Repito o que escreveu Olavo de Carvalho em outra época:
Aberto o primeiro precedente pelo protestantismo, a Declaração da Independência norte-americana estabeleceu formalmente o «direito inato» de cada ser humano cultuar a Deus «como bem entendesse», o que não significa apenas reconhecer o direito à existência de muitas religiões, mas o direito de cada indivíduo interpretá-las segundo seu próprio subjetivismo, e independentemente de qualquer preparo, conhecimento anterior ou qualificação moral e intelectual.
Os Estados Unidos nascem como uma nação maçônica, teísta e iluminista, i.e. pervadida de espírito revolucionário desde a espinha. O próprio expansionismo econômico e cultural daquele país, pretendendo fundar um "novo modo de vida" e defender em todas as partes do mundo "os valores da liberdade e da democracia" traem muito claramente esse ethos. Pode-se dizer - e com verdade - que é um país estruturalmente hostil a idéias socialistas (não, ao que parece, irreversivelmente), mas afirmar uma impermeabilidade pelo espírito revolucionário, é ir longe demais.
Lutero e Calvino são herdeiros da teologia antiintelectualista de Guilherme de Ockham.
Ele admitia ser impossível conhecer a Deus através do intelecto, negava o ser , supervalorizava a vontade divina sempre imposivel de ser compreendida.
O voluntarismo de Ockham contaminou Lutero e seus sequazes; desse voluntarismo nasceu a ideia de revolução - pois afinal o que ela é senão a crença de que a vontade se sobrepõe a razão e de que esta deve ser comandada por aquela ?O que ela é senão a crença de que o homem pela sua vontade pode mudar o quadro da realidade em benefício dos seus interesses?
Os dois pais da reforma sobretudo Lutero foi herdeiro de uma corrente mística oriunda de Mestre Eckhart que supervalorizava o conhecimento intuitivo da realidade divina abrindo caminho para o pietismo e irracionalismo típico do protestantismo, que deram base para a hipertrofia do indivíduo e a hipotrofia da Igreja enquanto mediação necessária a salvação, abrindo espaço para a proliferação de seitas.
A filosofia nominalista, racionalista e panteísta de Guilherme de Ockham, foi condenadapor João XXII, pois anulava toda noção de verdade e de moral universais.
Para Ockham, não existiria o universal, mas apenas o indivíduo. Portanto, a matéria era alçada à condição de única realidade. Nada haveria de universal, nem verdade e nem lei. Ockham vai lançar as bases do materialismo, do racionalismo e do empirismo da filosofia moderna.
De Ockham nascerá a idéia da supremacia da matéria sobre o espírito, do Imperador sobre o Papa; do Estado sobre a Igreja.
Lutero vai defender não só a completa independência do Estado em relação à Igreja e ao Papa, como também vai atribuir ao Soberano poderes religiosos fazendo do Rei um papa em seu reino. Nisso ele abre espaço para a constituição para uma religião civil ;não é a toa que é um protestante o pai do estatismo em filosofia politica moderna: T.Hobbes.
No século XV, as heresias de Eckhart e de Ockham, assim como os primeiros influxos secretos da Cabala, levaram a Filosofia ao delírio. Alguns filósofos como Jean de Méricourt e Nicolau d´Autrecourt defenderam a tese da santidade do pecado, que Lutero transformará em tese básica da moral protestante.
Todos os males modernos que tiveram como base a desvinculação entre razão e realidade, entre razão e vontade, entre metafísica e moral , entre o direito e a natureza , etc começa com Lutero
1-No liberalismo teológico de Lutero, a razão se desvincula da Fé e cria o livre exame (erigido como novo árbitro da Verdade revelada).
2- No liberalismo filosófico de Descartes e de seus epígonos Kant, Fitche, Schelling e Hegel, a razão se desvincula da realidade e fabrica os vários tipos de idealismos (todos letalmente daninhos).
3- No liberalismo jurídico de Hobbes, a razão se desvincula do direito natural e acaba por promover o positivismo jurídico.
4- No liberalismo político-social de Rousseau, a razão se desvincula da natureza social do homem e inventa o pacto social.
5- No liberalismo econômico de Stuart Mill e de seus prosélitos, a razão se desvincula da hierarquia dos valores e transforma a economia (que é meio) em um fim em si mesma. Ou, na melhor das hipóteses, num meio não necessariamente vinculado ao fim (o que dá na mesma).
A influência de Ockham na constituição do espírito moderno (e em particular, nas concepções luteranas) é patente. Lutero mesmo o proclamava "o maior dos escolásticos", provavelmente por ter sido quem mais diretamente apressou a derrocada da Escola (também por ter sofrido sua influência sobretudo por meio de Gabriel Biel).
Permita-me, contudo, uma correção: Ockham jamais foi materialista. Defendia que o universal (em que se baseia a ciência) funda-se sobre a apreensão dos singulares (conhecimento intuitivo) que espontaneamente formam na mente o conceito (conhecimento intelectivo), que nã está fundado nas coisas. Mas é certo que admitia mesmo a cognoscibilidade racional da existência de Deus, e aceita a imatrialidade da alma, porém como item exclusivamente de fé. Tampouco caiu nesse relativismo crasso, mas abriu-lhe o caminho sem dúvida.
Também não defendia a supremacia civil sobre questões religiosas, mas a autonomia absoluta das duas esferas.
Mas de fato o voluntarismo e nominalismo (ou conceptualismo) de Ockham foram decisivos para a formação do pensamento moderno, e em particular para a revolução religiosa protestante. Foi o que lhe forneceu a sua base filosófica (ética e epistemológica) mais ampla. O movimento protestante era formado por herdeiros dessa atmosfera intelectual, e certamente não por "restauradores do cristianismo primitivo". Trata-se de uma heresia historicamente bem situada, com todas as marcas
do seu tempo. Isso é muito claro e evidente para qualquer estudioso da história das idéias. Mas diga-se isso a um protestante...
Ockham também tem lá os seus prógonos... ele foi só o mais eminente, o que representeu de facto o Nominalismo, porque a semente que nega o concretismo já estava plantada há um bom tempo no Ocidente.
