Fórum Olavo de CarvalhoArquivo da comunidade do Orkut · 2004–2013

pastor em cana por dizer a verdade

Iniciado por massasofrida em 20/06/2009 · 131 mensagens · página 2 de 3

eric_2#51
Com isso, Kardec conseguiu mascarar sua doutrina como se fosse Cristã (sem no entanto pregar a Salvação por Cristo) e usar o versículo "Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo" para fazer uma interpretação obviamente distorcida e fingir que isso era prova da reencarnação.



Puro desconhecimento e distorção !!!!
JESUS CRISTO é o Espírito de Verdade.
Ele é o líder da Doutrina Espírita e preside esta obra como está escrito nos prolegômenos.
Existe no ESE um capítulo inteiro sobre o Nascer de novo ...
Mas os inimigos da doutrina insistem em modificar as suas obras e seus objetivos!!!

A salvação é individual e o CRISTO a dividiu em 3 etapas:
Moisés, Cristianismo e Espiritismo.
O Espiritismo concluirá esta obra!!!
eric_2#52
Só que Kardec recusou ao Senhor Jesus o mérito da Sua história, Seus milagres, Suas profecias e Suas palavras, tratando-O como mero "guru" ou "avatar" (eles têm isso em comum com os guenonianos).



Outra grnade mentira pq toda a obra do Cristo é reverenciada e explicada de acordo com o nosso adiantamento.
Fez mais ainda e mostrou a superioridade do CRISTO perante os homens e a pureza da sua missão !!!
Falta de conhecimento ou preguiça mesmo.
É mais um comentario na base do "achismo" !!!!
eric_2#53
Como a doutrina do Espiritismo sozinha ainda ficou muito impalatável e árida, Allan Kardec quis usar parte da moral Cristã e escreveu o "Evangelho Segundo O Espiritismo".



Isso daqui é de muito mal gosto, o cara resumir um livro nessas linhas fracas!!!
Aposto que ele nunca leu sequer uma obra de kardec!
albertoleopoldo#54
Caro Eric,

Também o islamismo, por exemplo, apresenta-se como conclusão da "verdadeira" doutrina de Jesus Cristo, e dedica-lhe grande veneração. Contudo, dificilmente poderia alguém afirmar que se trata de uma doutrina "cristã".

Para o Cristianismo, Jesus Cristo não é um profeta ou um espírito, mas é "Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai". Quando Ário propôs que Cristo era criatura de Deus, ainda que com atributos imensamente superiores aos dos homens comuns, isso chocou tanto que mesmo o soco disferido por São Nicolau (nosso querido Papai Noel) em seu rosto lhe foi perdoado - e mesmo visto como genuíno ato de piedade cristã -, e ele pôde manter o seu episcopado.

Para o espiritismo, como para o islamismo, Jesus Cristo não é Deus. Para o espiritismo, como para o islamismo, não é a Bíblia livro inspirado e desprovido de erros, e que teria sido corrompida pelos cristãos - embora se valham de algumas passagens para corroborar certas doutrinas suas (por exemplo, no caso do espiritismo, essa ridícula interpretação do "nascer de novo" evangélico como uma justificativa da reencarnação, ou o vínculo entre as figuras de João Batista e Elias como "prova" da reencarnação - quando o próprio afirma não ser Elias em Jo 1,21, certamente outro trecho "corrompido").

Para o espiritismo, os milagres de Jesus têm explicações "naturais", como manifestações de certos poderes por meio do manuseio das energias "fluídicas", que pertenceriam a vários espíritos, sendo que a Jesus em um grau maior.

Ora, o fato de o espiritismo e o islamismo afirmarem representar a verdadeira doutrina de Jesus não faz deles "cristãos". Da mesma forma como vocês rejeitam como espúrias as alegações de certos umbandistas, por exemplo, de que são "verdadeiros espíritas", com base na tradição iniciada por Kardec, podemos perfeitamente afirmar que o espiritismo não é "verdadeiro cristianismo" com base na tradição bimilenar da Igreja.
albertoleopoldo#55
Perceba: o judaísmo espera pelo cumprimento das promessas messiânicas.

O Cristianismo as tem por consolidadas. Apresenta-se como doutrina definitiva, perene, imutável.

O espiritismo se apresenta como "dando cumprimento" ao Cristianismo à revelia do que o próprio Cristianismo afirma de si.

Se é assim, o que impediria que uma nova doutrina (digamos, o Ufologismo, ou talvez a própria umbanda) se apresentasse como "dando cumprimento" ao espiritismo, baseada na revelação de certos seres (digamos, alienígenas habitantes do planeta Betaflex) e buscasse sua corroboração em algumas passagens de Kardec convenientemente interpretadas?

É evidente que os espíritas reagiriam, e diriam que essa doutrina nada tem de espiritismo, pois com o espiritismo a verdade se consuma.

Ora, é o que os cristãos fazem em relação ao espiritismo. Simplesmente afirmam: não é uma doutrina cristã, e a esta não se "dá cumprimento", porque já é completa.
nildo#56
"Isso é só um slogan imitado que quer dizer "faça caridade que você vai evoluir e virar anjo". O espírita não acredita em salvação porque não acredita em condenação eterna"

na filosofia, oque vc diz tem consequencias, e pode ser usado contra você, no bom ou no mau sentido, tem que assumir oque se disse.Mas tudo bem, me deixe reformular a pergunta.

"Como se livrar do sofrimento?"

"JESUS CRISTO é o Espírito de Verdade.
Ele é o líder da Doutrina Espírita e preside esta obra como está escrito nos prolegômenos."

Èric, vou contar uma histórinha pra vc ver por que jesus não pode ter sido o lider da doutrina espírita. Em primeiro lugar, como sabemos que jesus eixistiu? pela bíblia, portanto a bíblia tem o direito de ser a palavra final sobre oque quer que seja, sobre a vida de jesus.

Agora tu vai dizer que a bíblia é a base da doutrina espírita, bom, vamos averiguar isso? eu vou fazer o papel do livro espírita e tb o da bíblia, veja como seria a conversa destes dois livros?

"Olá bíbliaOlá livro espíritaLindo dia não?pois éSeguinte, to afim de fundar a doutrina espírita, quer ir comigo?Não, ja tenho minha própria...hum, ja tenho compromisso, mas agradeço a ofertaVocê é kem sabe, vou por seus textos do mesmo jeito, com aki não tem leis de direitos autorais, se ferrou hahahaVocê não pode fazer isso, é erradoE oque vc vai fazer? me castigar? qual sera a pena sobre min e os meus seguidores?Gálatas 1:8-9:. 8 No entanto, mesmo que nós ou um anjo do céu vos declarássemos como boas novas algo além daquilo que vos declaramos como boas novas, seja amaldiçoado. 9 Como já dissemos, também digo agora novamente: Quem quer que vos esteja declarando como boas novas algo além daquilo que aceitastes, seja amaldiçoado.
leandro_13#57
Fernando,
o que eu vi das suas observações é bastante sensato. Ponderado, até

Temos dois fatos diferentes, que exigem reações diferentes. No primeiro, a depredação de objetos justifica o procedimento das autoridades. Imagino que exista um processo em andamento, com consequências que ainda devem advir aos protagonistas.

Nesse fato, não vejo nenhuma necessidade de se apoiar a "Império Nova Geração" (é igreja ou escola de samba?). Me surpreende a imaturidade do rapaz em falar assuntos que o colocam em conflito com a lei civil e até com alguns preceitos cristãos.
Concordo com a Maria: não é evangelismo, e sim um proselitismo vazio.
Destruição de patrimônio alheio é crime em qualquer local. Ninguém pode destruir o que não lhe pertence. Se o rapaz já destruiu seu próprio ídolo, já fez a sua parte.
E autoridades e leis devem ser respeitadas. É Romanos 13, texto conhecido.

Mas, quanto ao segundo, há uma clara tentativa de perseguição religiosa por parte da comissão, que tolhe um direito de opinião.
Dizer que os "pais-de-santo são todos homossexuais" e que a "macumba é do demônio" são, respectivamente, generalização falsa, e um conceito religioso sobre indivíduo não reconhecido juridicamente.

Entretanto, é direito de opinião.

Assim como é direito de espíritas acharem que crentes são alienados, ou de católicos acharem que carismáticos são fanáticos, ou que pastores são todos ladrões, etc.
A liberdade religiosa inclui não só direito a culto, mas também à liberdade de propaganda.
É impossível (e irracional) se reprimir o direito de opinião.

Agora,
você não tem culpa se alguns tiveram chilique.
Não é conveniente associar coisas que outros grupos absorvem.
Se maçons usam a Bíblia dos evangélicos, dá para dizer que a Bíblia seja comum a eles?

