Mais uma vez, eu pergunto: que interesse teria a Igreja em conservar íntegro e declarar como autoridade inabalável e verdade certíssima todo esse corpo de ensinamentos e exortações frontalmente contrários às suas doutrinas e às suas ambições? Ora, a Igreja proclama reiteradamente desde os primeiros tempos que a Sagrada Escritura, patrimônio da fé que lhe foi confiado, é a fonte mais segura e sustentáculo indispensável da doutrina católica. E, durante dois mil anos, homens da Igreja se dedicaram incansavelmente à sua leitura, meditação, extração de ensinamentos, conhecimento erudito apoiado pelas mais diversas áreas de estudos, da arqueologia à filologia, da análise literária à História etc. etc., promovendo desde os mais remotos tempos os mais sistemáticos e detalhados estudos, guardando com um zêlo singular os códices mais antigos, desenvolvendo um trabalho de cópia tão minucioso que nenhum outro corpo de obras tão antigo conta com um número tão reduzido de corrupções.
Não faz o mínimo sentido brandir a Bíblia contra a Igreja, como se esta a desconhecesse, e nunca tivesse atentado às contradições que qualquer freqüentador de uma igreja evangélica aprende nas primeiras semanas de pregação.
O grande problema, Fernando - na verdade, o único - é que você quer converter a questão em querela religiosa, coisa que em absoluto não é. Entre os católicos, houve quem repreendesse o pastor e houve quem o defendesse. Entre os protestantes, idem. Querer tornar a questão em uma de perseguição de religiosa foi iniciativa sua. Ninguém, além de nós, está dando a mínima para a questão agora. Em todo o caso, se você alega que os "católicos" defenderam que era justo que o pastor pagasse por um crime que não cometeu, sua alegação é simplesmente falsa. Se a sua acusação é de que a má vontade dos católicos para com os protestantes foi o que gerou o descuido na leitura da notícia, pode ser que esteja certo, mas considero algo bem difícil de ser provado, por envolver considerações de ordem psicológica. O descuido na averiguação em si poderia ser algo grave se se tratasse de uma acusação formal, por exemplo, em tribunal. Mas, numa comunidade de orkut... Não posso evitar o juízo de que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.
Quantas vezes eu preciso dizer que a Igreja Católica jamais defendeu a irrepreensibilidade e impecabilidade dos papas? A infalibilidade se refere exclusivamente a declarações solenes, dogmáticas, peremptórias, acerca de temas de moral e doutrina. São raros os momentos em que se exerce. E enquanto não se o faz, nada há de incomum ou escandaloso que o Papa receba sugestões e mesmo repreensões quer sobre suas atitudes, quer sobre suas opiniões.
Quando eu falo que você não conhece uma única linha da eclesiologia católica, não falo à toa. Na eclesiologia protestante, a igreja fundada por Cristo é invisível e subsiste em cada um dos crentes em Jesus Cristo, em sua unidade de fé baseada (teoricamente) nas Escrituras e somente nelas. As diversas "igrejas" nada mais seriam do que congregações de fiéis para o culto divino. Por isso, enxergam os protestantes na Igreja Católica somente mais uma dentre essas congregações, mas uma que desejaria monopolizar o ofício do culto e se interpor entre o crente e Deus, por meio de uma série de distorções da Palavra de Deus.
Na eclesiologia católica, a Igreja romana não é uma entre as outras, que reivindica para si uma posição de destaque e de governo. A Igreja Católica é a única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, ela é Cristo (cabeça) e os fiéis (membros), e não "se interpõe" entre eles. A sua estrutura hierárquica é uma condição necessária para a preservação do depósito da fé e garantia de continuidade da sucessão apostólica, constituindo o próprio selo de autenticidade visível para assegurar a autoridade das Sagradas Escrituras e sua correta interpretação, e foi inaugurada e assim disposta pelo próprio Cristo. Perceba que tanto protestantes quanto católicos aceitam que há um meio de transmissão da Graça redentora de Deus. Acontece que, para os protestantes, basta somente a Bíblia, sendo tarefa dos seus missionários torná-la conhecida, e assim despertar a fé que salva por si só. Para os católicos, há não somente a Bíblia, mas a Tradição apostólica e o Magistério, que inclusive determinam as disposições para a correta compreensão do texto bíblico, além de dar as corretas instruções para o culto divino e o serviço litúrgico, e apresentar as normas para a conduta dos fiéis à luz do Evangelho. Mas sobre a doutrina da salvação, falarei mais abaixo.
Tanto protestantes como católicos crêem que há uma só Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, purificada por Cristo para ser apresentada resplandecente de glória, sem ruga, sem mancha, santa e irrepreensível (Ef 5,27), e que a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, cujos membros são os crentes. Contudo, tanto católicos como protestantes sabem que os membros da Igreja são pecadores. Se a Igreja é santa, ela o é unicamente por causa de sua cabeça, que é Cristo, que comunica a sua graça santificante aos membros e lhe promete assistência ininterrupta até o fim dos tempos. Nisso não há divergência entre nós.
O que muda é que, para os protestantes, a Igreja de Cristo é em todo aspecto invisível e anucleada, fundada exclusivamente sobre a autoridade das Escrituras, ao passo em que, para os católicos, ela tem uma estrutura hierárquica determinada, uma sede visível e se pauta pela conjunção da autoridade das Escrituras com a do Magistério e da Tradição apostólica - que em ponto algum se contradizem, mas cooperam - e é governada pelo sucessor de São Pedro, que é um homem pecador como todos os demais, cuja autoridade não emana de méritos próprios, mas exclusivamente da delegação de Cristo (pois quem governa deve ser como quem serve).