Na verdade, foi uma constante no pensamento medieval, Renan. Bem antes de Ockham, Roscelinus irradiava o nominalismo. Acontece que Okham não encontrou um opositor do valor de um Abelardo ou um Sto. Tomás (e já o tomismo, "convenientemente" tachado via antiqua se via como algo pesado e ultrapassado - já era o início do costume do "gosto pela novidade", tão característico dos modernos, na Filosofia).
Isso aqui não leva a nada. A maioria dos textos, parecem copiados do Montfort.
Vou investigar o porque dos resquícios revolucionários dos reformadores. Inclusive a possibilidade, de que isso se deve ao passado católico dos mesmos.
O que é fato, é que a Reforma só ocorreu, por conta da apostasia romana.
Meu professor de história do colégio costumava dizer que a crueldade do Stalin era consequência do seu tempo de Seminário... 🙂
Tem gente que realmente não tem senso de rídiculo, não??
É claro que todo revolucionário ocidental tem "influências católicas", pelo simples motivo de que a Revolução é sempre obra de hereges (que, portanto, separaram-se da Igreja) e se processa primária e fundamentalmente contra o Catolicismo. Se isso é indício do "caráter revolucionário" do Catolicismo, só resta, ao verdadeiro reacionário, a tarefa de resgatar o fundamento do establishment perdido, que é o do paganismo clássico e bárbaro.
Só uma correção terminológica: de fato, "apostasia" é termo demasiado forte para se aplicar ao protestantismo. Erro meu. Cumpre mesmo ter cuidado com esse tipo de declaração. Embora no erro, nossos irmãos protestantes conservam a fé em Jesus Cristo e participam imperfeitamente de Sua Igreja.
Perfeito, Alberto. Eu estava a ponto de dizer que "houve um autor francês que me esqueço o nome, antes de Ockham" mas não quis parecer ignorante.
Sobre o "fardo" que a escolástica já representava para os "mudérnus", é de grande valia notar as profundas lamentações que Dante espalha pelo Convivio com respeito à revolução que a filosofia medieval já, à sua época, estava sofrendo.
Marcos Alberto
"Quanto a sua frase que considerei falaciosa, deu pra perceber, sim, a intenção de retorcer e caricaturar a argumentação daqueles que falam do inequívoco traço revolucionário do protestantismo para desacreditá-lo como legítimo depositário da fé cristã, assinalando-lhe desvios e erros doutrinais e até mesmo uma interpretação canhestra, tendenciosa das Sagradas Escrituras."
Concordo no geral, mas essa expressão "inequívoco traço revolucionário do protestantismo" me parece, como disse outrora, mais uma generalização vaga e imprecisa historicamente (mais detalhes em minha ultima postagem).
Eu gosto muito da definição de revolução e de mov. revolucionário do Olavo, e acho que a melhor maneira de discutirmos esse assunto é começar abordando as definições, estabelecendo um ponto de gênese convergente entre as idéias.
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Olavo define a revolução aqui: "Tecnicamente – e creio ter demonstrado isso em sucessivos escritos e conferências –, uma revolução define-se como um projeto abrangente de mudança social e política a ser realizado mediante uma concentração anormal de poder." - Retirado de http://www.olavodecarvalho.org/semana/0905digestoeconomico.html
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À luz dessa definição, torna-se um tanto complicado atribuir qualquer traço inequívoco disso no protestantismo, abordado de forma geral e abstrata. Simplesmente porque a realidade não é tão simples assim. Há elementos gnósticos e revolucionários no protestantismo? Sem dúvida. Mas não se pode dizer que este faz parte de sua essência quando esta nos mostra justamente um quadro oposto - nem tampouco atribuir a ascenção do gnosticismo aos frutos da Reforma, que foi eminentemente o oposto disso, com algumas exceções (citadas no meu conjunto de posts anterior). Sobre isso, comento mais abaixo.
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"Só não entendo o porquê de vc ignorar - parece-me - o fato de o "gnosticismo", tendo sido a primeira, mais forte e perniciosa das heresias, acompanhar os quatro primeiros séculos da Igreja, hibernar por mais uns 10 e depois eclodir com os movimentos "reformadores" e denunciadores dos "desmandos" de Roma."
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A questão não é tão simples quanto parece, nem tão homogênea e mecânica quanto essas frases dão a entender. A ascenção do gnosticismo já estava acontecendo antes da Reforma e temos ai um problema para alguns estudiosos: seria a reforma um "fruto" dessa ascenção, ou será que a reforma, embora não sendo fruto, contribuiu para a aceleração dessa ascenção? Esse assunto é de uma complexidade formidável, porque as motivações da Reforma foram tão variadas - tomando aqui a Reforma não como produto de Lutero, mas como movimento cujo Lutero e o luteranismo foram apenas um dos muitos componentes. Digo isso porque os reais traços inequívocos da reforma levam a questão para o lado oposto do gnosticismo e do mov. revolucionário, sendo na verdade um entrave para estes. Isso pode ser demonstrado sem grande dificuldade, tanto pelo já exposto resumidamente por aqui, quanto pelo enfraquecimento gradual dos movimentos e seitas gnósticas nos países dominados pela reforma nos primeiros três séculos, com a única exceção da Alemanha ( o caso alemão será abordado mais adiante).
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Esse fato foi constatado não apenas por historiadores e pesquisadores protestantes, mas também católicos e judeus. Por exemplo, o Pe Lindauro Fisichella, em sua obra "Movimento protestante na Europa" (sem tradução) afirma isso com todas as letras no capítulo referente às mudanças enfrentadas pela Igreja (católica) nos países da reforma. Baseado em oito viagens que fez pela Europa e duas para a América, concluiu que os vestígios de gnosticismo haviam caído em praticamente todos os países da reforma, com a evidente exceção da Alemanha, e enquanto isso, os mesmos vestígios (que ele define como cinco) cresceram nos principais países católicos não tão abarcados pela reforma.
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Agora vamos ao Alberto Leopoldo.
