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Como a Igreja Católica construiu a Civilização

Iniciado por marcos_14 em 28/11/2008 · 85 mensagens · página 2 de 2

albertoleopoldo#51
É óbvio que pensadores como Roger Bacon, Buridan etc. não teriam "sido o que foram" (ou faltaria às suas filosofias elementos fundamentais para que tenham sido tais quais as conhecemos) sem a influência aristotélica no âmbito intelectual da Europa. Mas tampouco seriam o que foram não fosse a atmosfera cristalinamente cristã da mesma Europa. Tampouco poderíamos excluir o influxo do neoplatonismo e do pitagorismo através de milenar e contínua tradição filosófica. O fato, aliás, é que a Filosofia helênica, de matriz platônica ou aristotélica, mostrou desde o princípio uma forte congenialidade com o Cristianismo, a ponto de um Clemente, no 2o. séc. da era Cristã, declarar que o que o Antigo Testamento fora para os judeus, a Filosofia foi para os gregos (uma preparação para o Evangelho).

O fato de a filosofia platônica e a filosofia aristotélica terem florescido fartamente junto à Cristandade (de um modo que não logrou fazer em nenhum outro ambiente religioso/cultural) atesta essa mesma afinidade. E mais: mesmo os mais refinados entre os pagãos foram incapazes, no ápice de seu desenvolvimento, de realizar uma tal síntese entre pensamento filosófico e avanço técnico-científico, que foi a base da constituição da Ciência moderna.

Depois, repito: a influência de Aristóteles já veio encontrar uma Europa próspera e uma cultura altamente sofisticada e fértil. Desde Silvestre II, e até antes, no período carolíngio, a cultura européia experimentava um progresso acelerado.
albertoleopoldo#52
Quanto ao parco desenvolvimento econômico dos primeiros séculos de Cristianismo, já mencionei: a Europa era palco de uma carnificina ininterrupta, o caos social reinava devido às constantes invasões bárbaras, o poder temporal na Europa estava longe de ser dominado pelos cristãos (mesmo no Império, após Constantino - que, aliás, somente reconheceu ao Cristianismo a mesma proteção que era dada ao paganismo oficial - a coisa estava longe de ser tranqüila: vide Juliano, o apóstata). Não havia a menor estabilidade institucional para se consolidar um progresso social (não só econômico, como também humanitário) nítido. Evidentemente, a intelectualidade cristã de então não dispunha dos meios para construir uma sociedade economicamente sadia em tal ambiente (lembrando, aliás, o que temos comentado desde o início: embora o avanço material, econômico da civilização ocidental se possa creditar em larga medida ao sucesso do Cristianismo, não se trata do único, ou sequer do mais importante, componente de uma Civilização - a menos que se o assuma dogmaticamente).

Acontece que onde havia núcleos de desenvolvimento intelectual e tecnológico, e ao mesmo tempo se prezava pela preservação das fontes culturais do Ocidente, foi justamente em torno dos mosteiros, e sob forte estímulo do Papado. Cabe notar que o Cristianismo nunca menosprezou as grandes realizações da antiguidade pagã e da cultura árabe, por exemplo, e manteve um diálogo extremamente produtivo com os grandes pensadores desses povos. Eu não consigo ver como isso poderia ser enxergado como uma fraqueza do Cristianismo.

É claro que a criação da Civilização do Ocidente não foi uma criação ex nihilo. É claro que teve importantes elementos de síntese, mas mesmo aqui de uma síntese que somente a Cristandade, sob orientação da Igreja Católica, conseguiu realizar.
albertoleopoldo#53
Cumpre sempre lembrar que jamais se poderia atribuir a grandeza do Ocidente exclusivamente à sua prosperidade econômica e aos avanços técnico-científicos que se tornaram possíveis desde as suas bases.

O que realmente fez a grandeza do Ocidente foi o fato de, possibilitando esse mesmo avanço técnico, econômico e científico, ter-se construído sobre o equilíbrio de uma base moral sólida (que impediu que tragédias humanitárias como o exclusivismo tribal, o aborto, o infanticídio, a pedofilia, a eugenia, o abandono das crianças e dos idosos, a brutalização da mulher, a exaltação da vingança e da tirania, se generalizassem) e de uma cultura que soube valorizar simultaneamente a intelectualidade e o trabalho manual, o esplendor das artes e a modéstia nos costumes, de tal maneira que o rompimento de um elo na cadeia vem mostrando os mais temíveis resultados (como vemos nas tiranias e nas grandes guerras do séc. XX, na ressuscitação do pensamento eugenista e na dessacralização da vida humana em nossos dias, que em riqueza econômica e progresso técnico supera todas as épocas de todas as civilizações que já passaram pela Terra).
marcos_14#54
Breno> Sinto muito, Marcos. Mas sua alegação de que ateus normalmente são desonestos, a fim de rejeitar ideías contrárias às religiões sem necessidade de discussão, é puro Wishful Thinking.

Ninguém rejeitou as "idéias" contrárias ao cristianismo contidas no artigo, ainda, apenas por este conceito formado acerca dos ATEÍSTAS.

Volte ao começo, e veja lá que eu menciono que ele deve ser lido e examinado.

Dito isto, percebam que houve uma descrição distorcida da realidade (não rejeitei idéias, nem me referi à simples "ateus", mas à "ateístas" -- os ateus militantes).

