Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

Pergunta sobre metafísica

Iniciado por wellington_2 em 19/05/2010 · 82 mensagens · página 1 de 2

wellington_2#1
Gostaria de saber se alguém pode me responde ruma duvida sobre a prova da existencia de Deus de Santo Anselmo.

Olavo tem um trecho sobre isso:

"Que a prova de Sto. Anselmo é auto-evidente e necessariamente verdadeira

1. Um ser absolutamente necessário existe necessariamente, diz a prova de Sto. Anselmo.

2. A objeção de Kant é que o ser assim definido é definido por nós, portanto sua exitência é hipotética, fundando-se na suposição — feita por nós — de que o ser nela definido é absolutamente necessário.

2. A contraditória é "Um ser absolutamente necessário não existe necessariamente" ou "Um ser absolutamente necessario necessariamente inexiste?" Sendo impossível decidir, é proposição equívoca e não tem sentido.

3. Logo, a prova de Sto. Anselmo é auto-evidente.

4. Não havendo auto-evidência hipotética (7:1-5), a prova de Sto. Anselmo é necessariamente verdadeira"

http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/identidade.htm

Até aí eu entendi, se é necessário a existencia de um ser, logo ele deve existir.
"Não havendo auto-evidência hipotética (7:1-5), a prova de Sto. Anselmo é necessariamente verdadeira".
Mas minha questão é como Santo Anselmo demonstra porque esse ser é absolutamente necessário? Qual o ponto do argumento de Santo Anselmo?

Nese link http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/serconhecer.htm olavo fala sobre Deus e sua relação com a consciencia. Que tipo de o professor está mostrando?
O que está por trás desse raciocínio?

E por último, não haveria uma complementariedade da prova de Santo Anselmo com as provas de Sto TOmas? São Tomas não está apenas dizendo porque o ser absolutamente necessário é necessário?

Espero que alguém responda. Obrigado
alexey#2
Wellington, vou tentar te responder a primeira e a terceira questão.

Sobre Anselmo, o argumento é espantosamente simples: se nós temos a IDÉIA DA PERFEIÇÃO, então existe a perfeição, e o que o demonstra é a própria idéia... mas não um fato empírico. Eu posso não encontrar a perfeição no mundo, mas eu tenho a idéia da perfeição, logo esta idéia é autoevidente.

Ora, se a idéia é autoevidente, não há necessidade de demonstração alguma além da própria idéia.

A crítica de Kant vai na seguinte linha: uma coisa não é real só porque é pensada, isso seria fantasia. A existência de um objeto não pode derivar de sua definição conceitual. Nota importante: em momento algum Kant diz que Deus não existe. O que ele diz é que não é possível provar a existência de Deus. Uma interpretação incorreta do que Kant disse é: se eu não posso provar a existência de Deus, Deus não existe.

Para Kant, a teologia racional é uma prática impossível e fantasiosa, MAS isso de forma alguma significa que Deus não exista. Apenas que sua existência não pode ser "provada", e como "provada" entenda-se: pelo uso da mera razão. Particularmente, penso que Kant está certo, e não é muito diferente do que diz Pascal, quando afirma que o coração tem razões que a razão desconhece. Pascal também diz o mesmo: não se alcança Deus pelo intelecto, por argumentos, nem por provas.

Kant ainda diz que o fato de imaginarmos a perfeição não significa que a perfeição exista, mas sim que desejamos sua existência.
alexey#3
Mas não me parece que Anselmo tenha dito que Deus é um ser absolutamente necessário. Deus como ente necessário é mais do argumento cosmológico [causa necessária], e não do ontológico. No argumento ontológico, não existe nenhuma evocação de fatores exteriores: se temos a IDÉIA DA PERFEIÇÃO, isso NECESSARIAMENTE EXISTE. A crítica de Kant é simplesmente isso: uma coisa não existe porque é ideada.
lrdezro#4
A idéia de Deus, significando o Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito, quando aumentamos indefinidamente as qualidades de bondade e de sabedoria. - Investigação Sobre o Entendimento Humano, Seção II, "Da Origem das Ideias".
alexey#5
Sobre Aquino e Anselmo, há uma diferença, e eu diria que Aquino inclusive rejeita o caminho proposto por Anselmo. Anselmo é ontológico, Aquino é cosmológico. Particularmente, acho os argumentos de Aquino melhores do que os de Anselmo.

Aquino acomoda a filosofia aristotélica com a fé cristã, retomada que ele faz em grande parte por conta dos filósofos muçulmanos [Avicena, principalmente]. O que ocorre é que os argumentos de Aquino, assim como os de Aristóteles, partem da observação do mundo, ou seja, por conta de um raciocínio causal, chegam à idéia de Deus.

Não sei se seria correto dizer que Aquino e Anselmo se complementam. Depende do que você quer dizer com "complementar". Sou fortemente inclinado a crer que Aquino acharia o argumento ontológico "fraco" e que o argumento cosmológico é "mais sólido". SE o que você chama de COMPLEMENTAÇÃO é o fato de um usar um argumento e outro usar outro argumento, aí concordo. Mas, na verdade, o argumento de Anselmo não demanda o argumento de Aquino, nem vice-versa. São argumentos que se bastam a si mesmos.

Descartes, entretanto, em suas Meditações Metafísicas, demonstra reunir os argumentos de Aquino e Anselmo. Descartes começa apenas a partir da IDÉIA DE DEUS. Mas no final ele entra no aspecto aristotélico-tomista [causalismo] e depois volta pra Anselmo [se tenho a idéia de Deus, é porque Deus existe].