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"Percebe-se, nas suas postagens, uma certa tendência a identificar "espírito revolucionário" com "tendências socialistas", além de enxergar no capitalismo liberal um verdadeiro antídoto para o dito "espírito revolucionário". "
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Bem que você poderia apontar onde dou a entender qualquer coisa dessas. Jamais afirmei tais absurdos e, se em algum momento dei a entender tal coisa, peço que mostrem onde para que possa corrigir-me.
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"). Ora, do ponto de vista católico, isso se já não é o espírito revolucionário em estado avançado, é ao menos seu precursor imediato - com o indelével estigma do modernismo. "
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Concordo plenamente.
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"Mais: a doutrina da essencial corrupção da natureza humana, defendida por Lutero, tem um claro "sabor" gnóstico. O mesmo se diga de suas doutrinas escandalosamente heréticas sobre Cristo."
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Isso é obviamente falso. Falemos sobre a doutrina da essencial corrupção da natureza humana.
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Quem leu o livro "Nascido Escravo" (disponivel online) poderá por si mesmo entender qual a visão de lutero e a visão luterana (até meados de 1680) sobre o assunto. Inclusive, este foi um dos livros que citei anteriormente para embasarm justamente o oposto - que Lutero está na outra extremidade, longe de qualquer gnosticismo ou resquício de mov. revolucionário. A questão não é o que Lutero disse ou não disse, mas como certas correntes (especialmente as de terceira geração de Knox e a sub-corrente calvinista de Farel(após a morte deste)) encararam a idéia de corrupção congênita. O problema é que o gnosticismo do século XVII era (como na maior parte da história) tão amplo que se aproveita de sutilezas a primeira vista imperceptíveis nas doutrinas. Basta ver a interpretação do Sinodo de Dordrecht a respeito do assunto com a ascenção do arminianismo no inicio do século XVII para ver que ali não há margem para o gnosticismo, como não houvera nos escritos de Lutero sobre isso (um resumo no já citado Nascido Escravo), de Calvino (Institutas especialmente) e de outros reformadores, como o próprio Knox.
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Por outro lado, a perseguição inicialmente teológica e posteriormente social empregada pelos calvinistas farelianos aos arminianos após o sinodo é, ao meu ver, a primeira grande manifestação que podemos atrelar ao mov. revolucionário e também, até certo ponto, ao gnosticismo, dentro do protestantismo. Os calvinistas farelianos não eram sequer a maioria dentre os calvinistas da linha mais radical, e eram muito poucos perto do universo todo do calvinismo e praticamente nada (em quantidade) ao universo todo do protestantismo à época. O problema é que como tinham poder e eram nobres, tinham uma influência muito grande.
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Mesmo esses indícios claros de gnosticismo e do mov. revolucionário entre os farelianos pode ser traçada até Ricardo White, ex-anabatista e convertido ao calvinismo no fim da década de 1580. Ele virou um grande pregador e influenciou grandemente certas correntes dentro do calvinismo, sendo a principal justamente a de Farel. Como ex-anabatista radical e aberto defensor do gnosticismo - embora não usasse esse termo - é historicamente reconhecido como o pioneiro a manchar uma pequena corrente do protestantismo com "altas doses" de gnosticismo, como o próprio Pe Lorenzo (já citado) afirma.
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Enquanto isso estava para acontecer, Beza, o sucessor de Calvino e opositor ferrenho da ala de Farel, escreveu a primeira obra protestante diretamente contra o gnosticismo, entitulada "Do direito dos magistrados quanto aos seus servos" (desconheço se haja tradução). É uma obra que todo estudante do mov. revolucionário deveria ler para tirar da cabeça certas idéias erradas e conhecer os movimentos gnósticos da época. Já na época ele rebate o gnosticismo e diversas premissas que viriam a ser usadas pelo mov. revolucionário anos mais tarde.
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Sobre o tema da depravação total e sua relação com o gnosticismo e mov. revolucionário, explicarei melhor a questão noutra ocasião - já que essa postagem está ficando longa demais para isso e ficará ainda maior. Me cobrem.
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Sobre a citação a Eric Voegelin, algumas coisas devem ser tomadas de antemão. A primeira delas é que Eric Voegelin não leu a obra completa de Lutero - na verdade, ele leu apenas os manifestos e 1/5 das cartas. Sua principal fonte a respeito de Lutero eram os estudos de Hyma, Harkness, McNeil (seus contemporaneos) e os de JSmith e Rorlsnae (séc XIX). Então, quem leu esses autores, percebe que algumas incoerencias históricas dos mesmos passaram ao Voegelin e outros estudiosos. Por exemplo, o primeiro ponto, onde Lutero é acusado de reduzir a fé a um ato de confinança e retirar-lhe a intimidade da graça é, não algo baseado em suas obras (quem leu até obras pequenas como Nascido Escravo vê que a fé é ABSOLUTAMENTE íntima da graça) mas sim baseado em "The life of Luther", de Hyma, que por sua vez baseou-se nas seleções de Smith do século anterior, que estudava não Lutero e o luteranismo originário, mas sim a ala nova do luteranismo alemão - que inclui anteriormente como protestantes "novos" alemães ou protestantes liberais alemães. Então houve uma confusão porque Smith tratou o assunto como se o luteranismo alemão "novo" fosse a incorporação prática das idéias do próprio Lutero, e o erro se alastrou até Voegelin e inclusive até autores mais modernos, como o próprio Paul Johnson.
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Sobre o segundo ponto de Voegelin, há um certo exagero que é óbvio a quem leu os escritos do reformador. De fato, Lutero atacou a escolástica aristotélica. Mas dizer que isso causou a cultura intelectual ocidental é uma hiperbole tão grande que só pode ser vista por quem leu o assunto por terceiros e não de fontes primárias. Isso é demonstrado com alguma facilidade, pois os escritos onde Lutero atacara a escolástica só foram descobertos e publicados em 1869 e não ganharam repercusão entre os meios intelectuais protestantes até os dias de hoje. Então simplesmente não dá pra dizer que os ataques de Lutero à escolástica causaram a destruição da cultura intelectual do ocidente ou que influenciou decisivamente gerações posteriores de iluministas, positivistas, etc.