Quero acreditar que Breno se enganou e que não está agindo desonestamente.
marcos_14#55
Ah, e para complementar, aqui vai uma "respostinha rápida" e certeira do G. K. Chesterton:
http://www.permanencia.org.br/revista/Pensamento/chesterton4.htm
Vale por algumas teses de douturado, livros e "papers higiênicos" que temos visto ou ouvido falar.
breno_2#56
A influência de Aristóteles foi a causa predominante do Renascimento medieval. Agora, em relação ao comprometimento à razão do mundo ocidental - o qual foi base indispensável para o desenvolvimento científico e tecnológico - quis dizer que o mesmo é herança do elemento grego da nossa cultura e, primordialmente, de Aristóteles, no sentido de razão aplicada à observação. O contexto aqui é a negação da tese de Stark, que atribui essa herança ao primordialmente ao Catolicismo do início do período medieval. Em todo caso, trata-se da análise dos essenciais filosóficos sem os quais não é possível realizar avanços científicos, os quais são, de fato, caracterísitica marcante do Ocidente; mas não de uma análise abrangente de todos os fatores (incluindo históricos) responsáveis pela formação da Civilização Ocidental.

O ponto aqui não é negar ou dar um contorno exclusivamente negativo ao papel da Igreja Católica na formação do Ocidente. É verdade que essa instituição foi a única a ter o poder de estabelecer ordem e trazer unificação após a queda do Império Romano, e parece-me inegável que tal capacidade contribuiu para a formação do mundo ocidental. Mas, no que diz respeito aos essenciais filosóficos, não vejo como o catolicismo medieval conduziria o ocidente à revolução industrial e às sociedades ocidentais como as entendemos hoje. A influência de Agostinho não o permitiria até ser confrontada por um poder intelectual superior.

Considerando pensadores como Roger Bacon, Alberto Magno, Oresme, etc, qual elemento desempenhou papel mais importante, dentro de uma perspectiva histórica das mudanças culturais: o Cristianismo ou o Aristotelismo? Era dentro dessa perspectiva que a discussão vinha sendo feita. O ambiente cristalinamente cristão continuaria, mas sem o Aristotelismo não haveria o mesmo apreço pelas ciências.
breno_2#57
Eu diria que o principal elemento diferenciador do Cristianismo em relação às outras culturas e religiões foi o aspecto individualista, no que diz respeito à salvação como um empreendimento individual, o de maior importância, e ao alcance de qualquer indivíduo através de seus próprios esforços (esse último ponto em contradição à doutrina da predestinação de Agostinho). Apesar de errar no que diz respeito aos valores que devem ser perseguidos, o Cristianismo acerta na abordagem – o indivíduo é o responsável pela própria salvação – e seria extramente contraditório a manutenção de tal posicionamento moral sem alguma liberdade política (e liberdade política é condição indispensável para o progresso social). Quanto ao relacionamento entre Cristianismo e Platonismo, esse é evidente, mas é um aspecto negativo da cultura ocidental.

Por qual padrão se pode classificar a Europa do séc. XII como próspera e, principalmente, culturalmente sofisticada e fértil (salvo em comparação ao seu estado no início do período medieval)? A Europa só chegaria a isso, de maneira significante, séculos depois. É sabido que os mosteiros concentravam o conhecimento e parece-me verdadeiro que foram responsáveis por certas inovações do período. Mas não se pode dizer que eles representavam as condições sociais da Europa e, por isso mesmo, os avanços do período só podiam ocorrer "justamente" no mosteiros.

É bom ressaltar que, o foco do livro de Stark, e principalmente da crítica de Bernstein, é em Filosofia e seus fundamentos, e sobre quais fundamentos filosóficos, em termos essenciais, o mundo Ocidental tornou-se o que ele é hoje.
breno_2#58
[Philosophy]”O erro fundamental no argumento de Stark, a má concepção que baseia e possibilita sua interpretação errônea da história, é a sua falta de entendimento da natureza da razão. Stark defende que o Catolicismo é inerentemente racional, portanto capaz de criar significativo avanço tecnológico e científico (...) Ele afirma que os ‘teólogos medievais empregavam muito maior fé na razão do que a maioria dos filósofos hoje’. Foi a tentativa Cristã de entender a natureza de Deus que estabeleceu o precedente para “uma teologia de dedução e inferência...” A base do comprometimento Ocidental à razão foi estabelecida porque ‘desde os primeiros dias teólogos Cristãos acreditavam que a aplicação da razão transmite um entendimento cada vez mais preciso da vontade de Deus.’

Para entender o erro profundo cometido aqui, e compreender a natureza real da razão, devemos nos referir aos pontos básicos em Filosofia.

A Filosofia busca responder cinco maiores questões: Qual é a natureza da realidade? Como – por quais meios – o homem adquire conhecimento dela? Qual é a natureza do homem? O que é o bem - e o que é o mal? Qual é a sociedade ideal? A religião, como uma forma particular de filosofia, é uma tentativa de responder essas questões.

