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Ajuda:dizem que nazismo é de direita

Iniciado por fernando_18 em 12/12/2008 · 92 mensagens · página 2 de 2

constantor#51
...

...é a transposição histórica do passado para o futuro. Isso não é uma volta ao passado, mas a reacriação integral da sociedade no futuro segundo o utopia perdida no passado.

É uma observação correta, mas meio que óbvia. Evidente que os valores restaurados terão de se adaptar a uma nova configuração histórica. Um tradicionalista não concordaria que a reinstituição de aspectos da Cristandade latina geraria uma sociedade necessariamente diferente daquelas da Europa Medieval?
albertoleopoldo#52
Não estou fazendo essa identificação. Muitos falam, inclusive (e com bastante ênfase), do caráter "revolucionário" do monoteísmo profético e do cristianismo em particular face às demais tradições espirituais do mundo - e, creio, não sem razão.

O mero fato de o nazismo representar uma "restauração" de um certo paganismo primevo em oposição à revolução cristã já seria uma boa razão para o cristão lhe sentir a mais profunda aversão (mesmo abstraindo dos resultados práticos) - o que por si coloca a questão para bem além da dicotomia 'direita-esquerda' ou 'conservadorismo-revolução'.

A questão é, mais diretamente: em que medida se pode legitimar a interpretação do nazismo como movimento "restaurador", quando os elementos modernos lhe são tão patentes (mesmo que incorporados a uma concepção mítica e revestidos de um simbolismo tradicional ou alegadamente tradicional).

Eu não sei o que seria o "nazismo propriamente dito", mas parece que alguma influência o marxismo exerceu sobre Hitler.

Em todo o caso, não há um certo compromisso do nazismo com um progressismo tecnicista?

Mais: não seriam bem fundadas as alegações de uma Hannah Arendt, por exemplo, do caráter totalitário do nazismo, contrastando com todas as antigas formas de autoritarismo e tirania (que o configura como fenômeno eminentemente moderno)?

Ou tais observações não afetam seu caráter propriamente "reacionário"?

Bom, eu gostaria de entender. Não sou muito estudado no assunto.
albertoleopoldo#53
Mais: se você considera Mussolini como um "socialista que abandonou o barco", isso significa que ele não era propriamente fascista?

Se sim, por que precisamente este termo se aplicaria aos regimes tradicionalistas ou filo-tradicionalistas (cristãos ou não), dado que surgiu precisamente no contexto italiano?
constantor#54
Alberto,

...em que medida se pode legitimar a interpretação do nazismo como movimento "restaurador", quando os elementos modernos lhe são tão patentes (mesmo que incorporados a uma concepção mítica e revestidos de um simbolismo tradicional ou alegadamente tradicional).

O caráter restaurador está na percepção de que seria necessário regenerar a sociedade reinstituindo valores ligados às tradições herdadas por cada povo. Assim, no caso italiano temos a glorificação da herança romana, na alemã a glorificação do tribalismo germânico e por aí vai. É uma defesa radical de tradições étnicas que visa reverter a expansão de determinados valores fundamentais do iluminismo, como o racionalismo, o cientificismo, o materialismo, o democratismo, o igualitarismo, a ênfase na liberdade etc.

Mas o fascismo é um movimento contemporâneo. E faz uso de elementos e métodos contemporâneos na busca pela reinstituição de destes valores em uma nova configuração histórica. Assim, o nacionalismo é usado como forma de resgatar tradições e neutralizar os apelos liberais, a política de massas é usada como forma de alcançar e manter o poder etc.

Não sei se seria um compromisso. É antes a consciência de que uma restauração de determinados valores vai ter de se utilizar de elementos existentes na formação social atual, desde que estes não comprometam o objetivo principal.

...não seriam bem fundadas as alegações de uma Hannah Arendt, por exemplo, do caráter totalitário do nazismo, contrastando com todas as antigas formas de autoritarismo e tirania (que o configura como fenômeno eminentemente moderno)?

A partir de um ponto de vista liberal, como o de Arendt, considero apropriado considerar tanto o socialismo quanto o nazismo como totalitários, no sentido de Estado Total. O problema é tudo o que essa análise esconde: ela é ideologizada, e acaba escondendo as diferenças por detrás dos Estados Totais.

O Fascismo é uma proposta de sociedade integral adaptada à nova sociedade de massas.
constantor#55
Mais: se você considera Mussolini como um "socialista que abandonou o barco", isso significa que ele não era propriamente fascista?

Não me expressei bem: quis dizer que Mussolini abandonou o barco socialista. Estava indicando que o fato de Mussolini ter sido socialista não reduz o fascismo a um socialismo.
albertoleopoldo#56
Mas dado que, diferenças à parte, o nazismo configura um fenômeno inequivocamente moderno (inédito em outras épocas), e nisso se pode pôr lado a lado com o bolchevismo, e ainda incorpora elementos da "tradição" revolucionária pós-iluminista (não somente em seu aspecto estratégico, mas na própria cosmovisão que o orienta), por que seria mais correto referir-se a ele como movimento tradicionalista com elementos modernos do que como um movimento moderno com elementos tradicionalistas?

Além do que, parece-me que um tal modelo "total" de sociedade tem inspiração clara no próprio iluminismo e certamente passa pelo racionalismo hegeliano e pelo nacionalismo fichteano (sem falar no evolucionismo darwinista e na "moda" eugenista que se lhe seguiu). Seriam elementos meramente secundários, instrumentais?

Sobre Mussolini etc.: não afirmei que o fascismo reduz-se ao socialismo, mas que a idéia do fascismo italiano, na sua origem, é intimamente aparentada ao socialismo marxista, por declaração explícita de seu principal ideólogo, G. Gentile. Por que motivo, então, deveríamos tomar o apelo à herança tradicional romana como fato primário e os "métodos" modernos como acessórios, e não vice-versa?
constantor#57
...

Mas dado que, diferenças à parte, o nazismo configura um fenômeno inequivocamente moderno (inédito em outras épocas), e nisso se pode pôr lado a lado com o bolchevismo, e ainda incorpora elementos da "tradição" revolucionária pós-iluminista (não somente em seu aspecto estratégico, mas na própria cosmovisão que o orienta), por que seria mais correto referir-se a ele como movimento tradicionalista com elementos modernos do que como um movimento moderno com elementos tradicionalistas?