Quanto ao pastor, se não sabia do incidente, se não sabia do incidente, não tem motivo algum para ser preso.
Mas também nem continuar sendo pastor, porque não sabe nem o que acontece com as ovelhas.
albertoleopoldo#58
Fernando,

Você mesmo confirma o que eu vinha dizendo. Pede-se cana às pessoas que quebraram a estatueta, e não ao pastor que fez as declarações que fez.

Se houve uma confusão entre os personagens, repito, foi um equívoco de informação factual, e não de juízo de valor. Se você se ofende por isso, por um equívoco na compreensão dos fatos devido a uma desatenção (e claramente motivada pela forma como a notícia se apresentava - sugerindo uma conexão entre a dita invasão do terreiro e as declarações do pastor), não há nada que se possa fazer. Eu da minha parte já reconheci o equívoco, e não o tenho por demasiado sério. Repito que mesmo Aline, que também é protestante, foi vítima do mesmo equívoco. Se quer fazer disso um bicho de sete cabeças, fique à vontade. Só não espere me sensibilizar com isso.

"E não estereotipei católico como idólatra, apenas disse que alguns dos ídolos destruídos são os mesmos adotados no Catolicismo. Eu por acaso disse que todo católico idolatra imagens?"

Não sei se foi um ato falho da sua parte, ou uma insistência "sutil" na insinuação. Quem afirma que "ídolos" são adotados no protestantismo é você. Em todo o caso, São Jorge não é Ogum, embora os umbandistas adotem a imagem daquele para representar este. Seria como um sujeito usar uma foto, sei lá, de Marilyn Monroe para
lembrá-lo de sua mãe falecida que não lhe deixou uma foto. Se alguém entrar em sua casa e rasgar a fotografia, ele certamente se sentirá ofendido em seu sentimento filial. De qualquer modo, reitero: é pura especulação maliciosa sugerir que a dita invasão tenha "despertado um viés católico", seja lá o que for isso.

Ninguém quis exigir a repetição da aplicação da pena aplicada. Perceba: o que você atribui às pessoas são intenções, e estas claramente não se manifestaram. Esclarecido o caso, as declarações efetivas se convertem em aprovação da prisão dos depredadores.
albertoleopoldo#59
"Que amparo midiático? Novela da Rede Globo retratando crentes como idiotas loucos intolerantes?"

Bom, recentemente a mesma rede Globo exibiu uma série de reportagens sobre boas ações das igrejas evangélicas. Mas não era isso que tinha em mente. Não é só o grupo de Macedo (embora não creio que se possa dizer que este seja hostil a outras igrejas evangélicas), mas as redes de TV aberta exibem longos programas de Silas Malafaia e R.R. Soares, por exemplo.

Quanto à sua apreciação do tópico em questão, ressalte-se que é inteiramente subjetiva, além de você selecionar somente os pontos que lhe parecem convenientes. O tópico foi longuíssimo, e houve grande número de críticas, réplicas e tréplicas bastante detalhadas e muitas vezes também documentadas. Perceba o nível das suas apreciações: o que quer dizer com "de Plinio Correa pra baixo?". Compreende-se que você tenha sérias críticas a fazer ao dr. Plínio, mas permita-me afirmar que não consegue livrar-se dele assim.

Quanto a ter o protestantismo plantado as sementes da revolução mundial, reitero o que disse. O próprio protestantismo foi uma revolução religiosa com conseqüências sociais violentíssimas (o que não quer dizer, como pretendeu interpretar por lá o amigo Murilo, que os primeiros reformadores eram defensores de uma "teologia da libertação"), e contava com fortes caracteres gnósticos (embora Lutero e Calvino, por exemplo, tenham buscado combater a tendência a cair num gnosticismo consumado). Isso é admitido mesmo por autores protestantes, como o pastor presbiteriano Philip J. Lee (Against the Protestant Gnostics) - embora este acabe aprovando as medidas de Lutero e Calvino, e lamentando que os protestantes, sobretudo na América, não lhes tenha seguido os conselhos. Não só Plínio Corrêa o diz. Veja-se, por exemplo, o que fala Voegelin (Murilo tentou rebatê-lo, mas eu procurei justamente mostrar que suas críticas eram insuficientes).
priscila#60
Errr... Eu gostaria de repetir (ou dizer pela primeira vez, porque já escrevi a mesma coisa em tantos lugares que já estou fazendo um pouco de confusão, e não tenho tempo de reler o tópico inteiro agora) que deve-se notar que o jurídico brasileiro NÃO PUNIU o crime de invasão e depredação, que obviamente deveria ter punido - para PUNIR apenas o "delito de opinião", justamente o que NÃO deveria ter punido.

Reitero meu pedido para que vocês percebam (e eventualmente DEBATAM) o SIGNIFICADO REAL desta inversão moral, em vez de ficar discutindo a religião de cada um.

Porque tal inversão, OBVIAMENTE, afeta um fundamento MORAL importantíssimo, que é do interesse de TODAS as religiões ou vertentes religiosas que vocês estão aqui discutindo.
albertoleopoldo#61
No mais, as teses de que o crescimento do protestantismo no Brasil é lamentável, e que "dá mais trabalho ser católico", considero-as totalmente defensáveis, mas não vejo, por exemplo, muito sentido em dispender trabalho sobre a última. O que importa propriamente não é "o trabalho que dá", mas a verdade sobre que se funda. Quanto à primeira, não permaneceu somente no nível da queixa, mas buscou-se dar justificação por argumento. No entanto, há pessoas que preferem sentir-se ofendidas, remoendo velhos ódios e acusações mesquinhas (p. ex. associando o ter deixado passar uma informação a uma obsessão persecutória) a dedicar-se a um debate sem afetações.

Mas, sem ressentimentos. Se você, Fernando, preferir passar ao debate franco de idéias, ao invés de insistir em apontar a terrível malvadeza dos católicos, estarei até disposto a conversar. Caso contrário, não creio que haja mais a dizer por aqui.
albertoleopoldo#62
Pois é, Priscila. Esta questão nada tem que ver com filiação religiosa.

Já falei isso diversas vezes.

Pra falar a verdade, nem há uma questão em pauta. Porque todos concordam (a menos que Fernando se oponha?) que:

1. A invasão e depredação, se houve, devem ser punidas judicialmente (e, se já o foram, a punição foi justa);

2. O mero discurso do pastor não deve ser punido judicialmente, aliás, não deveria ter sido, pois mostra-se aí um claro indício de perseguição religiosa;

e

3. A pena, uma vez aplicada e cumprida, não deve ser repetida gratuitamente.

O que há para discutir aqui? Absolutamente nada.

Apenas Fernando não consegue deixar de apontar para a incurável malvadeza dos católicos, enxergando-lhes uma porção de intenções que não foram em momento algum declaradas.

Bom, minha sugestão é: se ele crê que esse tipo de rancor faz bem a ele, que o mantenha e, na medida do possível, seja feliz.
albertoleopoldo#63
Ops! Correção, onde se lê "ídolos são adotados no protestantismo", leia-se "ídolos são adotados no catolicismo".
albertoleopoldo#64
É claro que Fernando não dá o braço a torcer. É claro que procura somente insistir nas suas acusações sobre os católicos. O tópico claramente se esgotou. Ninguém pediu que a prisão se repetisse. Pediram-lhe cana, porque julgaram que era esta uma das razões para que fosse acusado. Mas bom, creia ele como quiser. O único católico a permanecer no debate fui eu, e eu já falei aqui que o pastor não deveria ter sido preso por suas declarações. Mas se Fernando deseja manter o seu dedo em riste apontando-nos uma culpa imperdoável por termos lido mal uma notícia (ainda que outras pessoas, não católicas, também o tenham feito), sinta-se à vontade.

Não, a causa do cisma e da revolução luteranos não foi "a corrupção do clero". Membros corruptos do clero sempre houve. Crises na hierarquia eclesial também. Sempre se seguiram restaurações, exortadas inclusive por grandes homens e mulheres de dentro da Igreja. O próprio Lutero, pouco antes de dar início à "reforma", dirigiu-se ao Papa nos termos mais respeitosos e dando as mais claras mostras de submissão, quando o instava a aceitar como ortodoxas suas doutrinas sobre o arbítrio humano. Não foi antes de ter seus pedidos rejeitados que encetou a sua revolta religiosa (perceba que eu não afirmo que esta foi a única causa da separação luterana). A propósito, que "impostos exorbitantes" eram estes, cobrados pelo Papa? A arrecadação para a construção da Basílica de São Pedro? É certo que houve clérigos que abusassem do fato em proveito próprio, mas falar em "impostos cobrados pelo Papa" me parece uma distorção terminológica bem inescrupulosa.
albertoleopoldo#65
É uma experiência interessante ler um defensor de Lutero & cia. falar de interferência da Igreja em matérias políticas. Nos Estados protestantes, a simbiose entre poder civil e autoridade religiosa era tão profunda que mal se podia distinguir uma coisa de outra. Nos países católicos admitia-se, sim, uma submissão da autoridade civil à religiosa (o que retrata a própria submissão do homem a Deus, e portanto da civitas terrena à celeste), no entanto os dois âmbitos eram suficientemente bem distinguidos. Não é, aliás, muito de espantar, que Lutero tenha achado sua maior base de apoio entre os príncipes.