Em verdades, os três mais poderosos argumentos da existência de Deus são o argumento cosmológico [Aquino], o ontológico [Anselmo] e o físico-teleológico [que alguns chamam de argumento do desígnio]. Eu não diria que eles são complementares NO SENTIDO de o que falta em um, o outro oferece. Na verdade, a proposta dos três argumentos é que eles por si só bastam. Anselmo não precisa de raciocínios causais para defender a existência de Deus. Aristóteles precisa, porque a mera idéia não lhe é suficiente.
alexey#6
Aproveitando a deixa da citação do Lorde Zero acerca de Hume, recomendo a leitura de "Diálogos sobre a religião natural", uma obra muito interessante, na qual Hume teatraliza a conversa entre um deísta, um teísta e um cético. Os três argumentos são apresentados: o ontológico, o cosmológico e o físico-teleológico. O livro é muito interessante, pois parece um bate papo do Orkut [só que profundo]

Hume foi acusado de ser ateu, o que é divertido, já que o mais provável é que ele fosse um deísta, ou seja, cria num Deus indiferente. Na verdade, a acusação de ateísmo recai sobre Hume por conta de um ponto muito específico: o significado de SER ATEU varia. Cristãos já foram acusados de ateísmo pelos romanos, pelo fato de o Deus cristão ser considerado por demais abstrato e impessoal, se comparado aos deuses "vivos e humanos". Na época de Hume, "ateu" não era quem não acreditava na existência de Deus, era quem não aceitava A IGREJA, era quem não aceitava o entendimento cristão do que Deus "é". E, principalmente, quem não cria no inferno. Spinoza também foi acusado de ateísmo, mas fala de Deus o tempo todo, só que o Deus de Spinoza não é o mesmo Deus cristão. Aliás, nem o Deus de Aristóteles é o mesmo Deus cristão! O Deus aristotélico é o primum mobile, primeiro motor, absolutamente indiferente - ele não atende suas preces, e você pode acender mil velas, fazer promessas, mas ele sequer dará atenção...

Mas, voltando, "Diálogos sobre a religião natural" é excelente e aborda os três argumentos da existência de Deus com bastante profundidade, apesar de se ater mais ao argumento físico-teleológico.

Por fim, devo dizer que no meio filosófico costuma existir uma "ordem" [claro que não unânime] que aceita que um argumento é "mais sólido" do que o outro. Em geral, o que verifico é:

Primeiro lugar - argumento físico-teleológico [argumento do desígnio, do desenho, do design inteligente].
Segundo lugar - argumento cosmológico.
Terceiro lugar [talvez por sua simplicidade] - ontológico.
murilo_2#7
não se trata disso. A crítica do Kant é a velha crítica da "ilha", se penso numa ilha ela não existe automaticamente. Mas Deus é definido como o ser necessário( não como um ser contingente, uma coisa dentre as outras), o fundamento de todas as coisas ( senão cairiamos na aporia da regressão infinita na série das causas), agora elabore uma contraditória não ambígua para o ser necessário necessariamente existe( O ser necessário necessariamente inexiste? O ser necessário não existe necessariamente? ). O Olavo diz que a característica de um argumento auto evidente é incapacidade de se elaborar uma contraditória não ambígua. Este é o ponto da reelaboração do OLAVO.
murilo_2#8
Negando Deus, qual o estatuto ontológico da possibilidade? Onde estão as possibilidades não realizadas e os futúriveis? A natureza do ser contingente ( que algo atualmente, mas uma porrada de coisas potencialmente) demanda um fundamento para as possibilidades que este pode actualizar, senão teriamos que dizer que algo adveio do nada e o que o impossível se tornou possível.
priscila#9
up
wellington_2#10
Opa

Em primeiro lugar obrigado pelas respostas. Achei que ninguém ia dar bola.

"se nós temos a IDÉIA DA PERFEIÇÃO, então existe a perfeição, e o que o demonstra é a própria idéia"

Agora entendi um pouco melhor o argumento de Santo Anselmo.
Só que eu acho que a crítica kantiana é um sofisma. Vamos para um exemplo.
Existe uma entidade na física que chamamos de energia.
Mas voce nunca mede a energia. Voce mede temperatura, velocidade e etc.
Tanto é que em termodinamica não faz muito sentido falar em energia de um sistema, mas na variação de energia.
A energia é uma grandeza derivada de um raciocínio não é empirica.
Logo aquilo que não é empirico não existe.
Mas alguém pode duvidar da existencia da energia e falar que ela é uma mera criação do intelecto? Pode, mas o sujeito deve apresentar um argumento muito bom para contradizer o argumento da existência de uma entidade física chamada energia.
O esquisito é que para Kant a ciência podia argumentar metafisicamente, mas quando tratamos de religião a metafisica não tem como responder.
Se todos concordamos que a que temos a idéia de perfeição, de onde essa idéia vem? Para Kant de onde vem a perfeição? Qual a explicação Kantiana? Voce tem uma explicação muito simples e muito boa não porque Deus existe, porque existe a perfeição. Aí o sujeito cria uma teoria que tenta comer as coisas pela beirada, mas só a aplica coisas de carater metafisico. Porque Kant não tenta aplicar sua teoria a sua própria teoria? Enfim que com que provas empiricas ele prova sua teoria? Ou o que nos garante que a teoria Kantiana não é uma mera idéia, logo não tem a minima relação com a realidade?
Sinto muito mas se não confiamos no nosso intelecto vamso confiar em que? Aí nos resta apenas o pietismo religioso de Descartes " Deus não pode me enganar". Sinto muito mas a teoria Kantiana não é uma verdade de conteúdo apodictico. Kant exige um tipo de verdade que não se encontra nem na ciencia e nem na filosofia.

Mas aqui temos uma coisa interessante. Nós não apenas
manoel_2#11
Recomendo a comunidade Apologética Católica:

