Um tal de Leonardo Sakamoto , blogueiro petista
“Eles
que Venham. Por Aqui Não Passarão” é o título de uma nota divulgada
ontem, por 98 militares da reserva, criticando a Comissão da Verdade –
criada para esclarecer quem foram os responsáveis por mortes, torturas e
desaparecimentos na ditadura, mas sem poder de punição. Eles reafirmam
outro manifesto que havia sido divulgado anteriormente, em que
reconhecem que a comissão é um “ato inconsequente de revanchismo
explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável,
do atual governo”.
Minha crítica à Comissão da Verdade é exatamente o contrário: ela foi aprovada em versão light, sem a força que deveria ter.
Pouco
me importa o que pensam os verde-oliva da reserva. Eles podem reclamar
até se engasgar com o chá da tarde no Clube Militar. A meu ver,
demonstrações de afeto a um período autoritário são peça de museu,
pertencentes a um tempo que, se não fizermos nenhuma besteira, nunca
mais vai se repetir. Vivemos em uma democracia e, por isso, e só por
isso, qualquer um (inclusive eles) podem se manifestar à vontade. O
problema são as consequências da permanência de uma forma de pensar na
sociedade, que é passada sem questionamento para as gerações mais
jovens, tornando a dignidade humana algo relativo e flexível.
Para
isso, gostaria de tomar a liberdade e reproduzir um texto que já postei
aqui há um bom tempo – atualizado, é claro, com informações novas:
Não
conheço pessoa que, tendo amado intensamente ou vivido uma dor muito
forte, não pensou, pelo uma vez, na possibilidade de ter suas memórias
arrancadas fora em um passe de mágicas. Considerando que deve levar um
tempinho ainda até que desenvolvam um aparelho como o do filme “Brilho
Eterno de uma Mente sem Lembranças”, perguntei a uma médica-amiga se já
haviam inventado remédio para acentuar o esquecimento. E, em caso
positivo, se ela poderia me deixar receitadas uma ou duas caixas – nada
demais, apenas para as intempéries do dia-a-dia. Ora, por que não?
Inventam pílulas para tudo, de ereção prolongada até suadouro nas mãos!
Com um sorriso, ela me lembrou que tal remédio já existe e é consumido
pela humanidade desde que o primeiro hominídio percebeu que comida
fermentada dá barato.
É claro que todos os percalços fazem parte
da caminhada de cada um e da grande marcha de uma sociedade e que,
portanto, são importantes no processo de aprendizado. Mas e quando a
lição já foi entendida e a lembrança, não resolvida, continua a martelar
nosso cotidiano?
Dia desses, trouxe aqui a história de Maria
Francisca Cruz, uma “quase” viúva. Seu marido foi trabalhar na Amazônia,
deixando para trás sete filhos e o silêncio. Enveredou-se por outro
colo? Está preso? Tem medo de voltar? Falam que morreu tentando fugir de
uma fazenda… Quem sabe? Dor maior não é saber que acabou. É não ter
certeza disso.
Acordar de manhã sem alguns pressupostos básicos é
angustiante. Imagine, então, aguardar o retorno de alguém que nunca
aparece. Conheço gente cujos pais foram sumidos pela Gloriosa dos
Verde-Oliva. A família parou no tempo, porta-retratos não saem do mesmo
lugar em que estavam desde quando ainda éramos 90 milhões em ação. Até a
poeira do relógio de pulso aguardando o dono é a mesma, sofrendo em
silêncio.
O governo brasileiro resolveu não mais tentar buscar a
revisão da Lei da Anistia. Mais do que punir torturadores, seria uma
ótima forma de colocar pontos-finais em muitas das histórias em aberto e
fazer com que pessoas tivessem, pela primeira vez em décadas, uma noite
de sono inteira. A Presidência da República resolveu investir suas
fichas na Comissão da Verdade, criada pelo Congresso Nacional. Até
agora, o governo insiste em manter trancados a sete chaves documentos
considerados ultrassecretos, além de inventar desculpa atrás de desculpa
para não vomitar todos os arquivos da ditadura. Garantindo que
representantes daquele tempo, como o Coronel Brilhante Ustra, possam
continuar reinventando a história como quiserem, uma vez que a prova dos
nove está encaixotada em algum lugar.
(Carlos Alberto Brilhante
Ustra foi acusado pela família do jornalista Luiz Eduardo Merlino,
torturado e assassinado no Doi-Codi, em São Paulo, em 1971. Pede-se o
reconhecimento público da responsabilidade do coronel pela morte de
Merlino. Ustra era comandante do Doi-Codi e diversas testemunhas – entre
elas o ex-ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da
Presidência da República, Paulo Vannuchi, preso no local na mesma época –
afirmam ter visto Merlino em estado gravíssimo após sessões de
tortura.)
Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o
passado não resolvido permanece nos assombrando. E incomodando através
de um olhar perdido da mãe de um amigo que, da janela, permanece a
esperar.
Isso tudo com a ajuda de colegas jornalistas que
esqueceram que a função primeira da profissão não é ajudar restolhos da
ditadura sob a justificativa de garantir essa estabilidade, mas trazer à
tona o que está submerso. Repetem ad nauseam: “Não é hora de mexer
nesse assunto”.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos
concluiu que o Brasil é responsável pelo desaparecimento de 62 pessoas
entre os anos de 1972 e 1974, durante a Guerrilha do Araguaia. Disse que
a Lei da Anistia impede o acesso à verdade dos fatos e pediu que ela
fosse revista. Nesse caso, o Supremo Tribunal Federal, que vem sendo
sensível em decisões sobre a dignidade humana, deu de ombros.
Uma
pesquisa do Datafolha em 2010 apontou que 45% da população era
contrária à punição de agentes que torturaram presos políticos durante a
ditadura militar contra 40% a favor. Agarro-me desesperadamente à
esperança de que o pessoal não entendeu exatamente do que se tratava.
Em
enquete realizada este ano por este humilde blog, o resultado foi o
contrário, com a grande maioria apoiando a punição contra quem torturou
durante a Gloriosa. Orgulho dos meus leitores que, contudo, não
representam a posição do restante da sociedade.
O impacto de não
resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia-a-dia dos distritos
policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes
cidades, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando parte da
população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase
sempre mais rica). A ponto de ser banalizada em filmes como Tropa de
Elite, em que parte de nós torceu para os mocinhos que usavam o mesmo
tipo de método dos bandidos no afã de arrancar a “verdade”.