Em consideração à realidade, a essência da religião é a crença em dualismo metafísico – isto é, dois mundos: o universo natural e outro mundo transcendente, mais importante que aquele. Desde que não existem meios baseados na observação que dêem acesso a um mundo ‘superior’, fé nas verdades infalíveis de um texto revelado fornece a base da cognição. A famosa frase de Agostinho de que crença é a base necessária do conhecimento representa a abordagem religiosa. Escreve um escritor: ‘O uso principal da razão para o maduro Agostinho é inquestionavelmente entender aquilo em que já se acredita’ (Adrian Hastings). O homem é um bípede metafísico: sua alma pertence ao mundo transcendente e seu corpo a este. (...)”
breno_2#59
”O bem é colocar Deus acima e em primeiro lugar no próprio panteão de valores, e inquestionavelmente obedecer a todos os Seus mandamentos, o mal é desobedecê-Lo. Uma sociedade ideal é teocrática (...)

Agostinho (354 - 430) foi a principal influência e porta-voz intelectual do período (medieval antigo). Sua filosofia, embora complexa em alguns aspectos é, em termos essenciais, muito simples: O conhecimento requer a aceitação de autoridade – primeiro de Deus, depois da Igreja. A razão é, no máximo, uma faculdade suplementar, talvez capaz de explicar aquilo que se é acreditado anteriormente, talvez não. Apenas Adão possuía livre-arbítrio. Seus descendentes são grotescamente e irremediavelmente pecaminosos, incapazes de salvarem-se a si mesmos; apenas alguns seletos serão salvos por um rígido processo de predestinação. O pecado é transmitido através do intercurso sexual, que é mal e deve ser evitado, exceto para propósitos de procriação – e, mesmo assim, não dever ser apreciado. Embora a criação de Deus seja inerentemente regida por leis, milagres – violações das leis da natureza – ocorrem repetidamente; diversos homens levantaram-se dos mortos, por exemplo. O orgulho é um pecado mortal, especialmente orgulho intelectual – comprometimento ao uso da própria capacidade racional para intrometer-se nos mistérios do universo de Deus. A ciência é condenada como ‘luxúria dos olhos’."
breno_2#60
”Tal sistema filosófico está em profundo conflito com as bases intelectuais da ciência. A precondição da ciência é a visão de que a natureza é fascinante, importante, superlativamente valiosa – uma convicção logicamente congruente com o entendimento secular de que a natureza é a realidade. Essa visão é incompatível com a crença cristã de que este mundo é rebaixado e deficiente, enquanto o mundo ideal se encontra além da compreensão terrena do homem. A ciência começa com a observação dos fatos, não com os pronunciamentos infalíveis de um texto revelado. Além do mais, a ciência (especialmente ciência aplicada e tecnologia, seus consequêntes) se firma na premissa de que seres racionais são (pelo menos potencialmente) bons, de que a vida terrena do homem é valorosa, de que o conhecimento tanto é atingível como desejável, e de que os homens são merecedores de padrões de vida elevados. A idéia de que o homem deve buscar avanço científico é incompatível com a visão do homem como, nas prolíficas declarações de Agostinho, “falho ... deformado ... sórdido ... sujo ... e ulceroso,” totalmente (e compreensivelmente) condenado à perdição por uma deidade ultrajada. Stark convenientemente ignora esses pontos.

Agostinho, filosoficamente um cristão neoplatônico, glorificou o centro da visão de mundo cristã-platônica: o dualismo metafísico, a supremacia de um mundo transcendente, a estatura diminuída deste, a baixeza ignóbil da existência corporal do homem. Tais fundamentais levam necessariamente à teologia (o estudo de Deus) como a disciplina cognitiva dominante e à desvalorização da ciência e da filosofia secular (o estudo da natureza e da vida terrena do homem).”
breno_2#61
"Nisso está a causa raiz da tragédia da Idade Média – e do erro fundamental de Stark em atribuir à teologia Cristã o comprometimento do Ocidente ao pensamento Racional. A razão é uma metodologia baseada em observação. Ela não começa com crenças já aceitas por preconceito, e então prossegue “provando” sua verdade. Seja ao estudar o homem, o funcionamento interno de sua mente, os germes, as rochas, os insetos, os átomos, os longínquos alcances do espaço intergaláctico, ou qualquer outra coisa, a razão segue um método de pensamento lógico a partir da observação sensorial, que incorpora a famosa Lei da Não-Contradição de Aristóteles: Nenhum existente pode ser x e não-x ao mesmo tempo e no mesmo aspecto.

Mas não há e nem pode haver qualquer observação sensorial de uma dimensão além desta (...) Teólogos e religiosos em geral, começam com uma premissa fantasiosa e então seguem pela aplicação rigorosa de lógica formal a fim de alcançar suas implicações. O próprio Stark aponta que ‘teologia consiste em raciocínio formal a respeito de Deus.’ Isso é admiravelmente exato. Os teólogos, começando com um desejo formulado em suas próprias mentes, analisam as características dessa criação pela aplicação rigorosa dos princípios de lógica formal – isto é, dedutiva.