[url]/Main#Community?cmm=12901339[/url]
wellington_2#12
Mas aqui temos uma coisa interessante. Da onde viria a perfeição? Da evolução das espécies?
Impossível, a busca pela perfeição ao contrario de ajudar na sobrevivencia atrapalha.
Se fossemos como os animais que apenas se satisfazem com a satisfação dos desejos carnais como comida, sexo e descanso porque então vemos tanta gente deprimida?
Pior porque tanta gente se suicida?
É essa busca da perfeição que geralmente degenera o ser humano, como a busca por mais dinheiro, a busca por sexo desenfreada, a busca pelo corpo perfeito.
Na realidade o ser humano sempre está buscando algo que ele não sabe o que é.
Porque buscamos isso? Vem da nossa fisiologia? é obvio que não.
Essa busca humana na realidade é uma busca por algo que nos satisfaça, que nos tire da solidão, da dor, do sentimento de desamparo e desespero que é a existência humana.
Contudo não existe nada do ponto de vista material que satisfaça essa busca.
(Logo uma pergunta que sempre me intriga como um materialista lida com uma existencia almaldiçoada? Não vale criar utopias politicas ou cientificas)
É realmente como se o ser humano tivesse caído e perdido algo do "paraíso perfeito",
é estranho mas nunca parei para pensar nisso mas o cara que escreveu o Genesis era um genio ou estava sob inspirição divina. É justamente esse sentimento que todos nós temos a busca do paraíso biblico é uma constante no pensamento humano, diria mais ela é universal. Todos nós sabemos que o mundo pode ser melhor, que deve ser melhor. Quando caímos na idéia de "ser realista" perdemos todo o sentido da vida. Esse sentido não pode estar em algo material, ele deve ser algo transcendente ao corpo material. Logo essa perfeição só pode ser encontrada no ser que nos transcende Deus, alias ela deve vir do próprio Deus. Nunca havia parado para pensar, mas queda do paraíso não apenas teologicamente correta, mas é a descrição da realidade humana. Para mim o que Santo Anselmo diz não é pensar numa ilha, ele estava falando de algo que está na realidade de cada ser humano.
wellington_2#13
"Primeiro lugar - argumento físico-teleológico [argumento do desígnio, do desenho, do design inteligente].
Segundo lugar - argumento cosmológico.
Terceiro lugar [talvez por sua simplicidade] - ontológico."
Desses argumento o pior para mim é o primeiro. POr mais que estatisticamente seria quase impossível o mundo ter surgido ao acaso, o fato é que se admitimos uma hipotese atomista pode ser possível que isso se realize. Outra coisa o design inteligente é mecanicista, logo para todos os teologos sérios o design inteligente é uma palhaçada. O mecanicismo é um dos motivos do ateísmo. No entanto essa hipotese foi desmentida pela ciencia, mas ainda parece ter devotos entre a maioria dos ateus e entre os crentes do do design inteligente.
Isso é deprimente. Tem alguma coisa sobre isso no blog do renan sobre a fisica quantica e tem um cara tomista de um blog, acho que o link no blog do renan, acho que nome do car é fasser alguma coisa assim.
caro alexey crei que talvez o argumento primeiro é melhor para voce porque estamos intoxicados de mecanicismo.
Sinceramente acho o deísmo autocontraditório. Voce diz que Deus que criou todo os cosmos e foi dormir, como se o cosmos fosse um relógio. Mas porque ele nos deu consciencia da sua existencia, da sua perfeição, para ficar se partindo de dar risada da nossa cara, sofram seres inferiores. Isso seria autocontraditório com o Deus do deísmo. Logo se Deus nos dá capacidade de perceber sua presença é porque ele quer dialogo, algo ele quer com o homem, o resto do universo não tem ciencia de Deus, somente o homem, algo Deus deve ter para revelar de especial para o homem.
wellington_2#14
"Negando Deus, qual o estatuto ontológico da possibilidade? Onde estão as possibilidades não realizadas e os futúriveis? A natureza do ser contingente ( que algo atualmente, mas uma porrada de coisas potencialmente) demanda um fundamento para as possibilidades que este pode actualizar, senão teriamos que dizer que algo adveio do nada e o que o impossível se tornou possível."
Murilo viajei. Podia explicar isso melhor. Não entendi isso. o que seria "estatuto ontológico da possibilidade"?
O pessoal da comunidade podia ajudar. Sei que deveria estar no seminario de filosofia mas estou numa pindaiba do cacete.

Bom falta ainda responder a segunda pergunta:

"Nese link http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/serconhecer.htm olavo fala sobre Deus e sua relação com a consciencia. Que tipo de o professor está mostrando?
O que está por trás desse raciocínio?"

Bom é isto, aguardo a ajuda de quem puder ajudar.

Obrigado
alexey#15
Olá Wellington,

Eu vou responder desde seu último post até o primeiro, mas com intervalos largos, porque estou ocupado com uns lances aqui. Mas acho ótimo debater Filosofia, é deste tipo de tópico que eu gosto.


caro alexey crei que talvez o argumento primeiro é melhor para voce porque estamos intoxicados de mecanicismo.


Corrigindo: eu não disse que o primeiro argumento é o melhor para mim. Eu disse que ele é, pelo que verifico, aquele que os próprios céticos consideram "mais aceitável". Eu, particularmente, acho todos os três muito ruins, e acho que crer em Deus não demanda NENHUM deles. E mais: acho que procurar argumentos lógicos para a crença em Deus é cair no jogo do racionalismo, considerando que Pascal matou a charada numa cartada só [e ele era um ótimo matemático, logo devia ter um "racional" muito poderoso]: argumentar sobre a existência de Deus está abaixo da fé, que é algo que vem do coração [metaforicamente, é claro... não do órgão!]. Eu gosto do argumento de Agostinho: crer na existência de Deus deriva da fé, que é uma graça. Para Agostinho, é claro, é uma graça.


Sinceramente acho o deísmo autocontraditório. Voce diz que Deus que criou todo os cosmos e foi dormir, como se o cosmos fosse um relógio.


Não sou eu quem o diz. São os deístas, e eu nem diria que sou deísta. Eu nem sei se houve um "momento de criação", ou se este "momento de criação" é apenas uma forma de entender do humano. Aí alguém pode dizer: ué, você não estuda Astrofísica? E o Big Bang? Bem, devo dizer que a teoria do Big Bang tem várias vertentes e que, numa delas, não houve o momento zero. Neste hipótese, se você voltar no tempo você jamais alcançará o momento zero da criação. Aquilo que chamamos de Universo seria eterno, sem uma causa criadora. Obviamente, pensar assim não é nada popular, pois estamos acostumados a pensar em termos de A que causa B, e assim por diante.
alexey#16
O mecanicismo é um dos motivos do ateísmo.