Quero, primeiro, chamar a atenção para dois pontos:

1) Não há movimentos políticos hodierno que não tenham sido gestados na contemporaneidade. Isto vale inclusive para o tradicionalismo. Antes do Iluminismo, o tradicionalismo não precisou ser expresso em uma determinada forma política. Os valores (e instituições) que o tradicionalismo quer preservar é que são pré-iluministas, não a expressão política do movimento.

2) Métodos e valores instrumentalizados são relidos a partir de uma visão anti (e pré) iluminista. Você falou, por exemplo, do evolucionismo, mas no nazismo, por exemplo, essa é só a capa de uma metafísica da raça que, pretende-se, perde-se na noite dos tempos. Aqui, há a questão também da diferenciação entre fins e meios.

Mas quero chamar atenção pra um ponto: Se pensamos que um tradicionalismo exclui todo e qualquer compromisso ou instrumentalização de valores, elementos e instituições modernas, resta muito pouco a que aplicar a palavra. Tradicionalistas podem se fazer valer de partidos políticos? De eleições majoritárias? De um Exército Nacional?

De qualquer forma, não acho de nenhuma forma necessário afirmar que o nazismo, ou qualquer fascismo, é tradicionalista. Geralmente este termo, no campo político, é associado a monarquistas católico-romanos. Nesse sentido, claro que o nazismo não seria tradicionalista. (o que não quer dizer que seja impossível existir um fascismo que o seja, dependendo do que se pensa do que digitei no parágrafo anterior.)
constantor#58
Além do que, parece-me que um tal modelo "total" de sociedade tem inspiração clara no próprio iluminismo e certamente passa pelo racionalismo hegeliano e pelo nacionalismo fichteano (sem falar no evolucionismo darwinista e na "moda" eugenista que se lhe seguiu). Seriam elementos meramente secundários, instrumentais?

A maior parte dos elementos que você citou acima são dispensáveis de um Estado total. Note que eu fiz uma ressalva à ideologização do termo em Arendt. Em Gentile, o Estado total era aquele que servia de guia para todos os objetivos nacionais e no qual o indivíduo se subordinava de modo extremo à coletividade. E apesar do apoio oficial de Mussolini a esse neo-hegeliano, o fenômeno histórico do fascismo não foi integralmente solucionado e justificado e nem nasce a partir de suas obras, nem mesmo se nos ativermos à Itália. Ele quis ser o "Marx" do fascismo; mas não foi.
albertoleopoldo#59
"Os valores (e instituições) que o tradicionalismo quer preservar é que são pré-iluministas, não a expressão política do movimento."

Perceba: o problema do "modernismo" a que me referi não tem propriamente a ver com métodos, ou com a mera expressão política. Como disse: tem a ver com a própria cosmovisão que inspira o movimento, incluindo aí a sua concepção dos valores que o orientam (ainda que estes se remetam, no discurso, a elementos tradicionais).

O que exclui a seguinte objeção:

"Mas quero chamar atenção pra um ponto: Se pensamos que um tradicionalismo exclui todo e qualquer compromisso ou instrumentalização de valores, elementos e instituições modernas, resta muito pouco a que aplicar a palavra. Tradicionalistas podem se fazer valer de partidos políticos? De eleições majoritárias? De um Exército Nacional?"

Lembrando que eu sou um dos primeiros por aqui, por exemplo, a defender o Papa quando ele se usa de elementos estruturais da modernidade para transmitir a mensagem cristã e salvaguardar a moral católica, justamente argumentando que isso em nada afeta a pureza da doutrina.
albertoleopoldo#60
De qualquer modo, você parece buscar resolver a dificuldade com o seguinte trecho:

"A maior parte dos elementos que você citou acima são dispensáveis de um Estado total."

Acontece, porém, o seguinte: se o Estado total é um fenômeno moderno, ou melhor ainda, contemporâneo, inédito em outras etapas históricas ou situações culturais/civilizacionais (você concede isso?), então de duas uma:

(a) Ainda que os elementos citados sejam dispensáveis, a modernidade é essencial, indispensável, para a própria idéia que gera o Estado total, e portanto, da própria ideologia nazista (o que ela teria em comum com o bolchevismo); ou

(b) A idéia de Estado total é meramente instrumental à ideologia nazi-fascista, sendo somente uma adaptação à situação concreta da modernidade. Neste caso, o Estado total é dispensável ao "pensamento" nazista, e Arendt pode continuar a criticá-lo sem (necessariamente) atingir o ideário que o engendra, ao menos neste caso particular.
albertoleopoldo#61
obre Gentile e o fascismo: o fato é que o fascismo enquanto tal, i.e., enquanto auto-proclamado fascismo, nasce com o movimento de Mussolini e Gentile (ou me engano?), sendo que este último é que lhe dá a sua consistência intelectual, filosófica. Sem mencionar o fato de que o surgimento histórico do Estado total não pode ser desvencilhado da evolução de características que vinham se desenvolvendo desde Frederico II da Prússia (e até antes), sob influxo decisivo do Iluminismo (ou me engano?). Ainda que, em outras paragens e sob outras circunstâncias, tenha a expressão política do fascismo (e aqui, sim, parece que somente ela) servido como entorno de uma ação que no fundo era tradicionalista e conservadora, não se ilude o fato de que na sua nascente o fascismo é uma atitude política moderna e filha do Iluminismo.

Ou me engano?
albertoleopoldo#62
Lembrando que algumas das maiores fraudes espirituais modernas, como a Teosofia e a Nova Era, estão permeadas de elementos alegadamente "tradicionais", e neles buscam boa parte de sua justificativa.

Não seriam o nazismo, e mesmo o fascismo italiano, casos similares?
constantor#63
Alberto,

Não há "cosmovisão" fascista unificada, como você parece pensá-la. Há influências de diversos pensadores, visões etc., todas elas ligadas pela busca de restauração de valores pré e anti-iluministas em uma nova configuração histórica.