Mas o método da razão, adequadamente entendido, enfaticamente não é o emprego de lógica formal a fim explicar as conseqüências de premissas arbitrárias. O raciocínio consiste, acima de tudo, em observação seguida de indução. Lógica dedutiva fornece conhecimento apenas quando aplicada a premissas originadas ultimamente em fatos observacionais."
breno_2#62
”Na história da filosofia, o termo ‘racionalismo’ tem dois significados distintos. Em um sentido, significa o comprometimento sem brechas ao raciocínio do pensamento em contraste a qualquer forma de rejeição irracionalista da mente (...) Porém, em um sentido mais estrito, o racionalismo se opõe ao empirismo em relação à falsa dicotomia entre o comprometimento à assim chamada razão ‘pura’ (i.e. a razão separada da realidade perceptual) e a uma exclusiva dependência da experiência dos sentidos (i.e. observação não seguida de inferência). Racionalismo, neste sentido, é um comprometimento à razão construído como dedução lógica a partir de pontos iniciais não baseados em observação e uma desconfiança da experiência dos sentidos (ex: o método de Descartes). Empirismo, de acordo com esta dicotomia incorreta, é a crença que a experiência dos sentidos fornece conhecimento factual, mas qualquer inferência além da observação é uma mera manipulação de palavras ou símbolos verbais (ex: a abordagem de Hume). (...)

Teologia é a expressão mais pura de racionalismo no sentido de empregar dedução lógica a partir de premissas não baseadas em fatos observáveis – dedução sem referência à realidade. O assim chamado ‘pensamento’ envolvido aqui é puramente formal, sem base observacional, destituído dos fatos, separado da realidade (...) Esses pontos filosóficos fundamentais se opõem pesadamente contra o argumento de Stark, mas ele simplesmente os ignora. (...)

Racionalidade inclui - de fato começa com – um respeito inviolável pelos fatos. Mas (...) a identificação dos fatos, tão importante para Aristóteles e secularistas modernos, era considerada de pouco valor pelos homens da era medieval. Para eles, os requerimentos da salvação eram de importância vastamente superior aos fatos da natureza (...)”
[destaque meu]
breno_2#63
”O maior filósofo da história, o homem cujo método preeminentemente incorporou racionalidade baseada em observação, foi Aristóteles. Independente de seus erros, as extraordinárias realizações de Aristóteles significantemente avançaram o entendimento da natureza pelo homem, o seu método para compreender suas propriedades e, portanto, sua capacidade para se engajar em ciência. É impossível reconhecer a enorme falsidade da afirmação de Stark de que o catolicismo medieval, e não a cultura grega, foi predominantemente responsável pelo comprometimento ocidental à razão, sem considerar o trabalho e a influência de Aristóteles.

Para Aristóteles, a realidade era fundamentalmente composta de matéria formada, a qual ele chamava ‘ousiai’ ou seres primários (i.e. entidades); a realidade não era, portanto, nem um agregado de impressões discretas dos sentidos, nem uma dimensão espiritual superior, mas o próprio reino da natureza (...) O estudo virtualmente de qualquer assunto, de plantas à política, começa com a observação cuidadosa de uma ampla faixa de fatos relevantes (...) Os seres humanos ao realizarem o seu potencial para a conduta e pensamento racionais, poderiam aspirar, e realizar, excelência, incluindo na tão importante esfera moral. O homem poderia, portanto, ser orgulhoso – merecidamente – e geralmente feliz através do curso de sua vida.”
breno_2#64
”Ao contrário dos medievais, o pensamento de Aristóteles era completamente fundamentado em observação, em naturalismo, em racionalidade – não em dedução racionalista a partir de premissas arbitrárias. Se termos modernos puderem ser aplicados não anacronicamente aos antigos, a visão de mundo dele é predominantemente, virtualmente exclusive, secular. Seus interesses são a natureza, a vida e o homem – não o sobrenatural, o pós-vida e Deus (...) Ele é o coroamento do comprometimento grego ao estudo da natureza e da ciência. Muito da filosofia grega pré-aristotélica – Thales, Anaxímenes, Heráclito, Demócrito – era uma tentativa de entender as difíceis questões inerentes à abundante multiplicidade da natureza (...) Aristóteles, o lógico seminal, trouxe tanta racionalidade apaixonada a esse trabalho quanto os seus antecessores – mas, no seu zelo por observação, deixou de lado o racionalismo daqueles (...)

E quanto aos seus sucessores do período medieval? Embora dificilmente um especialista medieval, este escritor (o próprio Bernstein) não conhece qualquer cientista da Idade Média anterior a Alberto Magno no século XIII – um período de mais de seiscentos anos – que adotasse o primoroso método de Aristóteles para o estudo da natureza (...) Antes de Alberto, por cerca de 500 anos, a figura ‘científica’ dominante da Europa medieval foi Isidoro de Sevilha (560 – 636), cujo livro, as Etymologies, ‘uma miscelânea ... de informação e desinformação ... foi a autoridade primária da Idade Média antiga’ (W. T. Jones). Apesar disso, ele foi, por séculos, citado como a autoridade líder em ciência e, como Jones observa, ‘a ciência do século XII tinha avançado pouco além de Isidoro de Sevilha’.”
breno_2#65
”Stark sabe, é claro, mas pouco menciona que a preponderância dos escritos de Aristóteles esteve perdida no Ocidente durante o período dos séculos V ao IX – e que, não por acaso o Renascimento Medieval dos séculos XII e XIII coincidem grandemente com a recuperação da plena obra Aristotélica dos grandes centros de aprendizado Islâmico na Espanha. É um truísmo histórico que os significantes avanços intelectuais empreendidos por Alberto (Magno), seu brilhante estudante Tomás de Aquino, e seus pares no início do período escolástico, estavam sob a monumental influência de Aristóteles.