Acho engraçada, Fernando, essa sua insistência nesse ponto do cisma do Ocidente, que já foi respondido mais de uma vez. É claro que não mais de um Papa pode ser legitimamente investido. Não é a mera reunião de um conclave de bispos que faz um Papa. Houve, na história, diversos "conclaves" que elegeram seus "Papas" opostos ao bispo de Roma. Assim como houve "concílios" que "excomungaram" a Igreja de Roma. Mas o fato é que a linha de sucessão nunca se rompeu verdadeiramente, e o fato de que alguns na época tinham dificuldades em enxergar os critérios em nada altera o fato. A impugnação da eleição de Urbano VI não possuía nenhum amparo doutrinal, e deu vazão ao surgimento do chamado "conciliarismo", que pretende dar uma forma de democracia republicana ao governo da Igreja, de tal modo que a autoridade do Papa estaria abaixo daquela de uma comissão reunida em concílio. Após o término do cisma, Martinho V mantinha-se perfeitamente na linha de sucessão de Urbano VI. Cessado esse período, aliás, jamais a Cristandade tornou a questionar a legitimidade da sucessão petrina, e a unidade da Igreja não foi prejudicada. Lutero não conta, simplesmente porque suas divergências doutrinárias eram muito mais profundas, e se estendiam da interpretação da Bíblia aos sacramentos, enquanto negava não só a autoridade do Papa, mas até de toda a hierarquia católica.
albertoleopoldo#66
Essa sua afirmação depende de assumir (1) que a constituição de alguém em Sumo Pontífice é um ato meramente político (deste modo pressupõe que o governo da Igreja não conta com assistência ininterrupta do Espírito Santo) e (2) que o governo da Igreja tem uma constituição de república democrática, assentada sobre a autoridade de uma maioria de bispos, mesmo sem comunhão com o Papa. Perceba que o ponto (1) equivale a partir do pressuposto de que a Igreja não conta com a assistência ininterrupta do Espírito Santo e que sua autoridade provém de uma base meramente humana. Portanto, não se pode partir desta premissa para concluir que a constituição da Igreja não se funda sobre a autoridade divina. Por isso é uma petição de princípio.

Para o católico, o fato de a Igreja ter sobrevivido aos cismas do Oriente e do Ocidente, ao exílio de Avignon e à revolução de Lutero, sem jamais perder a sua unidade, mantendo íntegra a doutrina e despertando sempre vocações à santidade (para não falar dos inúmeros milagres), antes de abalar a fé, é um seriíssimo reforço a ela.
albertoleopoldo#67
Ah, sim, sobre a comparação "RR Soares, Malafaia X Boff, Betto":

O grande problema é: não há critérios límpidos e bem determinados para que determinemos que os dois primeiros indivíduos não são "verdadeiros protestantes". Inclusive Malafaia conta com um grande número de fãs entre os auto-intitulados "evangélicos" desta comunidade.

Já em Boff e Betto, o caso é mais simples: basta confiar no Magistério da Igreja.

Em todo o caso, você não dirá que Malafaia e Soares são inimigos viscerais do protestantismo, ou ajudam a promover o ataque midiático e cultural contra o protestantismo no Brasil. Pois o que Boff e Betto fazem em relação ao catolicismo é isso.
leandro_13#68
Alberto,
a posição de Lutero de ser respeitoso com o papa (aliás, quem não seria?) em 1517 e não em 1520 é porque jamais a reforma seguiu o princípio da revolução religiosa, ainda que esta, muitas vezes, tenha se imiscuido na Reforma (como também dentro de toda a modernitas cristã, de Fiori até Campanella).

Essa foi a causa da Reforma não ter se limitado a aspectos disciplinares do clero (que aí já entrariam apenas na prédica de Erasmo, o pai de todo politicamente correto e ele, sim, ancestral dos iluminismos e socialismos), nem em questões rituais (como Jerônimo e Hus), mas diretamente no centro da questão soterológica, embora Lutero não tenha sido o único a defender a justificação pela fé, que até mesmo foi o que salvou o próprio papado logo depois.
Hoje essa questão é superada.

Também não é inteiramente correto que Lutero tenha negado toda a hierarquia da Igreja, posto que manteve a doutrina da sucessão apostólica, mantida até os dias de hoje.
Há uma diferença muito grande em se por contra a sucessão apostólica em si, e a autoridade superior de Roma (seja em um momento como aquele, francamente desfavorável, ou em outras épocas).
A verdade é que a legitimidade da sucessão papal se apoia exclusivamente em decorrências posteriores. Tanto papas quanto anti-papas foram eleitos em condições similares (até mesmo por conclaves legítimos), e doutrinariamente também se encontraram em ambas as situações. Há até santos entre os anti-papas, o que, em tese, não poderia haver.
Toda a legitimação parte de uma sucessão posterior, e não na origem de tais eleições.

A sucessão se quebra em várias partes, e em várias outras é remendada de forma arbitrária. Chegou a haver um período de quatro anos sem conclave (portanto, sem papa), sem um motivo razoável.
leandro_13#69
A causa do sucesso da Reforma está na agucidade intelectual de Lutero e em como não foi tomado pelas armadilhas teológicas que fizeram outros cair em contradição. Talvez seu único óbice esteja na cosubstanciação, mas, como disse, essa também é uma questão superada.

"Impostos exorbitantes cobrados pelo papa" era uma constatação comum aos povos do Império.

Lutero não fugiu a isso e esteve certo quando se referiu às indulgências como uma sangria da Alemanha em direção a Roma, da mesma forma que Wycliff e os soberanos York quando sustaram as remessas bem antes dos Tudor.

Se Lutero teve um apoio decisivo entre os príncipes (o que não se nega), também outras circunstâncias devem ser alertadas: a) nem todos, e inicialmente nem a maioria dos príncipes seguiram Lutero; apenas um o apoiou de início, logo seguido pelos conselhos das cidades, e só depois príncipes de novo; b) se seguiram para se livrar de impostos, ou tomar terras da Igreja, poderiam ter feito sem romper, como vários fizeram, inclusive o Imperador; c) era unânime o desejo de todos os príncipes de, ao menos, romper a vassalagem com a Sé.

Logo, se encararmos a Reforma como uma revolução ou o começo de uma revolução, teríamos que admitir conclusões contraditórias:

1) uma revolução incitada pelo elemento mais conservador que existia dentro da Igreja (o próprio Lutero; em comparação, Leão Médici já seguia rumo ao iluminismo, referindo-se a Cristo como fábula).

2) uma revolução que rejeita todas as revoluções anteriores, e as exclui.

3) uma revolução que vai também contra todas as revoluções posteriores.

Conclui-se, portanto, que a identificação da Reforma como gênese das revoluções é falsa conjectura, e se prende aos devaneios maistreanos.
leandro_13#70
Último ponto:
há sim (sempre houve) critérios límpidos e bem determinados para que saibamos quais são protestantes, e quais não são, e se ligam à doutrina da justificação pela fé, mantendo-se, porém, a fidelidade aos credos elementares (sem os quais, sequer podem ser considerados cristãos).

No século XVII, os hussitas aceitaram a confissão luterana e formaram sua comunidade na Silésia e Morávia e somente depois foram considerados protestantes. O mesmo aconteceu com os anabatistas, na mesma época, a medida que abandonaram a modernitas e aceitaram a justificação pela fé.

Também no século XVII, os unitaristas jamais foram considerados protestantes porque rejeitavam a Trindade, bem como todos os movimentos derivados deles, campbellianos e Ciência Cristã.

No século XIX, mórmons nunca foram considerados protestantes. Motivos óbvios.
Idem com os adventistas (de segunda geração) e Testemunhas de Jeová, os primeiros pela doutrina heterodoxa da salvação, e os segundos pela rejeição da Trindade.
Mas há controvérsia relacionada à doutrina atual dos adventistas.

No século XX, nunca houve motivo doutrinário para se excluir os pentecostais do protestantismo, já que se mantinham nas linhas mestras de suas denominações originais. E alguns também no tipo de organização.
leandro_13#71
Sendo assim, não há nenhum critério doutrinário concreto para se duvidar que Soares ou Malafaia (entre os citados) não sejam protestantes.