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Pode-se questionar, quanto ao que abordei acima, se a cultura de rejeição à escolástica (e uso o termo cultura de modo um tanto grosso, como percebem) de Lutero teria sido transmitida ao luteranismo e ao protestantismo como um todo, mesmo que estes não tivessem acesso a tais escritos por 300 anos. A hipótese é válida, mas dificil de acreditar. Isso porque não se vê criticas à escolástica no mesmo teor de Lutero - nem em teor bastante inferior - em quaisquer outros autores protestantes dos dois séculos seguintes à sua morte. Pelo contrário, por volta de 1650 calvinistas e luteranos, quase que simultaneamente, "descobriram" a escolástica e, longe de criticas ou ataques, alguns teólogos e pregadores chegaram ao cúmulo de tentar encaixá-la com suas teses, citando autores católicos mais frequentemente do que faziam com relação aos reformadores (um estudo sobre esse curioso episódio pode ser lido em "Os ofícios de Presbítero e Diácono da Tradição Reformada Clássica em Grandes Temas da Tradição Reformada", de Elsie McKee e Donald McKim (em tradução para o português brasileiro pela AELPR).
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Em "História da igreja cristã", Robert Nichols faz um grande trabalho histórico onde coleta informações de todas as gerações pós-Huss, e diz-nos que a escolástica, em fins do Séc. XVII, era mais estudada por teólogos calvinistas do que por teólogos católicos.
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Isso tudo já nos mostra uma visão mais clara sobre o assunto e é claro que há muitas outras vertentes a serem tratadas. Por falta de tempo e espaço é que não analiso com mais profundidade cada um desses temas - aliás, podemos marcar uma conferência via Skype para trocarmos tudo isso via voz, que tal? Assim podemos em uma ou duas horas passar mais informações que milhares de postagens do Orkut! Fica o convite.
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Com relação ao terceiro ponto de Voegelin, concordo.
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Com relação ao quarto, concordo em sentido geral mas não absolutamente. De fato, todas as maiores biografias de Lutero (inclusive aquelas feitas por não-protestantes e não-luteranos) jamais traçaram Lutero como um revoltado desejoso de impor suas idéias goela´baixo. É óbvio que isso não faz dele um santo: Lutero não era uma pessoa de convivência fácil e alguns mal entendidos fizeram com que sua imagem perante os católicos e perante os anabatistas fosse vista a níveis de intolerância absoluta, o que não condiz, até onde podemos saber e até os dados históricos mais recentes, com a realidade.
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Bom, por cansaço paro por aqui, embora tenha muitas coisas ainda a dizer. Se esqueci de abordar algum tema relevante ou se prometi abordar algo e não o fiz posteriormente, me avisem.
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“For an epoch would be marked indeed if, in the struggle for existential representation, there existed a decisive revolutionary victory of Gnosticism over the forces of Western tradition (...) a clear epoch in Western history is marked by the Reformation, understood as the succesful invasion of Western institutions by gnostic movements. The movements that hitherto existed in a socially marginal position – tolerated, suppressed or underground – erupted in the Reformation with unexpected strength on a broad front, with the result of splitting the Universal Church and embarking on their gradual conquest of the political institutions in the national states”. (The new science of politics, p. 197).
De fato, com Ricardo White, o gnosticismo voltou a cena com força, especialmente porque White era fareliano. Foi uma vitória do gnosticismo, sem dúvida, mas isso nos mostra que isso não aconteceu por causa da reforma, mas sim por infiltração externa e mesmo assim limitada a poucas correntes. A maior parte do protestantismo jamais compactuou com qualquer cosmovisão de White e o Sinodo de Dort o excomungou simbólicamente décadas mais tarde. Todavia, é possível rastrear sua influência até o protestantismo liberal alemão e, a partir dai, aos movs. revolucionários modernos.
Deixei para o final as postagens de Stricta, porque elas revelam o quanto há de desonestidade mesmo nos meios mais limpos, como esta comunidade.
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Vou demonstrar que uma série de afirmações de citações feitas são aberrantemente FALSAS e caluniosas, coisa de quem NÃO LEU e acredita em fontes secundárias, terceárias ou quaternárias. Vamos ao que interessa.
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A mentira:
. Diz ainda, em 14 de maio de 1541, quando se encontrava em Wartburgo: “Aqui passo todo dia no ócio e na embriaguez.” (De Wette. IV, 553).
Em 15 de janeiro, de 1531, noutra carta: “a dor de cabeça, contraída em Coburgo por causa do vinho velho, ainda não foi debelada pela cerveja de Wittemberga.” (De Wette. IV, 215).
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Abrindo De Wette, IV, 553, eis o que leio: "Veja que estes livros são para a edificação de todas as idades e não podem ser suprimidos sob o risco de perdermos as gerações futuras" (tradução minha do inglês).
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Abrindo De Wette, IV, 215, vemos: "Tive uma dor de cabeça muito forte devido as intempéries da viagem, o frio e os movimentos bruscos do animal, mas depois que encontrei-me com Johannes e tivemos uma boa conversa, melhorei. Espero não mais viajar com aquele animal." (tradução minha do inglês).
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Mais mentiras:
. Jerônimo Weller, discípulo de Lutero, pedia-lhe, certa feita, uma direção espiritual, pois se via, freqüentemente, assaltado por crises de melancolia. O “piedoso” ex-monge Martinho, assim lhe aconselhava: “Quando te vexar o diabo com estes pensamentos, palestra com os amigos, joga, brinca ou ocupa-te em alguma coisa. De quando em quando se deve bem com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias (...) Quanto te disser o diabo: não bebas, responde-lhe: por isso mesmo que me proíbes hei de beber e em nome de J.C beberei mais copiosamente (...) Por que pensas que eu bebo, assim, com mais largueza, cavaqueio com mais liberdade e banqueteio-me com mais freqüência, senão para vexar e ridicularizar o demônio que me quer vexar e ridicularizar a mim? Todo decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós perseguidos e molestados pelo diabo.” (De Wette. IV, 188).