Mesmo hoje, a influência profundamente beneficente de Aristóteles não é completamente apreciada. Não foi meramente (ou mesmo primariamente) os escritos de Aristóteles que estiveram perdidos durante a Idade Média antiga; foi seu espírito, sua abordagem, sua orientação, seu caso de amor cognitivo com este mundo. Se alguém estuda os escritos de Aristóteles – e a história deles sendo perdidos e, séculos mais tardes, redescobertos pelo homem ocidental – vê claramente o relacionamento causal recíproco e enormemente positivo entre a recuperação dos trabalhos de Aristóteles e o Renascimento Medieval.

Depois de séculos intermináveis com a razão servindo de criada para a fé – e da filosofia secular e da ciência dormentes – os homens dos séculos XII e XIII estavam famintos por maior conhecimento da natureza e dos avanços práticos que tal conhecimento proporciona. E quem, em toda a históra da humanidade até aquela era, possuía um conhecimento tão amplo da natureza quanto Aristóteles?”


Não termina aí. Bernstein continua a comentar outros erros de Stark, principalmente o já mencionado de atribuir o comprometimento à razão do Ocidente como um legado do Cristianismo do início do período medieval.
marcos_14#66
Estudar a teologia dos 7 pecados capitais exposta pelo Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, mais todas as aulas do Luiz Gonzaga de Carvalho Neto "Introdução ao pensamento filosófico" e "As religiões do mundo".

E isso é só o começo. Antes de mais nada, muita avaliação e reflexão honesta sobre si mesmo.

Boa sorte, Breno!
breno_2#67
"Muita avaliação e reflexão honesta sobre si mesmo".

Igualmente para você, Marcos. Além disso, alguma pesquisa sobre argumento ad hominem.
marcos_14#68
A tua arrogância e vanglória te impedem de pensar e avaliar a possibilidade de que eu já tenha feito isso, Breno. Foi justamente a atitude que me fez sair do ateísmo.

Ou seja, não fosse por isso, eu estaria fazendo coro contigo.
breno_2#69
"A tua arrogância e vanglória te impedem de pensar e avaliar a possibilidade de que eu já tenha feito isso," Marcos. "Foi justamente a atitude que me" levou ao ateísmo.
marcos_14#70
Hehehe! E o que você acha que me levou do catolicismo ao ateísmo, Breno?

Por já ter ido e ter voltado que lhe digo: você está enganado! Você está vendo as coisas exatamente do jeito que você quer. Por isso que o ponto de partida fundamental é conhecer bem a si mesmo.

Desejo sorte pra ti. Acho que você consegue! Saudações.
tiago_5#71
A Igreja Católica construiu a civilização ocidental e o ateísmo a destruiu. [3]

Muito interessante os 2 livros, com certeza irei comprá-los, obrigado pela dica!
august#72
Ei, mas o tópico não era sobre a contribuição da Igreja Católica para a conformação do ocidente?

Pedão, mas não entendi p q foi parar na discussão entre os que sentem seres divinos e os que não sentem.
albertoleopoldo#73
Breno,

Desculpe, mas você está simplesmente insistindo em um ponto insustentável, que já foi respondido praticamente à exaustão.

Mas vamos descer aos detalhes.

Repito: a influência aristotélica não poderia ser a influência determinante no desenvolvimento técnico-científico do Ocidente, e por várias razões. O próprio Aristóteles explicitamente negava, por exemplo, que a compreensão filosófica da realidade pudesse levar a inovações práticas, tinha a Filosofia por "inútil" (e por isso mesmo a mais nobre das atividades), e declarava a inadequação de um ferramental matemático para o estudo da Natureza. Além do que, o desenvolvimento técnico-científico (lado a lado com o desenvolvimento sócio-econômico) engrenara um ritmo acelerado e progressivo pelo menos desde os finais do séc. VII. Antes mesmo disso, diversas inovações técnicas, especialmente relacionadas à produção agro-pecuária, vinham sendo desenvolvidas nos mosteiros e aplicadas a partir destes. A própria recepção de Aristóteles só tomou a forma que teve porque o ambiente que encontrou era apropriado. Perceba-se que os árabes, não obstante a sofisticação da sua cultura (incluindo muitas relevantes inovações técnicas e grande desenvolvimento matemático), conheceram Aristóteles desde antes que os europeus, e não realizaram uma revolução técnico-científica. Os próprios gregos tampouco encontraram em Aristóteles (e, repito: nem poderiam) a justificativa para semelhante empresa.
albertoleopoldo#74
Nas palavras do grande cientista e filósofo (além de portador de imensa erudição histórica) A. N. Whitehead - que não era católico, como tampouco Stark o é -, em A Ciência e o mundo moderno:
"Em particular devemos a são Bento o fato de os mosteiros terem sido casas de agrônomos práticos, bem como de santos, de artistas e de sábios. A aliança da ciência com a tecnologia, por meio da qual o saber entrou em contato com os fatos irredutíveis e inflexíveis [referência a uma citação de William James], deve muito à inclinação prática dos primeiros beneditinos. A ciência moderna deriva de Roma, bem como da Grécia, e esse estilo romano explica seu ganho em uma atividade de pensamento mantida em estreito contato com o mundo dos fatos".