Não concordo, Wellington. Primeiro, porque a idéia de uma mecânica perfeita é o que faz justamente muitos cientistas crerem em Deus. É a forma que eles encontram de crer em Deus. Segundo, porque eu não sei o que você quer dizer com "ateísmo", já que este termo pode significar muitas coisas, conforme eu já disse. Alguém que não crê no Deus cristão, mas crê no Deus indiferente de Aristóteles, é para você ateu ou não-ateu? O fato de Deus não ser visto por alguém como uma entidade que atende as nossas preces, mas que nele crê como uma força superior, é para você um ateu ou um não-ateu? Conforme expliquei, na época de Hume o simples fato de você não ser cristão fazia com que você fosse imediatamente considerado um ateu. E Hume acreditava em Deus. Ele só não acreditava no Deus a partir de um modelo cristão.

Mas porque ele nos deu consciencia da sua existencia, da sua perfeição, para ficar se partindo de dar risada da nossa cara, sofram seres inferiores. Isso seria autocontraditório com o Deus do deísmo.

SE Deus é o primeiro motor e é absolutamente indiferente, ele jamais poderia "dar risada da nossa cara", pois isso NÃO seria indiferença. Seria sarcasmo.

Logo se Deus nos dá capacidade de perceber sua presença é porque ele quer dialogo, algo ele quer com o homem, o resto do universo não tem ciencia de Deus, somente o homem, algo Deus deve ter para revelar de especial para o homem.

SE eu for admitir a hipótese deísta como correta, eu reconstruiria a sua frase: NÓS queremos diálogo porque somos capazes de perceber a idéia de Deus.

Mais tarde eu continuo com o restante, mas devo adiantar que pessoalmente acho que este caminho é um tanto infrutífero. Pra mim, é muito bem resolvido que a existência de Deus não é algo que se alcança pela razão. SE Deus existir, a percepção de sua existência é uma GRAÇA, algo que vem DO CORAÇÃO, não da mente racional.
alexey#17
As pessoas podem passar tópicos infinitos batendo boca, e nada mudar, porque... porque, na minha opinião, Hume está certo: crer, descrer, crer desse jeito, crer daquele jeito, achar o argumento ontológico melhor, achar o argumento físico-teleológico melhor, etc., tudo isso passa pelo SENTIMENTO, e não pela pura razão. Você pode me explicar com toda a lógica do mundo, usando uma retórica fantástica por quê Deus existe, e eu entenderei TODAS as suas razões, mas o sentimento, a fé, não habitam o meu coração. E... adivinhe? Eu não sou nem um pouco infeliz Não me sinto vazio, nem desesperado, nem angustiado, etc.

E tem uma coisa muito séria aqui, na minha opinião, e não posso deixar de comentar: as pessoas que dizem crer em Deus crêem MESMO, porque sentem esta fé genuína, ou crêem por mero hábito? Porque se for por mero hábito, por mero costume, aí a coisa pega... Mas se a pessoa diz crer em Deus porque sente efetivamente esta fé, numa boa, que tenho eu com isso? A única coisa que acho extremamente perigosa é o fundamentalismo religioso, seja lá de qual religião for. É perigoso quando um religioso quer que eu, que não faço parte da religião dele, siga seus princípios.

E é por essas e outras que acho tão ineficientes os debates que envolvem, por exemplo, homossexualidade. Homossexualidade é pecado na perspectiva católica. Fato. Ponto pacífico. Não concorda? Não seja católico. Concorda? Concorda MESMO? Então seja coerente e recalque seu desejo. Mas o fato de algo ser pecado religioso não torna este algo ILEGAL, Priscila disse isso em algum lugar desta comunidade, e eu concordo. A única coisa que me deixa EVENTUALMENTE desgostoso em relação às religiões é quando o sujeito [que geralmente nem é uma autoridade religiosa, e sim um fiel] quer impor aquilo que ele segue como sendo a lei do Estado.

Mais tarde continuo, meu velho.
alexey#18
Existe uma entidade na física que chamamos de energia.
Mas voce nunca mede a energia. Voce mede temperatura, velocidade e etc.
Tanto é que em termodinamica não faz muito sentido falar em energia de um sistema, mas na variação de energia.


Wellington, isso não está correto. A energia é passível de medição, sim. O problema é que este termo ["energia"] é aplicado corriqueiramente a muitas coisas diferentes. Mas na Física a energia é mensurável, sim. Até porque, se um físico detecta a variação de energia, é porque ele MEDIU isto. Deste modo, a energia é empírica, e não apenas um conceito.

PARA KANT, a única coisa absolutamente a priori, ou seja, independente da experiência, é a matemática e a geometria. Eu não preciso calcular a soma de todos os triângulos, pois a própria definição de triângulo já nos diz que ele tem três ângulos, e a soma deste ângulos tem que dar 180 graus [ao menos na geometria euclidiana]. Só que note uma coisa, e isso é muito importante: a matemática não depende da experiência, MAS ELA EXISTE. Deste modo, não é correto dizer que, na perspectiva kantiana, se algo não é empírico este algo não existe. Ele apenas não é empírico. E este é um ponto importante de se compreender em Kant: quando ele diz que a existência de Deus não pode ser provada, ele NÃO está dizendo que Deus não existe. Aliás, qualquer pessoa que AFIRME PEREMPTORIAMENTE a inexistência de Deus não pode ser um filósofo, é um tolo. Comentário curioso: nem mesmo Dawkins, com todo seu ateísmo militante, afirma que Deus não existe. Ele afirma que Deus, na perspectiva cristã, não existe.
alexey#19
Eu não sou um grande conhecedor do pensamento de Aquino. Sei que ele diz que a fé é superior à razão, mas que a razão não pode contradizer a fé. Sei também que ele defende a necessidade da existência de um primeiro motor. Particularmente, me parece um equívoco dizer que uma causa primeira seja NECESSÁRIA. Simplesmente porque pode não existir "início", e isso ser só uma idéia humana, decorrente da NOSSA relação com o tempo e com a experiência.
alexey#20
O esquisito é que para Kant a ciência podia argumentar metafisicamente, mas quando tratamos de religião a metafisica não tem como responder.

