou de "concepção popular", ou "sentimento vago". Altruísmo quer dizer: amor ao próximo, filantropia, despreendimento, abnegação; numa concepção mais científica, altruísmo é a doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse do próximo. Além do mais, é um termo bastante comum, que não pode ser apropriado. Ayn Rand se apropria do termo, dá-lhe uma conotação particularíssima e passa a atacar a idéia expressada unicamente na própria acepção. Não é muito diferente do que se faz aqui no Brasil em relação à idéia de "direita". Define-se-a por uma imagem construída e depois ataca-se a imagem.

E o texto não me pareceu contraditório. Uma contradição é um conjunto de afirmativas que se negam reciprocamente. O que apontei foi uma provável paralaxe cognitiva, na acepção de Olavo de Carvalho: uma afirmativa que só pode ser feita de o falante estiver excluído do universo de observação, porque se for aplicada a ele, sua prória existência negará o afirmado.
david_7#38
A premissa do texto é a de que sociedades controladas por lei baseadas em fé religiosas levam a sofrimento injusto e desnecessário aos cidadãos.

Se a premissa do texto é esta, então o texto é baseado em uma premissa falsa. O que se observa é precisamente o contrário. Bastou aparecerem os governos ateus e o fenômeno do genocídio começou.
adermir#39
A premissa do texto é a de que sociedades controladas por lei baseadas em fé religiosas levam a sofrimento injusto e desnecessário aos cidadãos. O texto não afirma nem implica que todo sofrimento é culpa da religião ou que todo sofrimento é injusto ou evitável e deve ser combatido por meios políticos. Tais conclusões não seguem do texto. A propósito, não consigo conceber uma eliminação racional de todos os sofrimentos que citou.

E o que dizer das sociedades comunistas que são controladas por leis baseadas em ideologia? Até mesmo uma sociedade "racional" vai, necessariamente, produzir leis que impliquem restrições, proibiçoes, angústias e sofrimentos.

Infelizmente agora não tenho tempo para prosseguir, mas amanhã eu desenvolvo mais esse argumento.

Abs.
breno_2#40
Não seria você quem deve provar...?

Maria
Não se trata de moda:

"Praticamente todas as mulheres e a maioria dos homens discordariam de Schopenhauer. [Em seu famoso ensaio sobre as mulheres] Mas como a leitora 'típica' responde ao argumento de Schopenhauer? Mostrando que suas afirmações não são verdadeiras, ou que conduzem ao erro devido a sua seletividade? Não. Ela ataca o próprio Schopenhauer, afirmando que ele deve ter sido um amante frustrado ou que ele deve ter tido uma infância muito infeliz para escrever tais bobagens. Mas esse ataque não vai de encontro à argumentação de Schopenhauer. 'Atacar o homem' [ou a mulher] é uma evasão da lei da racionalidade e não substitui adequadamente a apresentação de evidências que refutem o argumento dele[a].”

"Em geral, o 'ad hominem' toma a forma de um ataque dirigido a quem fala ao invés de a aquilo que se disse. A pressuposição implícita é que sendo um certo tipo de pessoa, ou tendo uma certa história pessoal, as afirmações tendem a ser falsas."
(Lionel Ruby, Logic – An Introduction, tradução minha.)

Você afirma que estava apenas fazendo observações e parece ser sincera. Agora, é inegável que em fóruns de discussão como este tais afirmações dirigidas à pessoa soam como se fossem argumentos, como se refutassem aquilo que foi afirmado anteriormente (o que seria falacioso). Porque aqui, onde prevalece a polêmica, o que importa mesmo e o que todos esperam ver são argumentos. Opiniões, desabafos, xingamentos, etc, são de nenhum valor, mas, muito normalmente, esperam ser tomados como argumentos.
breno_2#41
Não vai ser para muito em breve.

Quanto a sua pergunta dê uma olhada aqui: http://www.aynrandlexicon.com/lexicon/objectivetheoryofvalues.html
breno_2#42
A necessidade do homem é de filosofia. As religiões são filosofias primitivas, foram elas as primeiras tentativas de prover uma visão integrada da existência (tarefa da filosofia). Toda sociedade é fundamentada em algum tipo de visão da existência. Então é natural que as religiões tenham sido historicamente a base para as sociedades e que, por isso mesmo, possuam uma influência duradoura. Mas não segue que as religiões possuem valor intrínseco, só por serem religiões. E por muito favor: não considere o positivismo e o comunismo como “luzes da razão”. (??!!)