Quanto ao papa, o deixemos por enquanto: buscar alianças políticas não é o mesmo que fazer da doutrina política. Mas não é assunto para agora.
constantor#64
a) Ainda que os elementos citados sejam dispensáveis, a modernidade é essencial, indispensável, para a própria idéia que gera o Estado total, e portanto, da própria ideologia nazista (o que ela teria em comum com o bolchevismo)

Esse é um falso problema. Segundo a), a modernidade é indispensável para o surgimento do tradicionalismo conservador de matiz católico-romano, pra sua expressão político-partidária e cultural atual etc.

o fato é que o fascismo enquanto tal, i.e., enquanto auto-proclamado fascismo, nasce com o movimento de Mussolini e Gentile (ou me engano?), sendo que este último é que lhe dá a sua consistência intelectual, filosófica

Gentile foi um teórico que tentou sistematizar -- e para isso recebeu apoio de Mussolini -- o fascismo, lhe dando consistência filosófica. Só que essa consistência não abarcou totalmente sequer o movimento italiano, justamente pelo fato de que ele emergiu e se desenvolveu de maneira independente do pensamento de Gentile.

Sem mencionar o fato de que o surgimento histórico do Estado total não pode ser desvencilhado da evolução de características que vinham se desenvolvendo desde Frederico II da Prússia (e até antes), sob influxo decisivo do Iluminismo (ou me engano?).

Eu não nego as condições históricas que tornaram possível a experiência fascista -- e nazista. A questão é: no que emergir na contemporaneidade impede que o fascismo seja um movimento que visa restaurar valores pré e anti iluministas se aproveitando de uma nova configuraçaõ histórica?

Para isto, não basta apontar as condições que tornaram possível esta ou aquela forma fascista, e sim mostrar no que o ideário de um determinado fascismo contribuiria ou decorreria diretamente do ideário iluminista (não como seu contraponto, não como sua negação, mas como sua nova expressão. Não vejo em que essa segunda possibilidade tenha ocorrido.
constantor#65
Lembrando que algumas das maiores fraudes espirituais modernas, como a Teosofia e a Nova Era, estão permeadas de elementos alegadamente "tradicionais", e neles buscam boa parte de sua justificativa.

Não seriam o nazismo, e mesmo o fascismo italiano, casos similares?


O que haveria de 'new age', por exemplo, na Guarda de Ferro romena? (não digo que o nazismo não possuísse destes elementos).

Você não estaria querendo reduzir o fascismo a um determinado tipo de tradicionalismo? (e lembre-se de que não fiz nenhuma reivindicação do epíteto de "tradicionalismo" para o fascismo nestes termos.)

Antes de continuarmos a esse respeito, pergunto: como você define o tradicionalismo e que exemplo concreto desse tipo de movimento você me daria? Em que condições ele nasceu, e de que instrumentos se utiliza para influenciar a sociedade? Quais são suas propostas?

Por exemplo, você diz: Ainda que, em outras paragens e sob outras circunstâncias, tenha a expressão política do fascismo (e aqui, sim, parece que somente ela) servido como entorno de uma ação que no fundo era tradicionalista e conservadora, não se ilude o fato de que na sua nascente o fascismo é uma atitude política moderna e filha do Iluminismo.

Desculpe se não identifica a sua crítica. Mas está dizendo que um movimento, mesmo que tradicionalista, é iluminista porque filho da contemporaneidade? Para entender a minha dúvida, note as perguntas no meu parágrafo anterior.
albertoleopoldo#66
André,

Creio que você não compreendeu mesmo meu ponto. Vou procurar ser mais claro.

Em nenhum momento eu me referi a uma cosmovisão unificada do fascismo (incluídas as suas diversas modalidades). Falava do caso específico do nazismo. No caso deste, quer parecer-me que os elementos "tradicionais" são mais acessórios que essenciais, ou em todo o caso trata-se de um amálgama entre modernidade e tradição que lê os elementos desta última de maneira vastamente deturpada, (para usar uma expressão tipicamente olaviana) sacrificando-os no altar de uma ideologia modernista e em última instância filha do iluminismo (a exemplo do bolchevismo). Uma tal cosmovisão teria gerado (graças a elementos intrínsecos, doutrinais antes mesmo que políticos) uma idéia de Estado total com similaridades suficientes com o comunismo soviético e diferenças suficientes em relação a formas tradicionais de ordenamento político-ideológico para classificar-se junto a este como "totalitarismo" (e enfim como fenômeno essencialmente contemporâneo).

Aliás, sobre a influência marxista, o próprio Hitler admitia não só muito ter aprendido de Marx, mas que o nacional-socialismo era o que seria o marxismo se houvesse cortado os absurdos laços que o ligavam a uma ordem democrática.
albertoleopoldo#67
Outros regimes, tais como o da Guarda de Ferro romena, não comungando da mesma base espiritual, compartilhavam com ele porém similaridades estruturais, estratégicas, políticas e mesmo de propaganda que os fizeram ser classificados sob o mesmo título precisamente em virtude de tais características, que aliás lhes aprouveram por constituir, aí sim, em instrumentos que o Estado moderno dispunha ao serviço de uma causa anti-iluminista e restauradora. O que se deve notar é que, apesar das fundamentais características políticas e estratégicas em comum, as atitudes espirituais eram fundamentalmente diferentes, e os defensores das variantes "clericais", ou cristãs, do fascismo não pretendiam cunhar um novo homem e uma nova sociedade, mas somente resgatar o que se havia perdido. Creio ser, no mínimo, questionável a alegação de que tais regimes fossem efetivamente "totalitários". O alinhamento com regimes de inspiração diversa se devia às necessidades estratégicas da contra-revolução naquele momento (assim como se deu a aliança das forças conservadoras com as democracias capitalistas no contexto da Guerra Fria, como mostra o excelente texto linkado por Miguel), e as relações dos conservadores cristãos com o nazi-fascismo estavam longe de ser harmônicas (a própria Igreja Católica já havia alertado os alemães sobre os perigos do nazismo com a encíclica Mit brennender Sorge em 1937, e o Papa Pio XII era inimigo visceral de Hitler - que inclusive armou um complô para seqüestrá-lo).

O meu ponto a respeito do Papa é justamente que, ao se utilizar de elementos da modernidade, ele não compromete a doutrina (isto é o que eu defendo: como você mencionou, a questão de estar eu certo ou errado não é do escopo deste tópico), da mesma forma como não o faziam os conservadores cristãos que apoiavam regimes de configuração moderna como o de Franco e Salazar (cujo propósito era, sim, anti-iluminista e restaurador, e que não entram em absoluto como alvos de minhas críticas).
albertoleopoldo#68
Quanto à Itália, mesmo que lá o fascismo não tenha surgido e se desenvolvido nos estritos limites das idéias de Gentile (ou sob orientação de um ideário similar), e que tenha recebido o apoio de forças conservadoras, o fato é que sua versão finalizada e oficial se ordena segundo um pensamento inequivocamente moderno e pós-iluminista.