Silas Malafaia é integralmente doutrinário e nele não há nenhuma objeção em torno do que prega ou realiza. Pelo contrário, é até bastante familiar a toda a geração conservadora da Bíblia, e nunca vi qualquer crítica séria a seus posicionamentos.

RR Soares e Edir Macedo já entram em um terreno arenoso, já que suas igrejas acabam admitindo práticas que seriam consideradas de feitiçaria pela tradição anglo-saxônica (sabonetes, tapetes, etc.).
De Soares nunca ouvi nenhuma pregação em favor dessas práticas. Ele é ortodoxo.
Já Edir Macedo já li uma confissão aberta ao gnosticismo, o que vem de seu passado no espiritismo. Mas não posso avaliar sequer se é relevante.

Assim sendo, a IURD e a IIGD (como também a IMPD) situam-se em um campo semelhante aos das "igrejas africanas", reunindo a tradição cristã ao reconhecimento da fatualidade de ações mágicas. Contudo, tanto umas quanto outras inserem-se facilmente no campo protestante, pela inexistência de rupturas teológicas quanto ao ponto central comum das igrejas protestantes, sem avaliar pontos organizacionais que tanto desagradam àqueles litúrgicos.

Se a questão é saber se há ou não apoio midiático ao protestantismo (ou, mais especificamente, aos evangélicos) a resposta é que não.

A Record é uma rede inteiramente laica e se guia por um acordo ou compromisso em que a vinculação religiosa é vetada na maior parte do horário.
Diante de quem e para quem foi feito esse compromisso não sabemos.
A Universal é hostil às demais igrejas.

Malafaia e Soares adquirem e pagam por seu espaço na TV. Apenas a Band e RedeTV (por necessidade) vendem horários. SBT e Globo são hostis a essa prática.

O que houve sim foi uma abertura da música gospel nesses meios, refletindo aliás uma inserção que começou de "baixo para cima". No mais, não houve nenhuma mudança do beautiful peuple à pregação evangélica, a qual permanece hostil.
albertoleopoldo#72
Leandro,

Em primeiro lugar, expresso a minha satisfação por ter você colocado a discussão no nível das idéias e dos fatos, muito embora nos tenhamos afastado inteiramente do tema inicial do tópico (o que, aliás, é recorrente, e eu mesmo não considero necessariamente uma falta).

Mas vamos às suas afirmações:

Se bem entendi, você considera a infiltração de idéias do humanismo renascentista na Igreja como [uma das] causa[s] da reforma protestante. Se bem entendi, você sugere que, de alguma maneira, estas teriam influenciado a doutrina soteriológica da Igreja, e que esta, posteriormente à reforma, teria "voltado" à doutrina da salvação pela fé. Tais alegações são inteiramente improcedentes. Absolutamente nada se alterou na doutrina da Igreja entre o fim da Idade Média e a Contra-Reforma (como tampouco se alterou antes disso, mas atenhamo-nos a este ponto), e em particular nada se alterou na sua doutrina sobre a salvação. Lutero acusava a Igreja de defender a salvação por meio de obras, mas o fato é que a Igreja jamais o defendeu. Tampouco defendeu a "salvação pela fé". Em matéria de salvação, a doutrina da Igreja sempre foi a da procedência da graça, mas com esta deve colaborar a natureza, de modo que o homem se abra à graça redentora e produza frutos. Contudo, muito antes do advento do protestantismo (Segundo concílio ou sínodo de Orange, 529), a Igreja já havia condenado a heresia semipelagiana de que a iniciativa para abrir-se a graça parte do homem, como se fosse este o seu principal feitor. Quanto à salvação pela fé, bastem as palavras do concílio de Trento:

"819. Cân. 9. Se alguém disser que o ímpio é justificado somente pela fé, entendendo que nada mais se exige como cooperação para conseguir a graça da justificação, e que não é necessário por parte alguma que ele se prepare e disponha pela ação da sua vontade — seja excomungado [cfr. n° 798. 801, 804]."
albertoleopoldo#73
Afirmar que as idéias renascentistas imiscuíram-se na doutrina da Igreja Católica, atribuindo a esta a defesa das concepções que vieram a dar origem ao iluminismo é uma inversão de responsabilidades verdadeiramente admirável. Que muitos foram os membros da Igreja, inclusive bispos e cardeais, influenciados por essas idéias, admite-se. Mas que a Igreja, em comunhão com o Papa, em suas manifestações magisteriais, comungava delas, e que Lutero, tendo-se insurgido para combatê-las, em nada foi responsável pelo alastramento de concepções que ajudaram a dar origem ao iluminismo e seus sucessores (para manter a coisa somente nesse nível), é extremamente difícil defender sem se mostrar escandalosamente tendencioso.

Quanto a Erasmo, não se limitou a criticar o comportamento do clero, mas pregou a necessidade de reformar a doutrina eclesial da Igreja, embora sem romper com ela (tendo inclusive sido grande opositor dos reformadores). Não é à toa que teve várias de suas obras condenadas. A opinião largamente difundida é justamente de que preparou terreno para a reforma protestante, e o fato é que estava longe de poder ser considerado um pensador ortodoxo.

Sobre a sucessão apostólica, é bem verdade que Lutero a defendia para a sua confissão, embora afirmasse que a Igreja Católica a havia perdido (de modo que se torna bem difícil encontrar um elo que ligue Lutero em linha de sucessão aos apóstolos). Suas doutrinas do livre exame e do "sacerdócio de todos os homens" também contribuíram para disferir um golpe mortal na hierarquia (muito embora Lutero pretendesse reter o valor dos primeiros concílios).
albertoleopoldo#74
Eu não afirmo que todas as consequências revolucionárias da reforma estavam nas intenções de Lutero. É claro que não estavam. É claro que não se pode dizer que Lutero fosse iluminista, assim como é falso dizer que os iluministas eram comunistas. Mas há evidentemente uma linha histórica que os conecta. Também não é inteiramente justo dizer que Lutero iniciou o movimento ab ovo. A revolta luterana não teria sido possível (ou, no mínimo, não teria a forma e os pressupostos que teve) sem que se passasse pela prevalência do nominalismo/conceptualismo de inspiração ockhamista no período de declínio da escolástica, pelo ceticismo pirroniano trazido à tona no Renascimento, junto com o humanismo, sem a interferência de sociedades secretas como os rosa-cruzes e os hermetistas que trouxeram elementos do gnosticismo de volta à atmosfera intelectual da Europa etc.

Perceba que eu não afirmo que Lutero abraçou alegremente todas essas doutrinas (aquela a que se mostrava mais favorável destas, de maneira explícita, era o ockhamismo), mas não pôde deixar de respirar o ar contaminado por elas, e quem lhes reagia com vigor era justamente a Igreja de Roma, que ele rejeitou. Lutero podia se julgar um conservador (como o fazem em geral os protestantes), alegando que tencionava somente trazer de volta a pureza dos primeiros tempos da Igreja (nem é preciso lembrar que Rousseau e os marxistas também falam de uma "pureza primitiva" antes da corrupção introduzida pela propriedade privada, ou falar dos idos tempos hiperbóreos a que queriam retornar os nazistas). Mas o fato é que era um homem de seu tempo, com uma heresia que seu tempo lhe preparou.
albertoleopoldo#75
Escrevi em outro tópico:

Deixando por ora a questão do gnosticismo de lado, é sobejamente sabido por todos que toda a estrutura civilzacional da Cristandade ocidental até o renascimento - incluindo sua organização social, patrimônio cultural e espiritual, "cimento" moral - estava fundada sobre a autoridade da Igreja sediada em Roma, conquanto fosse o equilíbrio delicado e sujeito a abalos periódicos. Mesmo a autoridade política era subordinada ao cetro pontifício, pela noção da estrita dependência entre a ordem temporal e a celeste, mediada pelos legados religiosos hierarquicamente organizados.