Esse desenvolvimento humano, social e técnico da Europa, de forma mais marcante no chamado "renascimento" do séc. XII, é coisa notória, que nenhum historiador sério se permite ignorar. Em termos puramente materiais, somente após a revolução industrial pôde a Europa presenciar um maior florescimento (este mesmo florescimento, cabe lembrar, foi muito provavelmente retardado pelas convulsões sociais que o continente passou a vivenciar a partir do século XV).
albertoleopoldo#75
Claro está que o tal Bernstein é um semi-analfabeto (se lhe concedemos tal dignidade) em matéria de Filosofia. Se você mesmo tivesse um pouco mais de estudo no assunto, se envergonharia de prestar assentimento às bobagens que ele fala, por exemplo, acerca de Sto. Agostinho. Dizer que esse cara é "especialista medieval" é certamente uma piada de mau gosto.

Vamos olhar para esse trechinho "precioso":
" Apenas Adão possuía livre-arbítrio. Seus descendentes são grotescamente e irremediavelmente pecaminosos, incapazes de salvarem-se a si mesmos; apenas alguns seletos serão salvos por um rígido processo de predestinação. O pecado é transmitido através do intercurso sexual, que é mal e deve ser evitado, exceto para propósitos de procriação – e, mesmo assim, não dever ser apreciado. Embora a criação de Deus seja inerentemente regida por leis, milagres – violações das leis da natureza – ocorrem repetidamente; diversos homens levantaram-se dos mortos, por exemplo. O orgulho é um pecado mortal, especialmente orgulho intelectual – comprometimento ao uso da própria capacidade racional para intrometer-se nos mistérios do universo de Deus. A ciência é condenada como ‘luxúria dos olhos’."
albertoleopoldo#76
1. Sto. Agostinho (após sua conversão) jamais defendeu a doutrina da predestinação. Pelo contrário, dispendeu imensos esforços para conciliar racionalmente a doutrina do livre arbítrio com a doutrina da Graça (v. o seu famoso diálogo, Do Livre Arbítrio), conciliação esta que sempre foi um sólido pilar do Catolicismo.

2. Sto. Agostinho nunca afirmou que o pecado é transmitido pelo intercurso sexual e que este é essencialmente mau. Pelo contrário, chegou a escrever um opúsculo chamado Do Bem do Matrimônio contra os hereges jovinianos que defendiam que o fosse. O único laço, tênue e frouxo, que essas alegações mantêm com a realidade, é que Sto. Agostinho não entreviu resposta para o problema da origem da alma, de modo a que não excluísse, junto com a hipótese da criação individual de cada alma, a do traducianismo, segundo a qual a alma é transmitida aos filhos pelos pais, para explicar a transmissão do pecado original (embora destacasse a dificuldade, nela envolvida, relacionada à conservação da personalidade individual). Claro, como os homens são gerados através do intercurso sexual (já que não havia então técnicas de inseminação), este seria o meio de transmissão (segundo o traducianismo, que Agostinho nunca defendeu).

3. A existência de milagres é assunção comum do pensamento cristão, seja em Agostinho, seja em S. Tomás, seja em Ockham, seja em Descartes, seja em Newton, seja em Pasteur, em Heisenberg, em De Broglie, em Dobzhansky. A própria definição de "milagre" pressupõe a existência de um curso regular da Natureza. O ponto é absolutamente irrelevante.

4. De fato, o orgulho é um pecado mortal, e não somente para Agostinho, mas para a inteira Cristandade. Evidentemente o orgulho intelectual é uma instância do orgulho tout court. Mas a respeito da visão agostiniana da "ciência", convém iniciar outro ponto.
albertoleopoldo#77
5. A Ciência em Agostinho: o grande santo hiponense de fato falava numa "ciência", amparada somente na chamada ratio inferior, que é a capacidade humana de apreensão dos fatos empíricos e na sua catalogação e classificação segundo critérios advindos em última instância de uma ordem mais elevada (a ratio superior), responsável pelo conhecimento das leis eternas que regem o mundo, mas à qual aquela, sozinha, não pode ascender. Uma tal "ciência", ordenada somente pelo desejo de apropriar-se dos dados da experiência sensível (primeira ordem do conhecimento), quando se faz exclusivamente em causa própria e sem a posição em perspectiva conforme às faculdades mais elevadas (que levam, ultimamente, a Deus) é o que se chama "vã curiosidade", e em nenhum pensador cristão você encontrará sua defesa. Uma condenação, aliás, bem mais peremptória a uma tal espécie de "ciência", encontrá-la-emos em Platão, por exemplo quando na mais que surrada narração da alegoria da caverna (livro VII da República), quando menciona as vãs honrarias com que seriam premiados os indivíduos que com mais agudeza distinguissem as sombras à sua frente, fossem mais hábeis em dizer quais tendem a se acompanhar mutuamente, predizer a ordem em que se sucedem etc. Não só Agostinho não vai tão longe, como confere plena legitimidade ao conhecimento adquirido por meio dos sentidos (que através da faculdade imaginativa compõe nossos conceitos das coisas) e chega a dizer que essa mesma ciência inferior, desde que harmonicamente situada na sua posição hierárquica própria, cumpre uma função essencial na obtenção da verdadeira sabedoria que culmina no conhecimento de Deus.