Não é bem assim. A religião É metafísica. Note o significado da palavra: "além da física". Ora, se estamos falando de Deus, anjos, etc., isso obviamente é metafísica.

Sobre Kant e metafísica, é incorreto dizer que "a ciência pode argumentar metafisicamente". Kant separa completamente a ciência da metafísica. Uma coisa é uma coisa, a outra é outra. A este propósito, vale a pena ler Pierre Duheim, que diz claramente: a metafísica é superior em excelência à física, mas é posterior a esta. Afinal, se a metafísica está ALÉM da física, raciocinar metafisicamente para chegar a um entendimento da física seria bizarro. Como diz Duheim, "isso significaria que eu tenho uma mente angélica".


Se todos concordamos que a que temos a idéia de perfeição, de onde essa idéia vem?


Para muitos, vem da fantasia. Para Kant, a idéia da perfeição não significa existência da perfeição, assim como eu imaginar um triângulo perfeito não implica na existência de um triângulo perfeito NO PLANO EMPÍRICO [note o caps lock]. Esta é a chave, na minha opinião, Wellington: NO PLANO EMPÍRICO. Se Deus existe, não o encontraremos na realidade física, e o interessante é que isso é justamente o contrário do que diz o argumento físico-teleológico [o Universo é lindo e perfeito]. Se Deus existe, segundo Kant, não o encontraremos pela via da razão. Claro, isso parece bem diferente do dito por Aquino, para quem a razão é inferior à fé, mas não pode contradizê-la. Mas isso me parece o argumento de quem tem fé.

Eu já acho que a fé é virtude superestimada. Ela lhe faz crer em Deus? Faz. Mas se tomarmos o triunvirato das grandes virtudes cristãs [fé, esperança e caridade, que pode também ser entendida como amor], tanto Agostinho quanto Aquino afirmam que existe uma ordem de superioridade nestas três virtudes. E, adivinhe? A fé não está no topo.
alexey#21
Aquino e Agostino, comentando sobre a três virtudes teologais, dizem que a caridade não apenas é a maior das três [conforme também o dizia Paulo, para vocês São Paulo], como é a única que tem sentido em Deus. Tem algum trecho que diz que "no Reino, a esperança passará, a fé passará, só a caridade não passará". Ora, isso é lógico: a fé não será necessária, se Deus existir e o Reino ídem, pois serão EVIDENTES [e não o são no plano empírico, terrestre]. A esperança, muito menos, já que não haverá mais nada a esperar. Mas a caridade [amor] é infinita. Agora você veja, Wellington: se dentre as três virtudes teologais existem duas que têm prazo de validade e uma que é eterna, tanto aqui quanto no Reino, o que lhe parece mais importante? Fé, esperança ou caridade? Vale lembrar que "caridade" é a tradução de um termo que pode também ser traduzido como "amor" [no sentido de um amor muito superior ao amor carnal, pessoal, etc].

Não digo com isso que a fé seja desimportante, ou a esperança. Estou dizendo [e na verdade nem sou eu quem o diz, estou me referindo a Aquino, Agostinho e Paulo] que a caridade [amor] é muito mais importante. Deste modo, quem você acha que eu prefiro: um cristão cheio de ódio, ou um ateu honesto e praticante do bem? Dito de uma maneira menos puxadora-de-brasa-pra-sardinha [ademais, existem também ateus cheios de ódio]: lhe parece mais importante que uma pessoa CREIA ou que uma pessoa AME?

E mais: em Tiago 2:19, está escrito algo do tipo "até o diabo tem fé, mas treme". Quer dizer: o diabo também tem fé. O que o diabo não tem? Amor. Por isso que eu digo e repito: ter fé não garante nada além de crer. E a crença está longe de ser a virtude teologal mais elevada.
alexey#22
Por fim [por hoje, mas eu gosto do papo], não sei se você conhece Simone Weil, mas ela tem um argumento que eu aprecio muito.

Para ela, este mundo é a ausência de Deus, sua retirada e distanciamento. À distância, chamamos espaço. O tempo é nossa espera. Para Weil, Deus só pôde criar o Universo se retirando dele, caso contrário só haveria Deus. Então, sua prova de amor é sua retirada, para que as coisas pudessem existir. Sentimos sua presença na forma de ausência, de segredo, da sensação de vazio. Ela diz "este mundo enquanto totalmente ausente de Deus é a maior prova de sua existência" [ou algo assim, estou repetindo de cabeça]. Ela leva muito a sério a oração "Pai Nosso que ESTÁS NO CÉU".

E por que Deus teria criado o mundo? Para Weil, é unicamente por amor, pelo amor, que é, lembre-se, a virtude teologal mais alta. O texto mais claro de Weil a este respeito é o seguinte:
alexey#23
"A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as suas criaturas é menos do que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou-se de uma parte de si. É por isso que João diz que o cordeiro foi degolado já desde a constituição do mundo.Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor, para nos dar a possibilidade de nos negarmos por Ele. Esta resposta, este eco que depende de nós recusar, é a única justificativa possível à loucura do amor e do ato criador".

Eu acho isso muito bonito, e é como SINTO.
Note que não estou dizendo que é VERDADE, estou falando do meu SENTIMENTO.
E é assim que me vejo, Wellington: cheio de ausência de Deus. E é uma ausência tão intensa, tão profunda, um vazio tão enorme, que - pode parecer estranho, eu sei - me enche de conforto e felicidade.

Porque eu não acho que sou mais importante, não acho que sou escolhido de Deus, não acho que Deus fala comigo, não me acho a mais inteligente das criaturas, não acho que Deus está esperando isso ou aquilo de mim. Eu sou poeira. Meus medos, inseguranças, perdas, etc., nada disso tem importância nenhuma. Eu, humano, sou um momento ínfimo. E toda esta desimportância me enche de alívio.

Weil continua, dizendo coisas que muita gente poderá odiar:

"As religiões que conceberam esta renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus e sua presença secreta, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da Grande Revelação. As religiões que revelam a divindade como que comandando em toda a parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras."