Lutero, junto com a tradição espiritual que lhe subjazia, pretendeu destruir (e o fez com considerável sucesso) essa mesma ordem, não somente atacando com os termos mais vis e depreciatórios a Igreja romana (inclusive com calúnias notáveis, como a de jamais haver visto uma Bíblia enquanto agostiniano, quando a própria regra desta ordem incluía sua leitura assídua e meditação profunda) e explicitamente instando os príncipes seculares a erguer-se em armas contra ela [aliás, a medida em que logrou êxito nisso é secundária diante deste ponto], mas também pela sua peremptória separação entre Evangelho e Lei (aquele pode de alguma maneira "inspirar" princípios de boa conduta, mas de modo algum regulá-los).
albertoleopoldo#76
Além disso - claro - os próprios fundamentos da "reforma" religiosa, advogando o individualismo religioso (que se busca, é verdade, mitigar com uma vaga alusão a uma "unidade na fé" nunca alcançada), o princípio de "livre exame", o voluntarismo moral e teológico, a rejeição da Tradição (embora Lutero e Calvino julgassem válidos o Símbolo dos Apóstolos e os primeiros concílios - obliquamente interpretados, claro - mas somente enquanto se adequam às suas convicções) - tudo isso ratificou e acelerou o rumo que já vinha adquirindo o pensamento "moderno", ainda em seus germes. Repito: o protestantismo é uma heresia com as mais claras marcas do seu ambiente gestacional - não "criou" a situação, apenas a potencializou, e de maneira particularmente eficaz no campo político.

As convulsões sociais iniciadas nesse período mostram uma tendência a crescimento contínuo nos séculos porvindouros. É claro que, a cada novo upgrade do movimento, os representantes das últimas tendências consideram seus predecessores como verdadeiros baluartes da reação, e estes frequentemente se comportam como tal (como o próprio Lutero ante as revoltas camponesas). Perceba que eu não estou aqui fazendo qualquer identificação entre revolução e gnosticismo. Estou tomando o primeiro termo em seu sentido mais corrente e lato de "ruptura violenta com a ordem estabelecida". A qualquer um com um mínimo de conhecimento histórico, é bastante evidente que o movimento engatilhado pelos reformadores protestantes atende aos requisitos. É claro que o movimento revolucionário operante tem seus caracteres distintivos muito próprios (de que, aliás, o protestantismo não carece), mas por ora mantenhamo-nos nesta constatação menos problemática.
albertoleopoldo#77
[...]O protestantismo pode não ser primária e essencialmente um projeto de mudança social e política (através de concentração anormal de poder), posto que seu caráter "revolucionário" (no sentido que dei acima) é, antes de tudo, de natureza espiritual e religiosa. No entanto, traz em seu bojo, desde o seu projeto, a necessidade de mudar de maneira radical e abrangente a ordem social e política, que se fundava sobre a autoridade da Sé romana, a hierarquia orgânica entre religião e lei moral etc., e além disso favorece desde o início o acúmulo de poder temporal e religioso (já que desde o princípio são instados a combater o "romanismo") nas mãos dos príncipes. Em conformidade com esta perspectiva, o protestantismo se poderia definir como uma revolução religiosa que traz desde o berço o programa de uma revolução social, e em todo o caso a revolução social (ainda que não se traçasse sua gênese nas concepções dos primeiros líderes protestantes) se seguiu como efeito da ação efetiva e influência dos reformadores.
albertoleopoldo#78
Quanto ao gnosticismo:

Perceba que eu não afirmei aqui que Lutero era um gnóstico consumado. Na verdade, tanto ele quanto Calvino buscaram refrear as tendências mais explicitamente gnósticas que vinham surgindo em suas áreas de influência. Puderam fazê-lo porque, como foi dito, aceitavam o Credo dos Apóstolos e os primeiros concílios (lidos a partir de suas lentes, mas aceitavam-nos), mas também por aceitarem a validade objetiva dos sacramentos (em particular, o batismo - ao contrário dos anabatistas, que pressupunham a compreensão e o conhecimento como requisitos fundamentais mesmo do batismo) e a unidade fundamental da fé da Igreja (que podia ser postulada com pouco mais consistência em vista da aceitação dos primeiros concílios). Contudo, só se puderam livrar de um gnosticismo mais pleno por meio de elaborados contorcionismos dialéticos, que acabaram neutralizados pelos princípios do livre exame, da Sola Scriptura e da Sola Fide, de modo que, exceto entre as denominações mais tradicionais, a maior parte dos protestantes de hoje considera esses diques de contenção como relíquias do romanismo que se devem perdoar a estes pioneiros de fé ainda imatura.
albertoleopoldo#79
O fato é que, não obstante esses cuidados, as doutrinas de Lutero e de Calvino estão impregnadas de elementos que beiram perigosamente o gnosticismo. Não somente a doutrina da natureza essencialmente corrompida do homem, como também as da absoluta alteridade de Deus , da separação entre lei e Evangelho, a tendência à absoluta espiritualização dos sacramentos (em particular a Eucaristia - sobretudo em Calvino, mas já em Lutero há uma atribuição de prioridade à Palavra sobre a própria Eucaristia), e - claro - a idéia do conhecimento individual e não mediado da Escritura e da fé assim desperta como principal requisito para a salvação. Sem dúvida muitas dessas idéias são resquícios da mística especulativa fundada em Eckhart e das progressivas tendências do pensamento da época ao ceticismo, abstratismo e voluntarismo de matriz ockhamista. É verdade que os dois reformadores buscaram evitar a irrupção do gnosticismo em sua forma mais crua. Mas o passeio em torno do abismo que propuseram, juntamente com as forças propulsoras do livre exame, Sola Fide etc., não poderia tardar a precipitar o movimento para as profundezas da velha heresia. Não é à toa que o calvinismo, em particular, tenha proliferado em regiões que haviam sido de domínio cátaro no séc. XIII.
albertoleopoldo#80
Vejamos o que afirma Eric Voegelin, sobre as contribuições de Lutero à modernidade:

"1. Destruíra o núcleo da cultura espiritual cristã ao atacar a doutrina da fides caritate formata (a fé informada pela caridade). Reduzira a fé a um ato de confiança ao retirar-lhe a intimidade da graça, sempre exposta às tentações do orgulho e da soberba. A consciência empírica da justificação pela fé cria uma ruptura na natureza humana.

2. Destruíra a cultura intelectual ocidental ao atacar a Escolástica aristotélica. Se o esplendor medieval foi escurecido pelas lentes torpes dos modernos, parte da responsabilidade deve-se a Lutero. A sua atitude anti-filosófica criou o padrão depois agravado por sucessivas gerações de intelectuais Iluministas, positivistas, marxistas e liberais.

3. A justificação sola fide arruina o equilíbrio da existência humana. A idéia do paraíso de amor industrioso transferiu a ênfase da vita contemplativa para a ideia de realização humana através de um trabalho e de um serviço útil. O homem confia em Deus; depois vai à vida. No nosso tempo, esta atrofia da cultura intelectual e espiritual degenera no pragmatismo do sucesso.

4. Fala-se de Lutero como de alguém que possuía as virtudes e os vícios típicos do alemão. Mas se pensarmos, para só referir teólogos, em Alberto Magno, Eckhardt, Tauler, Nicolau de Cusa e o anónimo de Frankfurt, então ele nada tinha de germânico. Criou certamente um tipo humano: o revoltado voluntarista que deseja impor a sua razão como o centro da ordem institucional.

A sua obra é a manifestação de uma personalidade bizarra cuja força vital o faz romper com a história e lançar-se sozinho contra o mundo
". (Eric Voegelin, A História das idéias políticas, Cap. Martinho Lutero).
albertoleopoldo#81
Em um outro tópico, surgiram algumas críticas a estas afirmações, mas eu tentei mostrar que em nada afetam o núcleo da tese. Vide: Metade do Brasil ser� evang�lica em 2020?

Também escrevi lá:
É óbvio que o protestantismo, que conta com fortes raízes gnósticas, influenciou o individualismo liberal, que alimentou o racionalismo, que por sua vez desenvolveu-se na explícita negação de qualquer autoridade divina sobre o homem, que resultou na mais clara tirania do homem sobre o homem. Não é à toa que foi no seio do protestantismo que surgiram o racionalismo teológico, a teologia radical, a "teologia da morte de Deus" e outras tais aberrações (inclusive a teologia "da libertação").

Cabe lembrar também de acontecimentos infames que se encontram na raiz histórica do protestantismo. O saque de Roma, que faz a noite de S. Bartolomeu (realizada pelos príncipes, com apoio popular, e baseada na doutrina maquiavélica explicitamente condenada pela Igreja) parecer uma troca de afagos. A tirania calvinista em Genebra. Os massacres promovidos por Gustavo Wasa, Cristiano II, Henrique VIII e seus sucessores. A escandalosa diluição de qualquer distinção entre a autoridade secular e a autoridade religiosa nos países protestantes (vide o infame princípio cuius regio, eius religio). Lembremos também que a revolução francesa, que teve na Igreja Católica sua maior vítima, foi fomentada financeira, cultural e ideologicamente desde centros protestantes como a Prússia e os Países Baixos.
albertoleopoldo#82
Agora, sobre seus erros factuais:

As "indulgências" (ainda não conheci um único protestante que compreendesse esse conceito) não são impostos. A indulgência é o perdão concedido sobre as penas temporais, relativas aos pecados leves, veniais, válido somente para quem já está em estado de graça (e portanto, salvo, destinado ao Céu), obtido por meio de certas práticas piedosas. Nos primeiros tempos da Igreja, estas eram sobretudo penitências corporais. Como estas, entretanto, tendiam a extenuar fiéis de constituição mais frágil, concedeu-se que se podiam obter por obras caritativas, como doações à Igreja. É verdade que houve clérigos que exploravam os fiéis, abusando de sua boa fé. Por ocasião da construção da Basílica de São Pedro, a Santa Sé instou os fiéis a colaborarem tanto quanto possível para a sua realização, o que foi ocasião para pessoas corruptas encontrar vias de enriquecimento próprio, abusando da concessão de indulgências. Somente assim faz sentido falar em "venda de indulgências", mas a expressão é completamente imprópria. Note-se que não havia qualquer compulsoriedade nessa ajuda material.