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O que realmente existe em De Wette., IV, 188 é o seguinte: "Se quiseres, podes emprestar meu casaco ao irmão Telônio, pois consegui outro aqui ainda melhor. Dê minhas saudações à Telônio e diga que é um presente da parte de seu grande irmão". (tradução do inglês).
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Agora, distorções:
. “Ah! é verdade que Cristo nos anuncia no Evangelho a liberdade? Então, já não queremos trabalhar, mas comer e beber e cada um estende o saco para que se lhe encha o ventre.” (Weimar. XXXIII, 4).
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Esse trecho finalmente é um trecho real, mas está distorcido de seu contexto. Lutero está, na verdade, criticando quem encara dessa forma a liberdade do evangelho. E eu nem precisava do livro pra dizer isso: o ironismo salta às vistas logo na pergunta retórica do inicio. Lutero diz na sequência: "nossa liberdade é muito maior do que essa, de fazer o que bem se quer e quando quer. Temos a liberdade enquanto livres dos ataques demoniacos, livres em nossa vontade, o que significa que não mais somos escravos do pecado. Essa é a liberdade do evangelho" (Weimar, XXXII, 6).
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. Observem, pois, esta confissão, saída da pena, do próprio Lutero: “Não posso negar que sou mais violento do que convém; mas os meus inimigos que o sabem não deviam atiçar o cão. Quase todos me condenam a mordacidade” (De Wette. I, 479).
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Pura inversão, de muito mal gosto. Vejam o que realmente há em De Wette. I, 479: "Não posso negar que sou mais pacifico do que convém; mas os meus inimigos que o sabem não deviam tentar atiçar-me a ira, pois ninguém me condenará à mordacidade." (De Wette. I, 479).
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As outras citações não tenho o livro aqui, mas algumas parecem ser falsas enquanto uma ou outra são verdadeiras.
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Portanto, não acreditem em tudo o que lêem por ai. Chequem por si mesmos.
Com isso, não quero provar que Lutero foi santinho ou não. Só quero demonstrar que em ambos os lados (católicos e protestantes) há mentiras históricas facilmente detectáveis, com o único intuito de difamar e até caluniar alguém do outro lado. Só acho lamentável que isso ocorra com pessoas aparentemente cultas como Stricto e que outros mais cultos por aqui não tenham a audácia de demonstrar a desonestidade patente.
Por fim, refaço o convite de um debate via-voz em Skype ou similares sobre o assunto, onde podemos abordar muito mais assuntos em menos tempo. E tenho certeza que a troca de conhecimentos será de bom proveito para todos, e inclusive pra mim, cuja tese de mestrado orbita esse assunto.
1 - (11) VEDRINE, Héléne. As Filosofias do Renascimento, p. 59. Tradução de Marina Alberty. Portugal: Publicações Europa América Ltda, 1971. Grifos nossos.
2 - Beer: 30 Giorni Ano VII, fev. 1992, pág.55, entrevista Lutero? Delírio Maniqueísta
3 - Lutero, Tischredden, Conversas à Mesa, N* 1472, edição de Weimar, Vol. II, p. 107, apud Franz Funck Brentano, Martim Lutero, Ed Vecchi Rio de Janeiro 1956, p. 15.
4 - BROWN, Dan. Código Da Vinci. Editora Sextante. 2004.
5 - BEER, Theobald. Der fröhliche Wechsel und Streit. Grundzüge der Theologie Martin Luthers. Johannes Verlag; Auflage: 2., verm. Aufl. 1980.
6 - Lutero Tischredden, -- Conversas à Mesa, apud F. F. Brentano, op cit. p.
8 - Grisar, Hartmann, S.J., Martin Luther, His life & work, pp. 290-292. The Newman Press, 1960.
9 - Melanchthon, Brief na Camerarius uber Luthers Heirat vom 16 Junii 1525, apud Franca, CP: 131-132
10 BEER: 30 Giorni Ano VII, fev. 1992, pág.54-55, entrevista "Lutero? Delírio Maniqueísta"
11 - BRETANO, Funck-Brentano. Martim Lutero, p. 98. Casa Editora Vecchi, 1956, 2a. ed.
12 - Esta Igreja é uma só: a que foi edificada sobre Pedro e que o próprio Jesus denomina: “Minha Igreja” (Mt 16:18).
13 - Contrariando frontalmente a recomendação da Revelação Divina, através das Sagradas Escrituras: "Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular"(II Pedro, I, 20).
“As novas relações sociais que aparecem com a ressurreição de Jesus são que uma mulher é elevada à condição de apóstola – é o sacerdócio das mulheres – que não era permitido em Israel; também não hoje em muitas igrejas. Com a ressurreição de Jesus todos que nele crêem são tornados irmãos pela fé, portanto, desaparecem as classes sociais e com isto desaparece a exploração de classe e se sobrepõe a isto a partilha, pois o Cristo ressurreto, é reconhecido na hora do partir do pão. Agora vale a partilha entre irmãos e não mais o acúmulo e a exploração e a opressão de classe.”
Parabéns e obrigado por suas observações. São muito úteis.
Só para constar: Muitas dessas falsas citações de Lutero, tambem estão no site Montfort. Isso é só mais um bom motivo, para não levar o fedelismo a sério.