Portanto: o fascismo em sentido lato não é, necessariamente, um movimento político modernista ou necessariamernte pós-iluminista, mas parece-me que nas suas versões alemã e italiana o seja. Além do mais, meu parecer pessoal (se é que vale de alguma coisa) é que o nazismo é um regime/ideologia tremendamente pernicioso, o fascismo italiano um pouco menos, e regimes como o franquismo e o salazarismo - assim me parece - não somente não são modernistas mas são mesmo legítimos (e tiveram efeitos históricos benéficos). Por isso que eu creio que os fundamentos filosóficos e espirituais são da mais alta importância para a correta apreciação desses regimes e exercem profunda repercussão sobre as suas conseqüências. Usar de critérios meramente políticos para classificá-los me parece quase tão inconseqüente quanto adotar critérios meramente econômicos (como tendem a fazer os "direitistas" liberais) .
albertoleopoldo#69
Lembrando que Pio XI também escreveu uma encíclica denunciando os erros do fascismo italiano: Non abbiamo bisogno.
constantor#70
Alberto,

Concordo com o cerne do seu ponto: é vero, o mito mobilizador dos diversos movimentos fascistas imprime neles diferenças substanciais. E o calcanhar de Aquiles de movimentos como o nazismo está, talvez, na tentativa de se basear em um mito cujos elementos se tornam quase impossíveis de se acessar. Quer dizer que todo "paganismo" germânico será sempre uma releitura contemporânea, será em grande medida um "neo paganismo". Só faço a ressalva de que movimentos como o de Codreanu efetivamente queriam gerar um novo homem. Mas isso é um detalhe na nossa conversa, já que a expressão pode ser entendida de várias maneiras. O mito mobilizador do fascismo italiano, por sua vez, se calcava na ressurreição da expressão política do Império Romano. Não os classificaria por isso de "movimentos modernistas", como não vejo influência do marxismo no hitlerismo a não ser como contraponto ou negação deste àquele. De qualquer forma, reitero a concordância em relação à importância do mito de origem, e ao mesmo tempo lembro que, ainda assim, o potencial de aliança dos fascismo com movimentos tradicionalistas e conservadores é enorme, como a própria história mostrou, inclusive.
albertoleopoldo#71
Eu pessoalmente tendo a crer que esse potencial de aliança é condicionado e circunstancial, e que a História não permite enxergar além disso. O tradicionalismo (especialmente entendido como "ortodoxia cristã", que é propriamente o que me interessa) transcende as formas políticas específicas, e embora seja efetivamente incompatível com algumas, sua particular afinidade com outras (dentro de um "escopo permissível") é intrinsecamente dependente do contexto histórico, particularmente quando se constitui configura a situação de "contra-revolução". E mesmo assim, como eu mencionei, é preciso entender "fascismo" em sentido lato (e quase equívoco, dada, como você mesmo disse, a distinção substancial entre suas "manifestações" de conformidade com o "mito fundante" ou o patrimônio espiritual na sua base).

Sobre os pontos marginais:

Sobre a Guarda de Ferro, confesso minha ignorância. Posso pesquisar mais a respeito. Você tem alguma indicação?

Sobre Hitler e o marxismo, não há dúvida de que este último exerceu uma influência de caráter negativo, como contraponto mesmo, sobre o nazismo, que é em grande medida um movimento de "reação" ao socialismo de esquerda (e "judaico"), mas é certo que exerceu também uma influência positiva (especialmente na versão leninista), no que diz respeito à organização política, nas técnicas de propaganda, de manipulação, no regime de partido único, na oposição às democracias liberais etc (era seu elemento alegadamente democrático e igualitário que particularmente o irritava). Há declarações explícitas do próprio Hitler nesse sentido.
albertoleopoldo#72
Aliás, alguma indicação bibliográfica mais ampla sobre o assunto?
constantor#73
Alberto,

Toda aliança política possui algum grau de instabilidade e é historicamente condicionada, o que não significa que não possa ser profícua. Voce citou elementos marxistas que teriam influenciado positivamente o nazismo, mas eles se dão apenas nos meios operacionais da revolução.

Tres livros bons e recentes sobre o fascismo: Fascism, a History, de Roger Eatwell; The Nature of Fascism, de Roger Griffin; e A History of Fascism, 1914-1945, de Stanley G. Payne.

Peço desculpas por citar longamente um texto, mas o considero uma ótima forma de resumir certos aspectos bastante interessantes sobre a análise historiográfica passada e atual sobre o fascismo. O título é "Os fascismos", e o autor Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ. Pode ser encontrado no segundo volume de "O século XX", obra que tem por organizadores Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira e Celeste Zenha.

_______
constantor#74
"(...)

HISTÓRIA E POLÍTICA: O LABIRINTO HISTORIOGRÁFICO DO FASCISMO

Nossa insistência, em consonância com a historiografia mais atual sobre o tema, na unidade básica do fenômeno do fascismo insere-se na preocupação em apresentar uma teoria explicativa geral desse tipo de movimento político, superando uma das características básicas dos estudos do fascismo no imediato pós-guerra: a fragmentação da análise em diversas narrativas descritivas e histórica, onde o fascismo aparece como uma etapa da história da Alemanha (e, algumas poucas vezes, da Itália).

(...)

Iniciava-se, assim, um debate teórico historiográfico, que marcará permanentemente a história do fascismo. Nesse sentido, a história do fascismo foi longamente (e de forma equivocada) a história do debate teórico sobre a natureza do fascismo.

Hoje, por exemplo, na Alemanha e na Itália, onde por razões óbvias os estudos sobre fascismo mais avançaram, poderíamos dizer que a maioria dos estudiosos concorda sobre dois pontos: i.a garantia da universalidade possível do fascismo como fenômeno histórico, com seu ápice no entreguerras; ii. a necessidade teórica de garantir a autonomia de uma teoria do fascismo em face dos fenômenos históricos que o envolvem.