Sua afirmação sobre Leão X: desafio-o a encontrar a referência dessa declaração. É curioso, pois ela consta de uma infinidade de sites protestantes e ateus, mas nem um só é capaz de mostrar a sua procedência. Não pode, evidentemente, porque é inteiramente espúria. Leão X jamais falou em "fábula de Cristo". O fato de referir-se a isso atesta a qualidade das suas fontes.
albertoleopoldo#83
Sobre hussitas, anabatistas etc.: é claro que heresias formadas antes de Lutero não se podiam chamar, com propriedade, "protestantes". Quanto a mórmons, adventistas e unitários: eu sei que houve tentativas, da parte dos líderes protestantes, de buscar a consolidação de algo como uma "ortodoxia", como se viu na confissão de Augsburgo e em outros "concílios". Podemos, é verdade, tomar alguns desses pontos como o mínimo para definir-se uma confissão "protestante". Seria, contudo, pouco mais do que um expediente lingüístico. Pois muitos outros grupos, alguns dos quais recusam o título de "protestantes" (como os batistas), e outros que são em geral rejeitados pelos representantes das denominações que mantêm uma certa comunhão com os grupos tradicionais, são certamente filhos da Reforma. Ademais, os teólogos racionalistas e radicais, os que cindiram a pessoa de Cristo em um "Jesus histórico" e um "Jesus da fé", os que pregam abertamente um "evangelho social", não somente surgiram no meio protestante, como se consideram com frequência luminares da teologia protestante (vide, digamos, um Dietrich Bonhoeffer) e não raro mantiveram funções de ministros de confissões tradicionais. É claro que o protestantismo abriu espaço para o liberalismo teológico juntamente com todas as suas consequências.
albertoleopoldo#84
Se Malafaia, Soares e Macedo são "ortodoxos" ou não, não creio que seja uma questão de grande importância (para o que temos aqui em mente). Pois são representantes do "evangelismo" brasileiro, como certamente também são os indivíduos cujas desventuras serviram de inspiração ao nosso tópico. Claro que a hostilidade de Macedo às outras denominações é relevante. Eu, como outsider, não a percebo. Mas aceito a correção.

Mas o fato é que Malafaia, Soares e outros têm o seu espaço e fazem sua mensagem chegar com eficiência aos lares brasileiros. É claro que em suas posições opostas ao politicamente correto, quando opõem-se ao "casamento" homossexual, à promiscuidade etc. etc., recebem as denominações protestantes o mesmo ataque impiedoso que a própria Igreja Católica. No entanto, em outros contextos, são consideradas como minorias religiosas e as opiniões dos seus membros são sempre levadas em conta e reportadas quando se trata de opor-se às posições da Igreja. O vice-versa não existe. Quando eu falo em "certo amparo midiático" é certo que eu não me refiro a um monopólio ou a uma hegemonia. Mas sim à concessão de um certo espaço (espaço esse negado à Igreja que representa a confissão da maioria da população nacional).

Aliás, que o espaço conquistado pelas igrejas protestantes (por exemplo, na música), foi algo "de baixo para cima" é um tanto controverso. Pois há um grande investimento desde fora do país (nem falemos já de um "empurrãozinho" da maçonaria) para a consolidação de muitas dessas igrejas, e para a difusão do protestantismo em geral.
nildo#85
eu tava pensando em levar esta discussão para um tópico paraleleo, mas ja ta tão cheio que ão sei se vale mais a pena.
albertoleopoldo#86
Ah, esqueci algumas coisas...

"A verdade é que a legitimidade da sucessão papal se apoia exclusivamente em decorrências posteriores. Tanto papas quanto anti-papas foram eleitos em condições similares (até mesmo por conclaves legítimos), e doutrinariamente também se encontraram em ambas as situações. Há até santos entre os anti-papas, o que, em tese, não poderia haver.
Toda a legitimação parte de uma sucessão posterior, e não na origem de tais eleições.
"

Quem disse? Uma eleição legítima de um papa não pode ser impugnada, e o próprio caso de Urbano VI é uma evidência disso. Não é à toa que o cisma do Ocidente levou a condenar a posição conciliarista, que atribui a um concílio a autoridade de depor um papa. O que houve em alguns casos foi uma indecisão temporária na avaliação das circunstâncias em que se elevava alguém ao posto de bispo de Roma. Mas só se pode declarar nulo o resultado de um conclave se se verifica o não atendimento de normas canônicas já estabelecidas. Nunca um conclave legítimo elegeu um antipapa.

Sobre antipapas santos:

Houve Santo Hipólito, que se fez, de fato, antipapa, mas reconciliou-se com o legítimo Papa e morreu mártir.

Há uma confusão histórica entre Felix II (antipapa) com São Félix.

Tirando esses casos, desconheço qualquer outra alusão. Peço ao amigo Leandro que, ao fazer declarações bombásticas, especifique suas fontes.
mari#87
concordo com você:

é deprimente!

Não conhecem espiritismo e vem aqui evocar a VERDADE. {2}
albertoleopoldo#88
Caro Fernando,

Percebo que o amigo nada mais faz que andar em círculos.

Sobre o assunto do tópico, não há mais o que discutir. Pediram "os católicos" cana para o pastor? Pediram. Mas pediram porque (erroneamente ou não) o associaram aos atos de invasão e depredação referidos, e não por ter ele falado contra a macumba. Neste caso, somente o que se viu foram declarações de que, por esta razão, nonguém deveria ser preso. Cabe lembrar que Massa, que foi quem trouxe a notícia à baila, e pretendeu justamente ressaltar a injustiça da prisão, é católico. Aline, que afirmou que com a invasão e depredação, os sujeitos "perderam a razão", é protestante. Em outro tópico, tendo sido repostada a notícia conforme publicada em site de Julio Severo, Alysson, também protestante, engrossou o coro das repreensões. Isso nada tem a ver com a religião de quem quer que seja.

Quanto às suas reiteradas acusações contra o catolicismo, façamos uma análise cuidadosa, para ver se você consegue me entender.

A primeira coisa é que você não entende uma única linha da Eclesiologia católica.
albertoleopoldo#89
Em que momento de sua história a Igreja Católica (por meio, digamos, de seu Magistério) afirmou que a participação na hierarquia eclesiástica tolhe aos indivíduos a sua livre opção pelo bem ou pelo mal, tornando-os impecáveis e automaticamente justificados? Ora, Judas, que estava entre os doze, não foi o primeiro a trair o próprio Cristo? O próprio Pedro, príncipe dos apóstolos, primeiro Papa, não só negou Cristo por três vezes, como mereceu a repreensão de São Paulo na questão dos judeizantes. Cristo mesmo, aliás, avisara que trigo precisaria crescer junto ao joio até a época da ceifa. Isso não significa em absoluto a desmoralização da Igreja, que apesar dos pecados de seus membros, apresenta-se sem mancha e sem ruga, santa e imaculada. A santidade da Igreja não é afetada pela corrupção de seus membros pecadores, mas é antes a via pela qual a graça de Deus os alcança, particularmente na sua dimensão sacramental, apesar desses mesmos pecados.