Eu não sei o que você quer dizer por "movimento revolucionário". Deixando por ora a questão do gnosticismo de lado, é sobejamente sabido por todos que toda a estrutura civilzacional da Cristandade ocidental até o renascimento - incluindo sua organização social, patrimônio cultural e espiritual, "cimento" moral - estava fundada sobre a autoridade da Igreja sediada em Roma, conquanto fosse o equilíbrio delicado e sujeito a abalos periódicos. Mesmo a autoridade política era subordinada ao cetro pontifício, pela noção da estrita dependência entre a ordem temporal e a celeste, mediada pelos legados religiosos hierarquicamente organizados.
utero, junto com a tradição espiritual que lhe subjazia, pretendeu destruir (e o fez com considerável sucesso) essa mesma ordem, não somente atacando com os termos mais vis e depreciatórios a Igreja romana (inclusive com calúnias notáveis, como a de jamais haver visto uma Bíblia enquanto agostiniano, quando a própria regra desta ordem incluía sua leitura assídua e meditação profunda) e explicitamente instando os príncipes seculares a erguer-se em armas contra ela, mas também pela sua peremptória separação entre Evangelho e Lei (aquele pode de alguma maneira "inspirar" princípios de boa conduta, mas de modo algum regulá-los). Além disso - claro - os próprios fundamentos da "reforma" religiosa, advogando o individualismo religioso (que se busca, é verdade, mitigar com uma vaga alusão a uma "unidade na fé" nunca alcançada), o princípio de "livre exame", o voluntarismo moral e teológico, a rejeição da Tradição (embora Lutero e Calvino julgassem válidos o Símbolo dos Apóstolos e os primeiros concílios - obliquamente interpretados, claro - mas somente enquanto se adequam às suas convicções) - tudo isso ratificou e acelerou o rumo que já vinha adquirindo o pensamento "moderno", ainda em seus germes. Repito: o protestantismo é uma heresia com as mais claras marcas do seu ambiente gestacional - não "criou" a situação, apenas a potencializou, e de maneira particularmente eficaz no campo político.
As convulsões sociais iniciadas nesse período mostram uma tendência a crescimento contínuo nos séculos porvindouros. É claro que, a cada novo upgrade do movimento, os representantes das últimas tendências consideram seus predecessores como verdadeiros baluartes da reação, e estes frequentemente se comportam como tal (como o próprio Lutero ante as revoltas camponesas). Perceba que eu não estou aqui fazendo qualquer identificação entre revolução e gnosticismo. Estou tomando o primeiro termo em seu sentido mais corrente e lato de "ruptura violenta com a ordem estabelecida". A qualquer um com um mínimo de conhecimento histórico, é bastante evidente que o movimento engatilhado pelos reformadores protestantes atende aos requisitos. É claro que o movimento revolucionário operante tem seus caracteres distintivos muito próprios (de que, aliás, o protestantismo não carece), mas por ora mantenhamo-nos nesta constatação menos problemática.
Quanto à definição de Olavo de Carvalho, certamente não é equivalente à que temos aqui em mente, mas cabe fazer uma apreciação. O protestantismo pode não ser primária e essencialmente um projeto de mudança social e política (através de conecentração anormal de poder), posto que seu caráter "revolucionário" (no sentido que dei acima) é, antes de tudo, de natureza espiritual e religiosa. No entanto, traz em seu bojo, desde o seu projeto, a necessidade de mudar de maneira radical e abrangente a ordem social e política, que se fundava sobre a autoridade da Sé romana, a hierarquia orgânica entre religião e lei moral etc., e além disso favorece desde o início o acúmulo de poder temporal e religioso (já que desde o princípio são instados a combater o "romanismo") nas mãos dos príncipes. Em conformidade com esta perspectiva, o protestantismo se poderia definir como uma revolução religiosa que traz desde o berço o programa de uma revolução social, e em todo o caso a revolução social (ainda que não se traçasse sua gênese nas concepções dos primeiros líderes protestantes) se seguiu como efeito da ação efetiva e influência dos reformadores.
Perceba que eu não afirmei aqui que Lutero era um gnóstico consumado. Na verdade, tanto ele quanto Calvino buscaram refrear as tendências mais explicitamente gnósticas que vinham surgindo em suas áreas de influência. Puderam fazê-lo porque, como foi dito, aceitavam o Credo dos Apóstolos e os primeiros concílios (lidos a partir de suas lentes, mas aceitavam-nos), mas também por aceitarem a validade objetiva dos sacramentos (em particular, o batismo - ao contrário dos anabatistas, que pressupunham a compreensão e o conhecimento como requisitos fundamentais mesmo do batismo) e a unidade fundamental da fé da Igreja (que podia ser postulada com pouco mais consistência em vista da aceitação dos primeiros concílios). Contudo, só se puderam livrar de um gnosticismo mais pleno por meio de elaborados contorcionismos dialéticos, que acabaram neutralizados pelos princípios do livre exame, da Sola Scriptura e da Sola Fide, de modo que, exceto entre as denominações mais tradicionais, a maior parte dos protestantes de hoje considera esses diques de contenção como relíquias do romanismo que se devem perdoar a estes pioneiros de fé ainda imatura.
O fato é que, não obstante esses cuidados, as doutrinas de Lutero e de Calvino estão impregnadas de elementos que beiram perigosamente o gnosticismo. Não somente a doutrina da natureza essencialmente corrompida do homem, como também as da absoluta alteridade de Deus , da separação entre lei e Evangelho, a tendência à absoluta espiritualização dos sacramentos (em particular a Eucaristia - sobretudo em Calvino, mas já em Lutero há uma atribuição de prioridade à Palavra sobre a própria Eucaristia), e - claro - a idéia do conhecimento individual e não mediado da Escritura e da fé assim desperta como principal requisito para a salvação. Sem dúvida muitas dessas idéias são resquícios da mística especulativa fundada em Eckhart e das progressivas tendências do pensamento da época ao ceticismo, abstratismo e voluntarismo de matriz ockhamista. É verdade que os dois reformadores buscaram evitar a irrupção do gnosticismo em sua forma mais crua. Mas o passeio em torno do abismo que propuseram, juntamente com as forças propulsoras do livre exame, Sola Fide etc., não poderia tardar a precipitar o movimento para as profundezas da velha heresia. Não é à toa que o calvinismo, em particular, tenha proliferado em regiões que haviam sido de domínio cátaro no séc. XIII.
