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A ciência contra a razão

Iniciado por adermir em 13/01/2009 · 105 mensagens · página 3 de 3

priscila#101
Se foi de propósito, em suma...

Bom, não sei. Acho que não saberemos, é impossível conhecer as intenções reais das pessoas, quanto mais dos mortos.

Metade das pessoas cultas e inteligentes com quem falo dessas coisas diz que sim, que foi, que era uma espécie de plano consentido, uma espécie de conspiração. A outra metade diz que foi um conjunto de circunstâncias que veio se formando lentamente ao longo do tempo que fez o mundo chegar precisamente "lá", ou "aqui" - e que não havia outra maneira das coisas acontecerem, mas também não havia orquestração alguma.

Sinceramente, não sei.
priscila#102
Mas com certeza Descartes foi um marco importantíssimo, um divisor de águas, o Rafael tem razão. Sua filosofia tanto é produto de todo um cenário anterior a ele quanto produziu o cenário que é posterior a ele. Nada ficou igual depois do Discurso sobre o Método.
priscila#103
E não é que eu não entenda Descartes. Palavra que eu o considero um sujeito sincero. Nem um pouco malévolo como - digamos - Nietszche. O problema é que ele partiu de uma premissa errada e foram precisos trezentos anos para que fosse contestado - até lá, foi tudo empilhado segundo o método que partia das premissas erradas, e portanto houve um dano imenso. Irrecuperável, eu diria.

Como eu disse, eu não creio que seja possível conhecer as intenções exatas de ninguém - por isso Descartes fica lá numa espécie de limbo. Não posso dizer que ele tenha desejado fazer uma hecatombe como acabou fazendo. Fico imaginando a cara dele diante da Física Quântica, e do significado dessa outra alteração de paradigma, nada desprezível!

O fato é que o cartesianismo foi além das conclusões de Descartes. Se estendeu, dominou, transbordou. A análise, ao ser sintetizada de novo, mostrou um todo que não era a soma das partes - Descartes, evidentemente, não percebeu isso. O todo nunca mais se recupera, depois de analisado. A integridade da síntese é destruída pela análise, ou a análise destrói a síntese que em princípio se queria analisar.

Descartes inventou um método que era idiota, só isso. Nunca ninguém vai saber nada assim como ele propôs, ao contrário - toda a possibilidade de conhecimento humano consiste em olhar para cada síntese e nunca mexer nela, porque se mexer ela desaparecerá, levando seu deciframento dentro dela. Tem que entender como uma revelação, porque a revelação é o que não quebra a integridade da síntese. Ou ficar sem entender, o que não é uma má escolha e na maioria das vezes é a única, mesmo.

*****

Eu vou ao supermercado, sabem.
Estou muito prolixa hoje.
Enough is enough.
renan_6#104
Descartes foi só um dos tantos filhos do Nominalismo.

Um "culpado" muito mais decisivo do que ele foi um teólogo que o precedeu por 300 anos, um sujeito chamado William de Ockham, grande arauto intelectual do Nominalismo na Igreja e no Ocidente.
adermir#105
Confesso que quando abri este tópico e vi a primeira resposta, achei que ele teria vida curta...
que bom que me enganei, e ainda recebi valiosíssimas lições de colegas mais cultos.
Valeu.

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