A tese da universalidade possível do fascismo implica a rejeição da exclusividade alemã do fenômeno, o que nos obriga a aclarar previamente o que se considera, nesse caso, fascismo. Com um dos melhores expoentes da historiografia contemporânea, Wolfgang Schieder, poderíamos, de saída, afirmar "que se reconhece como fascistas movimentos nacionalistas extremistas de estrutura hierárquica e autoritária e de ideologia antiliberal, antidemocrática e anti-socialista que fundaram ou intentavam fundar, após a Primeira Guerra Mundial, regimes estatais autoritários. Nesse último sentido, o fascismo constitui um dos fenômenos centrais e mais característicos do entreguerra" (Schieder, 1972, p.97).

[continua]
constantor#75
Assim, desde logo, devemos nos afastar das posições que só reconhecem na Alemanha do III Reich a existência de um verdadeiro fascismo ou, pelo contrário, negam ao nazismo qualquer relação histórica ou política com os demais regimes autoritários, integráveis no desenho acima, que o antecederam ou lhe foram contemporâneos. Afirmaríamos, desta forma, que as especificidades do nazismo são históricas, de caráter nacional, e não uma essencialidade, algo único em relação aos demais fenômenos fascistas, descaracterizados como tais ou considerados apenas autoritários, variantes da forma política das ditaduras; os fascismos, enquanto regimes autoritários antiliberais, antidemocráticos e anti-socialistas possuiriam suas próprias especificidades nacionais, suas histórias específicas, que, por sua vez, não descaracterizariam a universalidade e autonomia do fenômeno ante outras formas de autoritarismo (ditadura, bonapartismo e ditaduras militares).

Foi na esteira deste debate sobre fascismo durante a Guerra Fria que frutificou a chamada teoria do totalitarismo. A construção política e ideológica do conceito se deu de forma precoce. Coube à oposição liberal italiana, entre 1923 e 1925, a caracterização do fascismo como um Estado totalitário. Na verdade, a oposição apenas apropriou-se, negativizando, de uma expressão proposta pelo próprio Mussolini. Em seu afã de elevar o Estado à posição de realidade última da Nação, Mussolini insistia em que "(...)espiritual ou materialmente não existiria qualquer atividade humana fora do Estado, neste sentido o fascismo é totalitário" (Mussolini, B., 1935, p.7). Tal expressão foi retomada por Giovanni Amendola (1882-1926), líder da oposição liberal ao fascismo (não confundir com seu filho, o líder comunista Giorgio Amendola), que escreve inúmeros artigos e panfletos contra o espírito totalitário do fascismo e que, do exílio, na França, difunde o conceito.

[continua]
constantor#76
Já em 1929, o Times londrino utilizava a expressão para comparar os regimes de Mussolini e a Rússia soviética. Foi, entretanto, Herman Rauschning (1887-1982) quem procedeu à operacionalização do conceito. Rauschning era membro importanto do Partido Nazista, chegando a ser governador de Dantzig, hoje Gdansk. Após entrar em conflito com a liderança de Hitler, em 1934, emigra para a suíça e EUA, dedicando-se a uma detalhada análise do fascismo alemão. Em Revolution des Nihilimus, de 1938, Rauschning utiliza amplamente a conceituação de totalitarismo.

Parece, contudo, ter sido a difusão dos trabalhos de Rauschning junto ao seu público americano que levou a America Philosophical Society, em seu primeiro congresso, em 1940, a iniciar formalmente um amplo debate sobre o conceito, distinguindo entre uma tradição liberal e parlamentar anglo-saxã, considerada paradigma da democracia, e as tendências autocráticas e despóticas da velha tradição européia. Mais tarde, no ápice da primeira Guerra Fria, a idéia de que o enfrentamente entre EUA/URSS era uma continuidade da luta contra o fascismo e pela democracia, serviria de base para transforma o conceito de totalitarismo em arma política da chamada New Right americana.

Tanto autores clássicos sobre o tema, como Karl Friedrich, Hanna Arendt ou Raymond Aron -- continuaram adotando o totalitarismo como base teórica de seus trabalhos (Montelos, 1991). Um elemento recorrente na literatura que adota tal conceito é a ênfase nos procedimentos ora do conjunto do aparelho político (partido, Estado, forças armadas, política secreta etc.), ora na liderança e condução e condução inconteste do grande líder (daí hitlerismo, stalinismo etc.), pautando-se sempre por uma ausência notável de qualquer análise da participação das chamadas massas populares.(...)
constantor#77
Pontos comuns são facilmente localizados na prática exterior de regimes díspares para dar coerência a uma teoria que engloba em si elementos tão diferentes como socialismo e fascismo, capitalismo e ausência de propriedade privada, a política dita científica e o irracionalismo; assim, por exemplo, à aniquilação da raça judia, com a elegia do arianismo, corresponderia a aniquilação da burguesia e a elegia ao proletariado. O fundo comum seria a mobilização das massas -- de forma instrumental -- contra um inimigo comum, objetivado.

O Holocausto, ou o Arquipélago Gulag, explicar-se-iam, assim, como uma grande conspiração tramada para manter as massas em permanente estado de mobilização e à disposição do líder carismático.

Seja a ênfase na análise residindo nas engrenagens do regime e seus efeitso sobre o processo de decisão -- o que na historiografia do fascismo denominamos de funcionalismo --, seja com a ênfase recaindo no exercício coerente da vontade do líder como a essência da dominação -- e então denominamos intencionalismo --, o papel da massa, em especial dos trabalhadores, é largamente negligenciado. Para tais vertentes, a falta de uma verdadeira política -- no sentido liberal de seu exercício -- learia ao puro e agudo senso de oportunismo, obrigando os regimes a lançar mão d meios violentos, amparados em uma polícia secreta eficaz e uma propaganda ideológica maciça. O resultado para as grandes massas seria a participação mecânica ou a militância fanática.

Eis aí as características do monolito totalitário.

(...)O ressurgimento do fascismo como fenômeno de massa hoje não pode ser explicado à luz dos fenômenos que pretensamente explicariam o fascismo nos anos 20 e 30 (a derrota alemã e Versalhes, a frustração política italiana em 1919 ou a crise de 1929). Podemos, mesmo, duvidar se tais eventos históricos efetivamente explicaram o fascismo histórico...Assim, a ressurgência do fascismo nos obriga a lançar mão de um novo arsenal teórica e de novos métoso que possam explicar as duas marés
constantor#78
fascistas (anos 20/30 - anos 90) ocorridas em nosso século e, mesmo, unificar a teoria explicativa do fascismo, pensado-o em termos mais fenomenológicos, enquanto modelo de reação, organização e participação de amplas camadas das massas populares nas modernas sociedades industriais ou em transição à industrialização, e muito menos como fenômeno específico da história alemã ou italiana dos anos 20. Assim, parafraseando Marx, poderiamos dizer que a anatomia do neofascismo ajudaria enormemente a explicar o fascismo histórico.