Sobre serem os países protestantes mais refratários à influência gnóstica, sinceramente, creio ser uma hipótese completamente discutível, principalmente no que se refere aos Estados Unidos da América. Recentemente, Harold Bloom (The American Religion), simpático ao gnosticismo, e o presbiteriano Philip J. Lee (Against the Protestant Gnostics) chamam a atenção à presença de fortíssimos elementos gnósticos no protestantismo norte-americano, incluive por escapar às prevenções de Lutero e Calvino. Ora, é público e notório que países de tradição protestante (especialmente os Estados Unidos) atingem altos índices de divórcios, abortos, uniões homossexuais etc. em taxas muito mais aceleradas que em países católicos (via de regra), e que são também origem e caixa de ressonância de movimentos como o do culto às drogas, do feminismo abortista, do gayzismo etc. É claro que a Igreja Católica é congenitamente anti-gnóstica e anti-revolucionária. O protestantismo pode tê-lo sido localmente (após, claro, ter já realizado sua própria revolução e expansão a ferro e fogo), mas não somente é certo que propiciou a geração e ratificação de estruturas que possibilitaram o crescimento global do fenômeno revolucionário, como facilitou desde o princípio (pela sua própria conformação conceitual), em suas próprias comunidades, o surgimento de dissensões muito mais abertamente gnósticas e revolucionárias.
No entanto, uma observação deve ser feita: é um fato que países católicos (França, Itália, Espanha, México) são palco de sangrentíssimos espetáculos de violência revolucionária e anti-religiosa (a revolução francesa, a ação dos carbonários, das forças republicanas etc.). Mas é obviamente ridículo querer atribuir o fenômeno à presença da Igreja, ou mesmo ao afastamento de "inibidores" protestantes, pois em todos os casos a Igreja Católica é a primeira e maior vítima, e tais movimentos são articulados internacionalmente por redes de inimigos declarados da Igreja, como maçons e comunistas. Já mencionei aqui, aliás, que a revolução em França foi fomentada, apoiada, financiada desde centros protestantes como a Prússia e os Países Baixos. É claro, contudo, que a presença católica tem algo a ver com tudo isso: trata-se do inimigo a ser eliminado.
Sobre Voegelin:
O principal do primeiro ponto permanece: desaparece, na teologia luterana, a fé informada pela caridade. A fé sozinha justifica (e se legitima como fé), ainda que não frutifique em obras (pois estas brotam, afinal, de uma natureza inteiramente corrompida). É verdade que Lutero combateu o antinomianismo (que é, aliás, mais um item do inventário gnóstico - a negação da regulação da conduta pela lei), mas a cisão definitiva que estabelece entre Lei e Evangelho é uma verdadeira cisão na natureza humana. Além disso, trechos como o seguinte certamente chocam:
If you are a preacher of mercy, do not preach an imaginary but the true mercy. If the mercy is true, you must therefore bear the true, not an imaginary sin. God does not save those who are only imaginary sinners. Be a sinner, and let your sins be strong, but let your trust in Christ be stronger, and rejoice in Christ who is the victor over sin, death, and the world. We will commit sins while we are here, for this life is not a place where justice resides. We, however, says Peter (2. Peter 3:13) are looking forward to a new heaven and a new earth where justice will reign. It suffices that through God's glory we have recognized the Lamb who takes away the sin of the world. No sin can separate us from Him, even if we were to kill or commit adultery thousands of times each day. Do you think such an exalted Lamb paid merely a small price with a meager sacrifice for our sins? Pray hard for you are quite a sinner.
No segundo ponto, pode haver um certo exagero por parte de Voegelin, pois a demolição da filosofia escolástica não foi obra de um homem só, mas foi característica de toda uma época. No tempo de Lutero, a Escola já se encontrava em franco declínio, com a prevalência da via moderna (seu último grande esplendor, se nos permitirmos, foi na obra de Nicolau de Cusa, mas este já era um pensador mais plenamente moderno - só veio a experimentar um novo momento de brilho, embora efêmero, no pensamento contra-reformista). O nominalismo extremado dos seguidores de Ockham, o ceticismo pirroniano e o neoplatonismo resgatados na Renascença já haviam feito boa parte do serviço, que recebeu sua complementação com Descartes e Bacon (inclusive fatores esses que muito contribuíram para a nova irrupção do gnosticismo - mas essa é outra história). Contudo, não se pode ignorar a repercussão das declarações de Lutero (muitas delas em linguagem chula e vulgar) sobre a razão e as universidades (mesmo Copérnico recebeu a sua cota). Vejamos somente uma, tirada de uma obra que, creio, não passou tanto tempo oculta (Conversas à mesa):
For reason is the greatest enemy that faith has: it never comes to the aid of spiritual things, but - more frequently than not - struggles against the Divine Word, treating with contempt all that emanates from God.
Curiosamente, tal passagem está associada a uma defesa do batismo de crianças. Também o tirei de um site protestante: http://www.reformed.org/index.html.
O caso de Calvino certamente é curioso, pois sendo ele próprio muito pouco afeito à Escolástica, a sua doutrina exerceu um apelo pela sua aparente racionalidade (fenômeno parecido ao do espiritismo recentemente: muitas pessoas a ele aderem por parecer uma doutrina "lógica" e até "científica" das coisas do além - também curiosamente há mais do que uma sutil semelhança entre o predestinacionismo calvinista e a doutrina do karma). Por isso logo viram-se constrangidos a encontrar ferramentas intelectuais para a apologética, e muitos a encontraram de fato na Escolástica. O que não significa que isso fosse regra entre os protestantes, e muito menos que teólogos protestantes estudassem mais os escolásticos que os católicos (ainda que tenha havido um certo arrefecimento geral no interesse filosófico desta classe - a ser superado no séc. XIX). A declaração é quase certamente exagerada.
Quanto ao quarto ponto, creio que você interpretou mal a Voegelin. Não excluindo que haja implícito um certo juízo de caráter, o ponto é que o surgimento do "revoltado voluntarista que deseja impor a sua razão como o centro da ordem institucional" como novo tipo humano é uma consequência das próprias doutrinas de Lutero. Cabe notar aqui que Lutero não só era um doutrinador extremamente instável, mas também com muito pouco controle sobre as idéias que ele próprio plantou. Ao propor a Reforma, pensava ele em disseminar uma espiritualidade bem definida, fundada sobre o que ele próprio pensava ser a "fé ortodoxa" dos tempos primitivos. A própria Sola Scriptura resultou de um juízo prévio sobre critérios determinantes da inspiração do texto, e incluía uma classificação de textos bíblicos "mais" ou "menos" inspirados. Quando viu as coisas fugirem dos trilhos, procurou impor ordem na marra, e similarmente fizeram os líderes de outras denominações a partir de suas próprias "ortodoxias" pessoais.