Não há nenhuma dificuldade doutrinal no fato de que alguns dos hierarcas da Igreja - incluindo papas - tenham sido homens de vida reprovável. Eu me referi às falhas visíveis na vida de reformadores e na organização das igrejas protestantes somente para ressaltar quão injusta e improcedente é afirmar que as falhas destes em nada afeta as alegações do protestantismo, enquanto as falhas dos membros da Igreja Católica seriam provas da invalidade das suas reivindicações.
Sobre sua referência ao trecho da obra do Papa Ratzinger, claro está que você jamais teve acesso de primeira mão a tal obra. Vejamos o trecho referido em seu contexto:
"With Luther another kind of division that had its roots in Augustine appeared in the Church. The split between Donatists and Catholics that rent the Church of his African homeland caused the great doctor of the Church to distinguish with a sharpness until then unknown between the theological greatness of the Church as a salvific reality and her empirical existence: many who seem to be in the Church are outside her; many who seem to be outside her are in her. The true Church is the number of the predestined who, on the one hand, transcend the visible Church while, on the other hand, the reprobate are present at her very center. For Augustine, it must be admitted, this concept had no adverse repercussions with regard to the value of the sacramental and apostolic structure of the Church and her tradition. But the great Western schism of the fourteenth and fifteenth centuries had imbued it with a degree of realism that would have been inconceivable up to that time. For nearly half a century, the Church was split into two or three obediences that excommunicated one another, so that every Catholic lived under excommunication by one pope or another, and, in the last analysis, no one could saw with certainty which of the contenders had right on his side. The Church no longer offered certainty of salvation; she had become questionable in her whole objective form—the true Church, the true pledge of salvation, had to be sought outside the institution. It is against this background of a profoundly shaken ecclesial consciousness that we are to understand that Luther, in the conflict between his search for salvation and the tradition of the Church, ultimately came to experience the Church, not as the guarantor, but as the adversary of salvation."
Ou seja: o então cardeal Ratzinger afirma que o cisma do Ocidente, tendo abalado profundamente a consciência eclesial do período, levou Lutero a interpretar erroneamente o que desejou dizer Sto. Agostinho, e enxergar a certeza da salvação como perdida dentro do âmbito da Igreja. Basicamente, o Papa está aqui averiguando a gênese das idéias que levaram Lutero ao rompimento da Igreja, apontando o quadro tal como a ele se afigurava. Evidentemente, se Ratzinger comungasse dessas mesmas concepções, já teria se tornado protestante.
Esse tipo de abuso interpretativo não é incomum. Basta que recordemos a polêmica causada por uma citação feita pelo Santo Padre na conferência de Regensburg, no início de seu pontificado.
Sobre o Concílio de Constança, atenhamo-nos aos fatos:
Não se discutiu, em absoluto, no Concílio, a conveniência ou inconveniência de qualquer ação militar, posto que um concílio não serve para isso. O que foi discutido - e condenado - foi a proposta do franciscano Jean Petit de considerar como compatível com a moral cristã o chamado "tiranicídio" incondicional: a permissão para qualquer homem, independente de seus votos e condições, e de qualquer sentença judicial, assassinar um governante tirânico. Folkenberg, não obstante a condenação da tese de Petit, aproveitou o ensejo para defender a licitude do massacre aos poloneses, sob a alegação de que, ao tolerar e até propiciar a difusão do paganismo dos eslavos, eram réus de um crime coletivo que justificaria a medida. Não houve então qualquer declaração específica emitida sobre o caso, mas pouco tempo depois, teve suas obras banidas e foi condenado à prisão. Se Martinho V o "protegeu", só se foi como cativo.
"Não há nada complicado. Você mesmo reconhece a "participação imperfeita" dos protestantes "na Igreja de Nosso Senhor".
A diferença é que há protestantes que também reconhecem a "participação imperfeita" de Católicos "na Igreja de Nosso Senhor"."
Então, se bem entendi, a assistência prometida por Cristo à Igreja, antes do protestantismo, estava de fato com a Igreja de Roma. É isso? É um ponto interessante. Pois se a Igreja, do ponto de vista protestante, corrompeu a mensagem do Evangelho, e estava, portanto, anatemizada (Gal 1,8-9) é de se questionar como vinha operando a assistência ininterrupta de Cristo por meio dela.
Ora, Fernando, se uma passagem das Escrituras assere algo que não é repetido em outras partes, isso a torna inverídica? E será que não é repetido mesmo?
O que me diz do sermão da Montanha (Mt 5-7)? Vejamos somente algumas passagens:
"Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena." (Mt 5,22)
"Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração.
Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena.
E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena." (Mt 5,29-32)
"Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos." (Mt 7,2)
"Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos.
Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo." (Mt 18,19)
Perceba que Cristo aqui não fala somente da recompensa aos que seguem os mandamentos, mas da punição aos que não os seguem.
Também Mt 25, 44-46:
"Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?
E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.
E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna."
"Assim, meus caríssimos, vós que sempre fostes obedientes, trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, não só como quando eu estava entre vós, mas muito mais agora na minha ausência."
e também (Fil 3,10-14):
"Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos.
Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo.
Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente,
persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo."
Vejamos o trecho já postado da primeira carta aos coríntios, em contexto mais amplo:
"Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos.
E tudo isso faço por causa do Evangelho, para dele me fazer participante.
Nas corridas de um estádio, todos correm, mas bem sabeis que um só recebe o prêmio. Correi, pois, de tal maneira que o consigais.
Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível.
Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar.
Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros."
A doutrina dos galardões (coroas) é uma prova da pouca consistência da Sola Scriptura.
Nada nas Sagradas Escrituras sugere que a coroa incorruptível de que ora fala São Paulo, ou a coroa da vida de que falam São Tiago (Tg 1,12) e São João (Ap 2,10), ou a coroa da glória de que nos fala São Pedro (1Pd 5,4) sejam outra coisa que a própria vida eterna. Tal doutrina não é senão uma maneira de conciliar ad hoc as diversas passagens bíblicas que falam de retribuição e recompensa com as doutrinas luteranas da Sola Fide e da Sola Gratia.
Além do que, o segundo capítulo da carta de São Tiago fala clarissimamente da necessidade das obras para a obtenção da salvação.
Porém, necessidade não é o mesmo que suficiência. Por isso São Paulo adverte com tanta ênfase de que não são as obras que nos salvam, mas a Graça, através da fé. Contradição? Claro que não. Não é por mérito próprio que recebemos a graça da redenção, mas por exclusivo mérito do sacrifício de Cristo. Mas uma coisa é receber a Graça, e outra é conservarmo-nos nela. Uma vez recebida a Graça, é mister que, a oportunidade surgindo, produza ela bons frutos. Pois o pecado é, e não deixou de ser, uma separação de Deus, e foi justamente para tirá-lo do mundo que Cristo foi imolado. Ao aceitar livremente apartarmo-nos de Deus, pelo pecado, estamos renunciando à ação eficaz do sacrifício do Cordeiro, que veio tirar o pecado do mundo. Não aceitando o efeito santificante do sacrifício de Cristo, fechamo-nos à Graça, e por isso à salvação.
O bom ladrão, cumpre lembrar, recebeu o perdão à beira da morte, de modo que se manteve na Graça até seu derradeiro suspiro. Não teve ocasião de a ela renunciar pelo pecado. Além do que - repito - Deus pode perfeitamente conceder o perdão até mesmo das penas temporais, de modo a purificar de todo a alma do pecador para que ingresse imediatamente em Sua luz (e não, aliás, em estado de "dormição").
Quanto a 1Cor 1,24, concordo com você. Em nenhum momento eu afirmei que o sacrifício de Cristo fosse incompleto, apenas fiz a citação. É interessante notar, contudo, em conexão com 1Cor 3,14, que logo após, em 1Cor 3,14 há uma passagem que remete, na leitura católica, claramente à doutrina do purgatório. Vejamos o trecho completo:
"Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele.
Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo.
Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha,
a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um.
Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa.
Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo."
Segundo a doutrina dos galardões, deve-se interpretar esse trecho como referindo-se a um sofrimento que se deve passar, de alguma maneira, ainda em vida (pois no Céu não pode haver sofrimento), o que resulta numa tese curiosamente assemelhada à doutrina do karma.
Também fico muito satisfeito que tenhamos ficamos no padrão das ideias (e tenho certeza que, entre nós, não poderia ter sido diferente) e sem se preocupar se estamos ou não nos afastando do tema do tópico, já que nada nos impede de abordar apenas aspectos nos quais percebemos alguma relevância.
Entrando no tema, para esclarecer, mesmo não considerando que a infiltração de princípios humanistas tenha resultado na Reforma (seja por ela própria, ou por reação ao ambiente teológico de onde se originou), não nego que esses existissem, tanto na teologia, quanto naquele espaço mínguo entre a doutrina e o cotidiano.
O aparecimento da doutrina das indulgências, por exemplo, e o longo tempo em que foi sustentada (mesmo contra o testemunho não apenas das Escrituras, mas da Tradição), revela a importância dessa influência, ainda que no caso da reforma em Lutero o seu impacto tenha sido superficial.
Como contrária à graça, portanto, impossível de ser defendida.
Se, por um lado, a disseminação da via moderna em boa parte da Europa (seja em regiões que seguiram a Reforma, seja em regiões que permaneceram tradicionalistas) favoreceu o avanço das ideias reformistas em um primeiro momento (aliás de uma forma muito mais rápida do que se poderia compreender como uma difusão sensata de princípios), também é verdade que Lutero converteu-se em um freio feroz contra aqueles elementos e onde prevaleceu a ortodoxia luterana, sempre a via moderna foi deixando lugar para a reforma dentro da continuidade dogmática, conforme a tradição agostiniana defendida por Lutero.
Com Zwingli-Calvino não foi muito diferente.
Isso abordarei mais a frente.
Já Erasmo foi um caso emblemático.
Também não o considero ortodoxo, mas foi principalmente a sua limitação teológica que o levou a ter (apesar de sua enorme popularidade, até mesmo entre os luteranos) uma influência insignificante em um movimento de características essencialmente devotas e que recebeu críticas pesadas dos humanistas justamente por causa disso.