FASCISMO: EM BUSCA DE UM MODELO DE ANÁLISE

Optamos, desde logo, por uma tentativa de recuperar o fascismo como grande unidade de análise, agrupamento de configurações políticas de traços diversos, marcado, entretanto, por forte coerência interna e externa. Grande parte de tal coerência, principalmente no que denominados de coerência externa, foi dada pelo próprio fenômeno, sua prática e sua fala, mesmo antes do analista apor sua chancela a tais consistências. Assim, muito rapdtamente teceu-se na Europa uma eficaz teia de identidades e colaboração (inclusive de intervenção salvadora, como na Espanha e na Hungria) entre os diversos regimes e movimentos fascistas, muitas vezes superando diversidades históricas e nacionais. Foi assim entre a Itália e o fascismo croata, húngaro e austríaco; ou entre a Alemanha e a Itália. Outras vezes deram-se notáveis coincidências e auto-reconhecimentos, como entre a Espanha de Franco, a Itália e a Alemanha; ou ainda entre oregime de Vichy e o regime de Salazar em Portugal (Nolte, 1996).

Como coerência interna, por outro lado, a mesma fala dos agentes, embora exclusivamente voltada para o processo interno de fascistização de cada país, apontava seguidamente para as mesmas características, como as já anunciadas, por Schieder: antiliberalismo, antidemocratismo, e anti-socialismo.

[continua]
constantor#79
Tal coerência, com as práticas políticas repressivas daí decorrentes, marca claramente um perfil comum aos regimes no poder em Berlim, Roma, Madri e Budapeste.

Foi essa mesma coerência que permitiu o surgimento de um agente quase esquecido da história da época: a resistência antifascista. A condição prévia para reunir, primeiro na Itália, depois na França e então urbi et orbi, liberais, católicos, comunistas e socialistas foi, exatamente, o discurso unificado do fascimos, sua face antiuniversalista, contrária à herança européia iluminista (e parece ser este o traço em comum dos anti esgrimidos pelo fascismo). Assim, o material produzido pelo próprio fascismo, para além dos seus pactos internacionais, ajudas e intervenções militares mútuas, cindia o campo das relações internacionais claramente entre nações democráticas e nações fascistas.

Também devemos levar em conta que cada fascismo, apesar das semelhanças e dos elogios mútuos, sempre defendeu sua plena originalidade histórica e nacional, buscando no seu próprio solo e céu as origens de suas idéias. Todos os fascismos foram marcados por um notável historicismo. Entenda-se aqui por historicismo, num sentido extremamente restrito e instrumental, a busca de raízes nacionais, ou raciais (para muitos serão termos sinônimos), que explicariam a autenticidade do seu próprio movimento, a idéia de uma comunidade nacional original representada por um espírito próprio, o Geist, que se realizaria historicamente através da materialização de sua vocação de poder, o Estado Nacional (e/ou racial). Foi nessa busca desenfreada por um passado justificador que se deu a apropriação depravada de Herder, Fitche, Hegel ou Nietzsche pelos ideólogos do fascismo.(...)

Tal ênfase na singularidade deve ser tomada, bem mais, como um traço comum, uma regularidade do fascismo, em vez de uma singularidade pretendida. A malversação da história, e não a história, é um traço comum dos fascismos.

[continua]
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(...)

Trabalharemos, desta forma, o conceito de fascismo como uma unidade de traços diversos que dão coerência a um fenômeno. Não se trata, é claro, de uma média estatística ou de um jogo de ausências e presenças; trataremos o conceito bem mais com oa reconstrução de uma realidade singular, da qual não se retém, necessariamente, todos os seus aspectos, nem mesmo os mais frequentes, e sim tudo aquilo que, coforme uma escolha explicitada, reúne os aspectos essenciais ou típicos, suscetíveis de se construir um todo inteligível (Wehler, 1986, pp. 167 e seguintes; Aron, 1958, p. 521). Estaríamos aqui a um passo de chegar a um modelo de fascismo.(...)

OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS: EM BUSCA DE UMA FENOMENOLOGIA DO FASCISMO

(...)

1. O antiliberalismo e antiparlamentarismo fascista

O fascismo acusa as formas liberais de organização e de representação, em especial o parlamentarismo liberal, de originarem a crise contemporânea. Aqui as posturas antiliberais tomam duas dimensões: de um lado, a idéia da falência do sistema liberal e, de outro, o caráter geneticamente desagregador do liberalismo. No primeiro caso, o sistema montado no século XIX, fruto da Revolução Francesa de 1789, não mais daria conta das novas condições de desenvolvimento das sociedades de massas contemporânea, contraditoriamente gerada pela própria Revolução Francesa e pelo domínio liberal ao longo do século XIX. Nesse caso, o fascismo se apresenta com osucesso e úico herdeiro de um sistema que não mais possui condiçõess de manter a coesão nacional.(...)

A força do liberalismo como elemento desagregador da ordem conservadora foi sentida não só nas sociedades que eftivamente viveram experiências liberais, como ainda naquelas em que o liberalismo era apenas uma ameaça. O Manifesto Integrista Tradicionalista Espanhol, já em 1889, detectava o perigo:
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"Queremos que a Espanha sacuda o jugo e a horrível tirania que, com o nome de direito novo, soberania nacional e liberalismo, a arrancou do justíssimo domínio de Deus(...)"...Nos países meridionais, onde a aristocracia fundiária e a Igreja ainda predominavam, a Revolução Francesa é apontada, numa reação defensiva de caráter prévio, como orgiem de todos os males: "E todas as partes se desmorona a eficácia do Estado liberal burguês que a Revolução Francesa do século XVIII impôs ao mundo e os povos se debatem hoje nas dificuldades de abrir caminho a um novo Estado (...)" (La conquista del Estado, 1931). Já o manifesto da JONS, a ersão fascista dos partidos de massa, do mesmo ana, assinala: "assistimos hoje à ruína da democracia liberal, ao fracasso das instituições parlamentares, à catástrofe de um sistema econômico que tem suas raízes no liberalismo político".