Existem formas mais concretas e reais de se obter força, ânimo, etc, que através do transcendente. Já se foi dito o que significa altruísmo em moral. Uma moral altruísta só pode ser superior a uma moral egoísta no que se refere a uma coisa: auto-destruição. Mesmo que se queira, é impossível realizar o bem a outras pessoas sem considerar primeiro e dar maior prioridade aos próprios interesses, às próprias necessidades, ao próprio bem! O que só uma moral egoísta pode legitimar. Uma moral altruísta é impossível de ser praticada consistentemente e por isso, muito normalmente, conduz a sentimentos de culpa e auto-rebaixamento: em afirmações tais como “não sou bom demais (sic) para ser altruísta.”

Um indivíduo pode ficar doente e desamparado na velhice. Mas não segue daí que ele deve defender altruísmo em moral, e sim que ele deve utilizar durante a juventude todos os meios e recursos disponíveis a fim de minimizar tal situação, caso venha a acontecer no futuro. Não existe egoísmo sem independência e vice-versa.
breno_2#43
Mais importante que saber quais crenças ajudavam às vítimas dos campos de concentração nazistas, é saber que se os filósofos alemães tivessem defendido e ensinado o direito moral do indivíduo de viver para si mesmo, o nazismo não teria existido. Mas não era isso o que Kant, Fichte, Hegel, Schopenhauer, Marx defendiam e ensinavam (em certos pontos Nietzsche foi bastante mal compreendido, mas também tem sua parcela de responsabilidade). A filosofia controla os rumos da humanidade.

Além do mais, é absurdo estudar a moral nesses termos porque a vida humana não é um eterno campo de concentração. De passagem, é interessante observar que a crença em “algo superior” (seja lá o que for, inclusive o Estado), em uma outra vida, em abnegação e assemelhados é mais comum em pessoas que acreditam que a conquista de valores e felicidade são impossíveis nesta vida, mais ou menos como os internos de um campo de concentração.

Existem maneiras melhores de ajudar a si mesmo que a crença no transcendental.
breno_2#44
Sinto muito pelo “sentimento vago”. Agora, amor ao próximo é algo (muito) condicional. Filantropia é de pouca relevância moral e faz bem ressaltar que a filantropia não pode ser utilizada como um argumento para defender altruísmo (não estou dizendo que você pretendeu isso) porque ela só tem grande importância moral quando já se é altruísta, o que seria um argumento circular: “Altruísmo é filantropia, portanto é bom.”, “E por que a filantropia é boa?” “Porque é altruísta.” Já desprendimento e abnegação são inegavelmente maléficos ao indivíduo que os pratica.

Quando você fala em concepção científica de altruísmo, imagino que esteja se referindo a uma concepção filosófica, ou a uma concepção moral. Nesse sentido, não existe diferença fundamental entre a sua definição e a de Ayn Rand, a não ser que a dela deixa mais claras as conseqüências para a vida do indivíduo. Não vejo como afirmar que Ayn Rand se apropria do termo e lhe dá um sentido particular. Para mim, o altruísmo a que você se refere é o mesmo ao que ela se refere. O que ela faz, no meu entendimento, é ir à essência da questão, das implicações práticas, principalmente políticas, enquanto a maioria das pessoas se restringe aos “sentimentos vagos” de bondade e consideração ao próximo que me referi. Mas bondade, consideração, generosidade, solidariedade, etc, não são exclusividade de uma moral altruísta.
breno_2#45
Neste debate, se existe um termo cujo significado é corrompido, ou no mínimo muitíssimo limitado, esse termo é egoísmo. O significado que o uso popular dá ao termo egoísmo é sim um boneco de palha. Pois a defesa dos próprios interesses não exclui a consideração a outros seres humanos, até porque em inúmeras situações esses interesses convergem e o convívio social enriquece a vida e aumenta as suas possibilidades. E só dentro de um contexto onde os indivíduos são moralmente livres para se importarem apenas com os próprios interesses, para seguirem o seu próprio julgamento, se é possível a prática de bondade, generosidade ou solidariedade verdadeiras. Só nesse contexto esses termos possuem significação real pois não estão necessariamente vinculados a um dever.