Também não o considero ortodoxo, mas foi principalmente a sua limitação teológica que o levou a ter (apesar de sua enorme popularidade, até mesmo entre os luteranos) uma influência insignificante em um movimento de características essencialmente devotas e que recebeu críticas pesadas dos humanistas justamente por causa disso.
Teria o secularismo religioso e, muito depois, o protestantismo liberal, duas paternidades "pais" (Lutero e os humanistas)?
Isso também abordarei mais a frente.
Não é à toa que o calvinismo, em particular, tenha proliferado em regiões que haviam sido de domínio cátaro no séc. XIII.
Realmente, há uma coincidência entre a área de difusão do catarismo no princípio do século XIII e as regiões sob maior influência do calvinismo no século XVI ao XVII.
Contudo, isso se dá apenas na França.
Algo semelhante ocorreu na Bósnia, por adesão ao islamismo, mas não atribuo o que ocorreu lá à persistência das concepções gnósticas dos bogomilos, mas pela lembrança coletiva dos camponeses contra a Igreja grega, e que os fizeram abraçar a religião dos turcos.
E não me parece que o islamismo dos otomanos tenha sido mais ou menos gnóstico do que o islamismo de outras áreas.
No caso da França, é mais cauteloso atribuir a área atingida pelo do calvinismo (a propósito, sempre mais forte entre os nobres do que entre os camponeses) a divergências nacionais e linguísticas (sul x norte) ou ao republicanismo. Simplesmente os albigenses sequer deixaram vestígios suficientes do que criam, ou mesmo de como chegaram as suas ideias (se pela Itália ou pela Espanha islâmica), para podermos afirmar uma linha doutrinária que os ligue aos calvinistas (que, aliás, vieram da Suíça).
Seria o mesmo que justificar a popularidade do espiritismo kardecista em certos países católicos da atualidade.
Além disso, não podemos desconsiderar a atuação incisiva dos dominicanos e da congregação das Mercês.
Em outras partes da Europa fortemente sujeitas ao catarismo (como no médio Reno, Flandres e o norte da Itália), também atingidas pelos modernistas e pré-reformistas, a Reforma teve uma adesão mais baixa.
No primeiro caso, parece que tenderam muito mais ao anabatismo (na época considerado inimigo mortal da Reforma), mas foi logo abandonado muito precocemente. No segundo, a permanência na fidelidade a Roma deveu muito aos Irmãos da Vida Comum, estes sim remanescentes do catarismo.
Não é à toa que foi no seio do protestantismo que surgiram o racionalismo teológico, a teologia radical, a "teologia da morte de Deus" e outras tais aberrações (inclusive a teologia "da libertação").
A estes eu incluiria também a neo-ortodoxia, o existencialismo e o pior de todos: o idealismo hegeliano.
Eu só não incluiria o racionalismo teológico, ao qual atribuo uma continuação não sequenciada da universalia in re dos escolásticos.
O problema é que avaliar que "do seio do protestantismo surgiram..." é um juízo falho, que não obedece à lógica de causa e consequencia.
E daí que surgiram o secularismo, a maçonaria, a alta crítica, os mórmons, as Testemunhas de Jeová????
Se é verdade que do protestantismo que se desenvolveram os maiores desafios à fé cristã da atualidade, também é verdade que surgiu o pietismo (como antítese ao racionalismo), o evangelicalismo (como antítese à alta crítica), e o pentecostalismo, que é o tronco mais crescente do cristianismo de hoje.
Além do mais, todas as aberrações teológicas surgidas no protestantismo mais cedo ou mais tarde penetraram com igual força no catolicismo. Pior que isso, em ambiente católico, tornaram-se ainda mais radicais e extremistas. A versão francesa do anglicanismo quase cismático viveu mergulhada no ocultismo, único pecado que Henrique VIII não se envolveu.
A maçonaria, que na Inglaterra nunca passou de uma sisuda guardiã da ordem, tornou-se algoz do cristianismo, como não se via desde a era pagã. Lavoisier, contemporâneo de Wesley, foi à guilhotina não por corrupção (como foi alegado), mas por crer em Deus.
Idem com Pombal. Idem na Áustria josefina, antes de qualquer revolução.
Na década de 1870, na Prússia protestante, Bismarck não conseguiu sujeitar o Consistório das igrejas à teologia liberal nascente, mas Rio Branco impôs os padres maçons no Brasil e condenou dois bispos pró-Concílio a trabalhos forçados.
Tudo o que surgiu dentro do protestantismo entrou no catolicismo com força muito maior.
acontecimentos infames que se encontram na raiz histórica do protestantismo. O saque de Roma (...). A tirania calvinista em Genebra. Os massacres promovidos por Gustavo Wasa, Cristiano II, Henrique VIII e seus sucessores
Eu e você sabemos que uma comparação entre catolicismo e protestantismo com base em "massacres" não resulta em nada.
Em primeiro lugar, porque ambos não são movidos pela liberdade de consciência (ainda que esta, em certos âmbitos, tenha sido usada em benefício da Reforma em sua fase inicial). Atrocidades e perseguições foram cometidas em ambos os lados, e sequer há números ou critérios razoáveis para uma comparação. E, além disso, também piedade em ambos os lados, para não assumir um juízo unilateral.
Em segundo lugar, porque a Reforma coincidiu com uma revolução religiosa extremamente violenta, particularmente na Alemanha, e cujos sinais já eram graves em 1511, quando Lutero ainda dizia "Roma Santa!". Era natural que esses revolucionários saudassem Lutero, já em 1517-1520 como o grande timoneiro, mas somos forçados a admitir, por justiça, que ele os expeliu como moscas imundas.