O fascismo italiano não difere dos seus homólogos. O programa conhecido como "Nove Pontos do Fascismo Integral", surgidos em 1924, afirma em seu ponto 8: "Os interesses parlamentares do fascismo não devem jamais predominar sobre seus princípios ideais e seu programa (...)" Ou ainda, sob outra formulação: "Se há fato demonstrado pela experiência é que a democracia e o liberalismo se esgotaram no último século." Tal se daria principalmente pelo "(...) esvaziamento de seu conteúdo ideológico; não mais existiria correspondência entre os princípios e os sentimentos dos homens que se diziam servi-los. Da mesma forma, não correspondem às necessidades dos novos tempos" (Discurso de A. O. Salazar, 25/6/1942). As chamadas necessidades do novos tempos exigiam um Estado forte, dominador, que impediria o conflito social no plano interno e fortaleceria o país no plano externo, espaço pensado como uma selva, marcada pela violenta luta pela sobrevivência: "O novo Estado, por ser de todos, totalitário, considerará como fins próprios os fins de cada um dos grupos que o integram e velará como por si mesmo pelos interesses de todos" (J. A. Primo de Rivera,
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A falange espanhola, 1933).

No interior desse discurso é particularmente importante a noção de coerência nacional, pedra angular do fascismo, como impossibilidade programática do liberalismo. No segundo caso, acima pontado, a idéia do liberalismo como elemento desagregador surge como o verdadeiramente elemento doutrinário do antiliberalismo fascista. Não se trataria, aqui, de uma crise ou falência do liberalismo -- de qualquer forma já apontada como avatar histórico. Desde sua origem, na Revolução Francesa, o liberalismo representaria um elemento desagregador na sociedade. O fulcro da questão residiria na desorganização da sociedade tradicional, composta de corpos sociais intermediários e identificadores do indivíduo, em nome de duas premissas liberais básicas: a identidade entre representantes e representados (com a referência permanente ao voto) e a felicidade geral decorrente da felicidade individual no estabelecimento do mercado auto-regulável.

O conjunto de medidas tomadas pela Revolução Francesa com a libertação do indivíduo dos entraves do Antigo Regime, aqui ícone da Tradição, lançaria os indívuos na multidão anônima, no seio de uma massa amorfa, incapaz de refazer seus laços de identidade ou de incorporar a pretensa identidade entre representante/representado. A destruição das instituições tradicionais (reconhecidas na positividade da antiga sociedade dos privilégios, ou seja, dos direitos privados, onde cada indivíduo só era livre -- ou seja, auto-reconhecido -- quando referido ao seu estamento ou ordem) gerou a perda da identidade, da noção de ordem e hierarquia. Da mesma forma, a Revolução Francesa destruíra os vínculos dos homem com o sobrenatural, com o místico e com a promessa da imortalidade, secularizando a vida pública eexpondo a crueza e a pequenez da vida religiosa cristã. Muitos proporão o regresso, a restauração, enquanto outros vão avançar na tentativa de restar para a política a mística religiosa:
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"abominamos a liberdade de consciência, de pensamento, de culto, e todas as liberdades de perdição com que os imitadores de Lúcifer perturbam, corrompem e destroem as nações; com toda a força de nossas almas queremos combater o liberalismo que se encobre no naturalismo filosófico e político (...)" (Programa Integrista Espanhol, 1909).

Mesmo a retomada religiosa da Restauração, após o Congresso de Viena (1815), e os esforços da renovação da doutrina com a encíclica Rerum Novarum (1891) não resultaram no religar do homem comum com os aspectos místico-religiosos que lhe garantiam coesão e segurança. Entretanto, não podemos deixar de destacar que coube à Igreja Católica, em sua luta contra o liberalismo, um importante papel na proposição de formas tradicionais de associação, como as corporações, como forma de superar o conflito de classes. O corporativismo é, assim, indissoluvelmente ligado à chamada doutrina social da Igreja.

O que os diversos matizes do pensamento de direita procurarão, e será realizado no fascismo, é reunir sob a égide do Estado os objetivos de coesão social enunciados pela Igreja. Abria-se, dessa forma, espaço para um novo e maligno tipo de mitologia social, ou, no dizer de Norbert Elias, de uma religião social, mantida e operada pelo Estado (Elias, 1997, pp. 342 e seguintes) (...) No plano político imediato, tal destruição da Tradição pelo liberalismo triunfante surgido na Revolução Francesa apontaria para a atuação do princípio de representação, considerado, em si mesmo, como nocivo e manipulador.

i. Os partidos políticos agrupariam interesses setoriais e de classe e, por isso mesmo, parciais, portanto não-nacionais; tornar-se-iam, desde 1789, a fonte de todas as discórdias e divisões das nações; ao mesmo tempo como portadores do poder, o ceário de exercício dste desloca-se para o Parlamento, onde os diversos partidos -- todos partes e fragmentos da verdadeira Nação -- agiriam com lobistas, defendendo os interesses particulares de cada grupo....
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Assim, a burguesia, triunfante desde 1789, metamorfosearia o poder à sua imagem: barganha, troca, conchavo, mercancia. De exercício nobre e de poucos vocacionados ao poder, como no Antigo Regime, se transforma no seu contrário, um não-poder baseado nas versões mais banais do contrato, trazendo o Estado para o mesmo nível de prática da bolsa de valores. Parlamento e bolsa de valores são assim as criações do mundo burguês liberal;

ii. um segundo aspecto, destada pela fala fascista, é a percepção da diferenciação da esfera do público e do privado, operada a partir da hegemonia da burguesia sobre a vida política, como elemento marante da ordem social liberal. O fascismo denuncia aí a limitação do poder, sua domesticação e enclausuramento em domínios ou esferas singulares como uma forma inarticulada de organização social, de mais um passo em direção ao afastamento entre o homem e o poder.(...)

(...)

3. Comunidade do povo e a sociedade corporativa: o fascismo enquanto revolução

Um grande número de historiadores insiste em que a característica central da ação fascista foi destruidora, negativa e sem proposições. Pariticularmente a intelectualidade weimariana liberal, em grande parte emigrada, ao retornar, só pôde contemplar as ruinas de um mundo que jamais voltariam a ver. A Berlim boêmia da Nollendorplatz, ou apressada e multifacetada Alexanderplatz, deixara de existir para sempre. Para retomar uma expressão clássica, restava apenas, como nas imagens do filme de R. Rosselini, Germania, ora zero, "Lúcifer sobre as ruínas do mundo". Fundou-se assim o suposto de um fascismo sem doutrina, sem idéias e sem utopias. Apenas uma face monstruosa, Belial e Behemot, os demônios do Caos, soltos sobre a Terra.