É engraçado que isso me lembra uma coisa que foi dita pelo padre Paolo, um padre italiano que é uma das figuras mais religiosas e contemplativas que eu conheço.
alexey#24
Diante de uma promoção substancial ocorrida num emprego, uma amiga nossa comentou "graças a Deus, louvado seja Deus".

O padre franziu a testa, e disse "minha filha, não reduza Deus à patética figura de um gênio da garrafa. Se quer agradecer a Deus por algo, agradeça pela criação, não ache que ele parou tudo para te dar uma promoção, retirando esta mesma possibilidade de outrem, como se você fosse muito importante para ele, e a outra pessoa não. Isto é heresia".

Parece extremo? E o pagodeiro que agradece a Deus pelo sucesso da venda do disco de sua música de gosto duvidoso? E o jogador de futebol que agradece a... Deus!... pelo... GOL! Como se Deus dissesse: Ah, o Flamengo é muito importante, prefiro ele ao Fluminense! Isso é Deus ou é o gênio da lâmpada do Aladin, que atende aos desejos de quem esfrega melhor a lamparina?

Já vi que saí demais do tema, Wellington, e até peço desculpas. Mas é que eu me empolgo e, quando vejo, já saí devaneando... Um assunto puxa ao outro, e por aí vai. Mas, enfim, no tempo possível continuamos o papo.
murilo_2#25
O que sobrou da religião

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 12 de maio de 2010

Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.
murilo_2#26
Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural” e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.
murilo_2#27
O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”, as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.
murilo_2#28
Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do “divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos” (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishment governamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé” tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.
murilo_2#29
Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.
murilo_2#30
Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”, referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”, amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.
murilo_2#31
E lá em cima sobre a promoção. Bulshit essa história do padre, se ele disse isso , ele que é o herético. Deus não precisa parar porra nenhuma para olhar para a mulher e conceder o que ela queria, ele é Onipresente, inclusive a possibilidade dessa promoção (uma determinada relação entre aquela mulher e os outros seres humanos e o meio ambiente ao redor)já tinha que estar eternamente pré-ordenada na Onipossibilidade Divina. Pode não ser uma graça especial , mas a mulher está muito mais correta em agradecer a Deus por aquilo, do que o padre em dizer que ela é herética. Se fosse assim, as tradicionais famílias cristãs que rezam e agradecem a Deus na mesa pela comida de todo Dia, seriam heréticas, pois seria uma absurdo imaginar que Deus parou tudo para dar comida para aquela família e não para os famintos que se espalham pelo mundo.
rafael_14#32
Parabéns pelos posts, Alexey.

Boas recomendações de obras e autores, além de uma sequência de textos bem interessantes.
murilo_2#33
esse tipo de afirmação só tem sentido pelo efeito paradoxal, que pelo que já vi da Simone Weil é o que ele mais adorava fazer. É claro que agradecer a Deus achando que ele prefere o Flamengo ao Fluminense é rídiculo, agora o jogador agradecer pelo poder que tem de exercer aquela atividade, ter sucesso e podem sustentar sua família e ter seu conforto, isto aí é normal e é sim um louvor à criação. E acho que em um ambiente cristão normal a maior parte das pessoas entende um agradecimento a Deus no sentido de louvor ao poder, às possibilidades que Deus abriu para nós, e o louvor à criação está quase sempre implícito.
murilo_2#34
Deus é imanente e também transcendente. Nele somos, nos movemos e existimos. Estes argumentos que parecem afirmar a transcendência divina, muitas vezes estão imersos em kantismo. Quer dizer, para lá .... bem distante mesmo, está o Deus Escondido, a "coisa em si", e cá estamos nós em sei-lá-o que, e entre dois pólos separados está uma coisa chamada fé que é uma crença em algo de que não se tem a menor evidência. Mas o Cristianismo é a religião do Deus Encarnado , que sangrou , foi pisoteado e cruficicado e que agradecia ao Pai por tudo o que fazia e podia fazer e não da "coisa em si".
murilo_2#35
aproveitando a referência a Simone Weil gostaria de linkar este texto aqui do Olavo :

http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/simone.htm
murilo_2#36
destaco:

A linguagem da mística recorre com freqüência aos paradoxos, que não podem expressar verdade alguma exceto metaforicamente, o que vale dizer: ambiguamente. E quantas vezes, ao longo da História, o amor a Deus não tem se pervertido num amor à ambigüidade, numa rejeição das verdades mais patentes, num rebuscamento de contradições artificiais e desnecessárias! Que esta sofística piedosa tenha o alto propósito de indispor o descrente contra sua própria razão para atraí-lo aos braços da fé, ninguém nega. Que, porém, ela arrisque ter os resultados mais decepcionantes, entre os quais o de confundir o pregador mesmo, é também um fato, ainda que quase nunca reconhecido. Que, enfim, ela possa servir ao demônio tanto quanto pretende servir a Deus, eis aí o que soará como um escândalo, mas que a história do pensamento Ocidental confirma em toda a linha, e que aliás já fora anunciado por Jesus, ao advertir: "Seja o vosso discurso: sim, sim; não, não — o mais é conversa do maligno."
pedro_6#37
Caro Alexey,

Quando Kant admite a possibilidade de conceber explicações metafísicas mas ao mesmo tempo diz que não podemos conhecê-las pelos sentidos, o que ele quer dizer realmente com isso? E as experiências e relatos da vida dos milhares de místicos ao longo de toda história humana? E os milagres, eles acontecem aos montes mas nós não podemos presenciá-los e assim ter o conhecimento objetivo de sua existência? Me parece que admitir a possiblidade de por exemplo, vida após a morte, imortalidade da alma, intervenções diretas do transcendente na vida de indivíduos, e ao mesmo tempo dizer que não podemos realmente conhecer a realidade desses objetos não desmotiva em nada o impulso natural do homem de querer aproximar-se do conhecimento metafísico.
murilo_2#38
Todos os desvarios da dialética hegeliana, marxista e nietzscheana foram assim prefigurados pela teologia apofática1.

Deus, afirma a Bíblia, confunde a sabedoria dos sábios. Mas será lícito que os sábios se ponham a confundir-se a si mesmos, a pretexto de arrebatamento religioso?