Uma tal organização hierárquica do saber, e a ordenação do conhecimento pela ética, especialmente orientado em conformidade com o fim último do homem, é característica de toda a tradição filosófica a partir de Sócrates, e somente mesmo na Idade Moderna é que as duas esferas pretendem se desvencilhar (e um equilíbrio era rompido).
albertoleopoldo#78
Mais: o "platonismo" agostiniano, que julgava oportuna a identificação entre idea e ratio, e via a apreensão das eternas "formas" pelo intelecto humano principalmente como apreensão de leis universais que governam a Natureza, e estas apresentadas com maior freqüência como proporções e harmonias matemáticas, influenciaram decisivamente o rumo da ciência no Ocidente. Não é à toa que a filosofia franciscana (na qual se deu o grande surto do estudo da Natureza nos últimos séculos da Idade Média - não, aliás, sem a inspiração do entusiasmo do santo de Assis pelo mundo natural) possui um componente decididamente (se não majoritariamente) agostiniano.

Mais ainda: sem Sto. Agostinho, não haveria em absoluto o pensamento cartesiano tal como o conhecemos (e ninguém há de negar a influência de Descartes no desenvolvimento da ciência moderna). As afinidades entre o pensamento de Descartes e o de Santo Agostinho são tão gritantes que beiram a sugestão de plágio. A mesma perspectiva subjetiva, interior, o ego cogito como fundamento da refutação do ceticismo, a demonstração da existência de Deus através do contraste entre a perfeição ideal e a imperfeição do sujeito pensante, a mesma concepção matemática da harmonia do mundo, e até mesmo a idéia da extensão como propriedade fundamental do mundo físico, encontram-se em Descartes e Agostinho. A grande diferença entre os dois é que, onde Agostinho mantinha-se serenamente nas conclusões implícitas nas premissas, Descartes não hesitava em extrapolá-las. Pode-se até dizer que a epistemologia cartesiana é uma versão mais restrita e menos cuidadosa da gnosiologia agostiniana.
albertoleopoldo#79
A idéia de "entender aquilo em que já se acredita" (que nem é de todo precisa: Agostinho falava em "crer para entender", mas também em "entender para crer"), corretamente compreendido, é um item de uma racionalíssima teoria (e poderíamos dizer, "fenomenologia") do conhecimento, como é a de Agostinho. Como a construção do conhecimento é uma busca, deve-se sempre partir de algo que seja, em algum sentido, previamente conhecido, ainda que esse conhecimento seja vago e turvo, pois se eu busco o conhecimento, é sempre o conhecimento de algo, e para que eu o deseje conhecer, este algo precisa estar, de alguma maneira, presente ao meu entendimento, é algo "que está aí" para ser conhecido. Tal se dá não somente com os dados imediatos da experiência, mas também com as leis segundo as quais eu os compreendo e com Deus, que é afinal a fonte da verdade objetiva, eterna e transcendente. Da mesma forma, não se pode entender a fé se não se partir da fé, que é o que há a ser entendido. Ou seja: ou se parte da fé, para entendê-la, ou não se a entende em absoluto.
albertoleopoldo#80
Novamente, vemos exemplos abundantes do tal "raciocínio aforismático". Quem disse que a razão é uma "metodologia baseada na observação"? Ou que "raciocínio" consiste em "observação seguida de indução"? Você tem noção da bobagem a que está aderindo, com esse baconianismo tosco e ingênuo? Desde Mach e do empiriocriticismo, e de forma mais acentuada após Bachelard e Popper, nem sequer a ciência natural positiva se entende dessa forma. Que dirá "a razão".

Pior do que isso são seus julgamentos de valor irresponsavelmente espalhados por um tópico em que se está debatendo uma questão factual. Ninguém está sequer discutindo se a influência da Igreja foi boa ou não. Mas somente se é possível atribuir a ela a função de construtora do mundo ocidental (lembrando que este já existia - bom ou mau - antes da Revolução Industrial e mesmo do Renascimento).

Já dissemos que o elemento técnico-científico e o econômico são componentes da Civilização Ocidental, mas que embora não se possa negar que sejam elementos importantes, não são certamente os únicos e nem sequer os mais importantes da constituição do Ocidente. Se isso é bom ou não, a história é outra. O fato é que a Civilização do Ocidente enquanto tal se definiu no medievo europeu, e quem coordenou o processo, de alto a baixo, foi a influência onipresente da Igreja Católica (incluindo a particular visão de mundo que ela defendia). Igualmente, fato é que os elementos que vieram a configurar etapas diferentes da história, ou do movimento histórico, do Ocidente (individualismo, racionalismo, progressismo, igualitarismo) surgiram do "estoque" de valores que caracterizaram essa civilização em seu berço, por hipertrofia (destruindo o equilíbrio hierárquico herdado). Evidentemente, para esta Igreja e para esta civilização que ela construiu, "os requerimentos da salvação eram de importância vastamente superior aos fatos da natureza", e aliás ainda o são para qualquer cristão digno do nome.
albertoleopoldo#81
Se o "individualismo" foi "a coisa boa" que o Cristianismo nos trouxe, ou se o platonismo foi "um aspecto negativo da cultura ocidental" (ponto dificílimo de sustentar por quem se julgue entusiasta da revolução científica do Ocidente e conheça a influência platônica direta em homens como Copérnico, Kepler, Galileu e Newton), a questão é outra. Não estamos discutindo o que de bom ou o que de ruim tem essa cultura ocidental que estamos condenados a engolir na versão indigesta que anda em voga, mas sim o quanto a Igreja Católica contribuiu para a sua construção (que, evidentemente, não se ergueu "do nada", mas sintetizou elementos anteriores e exteriores num todo coerente).
albertoleopoldo#82
Somente uns comentariozinhos sobre o que esse cara escreve sobre "religião" e "teologia":