Carlstadt, um deles, aproveitou uma ausência de Lutero em Wittemberg para impor sua doutrina de inspiração espiritual superior às Escrituras. Foi escorraçado quando Lutero voltou, restabelecendo o latim e a Eucarista.
Teve o mesmo destino de Von Hütten, dos anomistas, de Münzer, dos místicos de Zwickau...
Católicos e luteranos tiveram, sim, seus confrontos sangrentos (mas não tão sistemáticos, como mostram os eventos de Marburg e de Maurício da Saxônia). Porém, a fonte da violência da revolução religiosa precede à Reforma e, ao menos ali, era historicamente inevitável. Causou, sim, dois séculos de estagnação à Alemanha, mas teria acontecido mesmo sem Lutero.
Em terceiro lugar, porque a forma como se expõe um rol de atrocidades e violências é uma forma de instar o raciocínio por indução, e isso geralmente é desaconselhado pela filosofia. Bons apologistas católicos evitam de cair nessa armadilha.
(Curiosamente, Henrique VIII concretiza a façanha de constar ao mesmo tempo entre os algozes dos protestantes e dos católicos. Já Cristiano II, com justiça chamado "cruel" - não sei se por seus inimigos católicos ou suecos - é fato que foi a versão dinamarquesa de Henrique VIII, tentou introduzir a Reforma, mas com tamanha convicção que, assim que foi deposto, juntou-se ao seu parente Carlos V na causa da restauração católica)
O saque de Roma, que faz a noite de S. Bartolomeu (realizada pelos príncipes, com apoio popular, e baseada na doutrina maquiavélica explicitamente condenada pela Igreja) parecer uma troca de afagos.
Só abro uma exceção para contestar essa comparação direta entre o saque de Roma e a noite de São Bartolomeu.
O primeiro foi o resultado trágico da revolta religiosa sobre o centro de um papado desacreditado em todo o continente. Nele, o fator protestante aparece muito vagamente. Já o segundo foi um massacre resultante do confronto entre forças políticas católica e protestantes na França. Em ambos, a tirania das multidões, prenunciando o século XX.
O saque nem de longe pode ser visto como um ataque "protestante" contra a sede do papado.
Para começar, o instigador da campanha (imperador), o comandante do cerco, a maioria das tropas (espanholas e de algumas cidades italianas rivais dos Médici), todos católicos. E ainda com o reforço do cardeal Colonna, inimigo de Clemente, que instigou os camponeses de seus feudos a saquearem ao máximo os tesouros de Roma, algo que a Cidade Eterna presenciou uma vinte vezes...
De luteranos, apenas os míseros soldados dos estados luteranos alemães (que na época, fora o Saxe e Hesse, eram apenas algumas cidades mercantis), convocados por Carlos V para essa espetacular vingança contra o reinado do Anticristo. E mais o senhor da guerra Fundsberg, um condottiere cujo maior protestantismo era achar que Lutero devia ser o papa.
Lutero não comemorou o saque, nem fez apologia das vexações grotescas impostas ao clero, não se sabe se por soldados luteranos ou radicais tiroleses. Fez um comentário irônico, mas não o enalteceu.
A sequência maquiavélica da noite de São Bartolomeu foi, sim, sob todos os aspectos, um extermínio de protestantes, como já tinha precedentes em Vassy e Amboise.
É claro que convém destacar que ultrapassou em muito o objetivo premeditado (ainda assim, uma traição só comparável às escaramuças dos emires muçulmanos - nem Carlos V sujou sua honra, quando poderia ter executado Lutero em Worms, como antes fez Sigismundo contra Hus).
Houve até a situação do duque de Guise (líder da Liga católica e participante dos atentados) ter que abrir seu castelo a protestantes que fugiam da multidão. A maioria dos historiadores, tanto católicos quanto protestantes, sente-se bem em atribuir a culpa de tudo ao rei, mas a verdade é que a Liga aproveitou para repetir o massacre em quase todas as províncias do reino, e onde os magistrados locais se recusaram, não houve multidão que os forçasse a serem assassinos.
A Igreja pode ter condenado as ideias de Maquiavel ou as inspirações ocultas de Catarina e dos Guise, mas o papa Gregório celebrou um Te Deum em comemoração ao fato (ou que sabia sobre o fato).
Lembremos também que a revolução francesa, que teve na Igreja Católica sua maior vítima, foi fomentada financeira, cultural e ideologicamente desde centros protestantes como a Prússia e os Países Baixos.
A Prússia e os Países Baixos (ao qual somaria também a Inglaterra) eram inimigos da França na diplomacia e na guerra.
Mas não acredito, considerando o espírito das Luzes que guiava suas cortes, que o motivo disso ainda fosse espezinhar a maior potência católica a fim de ampliar a influência do protestantismo. Nem em 1648 se pensava assim...
Um século antes de 1789 esses três países eram aliados da França, e se alarmariam com uma revolta pipocando bem no centro do reino que os defendia contra os Habsburgo. O máximo que entendiam sobre revolução eram as Frondas, e entendiam que uma revolta como aquela manteria ocupado o reino rival, enfraquecendo, por extensão, todos os países do Pacto de Família.