Ora, uma análise mais detalhada nos leva a desconfiar da perplexidade liberal. Havia um projeto fascista, uma utopia capaz de seduzir homens e mulheres, de arrastar as multidões para além das interpretações esotéricas e hipnóticas de um líder único:Ç
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É neste sentido que o fascismo mostra sua superioridade enquanto metapolítica(...)A incapacidade de entender o caráter metapolítico do fasicsmo -- projeto de vida e morte, para além da adesão política -- reside na insistência em trabalhar com explicações sempre no campo na teoria política clássica, exatamente aquela que é repudiada e negada pelas massas entranhadas e denunciadas com veemência pelo fascismo. Enunciação e recepção do fascismo entrelaçam-se no brilho de um novo fazer da política, com rituais e cerimônias que devolvem a identidade do sujeito, mesmo que essa identidade seja irracional.

(...)O fascismo propõe a recuperação da integridade do homem através de instituições, rituais e cerimônias que resabelçam os corpos sociais que integravam a teia institucional das sociedades do Antigo Regime, a chamada Tradição. Muitas vezes essa teia social é confundida com um mítico passado medieval, com o viver livre nas florestas ou com o paganismo, ou um ruralismo elementar, como na França de Vichy. De qualquer forma, com um modo de viver -- embora não, e devemos frisar isto com força, com um modo de produzir -- que se contrapõe à sociedade industrial moderna e às massas urbanas amorfas:

"Nós gostamos da palavra comunidade. A comunidade familiar. A comunidade religiosa. Queremos construir a nossa comunidade. Como essa pequena vila que vocês acabaram de atravessar; essa vila tão espiritual, construída ao redor da Igreja, em que desembocam todos os caminhos. (...)Nessa comunidade haverá lugar para todos. E é este o verdadeiro patriotismo, a verdadeira tradição: não é a bandeira tricolor, os discursos, todas estas idiotices. Não é uma abstração (...) Queremos a nossa terra; queremos ver renascer tudo o que liga o homem a sua terra. Como está só o homem nas cidades de hoje! Queremos devolver ao homem a sua vida, sua razão de ser(...)" (Brasillach, 1969).

[continua]
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Em alguns casos, como nos fascismos da Europa Oriental, com uma história de urbanização e industrialização que mal se esboçava, a vida urbana era temida e identificada com o estrangeiro e a anomia. Tanto a Legião do Arcanjo São Miguel (1927) quanto a Guarda de Ferro (1930) romenas, lideradas pelo jovem fascista Corneliu Codreanu, identificavam na vida urbana moderna, dominada pelos judeus, a fonte de dissolução e corrupção da comunidade patriótica(...). Entretanto, o fascismo reconhece que o Antigo Regime não volta mais, definitivamente destruído pela Revolução Francesa de 1789, pelo individualismo e pela secularização. Neste sentido, sua proposta nao é o restabelecimento da Tradição -- e aqui se abrem as divergências entre o fascismo e os diversos matizes do conservadorismo (Da Silva, 1996a) --, e sim o estabelecimento de uma teia social de novo tipo. Para tal, a ordem social liberal-burguês, com sua distinção entre o público e o privado, com o indivíduo condenado insoluvelmente ao sucesso ao fracasso econômico, com a transformação da questão social em problema social, deveria ceder lugar a formas solidárias e orgânicas.(...)

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Há mais, mas o acima já deixa espaço pra reflexões.

Desculpem, mais uma vez, o número excessivo de posts.

Inté
willian#87
Por falar em nazismo, gostaria de saber se é considerado crime, sair por aí vestido com uma camisa contendo o desenho de uma suástica ?!
Pergunto isso, porque tenho um amigo que é fã do nazismo e volta e meia, vejo ele com uma camisa destas.

Pelo menos andar com uma camisa estampada com Che Guevara não é crime, porém não sei se o é com a suástica .
francisco#88
leandro_5#89
Vídeo do YouTube
leandro_5#90
O que ocorre é o seguinte: a idéia de que o nazismo é de direita é porque esquerdistas sempre vão tentar colocar o que é ruim para a direita; mas a dúvida que permanece é "Por que não tentam falar que Stalin é de direita??" e a resposta é "já tentaram, ainda tentam, só que foi tão óbvia que a idéia não sobreviveu".

A idéia de que Hitler era de direita sobrevive porque ele atacou os comunistas. A lógica esquerdista é que qualquer coisa que ataque comunistas é de direita. Até mesmo se um cachorro der uma mordida na perna de um comunista é porque ele é de direita. Capaz até mesmo de um comunista se matar e chamarem ele de direita "porque ele matou um comunista kkkkkkkkk".
leandro_5#91
Mas eu sou da seguinte opinião: eu não me estresso se colocam o nazismo para a direita... O estrago que o comunismo global cometeu é uma pedra tão grande no sapato de esquerdistas, que se um dia, em um debate sério de um direitista com um esquerdista, ambos tenham que assumir pelos erros (o direitista assumindo o nazismo/fascismo e esquerdista assumindo o comunismo/socialismo), o esquerdista ficará em uma posição tão ruim, mas tão ruim que eu ficarei até com pena.

Só que eu aprendi que um debate sério com esquerdistas é impossível, eles vão querer que os direitistas assumam pelos erros do Hitler e Mussolini e eles não vão querer assumir o Stalin,Mao Tsé Tung e tantos outros. O argumento é "Ai, você não pode colocar o Stalin e etc na minha conta, existem outras ideologias de esquerda". E não existem quem sabe outras ideologias de direita?? Sou direitista sou nazista quem sabe?? Eu tenho dúzias de argumentos que provam que o nazismo não é de direita mas não estou usando porque fiquei com pena da posição em que você ia se meter caso eu tivesse que assumir o comunismo. E daí eles iam partir para ad nauseam etc e iam pedir para eu assumir o nazismo de qualquer forma e eles não iriam querer assumir o comunismo. O debate seria impossível.
ludwigvonmises#92
hitler se dizia socialista,  o totalitarismo e o intevencionismo nao  deixam duvida,  NAZISMO = COMUNISMO 

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