Se foi de propósito, em suma...
Bom, não sei. Acho que não saberemos, é impossível conhecer as intenções reais das pessoas, quanto mais dos mortos.
Metade das pessoas cultas e inteligentes com quem falo dessas coisas diz que sim, que foi, que era uma espécie de plano consentido, uma espécie de conspiração. A outra metade diz que foi um conjunto de circunstâncias que veio se formando lentamente ao longo do tempo que fez o mundo chegar precisamente "lá", ou "aqui" - e que não havia outra maneira das coisas acontecerem, mas também não havia orquestração alguma.
Sinceramente, não sei.
Mas com certeza Descartes foi um marco importantíssimo, um divisor de águas, o Rafael tem razão. Sua filosofia tanto é produto de todo um cenário anterior a ele quanto produziu o cenário que é posterior a ele. Nada ficou igual depois do Discurso sobre o Método.
E não é que eu não entenda Descartes. Palavra que eu o considero um sujeito sincero. Nem um pouco malévolo como - digamos - Nietszche. O problema é que ele partiu de uma premissa errada e foram precisos trezentos anos para que fosse contestado - até lá, foi tudo empilhado segundo o método que partia das premissas erradas, e portanto houve um dano imenso. Irrecuperável, eu diria.
Como eu disse, eu não creio que seja possível conhecer as intenções exatas de ninguém - por isso Descartes fica lá numa espécie de limbo. Não posso dizer que ele tenha desejado fazer uma hecatombe como acabou fazendo. Fico imaginando a cara dele diante da Física Quântica, e do significado dessa outra alteração de paradigma, nada desprezível!
O fato é que o cartesianismo foi além das conclusões de Descartes. Se estendeu, dominou, transbordou. A análise, ao ser sintetizada de novo, mostrou um todo que não era a soma das partes - Descartes, evidentemente, não percebeu isso. O todo nunca mais se recupera, depois de analisado. A integridade da síntese é destruída pela análise, ou a análise destrói a síntese que em princípio se queria analisar.
Descartes inventou um método que era idiota, só isso. Nunca ninguém vai saber nada assim como ele propôs, ao contrário - toda a possibilidade de conhecimento humano consiste em olhar para cada síntese e nunca mexer nela, porque se mexer ela desaparecerá, levando seu deciframento dentro dela. Tem que entender como uma revelação, porque a revelação é o que não quebra a integridade da síntese. Ou ficar sem entender, o que não é uma má escolha e na maioria das vezes é a única, mesmo.
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Eu vou ao supermercado, sabem.
Estou muito prolixa hoje.
Enough is enough.
Descartes foi só um dos tantos filhos do Nominalismo.
Um "culpado" muito mais decisivo do que ele foi um teólogo que o precedeu por 300 anos, um sujeito chamado William de Ockham, grande arauto intelectual do Nominalismo na Igreja e no Ocidente.
Confesso que quando abri este tópico e vi a primeira resposta, achei que ele teria vida curta...
que bom que me enganei, e ainda recebi valiosíssimas lições de colegas mais cultos.
Valeu.