Aliás, casos semelhantes - para não falar de dimensões muito mais extensas - de corrupção humana não são difíceis de encontrar-se entre os "reformados" (v. a vida desregrada de Lutero, suas relações com os príncipes, o apoio à poligamia - como no caso do landgrave Filipe de Hesse - do mesmo, junto com Melanchton e Bucero, a fusão completa das esferas política e religiosa nas nações protestantes, o infame saque de Roma, a tirania de Calvino em Genebra, os massacres promovidos por Gustavo Wasa, Cristiano II, Oliver Cromwell e tutti quanti, o apoio dos países protestantes à revolução francesa etc. etc. etc. etc.). É claro que os protestantes se justificam dizendo que seus grupos e seus membros são imperfeitos, porque humanos, mas não aceitam a mesma alegação da parte dos católicos porque isso contrariaria a alegação da instituição divina da Igreja. Mas o fato é que não contraria. A infalibilidade da Igreja não abrange a impecabilidade de qualquer de seus membros, mas atinge unicamente declarações doutrinais solenes.
albertoleopoldo#90
O fato é que eventos como o grande cisma do Ocidente e a vida de um papa como Alexandre VI em nada enfraquecem a fé católica na assistência ininterrupta do Espírito Santo à Igreja, mas antes a reforça. Pois nem mesmo as situações de mais profunda crise bastam para fazer com que as portas do inferno prevaleçam contra ela. E não obstante crises institucionais (e a Igreja não é, essencialmente, instituição - é o Corpo Místico de Cristo formado pela totalidade dos fiéis batizados, incluindo o bastismo de sangue e o de vontade - mas possui um aspecto institucional e hierárquico) e a vida escandalosa de alguns papas, trata-se ainda, em sua face institucional, da instituição mais estável, duradoura e integrada que já passou pela Terra, e nunca deixou de despertar um enorme número de vocações ao martírio e à santidade, nunca lhe faltou o testemunho dos milagres, nunca uma linha de contradição se fez notar em sua doutrina.

É claro que a autoridade religiosa não é Deus. No entanto, provém de Deus (como, aliás, qualquer autoridade legitimamente constituída) e representa Deus na Terra, guardando a integridade da doutrina. É claro que isso não torna os detentores dessa autoridade automaticamente em santos, ou em homens absolutamente impecáveis. Na própria Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, são muitos os casos de homens constituídos por Deus em autoridade (inclusive religiosa) que caem em pecado. Contudo, isso não lhes anula a autoridade, mas cada um tem que se ver com as conseqüências terríveis dos seus erros.
albertoleopoldo#91
No entanto, cabe lembrar que Lutero não somente questionou a legitimidade da autoridade religiosa investida nos homens (mesmo porque, como lembrou Leandro, ele próprio admitia a sucessão apostólica), mas empreendeu uma separação mais profunda: entre religião e lei moral. É claro que o Catolicismo reconhece que ambas não se identificam (pode-se ser moral até mesmo sem que se seja cristão - v. Rm 2, 14-15), mas que há uma subordinação da vida moral à religiosa (mesmo os pagãos referidos são julgados "segundo o Evangelho", v. o versículo imediatamente posterior).

Sim, o Papa acumula o cargo de chefe de Estado, e daí? As funções religiosas de seu ofício são claramente distinguidas das funções políticas, embora num Estado estritamente religioso, a submissão destas àquelas seja patente. Em todo caso, é uma atribuição contingente, pois houve vastas épocas históricas em que não houve nenhum Estado pontifício. É interessante mencionar Inocêncio III, pois foi um dos grande responsáveis por coibir a intromissão dos poderes seculares em assuntos religiosos. A questão dos impostos é um tanto complexa, pois não havia regulamentos bem determinados nos Estados pontifícios. Havia o uso e os acordos internacionais. Até onde saiba, Inocêncio III ajudou a regulamentá-los. Onde entra realmente a calúnia é em dizer que eram "cobradas" indulgências, como fossem impostos. Já me referi às indulgências aqui, e cabe lembrar que o Concílio de Trento excluiu a via das contribuições materiais para a concessão das indulgências, justamente devido aos abusos reportados. Em todo o caso, também não custa recordar que o Vaticano é, hoje, o único Estado no mundo que não cobra imposto algum.
albertoleopoldo#92
"a igreja Católica havia se tornado questionável porque todo Católico vivia sob excomunhão por um papa ou por outro, sem saber qual deles era o verdadeiro, e assim os Católicos tinham que buscar a promessa e a certeza de salvação fora da igreja Católica.

É essa uma afirmação verdadeira ou falsa?
"

Ora, é uma afirmação muito simplesmente falsa. Entenda bem: nunca houve "papas mutuamente excomunicantes". Também Roma e Constantinopla estiveram em "excomunhão" mútua, e por séculos, e jamais isso perturbou seriamente quer um católico, quer um "ortodoxo". Sempre houve um só Papa, sendo que em certos períodos houve também antipapas, que reclamavam a si o cetro pontifício, mas sem o possuírem. Não é que entre Urbano VI e Martinho V havia uma indeterminação (digamos, ontológica) sobre quem era o verdadeiro Papa, e que esta foi resolvida mediante acordo. A eleição de Martinho V pôs fim ao cisma, mas não há e nem houve controvérsia sobre quem fora papa e quem fora antipapa. Urbano VI nunca deixou de ser Papa, e depois dele vieram Bonifácio IX, Inocêncio VII, Gregório XII, e por fim, Martinho V, em linha ininterrupta. Os "papas" de Avignon e Pisa nunca foram papas. Havia, sim, uma certa confusão do ponto de vista subjetivo, que possibilitou o surgimento da heresia conciliarista, à qual chegaram a aderir teólogos eminentes. Mas heresia é heresia, e as razões alegadas em favor dos "papados" de Avignon e Pisa nunca os justificaram objetivamente, e houve sua condenação explícita no Concílio de Constança. A questão não ficou em aberto coisíssima nenhuma.

Perceba que você só pode afirmar que o cisma é um problema para a doutrina católica se você considera que a doutrina católica é conciliarista. Mas o conciliarismo foi condenado como doutrina herética pela Igreja. Ademais, nem os antigos partidários dos anti-papas defenderam a legitimidade dos respectivos "papados" após o Concílio de Constança.
albertoleopoldo#93
Muito mais complicada é a posição dos protestantes que precisam explicaer como, durante todos os séculos de domínio romano ilegítimo, Cristo esteve, todos os dias, assistindo a sua Igreja, esmagada sob o jugo "romanista", dispersa entre aqueles que Roma declarava hereges e que proclamavam "evangelhos" os mais variados.

Somente um comentário complementar: é claro que aquelas pessoas que, sem culpa própria, ignoravam durante o cisma quem fosse o verdadeiro Papa, não são rés do pecado de separação. Cabe lembrar que mesmo fora da plena comunhão com o Papa persistem elementos genuinamente santificadores. Assim a sucessão apostólica e a celebração da Eucaristia entre os cismáticos do Oriente, por exemplo, são válidas. Assim, mesmo nas comunidades protestantes, onde se conserva a reverência à Bíblia e o culto a Cristo como Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, existem tais elementos, e portanto uma certa participação imperfeita na Igreja de Nosso Senhor.
albertoleopoldo#94
Quanto à sua descrição de Leão X como "papa vendedor de indulgências para tirar dinheiro dos pobres", é inteiramente gratuita e improcedente. Já escrevi aqui a esse respeito. Aliás, tragamos aqui um testemunho insuspeito: Lutero, em suas 95 teses (tese 51 e 91).

"51. Christians are to be taught that it would be the pope's
wish, as it is his duty, to give of his own money to very many
of those from whom certain hawkers of pardons cajole money,
even though the church of St. Peter might have to be sold
.
"

"91. If, therefore, pardons were preached according to the
spirit and mind of the pope
, all these doubts would be readily
resolved; nay, they would not exist.
"

Trechos estes que podem ser conferidos no site luterano The Wittemberg Project: http://www.ctsfw.edu/etext/luther/theses/theses_e.asc.
albertoleopoldo#95
Quanto aos "tipos de católicos", não seja desonesto. Sincretistas, modernistas, indiferentes (não sei no que se distinguem dos "nominais" e dos "étnicos") e "tradicionalistas" anti-conciliares não estão em comunhão com o Papa (embora estejam em níveis diferentes de separação), e não são plenamente "católicos". Quanto aos carismáticos, têm o seu próprio caminho espiritual (como há outros, na Igreja), mas não estão em divergência doutrinária nem estão excluídos do governo de Roma (os eventuais abusos são encargo das respectivas dioceses).