Não bastam, para deslumbrar-nos, os mistérios supremos cuja solução Deus guarda para si? Será preciso semear de paradoxos artificiosos o caminho dos homens sobre a Terra? E que valeriam os mistérios supremos, se não tivessem solução nem mesmo para Deus? Os mistérios valem pelo Sentido, não pela misteriosidade. Eis aí o véu sutilíssimo que separa a mística da mistificação. E todo escrito místico, por natureza, contém sementes de mistificação — os de Simone Weil como qualquer outro. Cabe ao comentário filosófico separar o joio do trigo.
murilo_2#39
"Começo pelo trecho que diz:

O bem é impossível. — Mas o homem tem sempre a imaginação à sua disposição para ocultar de si essa impossibilidade do bem em cada caso particular (basta, para cada caso particular que não nos esmague, velar uma parte do mal e acrescentar um bem fictício — e alguns podem fazê-lo, mesmo se eles mesmos são esmagados) e, no mesmo ato, para ocultar de si "quanto a essência do necessário difere da do bem" e impedir-se de verdadeiramente encontrar Deus, que não é outra coisa senão o bem mesmo, o qual não se encontra em parte alguma neste mundo2.

Se não existe um bem em nenhum caso particular, e se de outro lado Deus é "o bem mesmo", isto é, o bem essencial, então todos os bens particulares são ilusórios e o único bem autêntico é o universal. Mas este universal, se não se encarna em nenhum bem particular, é mera forma conceptual vazia.

Ou existe algum bem neste mundo, ainda que parcial e provisório, ou Deus é uma Idéia platônica."
murilo_2#40
Simone confunde o parcial com o ilusório, o impermanente com o irreal, o temporal com o nada. Ou faz que confunde, para confundir o descrente, e acaba por se confundir a si mesma.
murilo_2#41
E a melhor parte:

"Nosso Pai, que está nos céus." Há nisto uma espécie de humor. É vosso pai, mas tentai um pouco ir buscá-lo lá em cima! Somos tão exatamente incapazes de decolar quanto um verme da terra. E como, da Sua parte, viria Ele até nós sem descer? Não há maneira nenhuma de representar uma relação entre Deus e o homem que não seja tão ininteligível quanto a Encarnação. A Encarnação faz esplender essa ininteligibilidade. Ela é a maneira mais concreta de pensar esse descenso impossível.9

É uma ofensa à dignidade da inteligência humana que um pensador cristão nos peça para acreditar na Encarnação como fato, ao mesmo tempo que nos proíbe de aceitá-la como possibilidade. O real é, por definição, possível. A Encarnação é possível, uma vez que aconteceu. Mas, mesmo que não tivesse acontecido, não teria cabimento negar sua possibilidade teórica, e isto por duas razões esmagadoras: primeiro, ela é exigida pelo conceito mesmo de Onipotência; segundo, ela é anunciada pelo Antigo Testamento.

A Encarnação compreendida — ou mal compreendida — como fato impossível é a negação do mundo criado, e não sua perfeição. Se jogamos o fato da Encarnação contra o senso da possibilidade lógica, destruímos, no ato, toda metafísica cristã e, de quebra, toda semente de uma cosmologia cristã. Da noção verdadeira de um Deus supracósmico, passamos à de um Deus anticósmico, um monstro absurdo a espumar de ódio contra a obra de suas mãos e a proclamar-se tanto mais infalível quanto mais peca contra si mesmo. Há uma semente de diabolismo num supracosmismo levado às últimas conseqüências — e a Encarnação é ela mesma a resposta cabal de Deus a toda revolta anticósmica10.

A Encarnação não somente é possível, como é possível eminenter: ela é a condição de possibilidade mesma da existência cósmica. Se Deus não pode ser homem, simplesmente não pode haver homens. A analogia com a mais vulgar experiência humana basta para ilustrá-lo: que é que impede um autor de fazer-se personagem entre os personagens que cria?
murilo_2#42
"En la tarde del 5 de enero, de pie en el umbral del café de Guido e Junín, Bruno vio venir a Sabato..."11

O sentimento de implausibilidade que o ateu experimenta ante a idéia de Encarnação é tomado por Simone como expressão plena e final da concepção humana do cosmos, numa ampliação universalizante de impressões passageiras, tão típica aliás do modus eloquendi francês em geral. E de um simples modo oblíquo de falar tiram-se, muito francesamente, as mais portentosas conseqüências filosóficas...

Não vejo o menor sentido em confundir o sublime com o impossível, a não ser a título de figura de linguagem. Imagens do sublime que para o ateu representam impossibilidades são, aliás, freqüentes na simbólica religiosa em geral. Não é menos implausível para o ateu no meio cristão a idéia de Encarnação — no seu duplo aspecto de parto virginal e de nascimento do homem-deus — do que, no mundo islâmico, a possibilidade de um analfabeto escrever o mais belo dos livros e de este livro ter-lhe sido ditado por Deus. Mas, para quem tem um pingo de senso metafísico, nenhuma dessas coisas tem de ser impossível para ser sublime, nem tem de ser absurda para ser verdadeira.
murilo_2#43
E ( acabei postando quase a metade do texto hehe):

"Tudo o que é apreendido pelas faculdades naturais é hipotético. Só o amor sobrenatural põe.16"

Logo, o sentimento de absurdidade é meramente hipotético, e o amor sobrenatural o resolve pela restauração do Sentido. Mas trata-se aí do amor sobrenatural que Deus tem por nós, e não do que nós temos por ele, e muito menos daquele que toma a forma específica da fé cristã — pois Deus deu o entendimento intuitivo do Sentido a todos os homens, pela ação do Espírito Santo, e não só aos cristãos. Do contrário, todos, menos os cristãos, naufragariam na absurdidade até a chegada do primeiro pregador cristão.

O amor aos paradoxos é uma forma de idolatria bem querida dos místicos. Em nome do amor a Deus, eles se persuadem de não entender aquilo que entendem perfeitamente bem, para poderem deleitar-se no sentimento de absurdo e desfrutarem de um alívio factício adornado do prestígio de um milagre da fé.
marcos_12#44
"E por último, não haveria uma complementariedade da prova de Santo Anselmo com as provas de Sto TOmas? São Tomas não está apenas dizendo porque o ser absolutamente necessário é necessário?"