Talvez as referências sejam inexatas, mas não creio que elas tenham sido forjadas, pois há trechos de igual teor retirados de obras disponíveis de Lutero.
Em uma carta a Melanchton datada de 13 de julho de 1521:
"[...]for here I sit, careless and idle, consumed by my fleshly desires. Instead of being ardent in spirit I am the prey of sinful appetites — laziness and love of sleep. For eight days I have neither prayed nor studied, through fleshly temptations. If I do not improve I shall go to Erfurt and consult the physicians, for I can endure my malady no longer. And even God seems to tempt me, by making me wish to escape from this wilderness."
Lutero aqui fala das razões pelas quais lhe desagradou a última carta do amigo reformador, que incluem sérias pressões sobre ele, às quais não pôde corresponder pelos motivos mencionados.
De outras duas, dirigidas à sua Catarina, datadas respectivamente de 29 de julho de 1534 e 2 de julho de 1540:
Yesterday I had to take a nasty drink, and I do not like what is not good. I keep thinking what good wine and beer I have at home, as well as a beautiful wife, or shall I say lord } And you would do well to send me over my whole cellar of wine and a bottle of thy beer, or else I shall not be back before the new beer is ready.
e
Grace and peace, my dear Kathie ! I wish you to know that I am well. I eat like a Bohemian and drink like a German, for which God be thanked. Amen.
Lembremos, ademais do trecho a Melanchton já postado, não muito diferente em espírito daquele que ele teria escrito em conselho a J. Weller.
É claro que o fato de ter sido Lutero indolente e beberrão, e ter deixado escapulir termos pouco piedosos em suas cartas íntimas nada prova de per se contra suas posições. Mas o fato é que nada disso constitui, propriamente, calúnia contra sua pessoa. A referência vem, outra vez, de um site protestante: http://www.godrules.net/library/luther/208luther2.htm.
Além disso, seguem alguns trechos comentados por autor que considero bastante autorizado (não me dei o trabalho de conferir as referências, mas se alguém puder, sugiro que o faça) - Hans Urs Von Balthasar [Theo-Drama: Theological Dramatic Theory: IV: The Action]:
Christ is more damned and forsaken than all the saints; he did not merely suffer somewhat, as certain people imagine. In all reality and truth, he submitted to God the Father's eternal damnation for us.
(p. 285, from WA, 56, 392, 7 ff.)
Christ felt all the evil that is in us following the act of sin, namely, death and the fear of hell.
(p. 285, from WA, 8, 87, 34 ff.)
He felt the anger of God, more than any other man. Indeed, he felt hell's punishment.
(p. 285, from WA, 40, III, 716, 6)
[Christ is both] dead and living, damned and blessed, in pain and in joy; thus he absorbs into himself all that is evil . . .
(p. 287; WA reference unobtainable from the online copy)
God cannot be God without first becoming a devil; we cannot get into heaven without first going to hell.
(p. 289; "Cf. the entire passage from the interpretation of Psalm 117:31, I, 249, 16-250, 37")
Ao que segue o comentário:
. . . the entire traditional view of Christ as the Head of mankind falls to the ground. . . . Consequently, there is no place for the primary love of the redeemed for the Person of the Redeemer. Artificially, but very deliberately, the unity of grace -- which justifies and sanctifies -- is torn asunder. Finally, in reducing theology to the pro nobis between Christ and sinners, Luther obscures the entire horizon of God's self-disclosure in Christ, everything the Fathers understood by oikonomia and the "divinization" of man through the grace of participation.
Luther's radicalism found no direct disciples among the other reformers.
Theobald Beer, a pastor in Leipzig, has been tenaciously devoting his life to the reading of Luther as well as the late medieval theology prior to Luther. He has studied not only the changes in theological thought in the difference between Luther and Scholasticism, but also between Luther and St. Augustine. In doing so, he has verified important shifts in the design of a Christology which, postulating the idea of "sacred bargaining," is completely bound up with anthropology and the teachings on grace. This new construct, that is, the changed basic configuration of a sacred bargaining (which Beer insists is found continuously from the early to the late Luther) expresses, in Beer's opinion, the reformer's completely different and new attitude toward faith which permits no harmonization. . . .
I believe that today one can discern two basic tenets with respect to which Harnack already saw the basic alternatives: with his catechism, his songs and his liturgical
directives Luther created a tradition of ecclesiastical life in the light of which we can both refer to him as the "father" of such an ecclesiastical life and interpret his work with evangelical churchliness in mind. On the other hand, Luther also created a theological and polemical opus of revolutionary radicality which he by no means retracted in his political dealings with the princes and in his stand against the leftists within the Reformation. Thus one can also comprehend Luther on the basis of his revolutionary break with tradition - and one will, on such a reading, then arrive at quite a different overall view. It would be desirable to keep in mind Luther's piety when reading his polemical works and the revolutionary background when dealing with issues concerning the Church. . . .
To be sure, one must keep in mind that there exist not only Catholic anathemas against Luther's teachings but also Luther's own definitive rejections of Catholic articles of faith which culminate in Luther's verdict that we will remain eternally separate. It is not necessary to borrow Luther's angry response to the Council of Trent in order to prove the definiteness of his rejection of anything Catholic . . . After his final break with the Church, Luther not only categorically rejected the papacy but he also deemed the Catholic teachings about the eucharist (mass) as idolatry because he interpreted the mass as a relapse into the Law and, thus, a denial of the Gospel. To explain all these contradictions as misunderstandings seems to me like a form of rationalistic arrogance which cannot do any justice to the impassioned struggle of those men as well as the importance of the realities in question.