A própria fé é característica da atitude religiosa particular do monoteísmo (excluindo, por exemplo, o monoteísmo "evolutivo" do hinduísmo), e se fundamenta (epistemologicamente) na aceitação do testemunho da revelação histórica positiva. Por essa razão, cabe aqui o desenvolvimento de uma doutrina, que traz em seu bojo respostas a algumas questões comumente postas pelo homem (especificamente, no caso do Cristianismo, aquelas que de alguma maneira dizem respeito aos meios de sua salvação). Só que algumas dessas respostas coincidem com aquelas procuradas pelo homem através do exercício natural da sua razão (em sentido amplo, "filosofia"), e corroboram determinadas posições que ora foram defendidas desta maneira - por seu método próprio. Evidentemente, do assentimento à fé, segue-se que o homem crê na doutrina contida na revelação, e portanto tem-na por verdadeira. Implícita nessa aceitação está a aceitação de que, tendo sido revelada pelo próprio Criador do Universo, que é ademais perfeito e infalível, tal doutrina goza de correspondentes certeza e imunidade ao erro. Somente neste sentido se entende que a fé ou a religião (que não é em si "uma filosofia") "regule" a filosofia, posto que o próprio indivíduo que filosofa busque regular a coerência interna de suas crenças. O mesmo problema se dá, aliás, internamente a uma filosofia, quando se trata de assentir à autoridade de uma determinada classe de evidências (p.ex. os dados dos sentidos) ou método (p. ex o "método indutivo"). A razão é sempre um meio para se dar assentimento a algo (ou retirar o assentimento de algo que não se justifique, de acordo com determinados critérios). Ela própria é incapaz de dar a razão de si ou dos parâmetros com que ultimamente se compromete.
albertoleopoldo#83
Outra: dizer que os pensadores medievais descuravam dos fatos é um absurdo tremendo. Mesmo a teologia revelada sistemática que desenvolviam mostrava a decidida e esmerada atenção aos fatos (no caso, os fatos da Revelação). Acontece, porém, que essa teologia revelada sistemática não é a filosofia medieval, os dados da revelação não constituem as premissas filosóficas dos pensadores medievais. Para suas especulações filosóficas, partem dos dados da experiência da mesma forma que Aristóteles, muito acrescentando, aliás, em sutileza de distinção e rigor lógico/dialético. A idéia de que a filosofia medieval consistia em partir dos dados da Revelação e proceder por raciocínio lógico a conclusões, ou pior, que a filosofia medieval é o mesmo que teologia é um disparate. Muitas distinções e teses filosóficas foram desenvolvidas com o fito de auxiliar a Teologia, é verdade, mas as duas áreas eram bem delimitadas. Convém lembrar que há uma teologia baseada na Revelação, e há uma teologia racional, puramente filosófica, como desenvolvida pelo próprio Aristóteles. Os medievais ocupavam-se de ambas.
albertoleopoldo#84
Evidentemente, o racionalismo e o empirismo (irrestritos), são filosofias próprias do período moderno (e só poderia ser: os escolásticos dificilmente se enredariam com erro filosófico tão primário). Pior é quando o tal Bernstein parte para asserções tipicamente kantianas: "Teologia é a expressão mais pura de racionalismo no sentido de empregar dedução lógica a partir de premissas não baseadas em fatos observáveis – dedução sem referência à realidade. O assim chamado ‘pensamento’ envolvido aqui é puramente formal, sem base observacional, destituído dos fatos, separado da realidade". E sai-se simplesmente dizendo que Stark ignora esses pontos "filosoficamente" tão "fundamentais", como se a mera enunciação dessas posições de Kant não só resolvessem de vez o problema como dessem a única acepção plausível de "bom uso da razão" que o ser humano poderia aceitar. E ainda joga um "Teólogos e religiosos em geral, começam com uma premissa fantasiosa e então seguem pela aplicação rigorosa de lógica formal a fim de alcançar suas implicações", na cara limpa, mostrando ignorar o significado da expressão "petição de princípio".

A propósito, parece que Breno (a exemplo de mais de 90% das pessoas que fazem uso da expressão) desconhece o que seja um argumento ad hominem, que nada tem, aliás, de falacioso, confundindo-o com argumento ad personam.

Olhe, Breno, é melhor você estudar um pouco mais de Filosofia (e de História). O tal Bernstein não parece boa fonte. Não faz mais do que largar disparate sobre disparate (estes, sim, genuinamente grotescos).
albertoleopoldo#85
Perceba uma coisa: não estamos discutindo com você. Estamos ensinando. Não que eu seja grande autoridade nesses assuntos ou qualquer coisa do tipo. Mas o pouco que sei, julgo conveniente passar a você (que mostra ignorar inteiramente o assunto). Graças a Deus eu tenho paciência o suficiente para isso. Por isso podemos até continuar. Mas seria interessante você procurar mais algumas fontes de estudo - a começar pelo livro do próprio Stark, que você critica com base na crítica do tal Bernstein, que definitivamente não entende do assunto.

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