Uma série de fatores, internos e externos, levou a França a inverter alianças e preferir a aliança com a Áustria do que com os protestantes alemães, mas o fato de se formarem dois blocos, um majoritariamente católico (liderado pelos Bourbon) e outro majoritariamente protestante (tendo a frente a Inglaterra), é uma casualidade que nenhum historiador remete à herança da Reforma.
Aliás, Roma estava mais preocupada com os Pombais e os Leopoldos maçons do que defender a França da diplomacia protestante.
Ainda mais esse reino, que depois de São Luís jamais teve um soberano devoto!
As "indulgências" (...) não são impostos. A indulgência é o perdão concedido sobre as penas temporais, relativas aos pecados leves, veniais, válido somente para quem já está em estado de graça (e portanto, salvo, destinado ao Céu), obtido por meio de certas práticas piedosas.
As indulgências não são impostos. Eu não falei que eram impostos.
Também não falei compravam a salvação (como tem papagaio protestante que diz, repetindo professor universtário marxista).
O que Lutero (e mais tarde todo o protestantismo) contesta é como as obras piedosas de um indivíduo podem aliviar a pena venal de um outro (devidamente justificado, presumo que pela fé). Mais que isso, como que o magistério da Igreja pode apropriar-se das obras piedosas de centenas ou milhares de santos, ao longo dos séculos, para perdoar o que não é parte ofendida?
Essa é a essência da tese 6: o papa não pode remir nenhuma culpa, mas apenas declarar a sua remissão por Deus.
O que Lutero liga ao arrependimento (conforme a razão, ou as Escrituras), não pode o papa ligar a um ato qualquer de piedade, por maior mérito que tenha (o ato, não o papa).
"Venda de indulgências" foi um acidente da história. Provavelmente ocorreu somente naqueles anos e naquela região. Erasmo teria adorado! Mas o papa talvez nem tivesse conhecimento de fossem vendidas ou algo semelhante. Disso, quem sabe ele nem tenha culpa...
O problema não estava na venda de indulgências, mas no próprio conceito de indulgência. Sabemos que ele surgiu em torno do ano 1400, na Universidade de Paris. Muito mais tarde é que ingressou dentro da praxis papal (não posso afirmar sobre sua justificação doutrinária), causando todo esse problema teológico com os dominicanos. E, convenhamos, se não fosse o Oratório, essa anomalia poderia ter se tornado muito pior.
E outra questão é que as indulgências permaneceram ainda muito tempo do catolicismo, séculos depois de Paris deixar de ser um centro referencial em teologia católica. Uma vez li um livro "nihil obstat" da década de 40 que oferecia indulgência a todo aquele que o lesse.
Sua afirmação sobre Leão X: desafio-o a encontrar a referência dessa declaração. É curioso, pois ela consta de uma infinidade de sites protestantes e ateus, mas nem um só é capaz de mostrar a sua procedência. Não pode, evidentemente, porque é inteiramente espúria. Leão X jamais falou em "fábula de Cristo".
A fonte está em "VATICANO, potência mundial". Joseph Bernhardt. Editado originalmente em Munique (Alemanha), e no Brasil pelos Irmãos Pongetti, RJ, 1942, com tradução de Carlos Domingues. Textualmente, fala de Leão X como "a quem se atribui a frase", e a transcreve em seguida ("Todos sabem o quanto a fábula do Cristo nos tem servido, a nós e aos nossos"). Nem faço ideia de em que contexto isso foi falado.
Não é autor ateu e muito menos protestante (aliás, faz referências negativíssimas a respeito de Lutero). É um livro bom em alguns aspectos, que revela intimidade com a organização interna da hierarquia. Possivelmente seja um livro secular, de autor católico.
Eis a fonte.
Mas, APESAR DISSO, eu mesmo não ponho a mão no fogo por esta declaração.
Primeiro, porque me parece excessivamente "moderna". Tem barba, cabelo e bigode de referência espúria. Se Leão X ou qualquer outro tenha se referido a Cristo como um mito, jamais o teria feito nesses termos.
Segundo, porque não é uma fonte primária. Em muitos debates, se pede fonte e sempre aparece um boca-berta trazendo algum livro aberto e na página como a "prova". Quando fecha a capa, a gente lê, em letras esquisitas: Roselis Van Saas!
Fonte só é útil quando se trabalha com uma pesquisa concreta, em que se pode ter acesso a fontes primárias. Se alguma espírita imbecil escreveu uma bobagem no século XIX sobre Teodora ou São Luís, a fonte dele não tem valor algum.
E terceiro porque, em um contexto em que o papa está rodeado de cardeais ou embaixadores uma declaração nesse tom teria provocado um terremoto tão grande quanto Lutero e dois Savonarolas. Houve alguns papas e anti-papas blasfemos em alguns momentos obscuros, mas no século XVI os papas podiam ser até ser devassos ou festivos, mas tinham fé sincera.
Como a infalibilidade só vale ex-cathedra, que falem o que quiserem.
Me junto a você, considerando (por via das dúvidas) essa declaração como espúria.
eu sei que houve tentativas, da parte dos líderes protestantes, de buscar a consolidação de algo como uma "ortodoxia", como se viu na confissão de Augsburgo e em outros "concílios". Podemos, é verdade, tomar alguns desses pontos como o mínimo para definir-se uma confissão "protestante". Seria, contudo, pouco mais do que um expediente lingüístico. Pois muitos outros grupos, alguns dos quais recusam o título de "protestantes" (como os batistas), e outros que são em geral rejeitados pelos representantes das denominações que mantêm uma certa comunhão com os grupos tradicionais, são certamente filhos da Reforma.