Bom, eu nunca li a prova de Sto Anselmo, mas pelo o que foi exposto pelo Olavo nos quatro pontos me parece que ela é complementar a São Tomás de Aquino quanto à argumentação lógica da existência de Deus.

Por quê? Porque Aquino faz um encadeamento lógico que torna inevitável a conclusão de um ser que abarque todas as potencialidades da existência numa causa primeira. Se tudo existe, então as pré-condições desse tudo estavam contidas, necessariamente, numa causa primeira. Isso casa com a definição de Deus que Sto Anselmo coloca (o professor Thomas Woods Jr. explica a definição de Deus nos comentários sobre a construção da civilização ocidental pela Igreja Católica).

Me parece que Aquino enxerta a dinâmica na estrutura argumentativa de Anselmo.
pedro_6#45
Só uma observacão sobre o termo "fundamentalismo religioso" que frequentemente é usado por membros ateus nesta comunidade: Esta palavra, "fundamentalismo", tomou uma conotação pejorativa atualmente principalmente pelo uso repetitivo dela por parte da mídia esquerdista, sempre obviamente referindo-se a religão com intuito de denegrí-la. Eric Voegelin por exemplo concebia o termo "fundamentalista" de uma maneira diferente, para ele fundamentalista é o sujeito que sem o conhecimento profundo de algum assunto toma aquilo como verdade suprema sem reflexão profunda e estudo sério. Portanto quando um ateu resolve criticar a religião sem o conhecimento profundo do assunto, pode-se dizer que ele é fundamentalista, aliás proponho que começemos a usar o termo "fundamentalismo ateísta" para os ateus que aparecem por aqui, se envolvem em debates, e diante da menor pressão por parte da maioria religiosa da comunidade, começam a acusá-los de fundamentalistas religiosos, como se eles (os ateus) fossem os sujeitos plenamente equilibrados e racionais e os religiosos os fundamentalistas sentimentais, isso é uma apelação de baixo nível comumente utilizada, o que demonstra uma intenção retórica escrota, portanto por favor vamos parar com essa viadagem porra...
renan_6#46
wellington_2#47
Opa

Obrigado a todos.

Não li as repostas ainda. Tem muita coisa.

Depois se tiver alguam duvida comento algo.

Obrigado de novo.
wellington_2#48
Para o alexey:

"vem do coração [metaforicamente, é claro... não do órgão!].”
Hehheh. Sou cientista, mas não sou a como Dra. Temperance "Bones" Brennan.
“Tem sangue no seu coração Booth”
“Obviamente, pensar assim não é nada popular, pois estamos acostumados a pensar em termos de A que causa B, e assim por diante.”
Você consegue provar que a casualidade não existe? Acho que a casualidade não é popular, ela é o método usado nas ciências e na filosofia.
“SE Deus é o primeiro motor e é absolutamente indiferente, ele jamais poderia "dar risada da nossa cara", pois isso NÃO seria indiferença. Seria sarcasmo.”
Porque um ser indiferente criaria o cosmos? Qual o motivo? E porque ainda nos daria a capacidade de sentirmos a sua presença.? Admitindo a hipótese deísta porque esse ser perfeito criaria o cosmos? Como esse ser pode ser perfeito, mas totalmente indiferente?
“SE eu for admitir a hipótese deísta como correta, eu reconstruiria a sua frase: NÓS queremos diálogo porque somos capazes de perceber a idéia de Deus.”
Sim, mas quem nos deu a capacidade de perceber sua presença foi Deus, se admitirmos a hipótese deísta. Foi ele que começou o dialogo. Se ele não quer conversa ele nos deu uma capacidade que não serve pra nada. O que retiraria a perfeição de Deus. Logo isso seria auto-contraditório.
wellington_2#49
“Wellington, isso não está correto. A energia é passível de medição, sim. O problema é que este termo ["energia"] é aplicado corriqueiramente a muitas coisas diferentes. Mas na Física a energia é mensurável, sim. Até porque, se um físico detecta a variação de energia, é porque ele MEDIU isto. Deste modo, a energia é empírica, e não apenas um conceito.”
Pelo que eu saiba você não se mede energia em sentido físico. Como eu disse você mede outras propriedades e relaciona com energia. Por exemplo, como você sabe quanto você gastou de energia para aquecer a água em 10°C? Multiplica pela massa , pelo calor especifico e pela diferença de temperatura. Mas o calor especifico é justamente a definição de uma quantidade de energia que eleva a temperatura de 1 grama da água em um grau. Então o que era a unidade básica de energia? Aquilo que eleva a temperatura da água em 1°C. Eles relacionavam energia com a diferença de temperatura. Na física moderna as coisas podem ter mudado com relação a esse conceito, mas pelo o que eu conheço de física clássica a coisa é assim mesmo. Posso ter me enganado. Mas não conheço aparelho que mede energia diretamente.
wellington_2#50
Mas há coisas mais interessantes ainda. Durante muito tempo vigorou a hipótese atomista na ciência moderna. Hoje sabemos que ela é mentirosa. Dá onde os físicos tiraram essa hipótese? Do atomismo de Demócrito. Eles não tinham nenhuma base para afirmar isso, mas optaram pelo atomismo. Fizeram isso e quebraram a cara mais tarde. Outro exemplo, sabemos que os imãs possuem dois pólos magnéticos sempre, por mais que se divida o imã. Mas segundo meu professor de física para provar que a carga é quantizada os físicos tem que admitir a existência do monopólo magnético mesmo sem prova.
Onde eu quero chegar com isso? Que para fazer ciência você implicitamente (ou explicitamente) precisa de uma metafísica que lhe de uma base que a sustente. Sem isso não há ciência. O problema que a metafísica das ciências muita vezes foram as mais arbitrarias e irracionais, como na admissão do cosmos como um relógio que desembocou no mecanicismo ou o atomismo de demócrito.

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