Sobre o caráter alegadamente "restaurador" da reforma, eu já comentei. Trata-se de uma característica bem comum dos movimentos revolucionários. A "pureza bíblica" buscada pelo protestantismo é não somente uma ficção, mas até mesmo um paradoxo. Não somente as próprias Escrituras atestam a presença de uma estrutura hierárquica e dogmática na Igreja primitiva - foram os apóstolos incumbidos das tarefas de ensinar e batizar (Mt 28,19), comunicar o perdão dos pecados (Jo 20,23 - é claro que quem é capaz de perdoar é Deus, os sacerdotes, quando comunicam o perdão, fazem-no não em seu próprio nome, mas in persona Christi), celebrar a Eucaristia (Lc 22,14-20), lançar em excomunhão (Mt 18,15-17) e governar a Igreja (Mt 18,18), e já lá se registra a realização do primeiro Concílio, sob clara presidência de Pedro (At 15) -, mas todos os testemunhos contemporâneos emitidos pelos discípulos diretos dos apóstolos o confirmam. A própria autoridade bíblica é fundada na autoridade da Igreja e não o contrário. Cristo fundou uma Igreja, e lhe confiou a tarefa de discernir, com a assistência do Espírito Santo, quais dos escritos que lhe chegaram às mãos são verdadeiramente inspirados. No mais, já escrevi:
albertoleopoldo#96
Trata-se de um verdadeiro paradoxo. Se é verdade que os protestantes pretendem resgatar a pureza de doutrina da Igreja primitiva, e identifica essa mesma Igreja primitiva precisamente com aquela descrita nos livros das Sagradas Escrituras (não aceitando qualquer outra autoridade comparável nos relatos sobre ela), como poderiam julgar que a doutrina dessas comunidades é única e exclusivamente a que foi registrada nas Escrituras, se nem sequer as Escrituras haviam sido completadas? Claro, por ser um paradoxo, não significa induzir uma completa contradição. É logicamente possível que as comunidades cristãs de então tenham recebido da boca dos apóstolos somente a doutrina que depois foi registrada nas Escrituras, e nada além dela. Mas em nenhuma parte das Escrituras há a afirmação de que assim tenha sido. Pelo contrário, São João afirma que nem todos os livros do mundo caberiam o relato de tudo o que Jesus fez em sua vida terrena. E, repito: não seria, para dizer o mínimo, impiedoso afirmar que houve tantos aspectos e momentos da vida de Nosso Senhor que não tenham tido qualquer relevância para a salvação da humanidade? Ademais, todos os escritores eclesiásticos dos primeiros tempos da Igreja referiam-se a elementos da pregação dos apóstolos - sobre uma porção de assuntos: da liturgia ao dogma - que não estavam explicitamente contidos nas Escrituras. Seriam todos eles mentirosos e hereges?

Se sim, por que teria Deus abandonado a Sua Igreja tão cedo, contra a Sua própria promessa? Pior ainda, para a doutrina da Sola Scriptura: pareceria então que, tão logo as Sagradas Escrituras estavam prontas e acessíveis aos fiéis, tão logo os membros e líderes da Igreja caíram na heresia e se renderam a uma falsa autoridade. Como Deus teria permitido uma tal calamidade, logo após o ímpeto de santidade testemunhado pelos apóstolos e suas comunidades, e no interior dessas mesmas comunidades?
albertoleopoldo#97
A doutrina da Sola Scriptura não tem fundamento bíblico, não recebeu (nem poderia) endosso dos membros da primitiva Igreja nem da Tradição Apostólica. As Escrituras são, em matéria doutrinal, seguríssimas e livres de erro, sem dúvida. Mas elas deixam lacunas sobres pontos importantíssimos, que mesmo os defensores das comunhões protestantes não deixam de preencher de alguma maneira. E aliás, que credenciais estes exibiam para a refundamentação da vida da Igreja? Perceba: é possível remontar toda a linha da sucessão episcopal na Igreja Católica até os apóstolos (incluindo, claro, a cátedra do bispo de Roma, o Papa). Mesmo a alguns grupos separados da comunhão com Roma (p.ex. os cismáticos do Oriente, os "vetero"-católicos e mais recentemente os lefèbvristas), a Igreja Católica não pode deixar de reconhecer a validade das ordenações, pois são tributários diretos do investimento apostólico, cujos primeiros casos já se registravam nas Sagradas Escrituras. Preservaram os reformadores a integridade dessa linha de sucessão? Não. Nem sequer se apresentaram como homens de vida santa e exemplar (embora tal esforço tenha vindo a ser realizado posteriormente, em particular desde os puritanos), ou trouxeram em seu favor o testemunho dos milagres. Erasmo, cronista atento do período, observava: com toda a sua pregação, não logravam os reformadores sequer a cura de um burro coxo.

Ademais, do ponto de vista estritamente social, não se pode escapar ao fato de que toda a ordem de então estava fundada sobre a autoridade da Igreja de Roma. Rompendo-se esse equilíbrio, deu-se origem a uma série de convulsões que chacoalharam o Ocidente e prepararam terreno para os assédios posteriores. Pode-se argumentar que a revolta era então necessária, que era um imperativo religioso - aliás, os estudiosos das ciências da religião não hesitam em chamar o monoteísmo profético de "revolução religiosa" - mas dificilmente se poderia defender que não era um clamor revolucionário.
albertoleopoldo#98
Quem te falou, Fernando, que a Igreja ensina a "salvação por obras"? O mesmo Concílio de Trento, que condenou a doutrina da salvação "pela fé", proclamou também solenemente:

"811. Cân. 1. Se alguém disser que o homem pode ser justificado perante Deus pelas suas obras, feitas ou segundo as forças da natureza, ou segundo a doutrina da Lei, sem a graça divina [merecida] por Jesus Cristo — seja excomungado. [cfr. n° 793 s]."

A doutrina da Igreja, aliás, é de uma simplicidade cristalina: somos salvos pela Graça, que procede de Deus, pelo sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas é preciso que a ela nos abramos pela fé, que, se é verdadeira, produz boas obras. Se nossas obras são más, concluímos, pela aplicação do Modus tollendo tollens, que a nossa fé não é verdadeira (é "morta" - v. Tg 2,26), o que significa que livremente rejeitamos a Graça, que é a única verdadeira fonte de salvação.

É claro que pessoa alguma pode substituir o sacrifício de Cristo, ou salvar-se por seus próprios méritos. Pois o pecado, como ofensa à infinita majestade de Deus, não pode ser remido sem uma oferta de infinito valor, a qual se verifica somente na imolação do Cristo. Contudo, fala-nos São Paulo (I Cor 9,27): "Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros." E também (Col 1,24): "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja." Além do que diz o próprio Cristo (Mt 16, 24): "Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me."
albertoleopoldo#99
É claro que ninguém se salva através do sofrimento ou das obras. Mas o desapego de si é sinal da entrega da alma a Deus, da plena aceitação da Graça, da mortificação do homem velho para o renascimento do homem novo em Cristo. Além do mais, o pecado traz consequências temporais, além das puramente espirituais, que também pedem reparação.

Quanto ao Purgatório, escrevi em outra oportunidade:

Cristo se referiu explicitamente à possibilidade de perdão "no século futuro" (Mt 12, 32), e também em Lucas 12, 58-59:
"58. Quando, pois, estás indo com teu adversário apresentar-te diante do magistrado, procura resolver o caso com ele enquanto ainda a caminho. Senão ele te levará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e o oficial de justiça te jogará na prisão.
59. Eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo
”.

O Purgatório, em verdade, não exclui o perdão dos pecados, antes o pressupõe, pois não irá para o Purgatório senão aquele que já está salvo. Portanto, a esperança da alma nesse estado converte-se em certeza. Trata-se de uma necessidade da alma, voluntariamente aceita, pois não poderia apresentar-se "suja" perante Deus. Contudo, é claro que está ao alcance do poder de Cristo mesmo o purificar de todos os pecados, que é precisamente o que se chama "indulgência plenária".

Em todo o caso, deixarei com a palavra o anglicano C.S. Lewis:
"Nossas almas exigem o purgatório, não é mesmo? Não nos quebraria o coração se Deus nos dissesse, 'é verdade, meu filho, que tu não cheiras bem, que tuas vestes são surradas e derramam lama e lodo, mas aqui somos caridosos e ninguém irá te reprovar por seres assim, muito menos te enviará de volta. Regozija-te conosco'. Por acaso não responderíamos 'Com submissão meu Senhor, e se não houver nenhuma objeção, eu prefiro me limpar antes'. 'Há sofrimento, sabias disso?'. 'Ainda assim, meu Senhor'."
albertoleopoldo#100
Sobre "crer em Jesus para ser salvo", é sempre bom lembrar da conhecida passagem de São Mateus 7:

"21. Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.
22. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?
23. E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!
24. Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha.
25. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha.
26. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia.
"

Além do mais, faz toda diferença crer-se em um Cristo (1) que investiu Pedro da missão de sustentar e governar a Igreja; que se confronta com o pecador logo após a morte deste, para seu juízo particular; que, em João, criou um vínculo filial com Sua mãe para toda a Igreja; que confere aos sacerdotes o poder de comunicar a graça do perdão; e que se entrega como alimento aos fiéis na Sagrada Eucaristia, e um Cristo que (2) não faz nenhuma dessas coisas. Evidentemente, dentre alguém que crê no Cristo como em (1) e alguém que crê nEle como em (2), não é possível que ambos creiam corretamente.

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