É, houve. A confissão de Augsburgo (embora, no caso, sem dificuldades, pois ainda era o líder inconteste da Reforma), as confissões Helvetica, Belga, Cânones de Dort, Heildelberg, de Westminter, etc., foram sempre buscar por uma ordem doutrinária diante de elementos internos ou externos que podiam desviar a Reforma de seus pressupostos teológicos originais.
Como me referi anteriormente, não faltavam ameaças a esse fim, vindas de Devotio Moderna, ou daqueles que paralelamente deram origem aos anabatistas e aos schwenkfelderianos.
Da mesma forma que as Declarações dogmáticas papais, essas confissões não tinham por objetivo definir o que é fé protestante, e sim o que é fé verdadeira. Os princípios que são definidos como essenciais àqueles chamados protestantes se determinam, não por documento, e sim por convenção, no princípio como elementos comuns ao luteranismo e ao zwinglio-calvinismo (o que inclui três ramos praticamente iguais: reformados, presbiterianos e congregacionais independentes) e depois àquelas vertentes (que hoje chamam, pomposamente, "denominações", com ênfase no "ções") que concordaram com aqueles primeiros.
Da mesma forma que as Declarações dogmáticas papais, essas confissões não tinham por objetivo definir o que é fé protestante, e sim o que é fé verdadeira. Os princípios que são definidos como essenciais àqueles chamados protestantes se determinam, não por documento, e sim por convenção, no princípio como elementos comuns ao luteranismo e ao zwinglio-calvinismo (o que inclui três ramos praticamente iguais: reformados, presbiterianos e congregacionais independentes) e depois àquelas vertentes (que hoje chamam, pomposamente, "denominações", com ênfase no "cões") que concordaram com aqueles primeiros.
Seria muito longo ver, caso a caso, mas o fato é que essa definição convencional do que é protestante existe mesmo sem uma confissão única.
Por exemplo, se um presbiteriano batizado na infância por aspersão ingressa na Assembleia de Deus, que batiza adultos por imersão, ele não precisa ser novamente batizado, ao passo que o ex-católico ou o ex-adventista precisam.
Ademais, os teólogos racionalistas e radicais, os que cindiram a pessoa de Cristo em um "Jesus histórico" e um "Jesus da fé", os que pregam abertamente um "evangelho social", não somente surgiram no meio protestante, como se consideram com frequência luminares da teologia protestante (vide, digamos, um Dietrich Bonhoeffer) e não raro mantiveram funções de ministros de confissões tradicionais.
O que ocorre dentro da teologia evangélica é similar ao que ocorre na mídia e nas universidades, onde uma imensa maioria popular é obrigada e ser representada por uma minoria intelectual afecta ao liberalismo a ponto de minimizar e expelir toda e qualquer oposição conservadora.
Bonhoeffer pode ser idealizado (afinal foi executado sob o nazismo, enquanto a maioria dos pastores e teólogos, mesmo liberais, estava com Hitler), por mais que sua compreensão da teologia seja tola, ao passo que a adesão dos luteranos alemães, após 1945, ao regime comunista jamais tenha gerado um só pedido de desculpas depois de 1990.
Em 1972, o sínodo das igrejas reformadas francesas elegeu a Alemanha oriental como modelo de sociedade.
E o que ocorre na igreja evangélica brasileira é patético.
São 24 milhões de protestantes no Brasil (quase a mesma população de uma Austrália), dos quais 95% situam-se dentro do que é definido internacionalmente como "evangelical" (em comparação com pouco menos da metade nos Estados Unidos), infiltrando-se até em denominações como os luteranos, prebiterianos e metodistas, que formam a base do protestantismo liberal (mas hoje só de cúpula).
Apenas a Assembléia de Deus tem mais aderentes do que todas as igrejas estatais protestantes da Europa, ou seja, as seculares igrejas da Grã-Bretanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia e Noruega.
Contudo, apesar dessa expressão numérica superlativa, e de milhares de igrejas, e milhões de pastores, obeiros ou diáconos atuando sempre mais que um dia por semana (parece que aqui finalmente concretizou-se o sonho do sacerdócio universal de Lutero!), não existe sequer uma expressão intelectual do conservadorismo evangélico no Brasil, seja na teologia, seja em outras áreas do conhecimento.
Em todos os seminários superiores de teologia evangélica predomina a escola liberal.
É uma grande distorção, embora não surpreenda a quem conhece o pensamento de Olavo de Carvalho.
E é isso que fazem subsistir e ter popularidade alguns teólogos evangélicos calhordas, do tipo Rubem Alves ou Paul Freston.
As vezes dou risada quando vejo alguém reclamar (até com uma certa razão) da falta de formação teológica dos pastores, querendo que eles façam seminários avançados...
Pelo amor de Deus, é muito melhor que fiquem apenas com aqueles cursinhos de seis meses, por correspondência, do que cair nas garras da teologia liberal! Se querem algo "avançado", melhor que ingressem em uma faculdade católico. Poderá ser um católico a mais, mas é um pastor-mala a menos.
E tem muita igreja conservadora que cai no "golpe".
