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Ainda:
"Exemplifiquemos da forma mais didática possível, até para ficar claro que não estamos contrariando o princípio Romanus Pontifex a nemine iudicatur, pois o ato da renúncia de um Papa, como ensina o Código de Direito Canônico, não precisa ser aceito nem mesmo pelos Cardeais, dada a supremacia do poder papal. Portanto, não nos resta senão respeitosamente aceitá-lo, acatá-lo, mas o legislador canônico não quer com isto dizer que não possamos discordar dele. Vamos lá: se um marido, alegando cansaço, tristeza ou qualquer outra coisa, deixa habitualmente de cumprir para com a sua esposa o débito conjugal, cujo efeito próximo é aplacar a concupiscência, estando ambos em plenas condições de consumar o ato, peca. Se o leigo solteiro deixa de guardar a castidade, peca. Se o monge ou a freira quebram os votos perpétuos, pecam. Se os bispos não ensinam o que é conforme à Tradição, pecam. E algo análogo serve com relação ao Papa: há deveres inalienáveis que ele é chamado a cumprir. Somente um catolicismo aggiornato pode imaginar que um Papa é impecável, alguém transformado em Anjo imaculado ao assumir a sua missão. Somente um catolicismo água-com-açúcar pode imaginar que um Papa não é passível de críticas de nenhum tipo, mesmo quando feitas em vista do bem comum da Igreja e tendo como base a Tradição. Nunca foi assim."
Sim, e o Papa Bento XVI sabedor da sua crescente IMPOSSIBILIDADE de cumprir com esses deveres, cede a vez para alguém com mais forças, físicas e mentais, para cumprir adequadamente esses deveres inalienáveis daquele que é Papa.
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"No momento em que a nova ordem mundial mostra a sua ojeriza à Igreja e ao Papado, com manifestações públicas as mais vis de repúdio e desrespeito aos católicos; no momento em que a Igreja é humilhada por escândalos de pedofilia, homossexualismo e por evidências de corrupção política e financeira, direta ou indiretamente decorrentes dadébâcle doutrinal; no momento em que forças internacionais fazem pressão para a Igreja mudar o seu Magistério; no momento em que, entre os próprios católicos, leigos ou sacerdotes, muitos não crêem no ensinamento tradicional; em suma, num momento gravíssimo como o presente, contemplada de um ponto de vista não mundano, a renúncia de um Papa — sem menção evidente a nenhum motivo sobrenatural — ganha o caráter de simbólica deposição do poder espiritual, que se omite diante da desgraça (em sentido teológico) reinante.
Então.
E se opor e criticar a decisão do Papa Bento XVI publicamente é o que?!
Eu vejo que existe uma contradição interna entre este trecho e o trecho anterior.
A Igreja Católica é uma organização vertical, hierarquizada. No mundo físico sua autoridade máxima é o Pontífice. Acima dele está Pedro, Jesus, o Espírito Santo e, por fim, Deus. O Pontífice atua guiado e inspirado pelo Espírito Santo. De modo que criticar uma atitude do soberano máximo da Igreja Católica é em si uma aberração e algo bastante grave. O Papa está acima, Deus está além dele, abaixo está o clero e depois os fiéis e leigos.
Em outras palavras.
Criticar e questionar uma atitude soberana é colocar em dúvida o próprio comando da Igreja - que em última análise - está submissa às potências celestiais. Penso que é uma atitude até mais grave do que as perturbações externas. É "natural" nesse mundo secularizado e materialista que o povão católico e não-católico ponha em dúvida as orientações do Pontífice, mas não é me parece algo adequado para fiéis que tem um determinado nível de compreensão.
Simplificando mais ainda.
Deus está acima. O Papa está acima de nós. O Papa é inspirado e orientado por Deus. Se o Papa tomou uma determinada decisão, especialmente uma decisão grave, o fez através de muita meditação, oração e consulta à Deus. Provavelmente Deus mesmo o orientou e inspirou para que considerasse e procedesse no sentido dessa decisão grave. Criticar e questionar, portanto, é criticar e questionar algo que provém de Deus.
E a atitude em si de criticar e questionar ela é por si só lesiva à estrutura da Igreja, que é vertical e hierarquizada. Numa família bem orientada no aspecto vertical um filho não está em posição de criticar o pai, ou o avô. Ele acata. Sobretudo em questões soberanas. Quando a massa comandada questiona os comandantes isso demonstra que está existindo uma quebra na linha de comando de baixo para cima. E é exatamente por isso que vejo contradição entre os trechos. Ele defende a criticidade ao mesmo tempo que aponta para "[o] momento em que a nova ordem mundial mostra sua ojeriza à Igreja e ao Papado". Mas o próprio texto em si - nestes trechos pelo menos - já é uma manifestação dessas más práticas da sociedade secularizada infiltrada no coração de fiéis mais esclarecidos.
Se fosse um navio pirata, seria uma postura de agitador, tentando insulflar discretamente um motim contra o capitão.