Não há no texto o tipo de erro cognitivo que você citou.
breno_2#46
E quanto aos fins? Esforço, por si só, não é um padrão válido para medir o valor de uma ação ou procedimento humano. Se um executivo está em São Paulo e têm um compromisso no Rio às oito da manhã do dia seguinte, ir a pé requer maior esforço que ir de avião mas não é um procedimento melhor. Você afirmou uma idiotice. E por que isso aconteceu? Porque você manteve a premissa implícita de que sacrifício é uma virtude. A culpa da idiotice foi o seu altruísmo.

David
Sem mais nem menos você retornou ao começo da discussão: o que você chama de “os governos ateus” são governos baseados em altruísmo. Dê uma olhada nos outros posts antes de querer contestar isso.
adermir#47
Breno:

Estive fora de combate por uns dias e ando super ocupado para responder, mas espero voltar em breve para continuar a conversa.
breno_2#48
Ok. Quanto ao seu penúltimo post, não há dúvida de que uma sociedade que não se baseia em fé religiosa também pode ser injusta, mas não é essa a questão. Em nenhum momento o texto afirma ou implica que injustiça é exclusividade das sociedades fundamentadas em religião, e isso já está implícito no meu trecho. Uma legislação é válida quando visa a proteção dos direitos individuais, quando visa a proteção do direito moral do indivíduo de viver para si mesmo.
breno_2#49
O ad hominem é um argumento que ataca a pessoa que afirma ao invés da afirmação. É um tipo de evasão, sem dúvida. Mas nem toda evasão é um ad hominem. Seguem links para mais referências sobre o ad hominem: [http://www.don-lindsay-archive.org/skeptic/arguments.html#hominem] e [http://str.com.br/Scientia/falacias2.htm#attack], [http://pt.wikipedia.org/wiki/Argumentum_ad_hominem]. Em nenhum momento toquei na questão de separar o homem da obra.

Já seria suficientemente absurdo afirmar que a questão da existência está encerrada, mas ainda pior é condenar a humanidade a depender dos filósofos que você citou. A visão de Agostinho do homem é repugnante. Sartre, não bastasse o foco no mal-estar, na náusea, chega a considerar o nada como um existente especial(!), anterior ao ser, à realidade. Mas nada vem do nada, principalmente a existência. Kierkegaard coloca a fé acima da razão (assim como Agostinho) e em certos aspectos mais parece um caso de ajuda psicológica que de filosofia. De todos os “grandes” filósofos, escolher justo esses três para encerrar a questão da existência! Por que não Aristóteles, que tinha uma visão elevada do potencial do homem? Ou mesmo Aquino – o pai do Renascimento e um cristão? Mas se o objetivo era declarar guerra à vida do homem a escolha é justificada (apesar de que seria mais prático utilizar armamento militar do que as idéias daqueles três – que destroem mais lentamente).

Ainda mais difícil para as pessoas nas situações que você descreveu ou, diga-se logo, para qualquer pessoa, é viver para servir os outros. Até onde nós podemos afirmar com certeza, a existência humana é finita. Cabe às pessoas que afirmam existir vida após a morte provar isso, mostrar evidências válidas disso, tarefa que você mesma considera impossível.
breno_2#50
Também não há grande surpresa em observar que a psicanálise não resolveu o problema humano (seja lá o qual for). E daí que Freud tenha rejeitado altruísmo? É por esse detalhe que a psicanálise falha? Esse é um bom exemplo de “invocar um argumento irrelevante para não enfrentar os argumentos do ex adverso”. A suposta relação entre La Vey e as idéias de Ayn Rand é uma mentira muito difundida e ajudada pelo próprio, que é um tipo entre aqueles que Ayn Rand mais desprezava: o subjetivista que cultua os próprios caprichos. Quanto ao Templo de Set... bem... aí a discussão se torna mesmo pura perda de tempo...

Egoísmo em qualquer lugar do mundo é o foco nos próprios interesses. E não existem tais coisas como dualidade do ego em “divino” e “humano” ou dualidade da mente em “objetiva” e “subjetiva”, etc. Nem confunda viver para si mesmo com viver isoladamente. Viver para si mesmo quer dizer viver de acordo com o próprio julgamento, o que a prática consistente do altruísmo torna impossível e, obviamente, viver de acordo com o próprio julgamento não exclui consideração a outros indivíduos (como já tinha afirmado em post anterior).

PS: Para efeito de comparação, veja a visão do homem e da existência da Srª Ayn Rand aqui[http://aynrandlexicon.com/lexicon/man.html], aqui[http://aynrandlexicon.com/lexicon/benevolentuniverse.html] e aqui[http://aynrandlexicon.com/lexicon/happiness.html].

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