Querem parecer "avançados" diante dos escrotos da IPB e IMB, passam gel no cabelo e cavanhaque, e só aceitam pastores formados, "com opinião" ou protestantes "de berço".
Estão tomando leite de magnésia pensando que é de vaca...
As vezes aparece na igreja alguém pedindo oferta em favor dos estudantes ("os futuros missionários") que estão concluindo o seminário avançado.
Que vão vender bala de goma na esquina! Prefiro que gastem com o conserto do teto, tapete novo, sei lá, do que sustentar essas cretinices! Depois se formam para logo em seguida trocar por uma igreja que tenha ar condicionado, se tornam pastores chatos, que passam a semana inteira amoldando a bunda na cadeira e o domingo torrando a nossa paciência...
Pastor formado em seminário não sai aprendendo nada. Volta apenas com empáfia!
Mas o fato é que Malafaia, Soares e outros têm o seu espaço e fazem sua mensagem chegar com eficiência aos lares brasileiros. (...) Em outros contextos, são consideradas como minorias religiosas e as opiniões dos seus membros são sempre levadas em conta e reportadas quando se trata de opor-se às posições da Igreja. O vice-versa não existe.
Estou meio cansado e exausto.
Tomei um café, mas não adiantou.
Dá para explicar de novo?
Aliás, que o espaço conquistado pelas igrejas protestantes (por exemplo, na música), foi algo "de baixo para cima" é um tanto controverso. Pois há um grande investimento desde fora do país (nem falemos já de um "empurrãozinho" da maçonaria) para a consolidação de muitas dessas igrejas, e para a difusão do protestantismo em geral.
Opa! Estou sentindo cheiro de teoria da conspiração?
A maçonaria deu um empurrão para as igrejas insitucionais lá pelos idos de 1900. Onde tem dedo da maçonaria o resultado é negação da divindade de Cristo, seja isso por meio de igrejas protestantes (as "históricas"), unitaristas, na Católica (veja bem, idos de 1900) ou do espiritismo.
Aliás, o espiritismo é o ideal para a maçonaria, sem dúvida, e na falta deste um cristianismo disfarçado.
Mas foi só os pastores nacionais bateram firme na divindade de Cristo (fundamento basiquinho, essencial), o empurrão já veio em outra figura. Os independentes e os pentecostais já não tiveram assento nos comícios pela livre consciência. Os "portadores da civilização e do progresso" já começavam a ser chamados de "fanáticos, radicais".
Até hoje, quais pastores já foram entrevistados na Globo? Só Caio Fábio e Ricardo Gondim. Precisa dizer mais alguma coisa?
Uma eleição legítima de um papa não pode ser impugnada, e o próprio caso de Urbano VI é uma evidência disso. Não é à toa que o cisma do Ocidente levou a condenar a posição conciliarista, que atribui a um concílio a autoridade de depor um papa. O que houve em alguns casos foi uma indecisão temporária na avaliação das circunstâncias em que se elevava alguém ao posto de bispo de Roma. Mas só se pode declarar nulo o resultado de um conclave se se verifica o não atendimento de normas canônicas já estabelecidas. Nunca um conclave legítimo elegeu um antipapa.
O problema é que a decisão sobre um conclave ser legítimo ou não depende muito mais de circunstâncias que são definidas posteriormente, por papas que buscam a sua própria legitimação ou de antecessores ao, e não como uma regra prévia.
Até hoje as normas dos conclaves mudaram mais de 50 vezes, e até o início do século passado os soberanos das 3 potências católicas tinham direito de veto sobre a eleição.
Por exemplo, eram os mesmos os cardeais dos conclaves que elegeram, sucessivamente, Urbano VI e seu rival Clemente VII. Como os caminhos da história fizeram com que a linhagem romana fosse reconhecida como legítima, Urbano, seu conclave e seus sucessores são legitimados; se tivesse sido reconhecida a linhagem francesa, o mesmo seria com Roberto de Genebra, seu conclave e seus sucessores.
O próprio termo "antipapa" engloba circunstâncias muito distintas.
Houve Santo Hipólito, que se fez, de fato, antipapa, mas reconciliou-se com o legítimo Papa e morreu mártir. Há uma confusão histórica entre Felix II (antipapa) com São Félix.
Realmente há essa confusão histórica com Felix II e até o livro oficial de mártires romanos o colocou como um dos santos, embora sequer tenha sido mártir.
No caso de Hipólito, o problema não é que tenha sido canonizado, mas que seu próprio rival, Calixto, também conste no rol dos santos (com a benção de uma legitimação papal), quando o motivo da dupla eleição contra Hipólito não era de natureza administrativa, mas (segundo Hipólito e Tertuliano) questões doutrinárias, advindas de crenças heréticas que este até então professava por conta de seu antecessor (também papa e santo) Zeferino.
Claro que no final, ambos, Hipólito e Calixto, se reconciliaram (parece que até cumpriram pena juntos), mas a legitimidade que coloca um como legítimo e outro como ilegítimo soa um tanto artificial.
Contudo, reconheço que qualquer "solução" para essa divergência criaria outros problemas ainda mais complexos. As doutrinas da sucessão apostólica e da autoridade superior de Roma nem sempre se enquadram na lógica e dificilmente são explicadas sem que se separe totalmente a teologia do ministério.
Bom... aí teremos que absolver integralmente o protestantismo dos Tillich, Bultmann, Harnack....